Nota antrodutória
Desta beç, eiqui teneis un eicelente testo subre dues zlocaçones que, mui çtanciadas ne l tiempo, l sou outor fizo a Angueira. Tengo, assi, q’agradecer al prezado amigo José Quina tener-me cedido alguns retratos i outorizado a publicá-los, juntamente cul sou texto, eiqui, ne l miu blogue.
Cumo podereis cumprobar, bale mesmo la pena i sabe tan bien ler este i outros testos de quien scribe cun tanta fluéncia i ancumparable eilegáncia. Custa a crer cumo, cultibando la palabra i cuidando l sou stilo, outeliza un bocabulairo tan rico i bariado. Rigoroso na narraçon, na cacterizaçon i descriçon de las pessonas – si, pus ye de pessonas que se trata –, retrata-las tan bien que quaije parece que stamos a bé-las mesmo a la nuossa frente, a cumbersar i a cumbibir cun nós.
Pa lhá de mos amostrar cumo dantes éran la bida i l trabalho i algũas de las oucupaçones de ls homes i de las ties, de ls moços i de las moças de l cunceilho de Bumioso, de la Tierra de Miranda ou desta squina de l Nordeste Stramuntano, cuonta-mos dues zlocaçones que, anterbaladas ũa de la outra por cerca de 50 anhos, fizo a Angueira: ũa deilhas, an 1968, a mando de sue mai, para ancomendar a tiu Agusto Albardeiro que le fazisse ũas molidas pa las béstias podéren cumpletar l acarreio de l cereal, trigo i centeno, pa las eiras; i outra, bien mais recente, cun sou bezino na Bila, mas que, sendo natural d’Angueira, le cumbidou para íren ambos a dous a Angueira a ber s’inda starie an casa de sous pais un tear antigo i pa l ceder a José Quina pa l acrecentar a la coleçon de l sou museu.
Se, an 50 anhos, muita cousa demuda, claro stá tamien q’algũas cousas se manténen. I se, antre las dues zlocaçones a Angueira, de la maior parte de las pessonas cun quien falou na purmeira ida a Angueira – l tiu Agusto Albardeiro, l senhor Correia, l senhor Artúrio i la tie Marie Caldeira, la mai de la porsora Meréncia, yá solo se puoden ber las campas adonde çcánsan ne l cemitério –, tamien ye berdade que, assi i todo, na segunda beç, José Quina puodo inda alhá ancuntrar un sou antigo cundiscípulo ne l seminairo, l porsor ounibersitairo Beriato Stebes, Sabel Bilber, flha de la tie Justina Albardeira i de l tiu Zé Canhotico i nieta de l tiu Agusto Albardeiro, i fizo la biaige cun Amílcar Rodrigues, armano de la porsora Meréncia i ambos a dous sobrinos de l soudoso Luís Caldeira, tamien el seminarista ne l mesmos seminairos adonde andou José Quina.
Cumbido aton ls mius amigos i amigas a ler este i outros testos de l çtinto amigo i eicelente pessona, José Quina. Pa lhá de saber ls nomes de todas las pieças i cuidar de ls strumentos i outensílios ousados na agricultura i na profisson de carpinteiro i an bida de sous pais, doutros fameliares i de la giente d’antigamente de la Bila i de l cunceilho de Bumioso, cuida de ls testos tan bien cumo coleciona, amanha i trata daqueilhes strumentos antigos nel sou museu. Assi, cul sou cuidado i l rigoroso trabalho de recuperaçon i las sues zlocaçones de quinze an quinze dies a Bumioso, José Quina nada deixa stragar nien se perder.
Cumo podereis tamien ber, l amigo José Quina scribe cunsante la antiga ourtografie. I, se scribe mui bien an Pertués, nun cuideis pori que nun sabe falar Mirandés.
(APT) Braga, 1 de dezembre de 2023
José Quina:
DE VIMIOSO A ANGUEIRA
O presente episódio que, visto à luz da realidade da data em que é redigido (2019), já soa a feito odisseico, ocorreu pelo ano da graça de 1968, durante as férias lectivas estivais que coincidiam com finais dos meses de Julho, Agosto e primeira quinzena de Setembro.
