Angueira

Onte, Hoije i Manhana

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  • De Vimioso a Angueira (por José Quina)

    dezembro 1st, 2023

    Nota antrodutória

    Desta beç, eiqui teneis un eicelente testo subre dues zlocaçones que, mui çtanciadas ne l tiempo, l sou outor fizo a Angueira. Tengo, assi, q’agradecer al prezado amigo José Quina tener-me cedido alguns retratos i outorizado a publicá-los, juntamente cul sou texto, eiqui, ne l miu blogue.

    Cumo podereis cumprobar, bale mesmo la pena i sabe tan bien ler este i outros testos de quien scribe cun tanta fluéncia i ancumparable eilegáncia. Custa a crer cumo, cultibando la palabra i cuidando l sou stilo, outeliza un bocabulairo tan rico i bariado. Rigoroso na narraçon, na cacterizaçon i descriçon de las pessonas – si, pus ye de pessonas que se trata  –, retrata-las tan bien que quaije parece que stamos a bé-las mesmo a la nuossa frente, a cumbersar i a cumbibir cun nós.

    Pa lhá de mos amostrar cumo dantes éran la bida i l trabalho i algũas de las oucupaçones de ls homes i de las ties, de ls moços i de las moças de l cunceilho de Bumioso, de la Tierra de Miranda ou desta squina de l Nordeste Stramuntano, cuonta-mos dues zlocaçones que, anterbaladas ũa de la outra por cerca de 50 anhos, fizo a Angueira: ũa deilhas, an 1968, a mando de sue mai, para ancomendar a tiu Agusto Albardeiro que le fazisse ũas molidas pa las béstias podéren cumpletar l acarreio de l cereal, trigo i centeno, pa las eiras; i outra, bien mais recente, cun sou bezino na Bila, mas que, sendo natural d’Angueira, le cumbidou para íren ambos a dous a Angueira a ber s’inda starie an casa de sous pais un tear antigo i pa l ceder a José Quina pa l acrecentar a la coleçon de l sou museu.

    Se, an 50 anhos, muita cousa demuda, claro stá tamien q’algũas cousas se manténen. I se, antre las dues zlocaçones a Angueira, de la maior parte de las pessonas cun quien falou na purmeira ida a Angueira – l tiu Agusto Albardeiro, l senhor Correia, l senhor Artúrio i la tie Marie Caldeira, la mai de la porsora Meréncia, yá solo se puoden ber las campas adonde çcánsan ne l cemitério –, tamien ye berdade que, assi i todo, na segunda beç, José Quina puodo inda alhá ancuntrar un sou antigo cundiscípulo ne l seminairo, l porsor ounibersitairo Beriato Stebes, Sabel Bilber, flha de la tie Justina Albardeira i de l tiu Zé Canhotico i nieta de l tiu Agusto Albardeiro, i fizo la biaige cun Amílcar Rodrigues, armano de la porsora Meréncia i ambos a dous sobrinos de l soudoso Luís Caldeira, tamien el seminarista ne l mesmos seminairos adonde andou José Quina.

    Cumbido aton ls mius amigos i amigas a ler este i outros testos de l çtinto amigo i eicelente pessona, José Quina. Pa lhá de saber ls nomes de todas las pieças i cuidar de ls strumentos i outensílios ousados na agricultura i na profisson de carpinteiro i an bida de sous pais, doutros fameliares i de la giente d’antigamente de la Bila i de l cunceilho de Bumioso, cuida de ls testos tan bien cumo coleciona, amanha i trata daqueilhes strumentos antigos nel sou museu. Assi, cul sou cuidado i l rigoroso trabalho de recuperaçon i las sues zlocaçones de quinze an quinze dies a Bumioso, José Quina nada deixa stragar nien se perder.

    Cumo podereis tamien ber, l amigo José Quina scribe cunsante la antiga ourtografie. I, se scribe mui bien an Pertués, nun cuideis pori que nun sabe falar Mirandés.

    (APT) Braga, 1 de dezembre de 2023

    José Quina:

    DE VIMIOSO A ANGUEIRA

    O presente episódio que, visto à luz da realidade da data em que é redigido (2019), já soa a feito odisseico, ocorreu pelo ano da graça de 1968, durante as férias lectivas estivais que coincidiam com finais dos meses de Julho, Agosto e primeira quinzena de Setembro.

    Na nossa casa familiar, não obstante a condição de artesão profissional a tempo inteiro do chefe de família, de grata memória, sempre coexistiu a actividade agrícola em proporções de igualdade com a maioria dos agricultores da localidade. O meu avô Luís Filipe de Quina, décimo filho na ordem de nascimento numa família numerosa de doze filhos, com entronque muito próximo na estirpe do solar brasonado em Argozelo, lavrador, logrou a façanha de dotar cada um dos quatro filhos de uma profissão liberal: de barbeiro, tecedeira costureira, carpinteiro e alfaiate. Tendo o primogénito emigrado para terras gálicas logo no período após guerra e a segunda herdeira falecido no limiar da idade adulta sem que tivesse constituído família, parte significativa dos prédios rústicos, das courelas produtivas (porém não das mais apetecidas) terminaram por integrar, quer por legado directo hereditário, quer por adquirição adventícia, o quinhão do filho José, carpinteiro.

    Não obstante, por opção, o primado da faina da madeira se tenha sobreposto à da lavoura, a verdade é que o cultivo da terra, a sementeira do trigo e centeio, da batata, das hortaliças e leguminosas, a cultura da vinha, do souto de castanheiros, do olival… sempre coexistiram com a primeira ocupação.

    A grande timoneira desta segunda profissão era a guerreira mãe do lar, mirandesa de gema, escrinheira, coadjuvada pela numerosa prole na medida em que as lides telúricas e caseiras eram compatíveis com a idade e com a frequência escolar. Todos, sem excepção, sob a sua égide e com a supervisão criteriosa do progenitor, experimentámos o benfazejo sol primaveril, as delícias e mimos gratificantes das colheitas, mas também os rigores de calor estival e da intempérie invernal. A nossa mãe era, como referido, mirandesa, natural da aldeia de Vilar Seco, descendente pelo lado materno da estirpe Antão, de São Pedro da Silva, progénie também conhecida pelos “Curralos”, parentela de referência no mister da carpintaria, sendo a sua especificidade mais destacada a construção de carros rurais. Consta que a exigência do mestre Curralo (José Francisco Antão) chegava ao ponto de testar a precisão das furações de encaixe nas diferentes peças do rodado, cambas, meões, relhas, eixo… com água, para certificar-se da sua justeza e perfeição. Pela vertente paterna a tia Regina descendia da linhagem Raposo, sendo esse outrossim o seu próprio apelido, na qual o vulto de mais referência era o afamado Abade de Caçarelhos Raposo, tio do nosso avô, José do Espírito Santo Raposo.

    Mesmo com o êxodo dos descendentes, quer pelo rumo da emigração para o exterior ou pela via do prosseguimento de estudos, o abandono da azáfama agrícola não foi pacífico. Quando após o precoce falecimento do pai de família progenitor antes de completar sessenta anos, decorria o ano de 1968, a líder, de férrea têmpera, com a ajuda dos descendentes mais jovens, continuou cultivando as hortas, a vinha, os terrenos mais produtivos, de maior proximidade e menos exigentes em termos de dispêndio de esforços no amanho.

    Foi assim que nas férias de verão, no ano já supramencionado, na companhia do irmão imediato mais novo, nos tocou fazer o acarrejo de uma porção de molhos de cereal de uma propriedade localizada no lugar designado por Xito, na toponímia local campesina. A propriedade era enorme, incluindo terra e duas cortinhas cercadas, até dotadas de cerejeiras que de forma quase isenta de cuidados e praticamente silvestre produziam boa cereja. A cortinha conformando a parte de nível inferior da olga, comummente designada por baixa (substantivo), era efectivamente a de mais fácil granjeio e potenciava mesmo a produção de batata de secadal. Porém situava-se na parte inferior da ladeira e não tinha comunicação de caminho. À semelhança de muitas outras congéneres, num sistema de fraccionamento da propriedade no qual impera o minifúndio, o ingresso, o transporte e escoamento dos produtos é feito pela via de serventia através de propriedades contíguas de outros donos, até à via pública mais próxima ou sobretudo de mais facilitada aproximação e acesso.

    Carregámos o carro com a quantidade de molhos que o nosso cálculo empírico nos aconselhou como compatível com a capacidade de tiro da parelha. Quais briosos e prolíficos agricultores pusemos todo o empenho na empreitada e foi mesmo com algum sentido de juvenil emancipação que seguimos todos os procederes para levar a bom termo e de maneira bem sucedida a tarefa que a mãe nos incumbiu. O engenho rodou. O friccionar da madeira do eixo no leito dos cocelhões cravados à aceda pelo encaixe das endreiteiras, rangeu e emitiu mesmo a inconfundível chiadeira própria da faina da acarreja. Tudo parecia obrar em normalidade, até entrar no limiar da íngreme encosta. Se bem que a trajectória seguida já era usual e configurava bem o desladeiro, a verdade é que as pobres bestas não conseguiam tirar a carga. Um incentivo mais brando, uma admoestação mais imperativa, um intento de ajudar mesmo os animais empurrando para a frente as duas extremidades do jugo… de nada serviam. Após algumas tentativas infrutíferas, decidimos deixar descansar os animais, enquanto nos dirigimos a uma nascente num olhagueiro que na proximidade possuía uma fonte de afloramento superficial de água. De regresso repetimos a rotina anterior, mas a récua não respondia ao pretendido e não podia com a carga. Em época de actividade plena contávamos com duas briosas e bem apetrechadas juntas, de muares e asininos; com a sua restrição a primeira parelha juntamente com os respectivos arreios e apetrechos, incluindo o carro, transitaram por venda para uma família vizinha que já em anos transactos havia adquirido um primeiro carro da nossa casa e respectivo equipamento.

    Toda a vez que na propriedade ainda ficara excedente de cereal, optámos por aliviar a carga, descarregando alguns molhos. Feito o intento de prosseguir com a carga aligeirada, mas as pobres bestas ainda assim não punham o engenho em movimento. Não tínhamos explicação assertiva, contudo decidimos dividir a carga a meio, no sentido de, até ao cimo da ladeira fazer dois fretes em vez de um, deixando a primeira porção de molhos na praina e vir de seguida a buscar os restantes. Feita nova tentativa de prosseguir, incentivando os animais, porém estes, após o primeiro intento de impelida, primeiro um e logo o outro, recuavam à postura imediata anterior de lassidão e estancamento.

    Parelha a puxar o carro de burros carregado de molhos de centeio na acarreja para a eira. Para além desta, havia pelo menos mais outra forma de carregar ou dispor os molhos no carro. Foto cedida pelo autor do texto.

    Dados por vencidos, rendidos ao insucesso da empreitada, decidimos largar a faina, regressar a casa a cavalo dos jumentos, na certeza de que se encontraria a melhor, a mais atinada e eficaz solução. E foi com espírito de dominados, com a autoestima em baixa, que regressámos a casa. A nossa mãe já impacientava, esperando-nos com o almoço pronto. Não necessitámos de grandes narrativas e recobrámos alguma moral quando confidenciou que, já com a refeição preparada, com impaciência vinha à varanda e se assomava para o caminho pelo qual nos veria chegar às eiras e, aliviou quando nos descortinou cada um montado sobre o seu animal. Experiente, ela tinha mais justificação do que nós para o nosso insucesso na tarefa daquele dia e também ficámos mais reconfortados ao ouvi-la exclamar: “eu já imaginava que as molidas não aguentavam fazer toda a acarreja”. E logo de seguida, com a clarividência e pragmatismo tão assertivo que lhe era tão peculiar, delineou programaticamente o recurso a seguir. A primeira incumbência era para mim: “amanhã vais a Angueira. Metes-te na carreira, logo cedo, até Caçarelhos; aí pedes a algum dos parentes que te empreste uma jumenta; procuras o albardeiro e que te faça um par de molidas no menor tempo possível… e não lhe discutes o preço. Levas já dinheiro, para o caso de te pedir algum pago adiantado”. O programa era inequívoco, claro, conciso e ordem da nossa mãe não admitia discussões! Mulher de uma clarividência e bondade impressionantes, aceitava com facilidade uma sugestão que fosse positivamente divergente da sua; dificilmente concordava com uma objecção negativa que contrariasse o seu raciocínio do qual emanasse uma ordem.

    Bem me recordo de chegar à aldeia de Caçarelhos ainda cedo, de abandonar o autocarro que regularmente fazia recorrido entre Vimioso e terras de Miranda. A escassos passos do lugar onde larguei o meio de transporte um rancho de pessoas junto a uma trilhadora preparava-se para iniciar a azáfama da malhada. O começo da faina não demoraria: efectivamente sobre o estrado elevado da máquina onde é feita a admissão do cereal já se encontrava a dupla a cargo de tal tarefa: o introdutor e uma segunda pessoa que lhe aconchegava de maneira determinada e conveniente os molhos, ao mesmo tempo que os desatava, geralmente com a intervenção de uma faca com a qual procedia ao corte da grinheira. A introdução das cerealíferas (trigo, centeio, cevada) à engrenagem trilhadora e debulhadora do engenho não era feita aleatória nem opcionalmente por qualquer dos intervenientes na safra, que, seguindo um procedimento de interajuda mútua e recíproca ou torna-jeira, iam conformando equipa em benefício de cada colheiteiro. A tarefa de meter o pão à máquina envolvia particular responsabilidade, exigência e estoicismo no seu desempenho, razão pela qual era desempenhada pelo proprietário ou encarregado da debulhadora e/ou ainda por obreiro contratado para o efeito; a malhadeira não funcionava e por conseguinte não ganhava maquia se esta tarefa não fosse executada. Como resulta óbvio, a produtividade última da faina muito tinha que ver, numa relação proporcionalmente directa, com a eficaz e regular execução desta. A laboração da máquina por intervenção da força gerada pelo motor de combustão do tractor, mediante toma de força PTO (Power Take Off), transmitida por correia em cinta desde a polia do motor para a da malhadeira, não requeria atenção permanente uma vez posta em funcionamento e regulada a aceleração de débito; por tal razão o maquinista era simultaneamente o encarregado, em forma exclusiva ou compartida, da introdução do cereal. Enclausurado até à cintura num individual cubículo, rebaixado com relação ao nível da plataforma de madeira para qual os molhos eram arremessados, tendo à sua frente a embocadura de alimentação, passava longas horas numa rotina exaustivamente repetitiva: pegar nos molhos desatados, à sua direita ou esquerda, lançá-los de espigas para a frente na garganta do cilindro triturador, facilitando com movimento oscilatório das mãos e braços a sua ingestão… numa atmosfera escaldante, com o refluxo de poeiras, de moinha, onerada da pressão sonora de todo o mecanismo, mormente das navalhas de trituração, operando posicionadas a escassa distância.

    Participei activamente em muitas malhas quer antes, quer durante a minha vida estudantil primária, média, secundária e superior, executando a quase totalidade das tarefas intervenientes: retirar e acomodar a palha, içar molhos para o estrado da plataforma de abastecimento, pesagem e ensacamento do grão, desatar e acondicionar os molhos ao alimentador, tarefa que requeria alguma destreza e risco, recolha do cereal à casa do produtor… com exclusão da admissão do cereal à máquina.

    Entre a equipa que estava prestes a iniciar a labuta vislumbro de seguida a prima Marilis, que entronada no alto da trilhadeira iria desempenhar a árdua função de desamarrar e aproximar os molhos ao maquinista. Sem a evadir da tarefa que lhe coube, após o afável e familiar cumprimento de circunstância, transmiti-lhe que necessitava de ser dotado de meio de transporte para chegar ao meu destino.

    Sem demora, sem abandonar tarefa de incumbência, gritou para a irmã, como resulta óbvio, minha prima também, que se encontrava nas proximidades: “Alice, está cá o nosso Zé Abílio… vai a buscar-lhe a burra albardada… que precisa de ir a Angueira”. Na verdade na aldeia de Caçarelhos tínhamos parentes quer pela linhagem paterna (a nossa avô era daí oriunda) quer pela via materna.