Na nossa casa familiar, não obstante a condição de artesão profissional a tempo inteiro do chefe de família, de grata memória, sempre coexistiu a actividade agrícola em proporções de igualdade com a maioria dos agricultores da localidade. O meu avô Luís Filipe de Quina, décimo filho na ordem de nascimento numa família numerosa de doze filhos, com entronque muito próximo na estirpe do solar brasonado em Argozelo, lavrador, logrou a façanha de dotar cada um dos quatro filhos de uma profissão liberal: de barbeiro, tecedeira costureira, carpinteiro e alfaiate. Tendo o primogénito emigrado para terras gálicas logo no período após guerra e a segunda herdeira falecido no limiar da idade adulta sem que tivesse constituído família, parte significativa dos prédios rústicos, das courelas produtivas (porém não das mais apetecidas) terminaram por integrar, quer por legado directo hereditário, quer por adquirição adventícia, o quinhão do filho José, carpinteiro.
Não obstante, por opção, o primado da faina da madeira se tenha sobreposto à da lavoura, a verdade é que o cultivo da terra, a sementeira do trigo e centeio, da batata, das hortaliças e leguminosas, a cultura da vinha, do souto de castanheiros, do olival… sempre coexistiram com a primeira ocupação.
A grande timoneira desta segunda profissão era a guerreira mãe do lar, mirandesa de gema, escrinheira, coadjuvada pela numerosa prole na medida em que as lides telúricas e caseiras eram compatíveis com a idade e com a frequência escolar. Todos, sem excepção, sob a sua égide e com a supervisão criteriosa do progenitor, experimentámos o benfazejo sol primaveril, as delícias e mimos gratificantes das colheitas, mas também os rigores de calor estival e da intempérie invernal. A nossa mãe era, como referido, mirandesa, natural da aldeia de Vilar Seco, descendente pelo lado materno da estirpe Antão, de São Pedro da Silva, progénie também conhecida pelos “Curralos”, parentela de referência no mister da carpintaria, sendo a sua especificidade mais destacada a construção de carros rurais. Consta que a exigência do mestre Curralo (José Francisco Antão) chegava ao ponto de testar a precisão das furações de encaixe nas diferentes peças do rodado, cambas, meões, relhas, eixo… com água, para certificar-se da sua justeza e perfeição. Pela vertente paterna a tia Regina descendia da linhagem Raposo, sendo esse outrossim o seu próprio apelido, na qual o vulto de mais referência era o afamado Abade de Caçarelhos Raposo, tio do nosso avô, José do Espírito Santo Raposo.
Mesmo com o êxodo dos descendentes, quer pelo rumo da emigração para o exterior ou pela via do prosseguimento de estudos, o abandono da azáfama agrícola não foi pacífico. Quando após o precoce falecimento do pai de família progenitor antes de completar sessenta anos, decorria o ano de 1968, a líder, de férrea têmpera, com a ajuda dos descendentes mais jovens, continuou cultivando as hortas, a vinha, os terrenos mais produtivos, de maior proximidade e menos exigentes em termos de dispêndio de esforços no amanho.
Foi assim que nas férias de verão, no ano já supramencionado, na companhia do irmão imediato mais novo, nos tocou fazer o acarrejo de uma porção de molhos de cereal de uma propriedade localizada no lugar designado por Xito, na toponímia local campesina. A propriedade era enorme, incluindo terra e duas cortinhas cercadas, até dotadas de cerejeiras que de forma quase isenta de cuidados e praticamente silvestre produziam boa cereja. A cortinha conformando a parte de nível inferior da olga, comummente designada por baixa (substantivo), era efectivamente a de mais fácil granjeio e potenciava mesmo a produção de batata de secadal. Porém situava-se na parte inferior da ladeira e não tinha comunicação de caminho. À semelhança de muitas outras congéneres, num sistema de fraccionamento da propriedade no qual impera o minifúndio, o ingresso, o transporte e escoamento dos produtos é feito pela via de serventia através de propriedades contíguas de outros donos, até à via pública mais próxima ou sobretudo de mais facilitada aproximação e acesso.