    A ordem foi efectiva e a comunicação resultou eficaz: em poucos minutos a prima chegou a cavalo da jumenta devidamente apetrechada para a viagem eminente e o signatário estava armado em cavaleiro viandante. Foi a passo, a trote, que encetei um novo itinerário, por rota nunca antes transposta, sempre pela berma da estrada, ainda na condição de macadamizada, evitando possíveis, mas para mim ignotos atalhos, com a certeza de que seguindo com rigor esta opção, transpostos a cerca de légua e meia que distancia as duas localidades, chegaria ao destino almejado. Durante o trajecto pude constatar e dar-me devida conta que a cavalgadura não fora ensinada a galopar como as nossas: na realidade estas primas não tinham irmãos… Se tal acontecesse provavelmente a azémola teria sido adestrada em todas as modalidades da “Arte de bem cavalgar toda sela”, de forma a poder participar nas corridas, competições e reptos, com frequência organizados entre irmãos e amigos, sempre que a oportunidade era propícia e o permitia, mormente nas idas e vindas de apascentar os animais no lameiro! Quantas vezes deixávamos distanciar o restante gado pelo caminho, definíamos as regras do duelo e a correria iniciava, tendo como meta a manada distanciada… Este bem nutrido e relamposo animal era notório que usufruía de uma situação de pacífico privilégio, com desempenho suficiente nas reduzidas e não muito exigentes funções naquela casa de agricultor abastado, onde havia gado vacum e penso que, já na época, até tractor.

    Foi com a satisfação e mesmo emoção de quem chega que comecei a vislumbrar o casario da aldeia de Angueira, depois de (já não sei explicitar) uma considerável porção de tempo. Nunca tinha ido àquela povoação; pensei não conhecer lá ninguém, por ali não ter parentes nem pessoas de referência. Em boa verdade não era assim tão certo: algumas figuras de menção já tinha naquela localidade, a começar pelo meu condiscípulo Viriato Esteves, distintíssimo professor universitário na área de física. Quando já na minha condição de estudante, jovem crescido, me deslocava a outras aldeias, participando em celebrações, festas, eventos familiares, próprios do tempo e já então em alguns deveres e obrigações, a mãe era profusa em aconselhar-me: “aí vivem os nossos parentes tais e quais… (Curralos, Raposos, Vaqueiros, Quinas, Luisinhos, Carlos, Germanos…) não te esqueças de procurá-los, para os saudar… eles vão ficar contentes por conhecer-te… por ver-te e averiguar por eles…” Grande psicóloga e detentora de enorme dom de gentes era a nossa mãe! Com nostálgica saudade e emoção o assevero; com enternecimento lhe rendo preito e homenagem.

    Angueira, a povoação vista do alto do Múrio (foto tirada em julho de 2023). A orografia do terreno, onde, alguns séculos antes da fundação da nacionalidade, foi implantada a povoação, a densidade e os atuais porte e altura da vegetação que cobre o Múrio não permitem abarcar numa única foto todas as casas da margem direita do ribeiro do Balhe (Salina, Çanca e Cachon, ao fundo do bairro de Sant’Cristo) nem a maior parte das da margem esquerda do mesmo ribeiro (as dos Penhones e do fundo das Eiras Grandes, as de metade da rua dos Burmelheiros, todas as que ficam em redor do largo de Saiago e até ao alto por cima da capela de San Sabastian do bairro de Saiago).

    Foi com este estado de espírito que procurei, logo junto das primeiras edificações do povoado, esteio seguro onde deixar em sossego e recobro o meu meio de transporte, enquanto daria cabal cumprimento à missão que me levara à aldeia. Não foi necessário perfazer grande recorrido dentro do aglomerado habitacional para encontrar duas pessoas conversando junto a umas portaladas da dependência estabular acoitada de uma casa, inequivocamente pertencente a agricultor. Uma das fisionomias já não me era desconhecida. Tratava-se de um Senhor de aspeto distinto, de nome e apelido Francisco Correia, que havia pouco tempo conhecera em Vimioso, durante uma diligência num serviço administrativo. Conversava com um outro Senhor, sei hoje ser Artur Fernandes. A eles me dirigi com o cumprimento usual e de seguida lhes perguntei se ali podia deixar o animal. Ambos corresponderam à minha saudação e o Senhor Artur me retorquiu que deixasse ali a besta que ficaria segura. Pelo meu modo de trajar não lhe foi difícil descortinar estar perante um seminarista pelo que me informou que um filho seu, não havia muito tempo, fora ordenado sacerdote e celebrara a sua missa nova.

    Com este primeiro convívio interpessoal já me senti entre gente de bem. Com indicações que obtive junto dos primeiros interlocutores fui em busca da casa do mestre albardeiro. No recorrido pelas ruas da povoação uma adolescente estudante me reconheceu e me cumprimentou. Tratava-se da jovem Merência dos Reis Rodrigues que não havia muito tempo encontrara no Couto de Cucujães, aquando da festa de aniversário natalício do Reitor da casa onde eu residia e frequentava estudos. Encontrando-se a moça a estudar na região, na casa do seu tio Luís Caldeira, oriundo de Angueira, ex-aluno da Sociedade Missionária e ex-colega do aniversariante Padre Dr. Manuel Augusto Trindade, ilustre trasmontano de Vila de Ala, Mogadouro, ambos estiveram presentes na festividade. À jovem colegial e a outros moços que participaram no evento tive o ensejo de mostrar-lhes as partes visitáveis do monumental casarão, antigo convento beneditino, usurpado aos monges, tal como outros imóveis congéneres, nos primórdios da implantação da República; adquirido pelo Padre Vicente do Sacramento, foi entregue por doação à recentemente instituída Sociedade Missionária das Missões Católicas Ultramarinas que o transformou em seminário maior, Alma Mater da agremiação, hoje Sociedade da Boa Nova. Aqui se ministravam os cursos de Filosofia e Teologia até à edificação em Valadares do Seminário da Boa Nova. O abonado complexo contava ainda com uma ubérrima quinta, livraria, escola tipográfica, exploração pecuária de gado vacum leiteiro e porcino…

    Após breve diálogo de saudação, foi com as indicações da Merência que inequivocamente encontrei a oficina do artesão Senhor Augusto Rodrigues.

    Angueira: caleja dos Balazaros, de Joan de las Risas (foto da esquerda, casa à entrada da caleja), da tie Sabel Tarasca e dos Bileiros (casas da foto da direita) e a casa e oficina do tiu Agusto Albardeiro (casa ao fundo da foto da esquerda) em Saiago.

    Encontrei-o em casa, na oficina, junto à sua pequena mesa baixa de serviço, assentado num banco tripé feito da peça de madeira de forma circular cortada por secante, correspondente à parte da camba na feitura de olhal da roda do carro rural. Afável, solícito e atencioso, sem deixar de trabalhar, escutou a narrativa do motivo da minha visita. Zeloso profissional e experiente artífice não careceu de grandes silogismos ou técnicas de convencimento ou persuasão da minha parte; a probidade, honradez e confiança evidenciaram-se durante o nosso diálogo. Compreendeu bem a urgência da obra; fez-me saber o seu custo, rejeitando receber qualquer valor antecipado a título de sinalização. Com profissional dignidade e algum orgulho retorquiu: “… domingo podeis vir buscar a obra, que estará pronta. Só aí é que vos recebo o dinheiro”. E, sem largar o trabalho, prosseguiu conversando da sua vasta experiência, com a vontade de ser escutado, ao que agradavelmente e com gentil consideração e respeito correspondi. Recordo ter entretanto chegado um casal de moradores, deixando notar a sua condição de emigrantes, a indagar se e quando lhes fazia também um par de molidas de gargalo… ao que o obreiro, em sentido de pedagógica confiança e provavelmente vislumbrando na questão uma mera indagação mais motivada por curiosidade e algum sentido de ostentação, ripostou: “e para que quereis vós as molidas de gargalo?… não estais bem servidos com as que vos fiz, e que ainda estão novas?…”

    Molidas das bestas. Dada a sua forma, a mais à direita deverá ser a molida de gargalo. Fotos gentilmente cedidas pelo autor do texto.

    Não demorou muito a visita dos vizinhos e com manifesta afabilidade prosseguiu na cavaqueira com o ilustre e desconhecido forasteiro, até que em determinado momento do colóquio, enquanto pousava a obra em mãos e se levantava, me solicitou aguardasse. Poucos minutos terá demorado até que regressou trazendo uma cesta de vime. Desocupou a credência. Sobre ela colocou um mantel de linho, sobre este uma porção de fogaça, um bom naco de presunto, uma garrafa com vinho e dois copos. E enquanto fraccionava o pão e o naco acrescentou: “são horas de restaurar forças… ainda tendes a viagem pela frente!” E com brando gesto de mão, convidou-me a segui-lo, dando-me o exemplo no início do repasto.

    Agradeci a cortesia, a delicadeza e não disse que não. Prosseguiu, sem desperdiçar tempo, contando episódios de bem sucedidas obras realizadas para fregueses de distintas localidades, incluindo para a contígua Espanha. No final da sóbria e aconchegante refeição, despedi-me do afável anfitrião, deixando-lhe saber que a nossa mãe iria ficar muito satisfeita quanto agradecida, pela pronta resposta, assim como pelo seu trabalho; ao que o destro artesão não conseguiu disfarçar um ténue regozijo de digna vaidade.

    Não fui encarregado de ir buscar a obra concluída no dia estabelecido pelo artista, mas o meu irmão imediato que, tal como eu, regressou a casa tecendo louvores ao espontâneo acolhimento e prestável desempenho do mestre Augusto dos Anjos Rodrigues.

    Não recordo que horas seriam quando deixei a casa do hábil albardeiro. Entretanto a jovem Merência contara à mãe que algo de noticioso e inusitado acontecia na terra: um amigo do tio Luís, que ela mesma conhecera, tinha vindo ao local. Ditou-lhes pois o seu sentido de hospitalidade que era, no seu entender, mister conhecê-lo e, assim sendo ficou de espreita à rua, até que o forasteiro aparecesse de novo. Ao aproximar-me transmitiu-me que a sua mãe queria conhecer-me e esperava por mim. Ambos nos dirigimos à casa, onde com mais duas crianças a mãe da jovem me esperava. Lembro-me que, logo franqueando a porta de entrada, num pequeno recinto térreo estava colocada uma mesinha com umas bolachas, doces e alguma bebida para receber o notável desconhecido, mas familiar porque amigo do seu irmão, Luís Caldeira.

    Tinha acabado de almoçar, mas não pude subtrair-me à generosa e espontânea manifestação de convivência e sincero acolhimento. Despedi-me da Senhora, da Merência, da aldeia de Angueira, com o reconhecimento de quem é granjeado de tantas atenções e com o sentido do dever cumprido.

    …

    Foi num abrir e fechar de olhos que decorreram cinquenta anos. Ano da mercê de 2018. Após ter adquirido aos restantes herdeiros as fracções da casa de família, e no respectivo espaço ter edificado uma modesta moradia, encontrando-me empenhado na recuperação dos utensílios da economia doméstica, ferramentas, alfaias agrícolas, apetrechos da casa e campo, trastes, baixela… pela carga de cultura, de história vivencial, de saber empírico e mesmo de erudição de que tais instrumentos são depositários, carga essa que inexoravelmente estará condenada à desaparição, se alguma diligência no sentido de inverter a inércia do olvido com o suceder do tempo não for levada a efeito, fui bater à porta de um dos descendentes da família Alves (Velho) onde o tear dos meus avós sabia ter ido parar.

    A minha avó materna falecera; a única herdeira descendente que também aprendera o mister perecera também no limiar da idade adulta; a esposa do meu avô em segundas núpcias, por curiosa casualidade, irmã da minha avó materna, também tecia, porém, após enviuvar pela segunda vez (ao casar com o meu avô também já era viúva de um primeiro matrimónio contraído com um Senhor Canastra de São Joanico), tendo chegado à idade outonal e de abandonar esta actividade, perante solicitações da referida família em que havia duas moçoilas em idade de exercer a profissão, acabou por (não sei se) doar, ceder a troco de algum benefício ou vender o artefacto de tecelagem da família.

    Bati à porta certa. Obtive efectivamente notícia do ansiado apetrecho e da respectiva localização no complexo habitacional familiar: na divisão do forno. Não obstante a casa e respectivo logradouro transversal a duas ruas paralelas da vila, já fora alienada pelo que me foi sugerido dirigir-me ao novo proprietário de nome Amílcar dos Reis Rodrigues, natural de Angueira, que fora Guarda Fiscal e jubilado da Instituição GNR, casado com Dona Isabel Pires, natural da aldeia de Vilar Seco.

    Não deixei para o dia seguinte. Foi de seguida que bati ao ferrolho da porta do seu exemplarmente bem cuidado quintal que separa a nova edificação da rua adjacente, que coincide com a da nossa casa. Num primeiro intento não encontrei ninguém, contudo numa pertinaz segunda tentativa tive o ensejo de encontrar um respeitável e atento Senhor a quem, após curta apresentação pessoal, transmiti o intuito da minha presença.

    Com uma urbanidade e cortesia a toda a prova, soube explicar-me que dava fé do dito utensílio no local indicado, todavia na sequência da tal casa do forno, dependência da casa original, ter entrado em ruínas pela acção implacável do tempo e falta de intervenção humana, o colapso do telhado originou o seu desaparecimento por efeito de combustão juntamente com o madeiramento caduco da armação do tecto. Não foi notícia agradável, como resulta óbvio, facto de que o hoje dilecto amigo Senhor Amílcar se apercebeu. E foi com gentil afeição que me comunicou que provavelmente na casa dos seus pais na aldeia, ainda recuperasse os restos do tear da sua família, que generosamente me ofereceria. Tendo-lhe perguntado quando disporia de tempo para viajar à aldeia, de seguida me manifestou a sua imediata disponibilidade.

    Recordei-me da primeira deslocação àquele lugar havia meio século, o que constituiu espontâneo tema de conversação. Dotados de meio de transporte de última geração, galgámos o curto lanço da Rua das Freiras, até à Cruz da Atalaia e descemos pela Costa, via outrora não carroçável nem sequer por carro rural carregado, devido à sua pendente e pronunciado desnível, mas hoje pavimentada e convertida em estrada, em direcção ao Vale de São Miguel. Fiz menção de guiar em direcção à localidade de Caçarelhos… porém logo o copiloto me advertiu que aquela (já) não era a rota certa; produto da minha percepção com falta de aggiornamento e reciclagem, dito em linguagem mais hodierna: instrumentos de navegação desactualizados… Logo imaginei que a via mais curta e lógica seria pela localidade de São Joanico e foi por esse trajecto que rumámos, com a naturalidade e óbvia convicção de em poucos minutos estarmos vislumbrando as primeiras edificações do aglomerado. Logo à entrada o distinto companheiro de percurso me deu indicação do caminho a seguir, no rumo da igreja matriz, em direcção ao novo local de destino. Já não encontramos o mecanismo de tecedura que determinara a nossa deslocação, porém o inefável vizinho obsequiou-me com um magnífico exemplar de jugo de vacas, ainda em estado quase novo, de um par de cangalhas inibidoras de alimentação, de molida, cornais, sobeio…, peças já hoje recuperadas e referenciadas nas publicações sucessivas que vêm acontecendo na página de facebook e em cujas descrições e fichas técnicas se manterá convenientemente a respectiva procedência.

    Angueira, agosto de 2023: Ronda de entrega da Festa pelos antigos aos novos mordomos da Festa em 2024. Vídeo de Luís Carlos Torrão.

    Nem casas, nem as ruas, nem qualquer outro pormenor me trouxe à lembrança e à recordação a minha primeira pitoresca e prazenteira expedição, quando ainda estudante e a ordens da diligente mãe do lar. Não obstante o encontro espontâneo com o meu condiscípulo Viriato Esteves, agora empenhado em recuperar a casa dos pais, incrementada com novas áreas da casa outrora pertença da família do amigo Amílcar Rodrigues, onde havia sido recebido, o encontro com uma vizinha de nome Isabel, mal chegámos, que me foi apresentada como neta do obreiro Augusto Rodrigues, que ouviu enternecida a minha narrativa da hospitalidade e responsável comprometimento com que o seu avô me presenteou cinquenta anos atrás, a agradável coincidência da então jovem Merência ser irmã do agora meu grato vizinho que potenciou esta segunda viagem meio século decorrido, esposa do dilecto amigo e conterrâneo Henrique Machado, cunhada da Dona Isabel Pires, escrinheira como a nossa mãe… e ainda tudo o que ficou vertido nestas páginas são o testemunho bem patente de quanto a minha primeira aventurosa ida a Angueira me ficou impressa e permanecerá indelevelmente cinzelada.