Carregámos o carro com a quantidade de molhos que o nosso cálculo empírico nos aconselhou como compatível com a capacidade de tiro da parelha. Quais briosos e prolíficos agricultores pusemos todo o empenho na empreitada e foi mesmo com algum sentido de juvenil emancipação que seguimos todos os procederes para levar a bom termo e de maneira bem sucedida a tarefa que a mãe nos incumbiu. O engenho rodou. O friccionar da madeira do eixo no leito dos cocelhões cravados à aceda pelo encaixe das endreiteiras, rangeu e emitiu mesmo a inconfundível chiadeira própria da faina da acarreja. Tudo parecia obrar em normalidade, até entrar no limiar da íngreme encosta. Se bem que a trajectória seguida já era usual e configurava bem o desladeiro, a verdade é que as pobres bestas não conseguiam tirar a carga. Um incentivo mais brando, uma admoestação mais imperativa, um intento de ajudar mesmo os animais empurrando para a frente as duas extremidades do jugo… de nada serviam. Após algumas tentativas infrutíferas, decidimos deixar descansar os animais, enquanto nos dirigimos a uma nascente num olhagueiro que na proximidade possuía uma fonte de afloramento superficial de água. De regresso repetimos a rotina anterior, mas a récua não respondia ao pretendido e não podia com a carga. Em época de actividade plena contávamos com duas briosas e bem apetrechadas juntas, de muares e asininos; com a sua restrição a primeira parelha juntamente com os respectivos arreios e apetrechos, incluindo o carro, transitaram por venda para uma família vizinha que já em anos transactos havia adquirido um primeiro carro da nossa casa e respectivo equipamento.
Toda a vez que na propriedade ainda ficara excedente de cereal, optámos por aliviar a carga, descarregando alguns molhos. Feito o intento de prosseguir com a carga aligeirada, mas as pobres bestas ainda assim não punham o engenho em movimento. Não tínhamos explicação assertiva, contudo decidimos dividir a carga a meio, no sentido de, até ao cimo da ladeira fazer dois fretes em vez de um, deixando a primeira porção de molhos na praina e vir de seguida a buscar os restantes. Feita nova tentativa de prosseguir, incentivando os animais, porém estes, após o primeiro intento de impelida, primeiro um e logo o outro, recuavam à postura imediata anterior de lassidão e estancamento.

Parelha a puxar o carro de burros carregado de molhos de centeio na acarreja para a eira. Para além desta, havia pelo menos mais outra forma de carregar ou dispor os molhos no carro. Foto cedida pelo autor do texto.
Dados por vencidos, rendidos ao insucesso da empreitada, decidimos largar a faina, regressar a casa a cavalo dos jumentos, na certeza de que se encontraria a melhor, a mais atinada e eficaz solução. E foi com espírito de dominados, com a autoestima em baixa, que regressámos a casa. A nossa mãe já impacientava, esperando-nos com o almoço pronto. Não necessitámos de grandes narrativas e recobrámos alguma moral quando confidenciou que, já com a refeição preparada, com impaciência vinha à varanda e se assomava para o caminho pelo qual nos veria chegar às eiras e, aliviou quando nos descortinou cada um montado sobre o seu animal. Experiente, ela tinha mais justificação do que nós para o nosso insucesso na tarefa daquele dia e também ficámos mais reconfortados ao ouvi-la exclamar: “eu já imaginava que as molidas não aguentavam fazer toda a acarreja”. E logo de seguida, com a clarividência e pragmatismo tão assertivo que lhe era tão peculiar, delineou programaticamente o recurso a seguir. A primeira incumbência era para mim: “amanhã vais a Angueira. Metes-te na carreira, logo cedo, até Caçarelhos; aí pedes a algum dos parentes que te empreste uma jumenta; procuras o albardeiro e que te faça um par de molidas no menor tempo possível… e não lhe discutes o preço. Levas já dinheiro, para o caso de te pedir algum pago adiantado”. O programa era inequívoco, claro, conciso e ordem da nossa mãe não admitia discussões! Mulher de uma clarividência e bondade impressionantes, aceitava com facilidade uma sugestão que fosse positivamente divergente da sua; dificilmente concordava com uma objecção negativa que contrariasse o seu raciocínio do qual emanasse uma ordem.