    Angueira (agosto de 2023): huortas i fuonte de l Pilo, no centro da povoação (foto da esquerda) e rua da Amargura (foto à direita), onde ficam as casas da Sabel Canhuotica, neta do tiu Agusto Albardeiro, e do marido, a mais recentemente recuperada pelo professor Viriato Esteves e a dos filhos da tie Marie Caldeira e do tiu Massemino.

    José Abílio Raposo Quina (Março 2019)

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  • I- Ls Cucos: la Criaçon de l Morgado

    agosto 21st, 2019

    Nota Prévia: uma prevenção

    Se o/a leitor/a não está familiarizado/a com a Língua Mirandesa, sugiro que, para facilitar a compreensão do texto, o leia a meia-voz. Se, mesmo assim, sentir qualquer dificuldade em compreender o sentido ou descobrir o significado de alguma palavra menos usual ou cuja grafia se afasta mais da portuguesa, não hesite em consultar o Vocabulário que pode encontrar no final do mesmo.

    Breves notas sobre a grafia do Mirandês

    Em Mirandês, não se pronuncia o som v, que é substituído pelo da letra b; usualmente, o prefixo des é substituído, consoante os casos, por ç ou z no início da palavra; para não se confundir com a contração da preposição a com o artigo definido o, que, em Mirandês, se escreve e lê al, o artigo definido o escreve-se l, mas lê-se também al; salvo raras exceções, os ditongos nasais ão e õe escrevem-se an e on; o m final das palavras portuguesas é, no Mirandês, substituído pela letra n; geralmente, o l inicial das palavras é substituído pelo dígrafo lh; já o dígrafo ch, em Mirandês, lê-se sempre tch; talvez por, inicialmente, ser apenas uma língua falada, o Mirandês tende a contrair os pronomes, artigos, preposições e as conjunções com as palavras seguintes, quando estas são iniciadas por vogal.

    Antroduçon

    Alhá por haber an Angueira un casal coincido cumo ls Cucos – la alcunha que, cumoquiera por l’home ser minhoto i, cumo tal, benido de fuora i de loinje, le ponírun –, nun cuideis, pori, que ye subre la tie Cuca i l tiu Cuco ou algun filho deilhes que stou a screbir. Bonda ber qu’esse casal tubo trés filhos – dues moças i un moço. Assi, niun deilhes podie ser morgado. Nó, desta beç, nun stou a screbir subre ties i homes d’Angueira, mas subre páixaros: un par de cucos que se botou anté lhá i por alhá quedou ũa temporada: de la primabera anté al berano.

    Cumo toda la giente sabe, cucos nun fáltan por ende. Aporbeitando la einocéncia d’outros páixaros, fazendo deilhes anjicos, amánhan maneira de lhebar la auga al sou molino: poner l uobo an nial alheno. Claro que só hai páixaros capazes destas maroscas, anquanto houbir outros que, sin çcunfiáren de nada, les garántan hospedarie i hospedaige i le críen l sou fihote. Anton, ls cucos, sin se reláren cun nada, ándan a la buona bida por donde calha, passando la maior parte de ls dies a cantar, a passear i a debertir-se. Anquanto isso, ls hospedeiros ándan todos afadigados i, cuidando star a criar l sou própio paixarico, ban-le mas ye criando, cun todos ls mimos, l pimpolho de ls çacanas. I, inda porriba, de grácia. Ne l final, ténen la paga de la criatura. Nun se cuntentando cun botar borda fuora de l nial, mesmo antes de salíren de l uobo, ls que seríen sous armanos de criaçon, l çafado inda les fai la çfeita de se poner a andar de casa – que ye cumo quien diç, de l nial – sin, oumenos, se çpedir deilhes.

    Bamos, anton, a ber l que l par de cucos fui a fazer a Angueira i las buoltas que, por alhá, ambos a dous andubírun a dar i l que bírun pul termo.

     

    Ls porparos

     

    Nun bondando ũa beç na bida, ye cumo se todos ls anhos tubisse l’oubrigaçon d’ir an pelegrinaige a Meca, l par de cucos aparece quando stá a ampeçar la primabera. Cula sue maneira de ser i cumo questuma fazer quien nun ten parança nin paradeiro cierto, ne l sou bai i ben d’anho a anho, chégan ambos a dous a la par pa passar ũa temporada an Angueira. Aporbéitan tamien pa retemperar fuorças i gozar ls aires de l campo, tan saudables, tan buonos, que son cumo q’ũa bençon de l cielo ou de la natureza.

    Benidos sabe Dius donde, mas passando pula Speciosa, nun deimingo de l final de márcio de l meio de l seclo passado, ban a dar a Cruç de Canto. Pulas Carbicas, ántran a par ne l termo d’Angueira. Sin se dáren de cunta, lhougo a seguir, stan yá ne Palancaricos i, apuis, ne ls Palancares. Antes de l Cascalhal, bíran caras a la Senhora de la Lhuç i ban a dar a las Queijeiras. Deilhi, bótan-se para Ourrieta ls Ninos i subrebólan la marra de l termo d’Angueira cul de la Speciosa, al lhado de la Cierba. Deixando la marra para trás i seguindo pula marge squierda de la ribeira d’Angueira, pássan de l Gago pa l Castro i, de las ruinas de l castro, ban a dar a l’açuda de ls Regatos, al fondo de l Juncal i al cimo de Terroso.

    Al ber i quaije raspar ne ls galhos de riba de las arbes daquel choupal tan alto – si, que las fuolhas inda mal tenien ampeçado a arrebantar –, bira-se l macho pa la fémea i, an lhenguaige própia de cuco – que tenerei l cuidado de bos traduzir –, diç-le el:

    – Stou tan stafado que me apetecie mesmo pousar eilhi an baixo naqueilha yerba pa çcansar un cachico!

    – Pus oulha que you, pa lhá de l cansaço i dũa buona lharaita, stou inda c’ũa sede que nin te digo!

    Assi, quédan eilhi a çcansar un cachico, a boer un golo d’auga nun de ls regatos i a quemer ũas paixarinas i lhibulinas qu’ eilhi ándan a bolar i inda uns grilhos que se bótan a caçar por antre las yerbas.

    – Mas que bien se stá eiqui!… – diç el todo cunsolado.

    – Ah, mas nun te squeças qu’inda tenemos que dar bien a la ala! – respunde-le eilha.

    Bólan, anton, porriba de la caliendra caras al molino de las Trés Ruodas ou de ls Lucas, cumo ye coincido tamien. Deilhi, chubindo pa la Galharda, abáixan, apuis, pula olga de las Carbalhinas, pa la Yedra. Subrebolando la copa de ls freznos, uolmos, choupos i amineiros pa la outra marge, ban a dar al cimo de l’açuda de l molino de Terroso, l sítio adonde l ribeiro de la Puontelhina zauga na ribeira. Bótan-se, apuis, ribeiro arriba, antre ls montes de Peinha Ferreira i de Peinha de la Garça. Pul final de tarde, mal chégan a la peinha al fondo de la Puontelhina i póusan ne l cimo de l fragaredo, diç l Cuco pa la Cuca:

    – Que stafa! Mas, hoije, ganhemos bien l die!

    – Carai, se ganhemos! Stou tan stafadica! Por mi, quedábamos yá eiqui a drumir!

    Claro que l Cuco nun se fizo de rogado. Assi i todo, inda antes de tratar de l que ls trai a Angueira, bótan-se a caçar uns sartigalhos i moscas pa la cena. Yá de papo cheno, bótan ũa oulhadela al redor. Parecendo agradar-le l sítio, cuntina la Cuca:

    – Ls nuossos cumpadres stában carregadicos de rezon. Pul que yá bimos, parece-me que l termo d’Angueira ye mesmo de-lei pa passarmos ũa temporada i pa la nuossa criaçon!

    – Staba un cachico çcunfiado, mas beio agora que nun mos anganhórun! Yá biste que guapo ye, eilhi, arriba i abaixo i dun lhado i doutro de l ribeiro?

    – Mas que rico sítio adonde benimos a dar! Eiqui, al redor, parece mesmo l cielo!

    Fraga 10La Peinha de la Puontelhina (retrato tirado na Páscoa)

    Inda antes de se botáren a çcansar, cumbínan cumo han de fazer para ber l termo d’Angueira. Que, praino a praino, olga a olga, ourrieta a ourrieta, balhe a balhe, lhadeira a lhadeira, cabeço a cabeço, han de quedar a saber cumo ye. Calcúlan que, an bolandas por uns lhados i outros, han de tener acupaçon para ũa semana. Mas tiempo tenien eilhes de sobra…

    Quemidos i buídos i cun todo cumbinado, bótan-se, anton si, a drumir çcansados.

     

    Las andanças pul termo

     

    Cumo por ende s’oube dezir, de manhana ye que s’ampeça l die. Mesmo nun sendo madrugadores, ne ls dies a seguir, ls cucos pónen-se a pie un cachico mais cedo de l que ye sou questume pa se botáren a fazer la ronda pul termo d’Angueira.

    Sigunda, purmanhana, ribeiro arriba, alhá ban eilhes anté a las Cabecinas i, deilhi, por Peinha de la Garça, pa l fondo de las Funtaninas. Apuis, ribeira arriba, bólan pa las Carrasqueiras, las Ourreticas i l Juncal, anté al Gago. Dende, subrebolando la marra de l termo d’Angueira cul de Samartino, pássan de ls lhameiros de Belharino pa las tierras de Lhameira de Paiç, Marra Nuoba i de l Pico. Apartando-se, anton, de la marra, bíran caras a Bal de Conde i, pul Pereiro, ban a dar a la fuonte de ls Salgadeiros, quaije na marra de l termo d’Angueira cul de Samartino, sítio por donde, a outras horas de l die ou a la nuite, questúman passar la maior parte de ls cuntrabandistas.

    Stafadicos de todo i cumo la fame nun era pouca, inda antes de çcansar un cachico, bótan-se a scarbar la tierra, a rebolar-se ne l puolo, a caçar i a quemer uns grilhos, sartigalhos i outros bechicos i a boer un golo d’auga na fuonte mesmo al lhado de l camino. De seguida, toca a drumir la séstia ne l fenanco de la touça de l lhameiro de riba.

    A meia tarde, mal spértan, bólan, Malhadica arriba, até Cruç Branca. Na ancruzelhada de l camino de Samartino para Abelhanoso cul que d’Angueira dá pa la caseta de las Trés Marras i adonde ls termos de ls trés pobos se tócan, acaba la marra de l termo d’Angueira cul de Samartino i ampeça la de l termo d’Angueira cul d’Abelhanoso.

    Subrebolando l camino a la squierda de la marra caras a Angueira, pula Masseira, apuis de Cabeço Alto, antre Standeiro de Pardos i la Marmolina, bíran pa las Abelheiras. Dende, pul Barreiro, l Corisco i la Catalina, ban a dar als lhameiros de la Puontelhina. Bolando ribeiro abaixo, chégan a la peinha al fondo, donde, purmanhana, habien salido.

    Inda antes de se botáren a quemer i a drumir, pónen-se a relhembrar l que bírun nesse die: ls lhameiros de la Puontelhina, las Funtaninas, de l Juncal, Belharino, Bal de Conde i de ls Salgadeiros, todos cun bien freznos, touças nas bordas i alguns salgueiros cerca de ls ribeiros; las huortas de las marges de la ribeira d’Angueira i de l ribeiro de la Puontelhina; tierras de sequeiro, ũas de fuolha, cun trigo i centeno inda berde i un ou outro carbalho alhá pul meio, i outras d’arada, qu’inda nun bai muito tiempo fúrun relbadas; tierras de monte, chenas de scobas, xaras, chougarços, carqueijas, spineiros, silbas, urzes, tomielhos, tomelhina, carrasqueiras, touças i, anté, trobisqueiras. Inda que, de berano, la maior parte destes sítios stéian secos i séian mui calientes, oumenos ls lhameiros i las huortas, por donde pássan ls ribeiros ou hai fuontes, son mais húmados i frescos.

    – Qulha qu’inda nun antendi bien essa cousa de l cultibo de las tierras! An que se çfrencían las de fuolha de las d’arada? – pregunta l Cuco.

    – Berás que, mesmo para ti, nun será ũa cousa defícel d’antender. Sabes, ponendo de parte ls lhameiros i las huortas, que son de regadiu, la maior parte de las tierras de l termo son de secadal. Anho a anho, nestas tierras, fai-se la rotacion de fuolha i d’arada. Se stá de fuolha, nesse anho, la tierra stá a porduzir trigo ou centeno, cunsante ye de melhor ou de pior culidade; se stá d’arada, bai a ser lhabrada trés bezes anté, na sementeira, ser tamien sembrada; se stá d’adil, queda, oumenos dous anhos, de çcanso, sin porduzir, senó, yerba pa ls ganados; se stá de monte, ye que só dá para lheinha ou mato pa las cabras l robéren. Para q’haia anquelíbrio, anquanto metade de las tierras de sequeiro de l termo stán de fuolha i a produzir, outra metade stan d’arada ou d’adil. Se, antre ls meses de outubre i de julho a seguir, las tierras stan de fuolha, solo pulas lhimpas ye que ls pastores puoden andar cul ganado nessa parte de l termo. Assi, nun admira q’ánden morticos q’acabe l acarreio pa botáren ls sous ganados a apanhar las spigas que, na segada, alhá quedórun pul chano. – splica-le la Cuca.

    – Por mi, you quedaba siempre d’adil! Assi, ye que you staba bien!

    – Lhougo me parciu qu’eras capaç de te salir c’ũa dessas!

    Cumo se bei, hai ũa grande çfréncia antre la Cuca i l Cuco. Anquanto el, todo birado para fuora, parece tener la cabeça uoca i que só sirbe para anredar, eilha, mais birada para drento, ye, assi i todo, capaç de ber l que se passa a la sue buolta i de tratar de la bida.

    Na ribeira, pa lhá de ls guarda-rius i lhabandeiras, bírun pitas d’auga i calandras a trates de l sou nial: las pitas d’auga antre las spadanhas i las calandras nas paredes a la buolta de l rodízio de ls molinos; ne ls lhameiros i nas touças, abistórun palombas trocales, gaios, picanços i, anté, carriças; ne l monte i nas tierras de cultibo, bandos de perdizes i rolas. Tamien bírun coneilhos, lhiebres, teixugos, ginetas i outros bichos, mas botórun-le pouca fé porque estes nun les dában para nada.

    Alguns destes páixaros, tanto ls grandes cumo ls mais pequeinhos, fázen l nial ne l chano i antre la broça de qualquiera borda, seia dũa tierra, dũa cortina, dun lhameiro ou mesmo dun camino; outros nas trapolas, ne ls galhos ou na corona de ls uolmos ou de ls freznos, ne ls trampos de carbalhos ou de carrascos i outros até nas paredes ou pegados a las fragas.

    Cumo yá nun ye nada cedo i stan bien stafados, apuis de cenáren, bótan-se lhougo a drumir.

    Soutordie, spertando cedo, bótan-se, pula Cortinona i puls lhameiros de l Rodelhon arriba. Inda antes de chégaren al camino antre estes lhameiros, bíran caras a Ourrieta Cabada Rigueiro i, passando pul Cabeço de la Bilha, pula Rebolheira i pul Milho, ban a dar al alto de la Bouça. Subrebolando la marra de l termo d’Angueira cul d’Abelhanoso, que bai pul cimo de ls montes, báixan pa la fuonte de Bal de Xardon. Bendo l’auga i las arbes al redor de l ribeiro i de la fuonte, eilhi quédan un stantico a componer l papo c’uns grilhos, sartigalhos i ũas paixarinas. I, claro, aporbéitan tamien pa boer un golo d’auga i çcançar un cachico.

    A la tarde, bolando ribeiro abaixo, pula borda de ls lhameiros até al fondo de l Absedo, bíran caras a Quebra Cambas. Apartando-se de la marra i subrebolando las Barreiras i las tierras la Chana, de Cabeço de Porros i de l Facho, bíran pa la Araúja. Cuntornando, pul fondo de la barreira, l Cabeço de la Quecolha, pássan de la Canhada de la Quecolha para Ourrieta l Castro, donde ban a dar al Boubon. Stafadicos de todo, abáncan nũa abrigada de la Caleija de Rompe Alforjas.