Bem me recordo de chegar à aldeia de Caçarelhos ainda cedo, de abandonar o autocarro que regularmente fazia recorrido entre Vimioso e terras de Miranda. A escassos passos do lugar onde larguei o meio de transporte um rancho de pessoas junto a uma trilhadora preparava-se para iniciar a azáfama da malhada. O começo da faina não demoraria: efectivamente sobre o estrado elevado da máquina onde é feita a admissão do cereal já se encontrava a dupla a cargo de tal tarefa: o introdutor e uma segunda pessoa que lhe aconchegava de maneira determinada e conveniente os molhos, ao mesmo tempo que os desatava, geralmente com a intervenção de uma faca com a qual procedia ao corte da grinheira. A introdução das cerealíferas (trigo, centeio, cevada) à engrenagem trilhadora e debulhadora do engenho não era feita aleatória nem opcionalmente por qualquer dos intervenientes na safra, que, seguindo um procedimento de interajuda mútua e recíproca ou torna-jeira, iam conformando equipa em benefício de cada colheiteiro. A tarefa de meter o pão à máquina envolvia particular responsabilidade, exigência e estoicismo no seu desempenho, razão pela qual era desempenhada pelo proprietário ou encarregado da debulhadora e/ou ainda por obreiro contratado para o efeito; a malhadeira não funcionava e por conseguinte não ganhava maquia se esta tarefa não fosse executada. Como resulta óbvio, a produtividade última da faina muito tinha que ver, numa relação proporcionalmente directa, com a eficaz e regular execução desta. A laboração da máquina por intervenção da força gerada pelo motor de combustão do tractor, mediante toma de força PTO (Power Take Off), transmitida por correia em cinta desde a polia do motor para a da malhadeira, não requeria atenção permanente uma vez posta em funcionamento e regulada a aceleração de débito; por tal razão o maquinista era simultaneamente o encarregado, em forma exclusiva ou compartida, da introdução do cereal. Enclausurado até à cintura num individual cubículo, rebaixado com relação ao nível da plataforma de madeira para qual os molhos eram arremessados, tendo à sua frente a embocadura de alimentação, passava longas horas numa rotina exaustivamente repetitiva: pegar nos molhos desatados, à sua direita ou esquerda, lançá-los de espigas para a frente na garganta do cilindro triturador, facilitando com movimento oscilatório das mãos e braços a sua ingestão… numa atmosfera escaldante, com o refluxo de poeiras, de moinha, onerada da pressão sonora de todo o mecanismo, mormente das navalhas de trituração, operando posicionadas a escassa distância.
Participei activamente em muitas malhas quer antes, quer durante a minha vida estudantil primária, média, secundária e superior, executando a quase totalidade das tarefas intervenientes: retirar e acomodar a palha, içar molhos para o estrado da plataforma de abastecimento, pesagem e ensacamento do grão, desatar e acondicionar os molhos ao alimentador, tarefa que requeria alguma destreza e risco, recolha do cereal à casa do produtor… com exclusão da admissão do cereal à máquina.
Entre a equipa que estava prestes a iniciar a labuta vislumbro de seguida a prima Marilis, que entronada no alto da trilhadeira iria desempenhar a árdua função de desamarrar e aproximar os molhos ao maquinista. Sem a evadir da tarefa que lhe coube, após o afável e familiar cumprimento de circunstância, transmiti-lhe que necessitava de ser dotado de meio de transporte para chegar ao meu destino.
Sem demora, sem abandonar tarefa de incumbência, gritou para a irmã, como resulta óbvio, minha prima também, que se encontrava nas proximidades: “Alice, está cá o nosso Zé Abílio… vai a buscar-lhe a burra albardada… que precisa de ir a Angueira”. Na verdade na aldeia de Caçarelhos tínhamos parentes quer pela linhagem paterna (a nossa avô era daí oriunda) quer pela via materna.