    Apuis de cenáren, porpáran-se pa drumir nũa carbalheira. Mas, l ronco de l Cuco ye tan grande que la Cuca nun cunsigue ampeçar a drumir. Bai eilha, anton, c’ũa bicada, spérta-lo i diç-le:

    – Oulha q’hoije, nas tierras d’arada, ne ls adiles, montes i lhameiros por donde passemos, bimos páixaros bien pequeinhos: coquelhadas, quetobias, rabialbas, folecras, chascos i pinches…

    – Nun me digas que, an Bal de Xardon, nun biste la pita ciega q’andaba a mudar l nial de sítio i nun staba queta culs uobos?! Nun te squeças que bimos tamien outros bien grandes: aquel bando de parros ne l lhameiro de l fondo de l Rodelhon i pares de pegas i de cuorbos nas tierras i ne ls montes. Claro que nin pula cabeça me passou dezir-te pa spreitarmos l gabilan q’andaba a bolar bien alto, porriba deilhes.

    Quarta, mal se zanjúan, de l fondo de l Cabeço de la Quecolha, subrebolando l’açuda de la Ribeira de Baixo, atrabéssan pa l Texugo, na outra marge de la ribeira, i ban a dar a la Fraga d’Águila, cerca de la marra de l termo d’Angueira culs de Abelhanoso i Çarapicos. Bolando, apuis, pulas huortas de l Prado arriba i a meia barreira de la Soalheira, de la Carbalheira bótan-se pa ls Absedos, l Riceiro de San Miguel i San Bartolomeu. Bólan, apuis, por Caminico Branco, até al cimo de la Gralheira por donde passa la marra de l termo d’Angueira cul de Çarapicos. Mesmo tenendo muito que chubir, nistantico, ban a dar al cimo de l Sierro de ls Malhadales, adonde páran un cachico pa çcansar.

    Alhá de l alto, an riba dun madronheiro, oulhando a toda la buolta, pónen-se a cuntemplar las bistas eilhi al redor: caras a naciente, béien, purmeiro, l pobo d’Angueira i, pa lhá de las Eiras Grandes, tierras de l Praino Mirandés até Paradela i Spanha; caras a sul i a poniente, tierras, montes i sierras de ls cunceilhos de Mogadouro, Bumioso, Macedo i l cabeço d’Outeiro, de l cunceilho de Bergáncia; ls castielhos de Peinhas Roias, d’Algoso i d’Outeiro. Oulhando inda pa mais loinje i de sul pa poniente, abístan las sierras de Mogadouro, Bornes, Nogueira i Muntesino naqueilhes cunceilhos i de Sanábria, an Spanha, i, a norte, inda ls montes por donde passa la raia.

    Claro que nun fui para ber outras tierras, montes i sierras que, nesse die, se botórun até eilhi. Anton, bólan para Ourrieta Fonda i, birando caras al Marron i passando antre la Silha, ls Colmenales i Codessal, ban a dar al alto de l Sierro de San Joanico. Baixando, apuis, para Ourrieta Lhonga, bíran caras al Adilon i páran na fuonte de ls Chapaçales. Aporbéitan, anton, pa se rebocar, refrescar, quemer uns bechicos de l ribeiro i çcansar un cachico. Al final de tarde, passando riente a las ruinas de la capielha de San Miguel, bótan-se por Antrecaminos pa la Gadageda i Souganho. Al fondo de la cuosta, ne l pilico de Souganho, bíran caras a la Fraguita i bólan pa la Nalsa, adonde, cerca de l’açuda de l molino, cénan i pássan la nuite.

    Pa lhá de la paixarada de ls outros dies, la Cuca dá-se fé de, na Fraga d’Águila, quaije al fondo de la barreira de la Gralheira birada pa l Cabeço de la Quecolha, al lhado i un cachico mais arriba de la marra de l termo d’Angueira culs de Abelhanoso i de Çarapicos, tener abistado ũa águila; mais adelantre, ne l Adilon, un bando d’abutros, milhafres i grifos, bolando an buolta, purmeiro, i, apuis, yá ne l chano, a trates dũa canhona muorta, cumoquiera ferrada pul lhobo. Claro que, cu’estes, qu’eilhi son tan ou inda mais fuorasteiros qu’eilhes, cula águila, cul gabilan i até culs cuorbos, ls cucos nun son tontos pa se metéren. Ye que, cumo eilhes stan fartos de saber, por cada mala rés, hai siempre outra inda mais mala qu’eilha.

    Cumo la giente questuma dezir, lhadron que rouba lhadron ten cien anhos de perdon. Mas hai que ber tamien que, subre la lhadronaige, las pessonas siempre fúrun dadas a eisageros. Assi, an beç de roubar i de cien, talbeç quérgan dezir anganhar i dieç. Bonda ber que mui ralas son las pessonas que chégan a cien anhos. Quanto mais páixaros!

    Mas claro que nun era de chicha, i subretodo de la de canhona, que l par de cucos andaba a la precura. Anton, diç la Cuca:

    – Alguns páixaros q’hoije bimos nas marges de la ribeira nun mos sírben para nada. L guarda-rius fai l nial anterrado nũa barranca i la lhabandeira ye mui pequerrica.

    – Cumoquiera nun starás a pensar ne l nial de la águila ou de l gabilan?!… Oulha que, d’abes de rapinha, quanto mais loinje melhor!…

    – Cousa acabada ye correr l termo todo a ber se damos mas ye cul nial doutros páixaros que mos sírban cumo debe ser!

    – Pus que remédio teneremos! Çcunfio que nun mos faltará inda bien que ber!

    Cumo, pa lhá de ls niales, les antressa tamien l sítio adonde ls páixaros les fázen, la Cuca pon-se a balanciar las bantaiges i ls ancumbenientes de ls sítios por donde passórun pa l sou antento:

    – Yá bimos que las huortas i ls lhameiros son ne ls sítios mais frescos, adonde hai auga i stan siempre a passar pessonas i ándan bacas, mulas ou burros a pascer. Cu’estes animales nun hai porblema. Yá ls garotos nun son de cunfiança pus son capazes de tirar ls uobos ou la criaçon de qualquiera nial.

    – Será, anton, melhor sculhirmos un sítio mais recatado por donde nun steia nin passe muita giente… – diç l Cuco.

    – Cumo hoije biste, nas tierras de sequeiro que stubíren d’arada, ne l tiempo caliente, solo ls pastores ye que por alhá ándan culs ganados. Assi i todo, solo a la tardica i a nuite. Mas, sendo tan calientes, solo ls páixaros mais pequeinhos i ls que questúman fazer l nial ne l chano ye que páran por eilhi. Se las canhonas, ls cordeiricos i ls marones, las cabras i ls beches nun fázen mal als páixaros, yá ls perros son bien capazes de se botáren a chuchar ls uobos ou s’atiráren mesmo a la niada i la queméren.

    – Para mais, tamien nun fáltan nestas tierras lhagartos, queluobras i outros bichos, todos eilhes tamien bien capazes de fazer l mesmo que ls perros.

    Cumbínun, anton, cumpletar la ronda pul termo a ber se dan c’un sítio mais de-lei pa l sou antento.

    Cumo qualquiera fémea ajuizada sabe, la maior parte de ls machos son uns pantomineiros i nun se puode cunfiar muito neilhes. Anton nestas cousas, andando siempre de cabeça ne l aire i a la ruoda, son mesmo un zastre. Bonda ber outra fémea a passar que qualquiera un ye bien capaç de s’antolhar d’eilha! I s’adrega dalgũa poner-se-le a jeito, perde mesmo la cabeça.

    Spabilada cumo ye, la Cuca bien sabe cumo son las cousas i que proua nun le falta al sou Cuco. Assi, pul die, bai-le botando l’uolho, a ber se dá bida del. Pa lhá de nun le deixar apartar deilha, tamien nun le dá çcanso niun. Oumenos assi, queda cula certeza de que al sou, tal cumo a eilha, só há de apetecer-le caldo i palheiro. I esta reata le bonda pa l trazer siempre bien amarrado a eilha.