A ordem foi efectiva e a comunicação resultou eficaz: em poucos minutos a prima chegou a cavalo da jumenta devidamente apetrechada para a viagem eminente e o signatário estava armado em cavaleiro viandante. Foi a passo, a trote, que encetei um novo itinerário, por rota nunca antes transposta, sempre pela berma da estrada, ainda na condição de macadamizada, evitando possíveis, mas para mim ignotos atalhos, com a certeza de que seguindo com rigor esta opção, transpostos a cerca de légua e meia que distancia as duas localidades, chegaria ao destino almejado. Durante o trajecto pude constatar e dar-me devida conta que a cavalgadura não fora ensinada a galopar como as nossas: na realidade estas primas não tinham irmãos… Se tal acontecesse provavelmente a azémola teria sido adestrada em todas as modalidades da “Arte de bem cavalgar toda sela”, de forma a poder participar nas corridas, competições e reptos, com frequência organizados entre irmãos e amigos, sempre que a oportunidade era propícia e o permitia, mormente nas idas e vindas de apascentar os animais no lameiro! Quantas vezes deixávamos distanciar o restante gado pelo caminho, definíamos as regras do duelo e a correria iniciava, tendo como meta a manada distanciada… Este bem nutrido e relamposo animal era notório que usufruía de uma situação de pacífico privilégio, com desempenho suficiente nas reduzidas e não muito exigentes funções naquela casa de agricultor abastado, onde havia gado vacum e penso que, já na época, até tractor.
Foi com a satisfação e mesmo emoção de quem chega que comecei a vislumbrar o casario da aldeia de Angueira, depois de (já não sei explicitar) uma considerável porção de tempo. Nunca tinha ido àquela povoação; pensei não conhecer lá ninguém, por ali não ter parentes nem pessoas de referência. Em boa verdade não era assim tão certo: algumas figuras de menção já tinha naquela localidade, a começar pelo meu condiscípulo Viriato Esteves, distintíssimo professor universitário na área de física. Quando já na minha condição de estudante, jovem crescido, me deslocava a outras aldeias, participando em celebrações, festas, eventos familiares, próprios do tempo e já então em alguns deveres e obrigações, a mãe era profusa em aconselhar-me: “aí vivem os nossos parentes tais e quais… (Curralos, Raposos, Vaqueiros, Quinas, Luisinhos, Carlos, Germanos…) não te esqueças de procurá-los, para os saudar… eles vão ficar contentes por conhecer-te… por ver-te e averiguar por eles…” Grande psicóloga e detentora de enorme dom de gentes era a nossa mãe! Com nostálgica saudade e emoção o assevero; com enternecimento lhe rendo preito e homenagem.

Angueira, a povoação vista do alto do Múrio (foto tirada em julho de 2023). A orografia do terreno, onde, alguns séculos antes da fundação da nacionalidade, foi implantada a povoação, a densidade e os atuais porte e altura da vegetação que cobre o Múrio não permitem abarcar numa única foto todas as casas da margem direita do ribeiro do Balhe (Salina, Çanca e Cachon, ao fundo do bairro de Sant’Cristo) nem a maior parte das da margem esquerda do mesmo ribeiro (as dos Penhones e do fundo das Eiras Grandes, as de metade da rua dos Burmelheiros, todas as que ficam em redor do largo de Saiago e até ao alto por cima da capela de San Sabastian do bairro de Saiago).
Foi com este estado de espírito que procurei, logo junto das primeiras edificações do povoado, esteio seguro onde deixar em sossego e recobro o meu meio de transporte, enquanto daria cabal cumprimento à missão que me levara à aldeia. Não foi necessário perfazer grande recorrido dentro do aglomerado habitacional para encontrar duas pessoas conversando junto a umas portaladas da dependência estabular acoitada de uma casa, inequivocamente pertencente a agricultor. Uma das fisionomias já não me era desconhecida. Tratava-se de um Senhor de aspeto distinto, de nome e apelido Francisco Correia, que havia pouco tempo conhecera em Vimioso, durante uma diligência num serviço administrativo. Conversava com um outro Senhor, sei hoje ser Artur Fernandes. A eles me dirigi com o cumprimento usual e de seguida lhes perguntei se ali podia deixar o animal. Ambos corresponderam à minha saudação e o Senhor Artur me retorquiu que deixasse ali a besta que ficaria segura. Pelo meu modo de trajar não lhe foi difícil descortinar estar perante um seminarista pelo que me informou que um filho seu, não havia muito tempo, fora ordenado sacerdote e celebrara a sua missa nova.
Com este primeiro convívio interpessoal já me senti entre gente de bem. Com indicações que obtive junto dos primeiros interlocutores fui em busca da casa do mestre albardeiro. No recorrido pelas ruas da povoação uma adolescente estudante me reconheceu e me cumprimentou. Tratava-se da jovem Merência dos Reis Rodrigues que não havia muito tempo encontrara no Couto de Cucujães, aquando da festa de aniversário natalício do Reitor da casa onde eu residia e frequentava estudos. Encontrando-se a moça a estudar na região, na casa do seu tio Luís Caldeira, oriundo de Angueira, ex-aluno da Sociedade Missionária e ex-colega do aniversariante Padre Dr. Manuel Augusto Trindade, ilustre trasmontano de Vila de Ala, Mogadouro, ambos estiveram presentes na festividade. À jovem colegial e a outros moços que participaram no evento tive o ensejo de mostrar-lhes as partes visitáveis do monumental casarão, antigo convento beneditino, usurpado aos monges, tal como outros imóveis congéneres, nos primórdios da implantação da República; adquirido pelo Padre Vicente do Sacramento, foi entregue por doação à recentemente instituída Sociedade Missionária das Missões Católicas Ultramarinas que o transformou em seminário maior, Alma Mater da agremiação, hoje Sociedade da Boa Nova. Aqui se ministravam os cursos de Filosofia e Teologia até à edificação em Valadares do Seminário da Boa Nova. O abonado complexo contava ainda com uma ubérrima quinta, livraria, escola tipográfica, exploração pecuária de gado vacum leiteiro e porcino…
Após breve diálogo de saudação, foi com as indicações da Merência que inequivocamente encontrei a oficina do artesão Senhor Augusto Rodrigues.


Angueira: caleja dos Balazaros, de Joan de las Risas (foto da esquerda, casa à entrada da caleja), da tie Sabel Tarasca e dos Bileiros (casas da foto da direita) e a casa e oficina do tiu Agusto Albardeiro (casa ao fundo da foto da esquerda) em Saiago.
Encontrei-o em casa, na oficina, junto à sua pequena mesa baixa de serviço, assentado num banco tripé feito da peça de madeira de forma circular cortada por secante, correspondente à parte da camba na feitura de olhal da roda do carro rural. Afável, solícito e atencioso, sem deixar de trabalhar, escutou a narrativa do motivo da minha visita. Zeloso profissional e experiente artífice não careceu de grandes silogismos ou técnicas de convencimento ou persuasão da minha parte; a probidade, honradez e confiança evidenciaram-se durante o nosso diálogo. Compreendeu bem a urgência da obra; fez-me saber o seu custo, rejeitando receber qualquer valor antecipado a título de sinalização. Com profissional dignidade e algum orgulho retorquiu: “… domingo podeis vir buscar a obra, que estará pronta. Só aí é que vos recebo o dinheiro”. E, sem largar o trabalho, prosseguiu conversando da sua vasta experiência, com a vontade de ser escutado, ao que agradavelmente e com gentil consideração e respeito correspondi. Recordo ter entretanto chegado um casal de moradores, deixando notar a sua condição de emigrantes, a indagar se e quando lhes fazia também um par de molidas de gargalo… ao que o obreiro, em sentido de pedagógica confiança e provavelmente vislumbrando na questão uma mera indagação mais motivada por curiosidade e algum sentido de ostentação, ripostou: “e para que quereis vós as molidas de gargalo?… não estais bem servidos com as que vos fiz, e que ainda estão novas?…”

Molidas das bestas. Dada a sua forma, a mais à direita deverá ser a molida de gargalo. Fotos gentilmente cedidas pelo autor do texto.
Não demorou muito a visita dos vizinhos e com manifesta afabilidade prosseguiu na cavaqueira com o ilustre e desconhecido forasteiro, até que em determinado momento do colóquio, enquanto pousava a obra em mãos e se levantava, me solicitou aguardasse. Poucos minutos terá demorado até que regressou trazendo uma cesta de vime. Desocupou a credência. Sobre ela colocou um mantel de linho, sobre este uma porção de fogaça, um bom naco de presunto, uma garrafa com vinho e dois copos. E enquanto fraccionava o pão e o naco acrescentou: “são horas de restaurar forças… ainda tendes a viagem pela frente!” E com brando gesto de mão, convidou-me a segui-lo, dando-me o exemplo no início do repasto.
Agradeci a cortesia, a delicadeza e não disse que não. Prosseguiu, sem desperdiçar tempo, contando episódios de bem sucedidas obras realizadas para fregueses de distintas localidades, incluindo para a contígua Espanha. No final da sóbria e aconchegante refeição, despedi-me do afável anfitrião, deixando-lhe saber que a nossa mãe iria ficar muito satisfeita quanto agradecida, pela pronta resposta, assim como pelo seu trabalho; ao que o destro artesão não conseguiu disfarçar um ténue regozijo de digna vaidade.
Não fui encarregado de ir buscar a obra concluída no dia estabelecido pelo artista, mas o meu irmão imediato que, tal como eu, regressou a casa tecendo louvores ao espontâneo acolhimento e prestável desempenho do mestre Augusto dos Anjos Rodrigues.
Não recordo que horas seriam quando deixei a casa do hábil albardeiro. Entretanto a jovem Merência contara à mãe que algo de noticioso e inusitado acontecia na terra: um amigo do tio Luís, que ela mesma conhecera, tinha vindo ao local. Ditou-lhes pois o seu sentido de hospitalidade que era, no seu entender, mister conhecê-lo e, assim sendo ficou de espreita à rua, até que o forasteiro aparecesse de novo. Ao aproximar-me transmitiu-me que a sua mãe queria conhecer-me e esperava por mim. Ambos nos dirigimos à casa, onde com mais duas crianças a mãe da jovem me esperava. Lembro-me que, logo franqueando a porta de entrada, num pequeno recinto térreo estava colocada uma mesinha com umas bolachas, doces e alguma bebida para receber o notável desconhecido, mas familiar porque amigo do seu irmão, Luís Caldeira.
Tinha acabado de almoçar, mas não pude subtrair-me à generosa e espontânea manifestação de convivência e sincero acolhimento. Despedi-me da Senhora, da Merência, da aldeia de Angueira, com o reconhecimento de quem é granjeado de tantas atenções e com o sentido do dever cumprido.
…
Foi num abrir e fechar de olhos que decorreram cinquenta anos. Ano da mercê de 2018. Após ter adquirido aos restantes herdeiros as fracções da casa de família, e no respectivo espaço ter edificado uma modesta moradia, encontrando-me empenhado na recuperação dos utensílios da economia doméstica, ferramentas, alfaias agrícolas, apetrechos da casa e campo, trastes, baixela… pela carga de cultura, de história vivencial, de saber empírico e mesmo de erudição de que tais instrumentos são depositários, carga essa que inexoravelmente estará condenada à desaparição, se alguma diligência no sentido de inverter a inércia do olvido com o suceder do tempo não for levada a efeito, fui bater à porta de um dos descendentes da família Alves (Velho) onde o tear dos meus avós sabia ter ido parar.
A minha avó materna falecera; a única herdeira descendente que também aprendera o mister perecera também no limiar da idade adulta; a esposa do meu avô em segundas núpcias, por curiosa casualidade, irmã da minha avó materna, também tecia, porém, após enviuvar pela segunda vez (ao casar com o meu avô também já era viúva de um primeiro matrimónio contraído com um Senhor Canastra de São Joanico), tendo chegado à idade outonal e de abandonar esta actividade, perante solicitações da referida família em que havia duas moçoilas em idade de exercer a profissão, acabou por (não sei se) doar, ceder a troco de algum benefício ou vender o artefacto de tecelagem da família.
Bati à porta certa. Obtive efectivamente notícia do ansiado apetrecho e da respectiva localização no complexo habitacional familiar: na divisão do forno. Não obstante a casa e respectivo logradouro transversal a duas ruas paralelas da vila, já fora alienada pelo que me foi sugerido dirigir-me ao novo proprietário de nome Amílcar dos Reis Rodrigues, natural de Angueira, que fora Guarda Fiscal e jubilado da Instituição GNR, casado com Dona Isabel Pires, natural da aldeia de Vilar Seco.
Não deixei para o dia seguinte. Foi de seguida que bati ao ferrolho da porta do seu exemplarmente bem cuidado quintal que separa a nova edificação da rua adjacente, que coincide com a da nossa casa. Num primeiro intento não encontrei ninguém, contudo numa pertinaz segunda tentativa tive o ensejo de encontrar um respeitável e atento Senhor a quem, após curta apresentação pessoal, transmiti o intuito da minha presença.
Com uma urbanidade e cortesia a toda a prova, soube explicar-me que dava fé do dito utensílio no local indicado, todavia na sequência da tal casa do forno, dependência da casa original, ter entrado em ruínas pela acção implacável do tempo e falta de intervenção humana, o colapso do telhado originou o seu desaparecimento por efeito de combustão juntamente com o madeiramento caduco da armação do tecto. Não foi notícia agradável, como resulta óbvio, facto de que o hoje dilecto amigo Senhor Amílcar se apercebeu. E foi com gentil afeição que me comunicou que provavelmente na casa dos seus pais na aldeia, ainda recuperasse os restos do tear da sua família, que generosamente me ofereceria. Tendo-lhe perguntado quando disporia de tempo para viajar à aldeia, de seguida me manifestou a sua imediata disponibilidade.
Recordei-me da primeira deslocação àquele lugar havia meio século, o que constituiu espontâneo tema de conversação. Dotados de meio de transporte de última geração, galgámos o curto lanço da Rua das Freiras, até à Cruz da Atalaia e descemos pela Costa, via outrora não carroçável nem sequer por carro rural carregado, devido à sua pendente e pronunciado desnível, mas hoje pavimentada e convertida em estrada, em direcção ao Vale de São Miguel. Fiz menção de guiar em direcção à localidade de Caçarelhos… porém logo o copiloto me advertiu que aquela (já) não era a rota certa; produto da minha percepção com falta de aggiornamento e reciclagem, dito em linguagem mais hodierna: instrumentos de navegação desactualizados… Logo imaginei que a via mais curta e lógica seria pela localidade de São Joanico e foi por esse trajecto que rumámos, com a naturalidade e óbvia convicção de em poucos minutos estarmos vislumbrando as primeiras edificações do aglomerado. Logo à entrada o distinto companheiro de percurso me deu indicação do caminho a seguir, no rumo da igreja matriz, em direcção ao novo local de destino. Já não encontramos o mecanismo de tecedura que determinara a nossa deslocação, porém o inefável vizinho obsequiou-me com um magnífico exemplar de jugo de vacas, ainda em estado quase novo, de um par de cangalhas inibidoras de alimentação, de molida, cornais, sobeio…, peças já hoje recuperadas e referenciadas nas publicações sucessivas que vêm acontecendo na página de facebook e em cujas descrições e fichas técnicas se manterá convenientemente a respectiva procedência.
Angueira, agosto de 2023: Ronda de entrega da Festa pelos antigos aos novos mordomos da Festa em 2024. Vídeo de Luís Carlos Torrão.
Nem casas, nem as ruas, nem qualquer outro pormenor me trouxe à lembrança e à recordação a minha primeira pitoresca e prazenteira expedição, quando ainda estudante e a ordens da diligente mãe do lar. Não obstante o encontro espontâneo com o meu condiscípulo Viriato Esteves, agora empenhado em recuperar a casa dos pais, incrementada com novas áreas da casa outrora pertença da família do amigo Amílcar Rodrigues, onde havia sido recebido, o encontro com uma vizinha de nome Isabel, mal chegámos, que me foi apresentada como neta do obreiro Augusto Rodrigues, que ouviu enternecida a minha narrativa da hospitalidade e responsável comprometimento com que o seu avô me presenteou cinquenta anos atrás, a agradável coincidência da então jovem Merência ser irmã do agora meu grato vizinho que potenciou esta segunda viagem meio século decorrido, esposa do dilecto amigo e conterrâneo Henrique Machado, cunhada da Dona Isabel Pires, escrinheira como a nossa mãe… e ainda tudo o que ficou vertido nestas páginas são o testemunho bem patente de quanto a minha primeira aventurosa ida a Angueira me ficou impressa e permanecerá indelevelmente cinzelada.


Angueira (agosto de 2023): huortas i fuonte de l Pilo, no centro da povoação (foto da esquerda) e rua da Amargura (foto à direita), onde ficam as casas da Sabel Canhuotica, neta do tiu Agusto Albardeiro, e do marido, a mais recentemente recuperada pelo professor Viriato Esteves e a dos filhos da tie Marie Caldeira e do tiu Massemino.
José Abílio Raposo Quina (Março 2019)