    Soutordie, manhanica cedo, qu’inda mal se bei l Sol, deilhi, bótan-se pula Fuonte Santa, antre Telhado i las Aguçadeiras i puls Fuolharanços, até las Eiricas. Subrebolando, apuis, antre ls lhameiros d’Ourrieta la Fuonte i las tierras de la Cundelheira i, de seguida, antre la Fraga i ls Chubiteiros, pula Queiruola, chégan al alto de l Pandon. Deilhi, bólan pa las Temadas i, apuis, por antre las Foias i l Queimado i l Cunho i Bal de Freixo, al lhado de las Lapas, ban a dar a Peinha la Bela. Deilhi, subrebolando la marra de l termo d’Angueira cul de Caçareilhos, bótan-se pul cimo de ls lhameiros i de las tierras de Lhatas de l Meio pa la Sculqueira, birando, apuis, caras als lhameiros de l Chapeiron. Cumo stan cansados i la fame i la sede les apértan un cachico, bótan-se a trates a uns sartigalhos, grilhos i scarabeilhos na beiga al redor i a boer un golo d’auga na fuonte de l Chapeiron. Alguns atabanos i moscas q’ándan a la ruoda deilhes sírben-le de subremesa. Aporbeitando ls galhos dũa carrasqueira de la borda de l camino, bótan-se a drumir la séstia.

    De tarde, bolando porriba de Peinha Buieira i pul meio de la Stebica i antre la Mina i la Lhagona, puls Carreirones, ban a dar a la Cabadica. Cumo yá ye tarde i l cuorpo les pide çcanso, apuis de queméren uns becharocos, bótan-se a drumir. Mas, inda antes de cerráren ls uolhos, pónen-se, anton, a lhembrar l que bírun nesse die.

    An Souganho i Telhado, uns cun juntas de bacas i outros cun pareilhas de bestas – mulas ou burros –, andádan yá alguns homes a lhabrar las sues huortas. A la frente dũa ou outra junta de bacas andaba un garotico. Cumoquiera, para qu’eilhas nun le fugíssen de l suco ou nun se botássen, pori, a las nabiças, a las coubes, a la cebada ou a la ferranha de la huorta al lhado. Talbeç sou pai, q’atrás deilhas i de guelhada an punho, iba agarrado a la charrua ou al arado, se tubisse squecido de les poner las cangalhas. Mais adelantre, nas tierras de la Fraga, de la Cundelheira, de ls Chubiteiros, de la Queiruola, de l Pandon i de las Temadas, que stában d’arada, tamien bírun algũas juntas de bacas i pareilhas de bestas a puxar l arado cul amo atrás deilhas a trates de les dar la purmeira lhabra de l anho: la relba.

    Fuora ls lhameiros de l Cunho, Bal de Freixo, Lhatas de l Meio, Sculqueira i de l Chapeiron, l restro son tierras de l’Arena, que stan de fuolha. Nestes sítios hai muitos bercegos, própios pa las perdizes, ls paçpalhaços i alguns paixaricos mais pequeinhos fazéren l sou nial ne l chano, antre las yerbas ou ne l fenanco de las bordas de las paredes i a la buolta de las fragas. Mas tamien las rolas, palombas trocales, boubielhas i pegas puoden fazer ls sous ne ls freznos de ls lhameiros ou nas touças ou carrasqueiras dalgũa tierra.

    Mas, stafadico de todo, bira-se l Cuco pa la Cuca:

    – Stou tan cansado i sfameado que, por mi, tu ponies yá l uobo eiqui.

    – Mas stás tonto ou quei? Saliste-me acá un amporén! Anton, diç-me acá: i yá me galheste, pori?

    La Cuca, tal cumo la maior parte de las pessonas questuma fazer, nun staba para andar cun rigores de lhenguaige. Senó, an beç de galhar, talbeç dezisse cucar…

    – Tenemos, anton, que tratar disso! – respunde-le l Cuco arregalando ls uolhos.

    – Nun seias ampaciente! Nun bés qu’inda ye cedo demais?! Hai que dar tiempo al tiempo! Solo agora las páixaras mais tempranas stan a trates de fazer l nial! Inda hai que sperar uns dies até q’ampécen cula postura!…

    – Inda que me custe, teneremos, anton, que sperar mais uns dies!

    – L remédio ye cuntinar a bolar pul termo a ber se, cun cachico mais de suorte, damos por ende c’un sítio melhor pa la hospedaige de l nuosso hardeiro i adonde púdamos star mais çcansados. Nun bés qu’estas son tierras de l’Arena i las queluobras i ls lhagartos q’ándan por ende? I, eiqui, tamien nun fáltan raposas! I todos estes bichos son bien capazes de se botáren a chuchar ls uobos ou a quemer la criaçon de qualquiera páixaro!

    – Pus nin habie pensado nisso! Sós bien capaç de tener rezon!…

    Sesta, purmanhana, mal se zanjúan, bólan caras a la Cruzica i al Spino. Ne l cimo de la Cuosta, bíran pa Cabeço l Cuorbo. Dende, subrebolando l ribeiro de la Cabanhona, ban a dar al Ramalhal. Passando al lhado de la Sapeira i antre ls Freznos i la Muola, bán a dar a las Palombeiras. Bolando, apuis, al lhado de l Cabeço de la Raposa i por Balhe de Quadro, chégan al Stante, yá quaije ne ls Malhados, adonde se bótan a quemer, a boer un golo d’auga i a çcansar un cachico.

    De l Stante i de Balhe de l Quadro, subrebolando la marra antre ls termo d’Angueira i de Caçareilhos, caras a la Speciosa, pássan pa Bal Molhado. Quédan, assi, pa trás las tierras i ls lhameiros de l’Arena. Deilhi, bolando antre Trabacinos i l Carrasquito, Ourrieta Morena i Cabeça Gorda, Lhadron i las Lhameiras i al lhado de ls Pertueses, síguen, antre ls Milanos i las Peladas, por donde passa l ribeiro de ls Milanos. Un cachico mais adelantre, cun Cabeça Molhon a la squierda i l Cascalhal a la dreita, yá stafadicos de todo, chégan a la Retuorta, adonde ampeça l camino de Miranda.

    Apuis de matáren la fame i la sede, bótan-se, anton, a drumir, que buntade disso yá nun les faltaba.

    Ne ls sítios por donde andubírun, subretodo ne ls lhameiros de l Ramalhal, de la Sapeira, de la Muola, de las Palombeiras, de Balhe de l Quadro, de Bal Molhado, de Trabacinos i de las Lhameiras, i nas marges de ls ribeiros que, por ende, pássan, abistórun grande bariedade de páixaros, antre eilhes dous qu’inda nun habien bido an ningũa outra parte de l termo d’Angueira: milpiendras i chíncharas que só bírun nas Lhameiras.

    Soutordie, mal çpunta l Sol, pónen-se a pie i bótan-se de la Retuorta até al fondo de la Yedra i, ribeira abaixo, subrebolando las huortas de las marges de la ribeira, antre Cabeço Molhon i Ourrieta Caliente, ban a dar a la Senhora i al fondo de la Cabanhona, adonde l ribeiro cul mesmo nome zauga na ribeira. Claro que nun se demorórun muito tiempo eilhi. Ye que l molino staba a moler uns sacos de trigo i de centeno que dues moças de Abelhanoso, bien madrugadeiras i cada qual ne l sou burro, alhá tenien ido da peto pa moler.

    Bolando, ribeira abaixo, subre la puonte de la Senhora i l Poço de l Canhiço, antre Cabeço l Cuorbo i l Tanque pa la Cabada, antre ls huortos, lhatas i lhameiros de l Múrio i de la Eigreija, l fondo de l Cachon i la Çanca i, riente a las casas, pul fondo de la huortas de Salina i de la Mediana, chégan als Puntones. Passando pulas huortas de l Areal, antre la Faceira de l Prado i la Faceira i subrebolando l’açuda de las Uolmedas, ban a dar a la Faceira de Telhado i a las Antraugas, adonde, cerca dun uolmo, páran pa quemer i matar la sede i çcansar un cachico. Que nin auga, nin moscas, nin atabanos, nin grilhos, nin paixarinas, nin lhibulinas i até marie-tresas le fáltan nas bordas de la ribeira i de la caliendra nin nas beigas antre ambas.

    De tarde, bótan-se por Cabeço la Binha arriba, al lhado de todas aqueilhas huortas de las Uolmedas i de la Faceira, i passando de l Nabalho pa la Canhada, porriba de l palombar, ban a dar als lhameiros de la Francosa i, por eilhi arriba, a Boca ls Balhes. Dende, bíran pa las binhas de l cimo de Boca ls Balhes. Bolando, apuis, antre la Caleija de la Francosa i l Lhombo de las Eiras i al lhado de l Balhe, ban a dar a las Eiras Grandes i als Penhones. Eilhi, páran un cachico para, nun sfregante, dar ũa bista d’uolhos a la poboaçon.

    Mas, ala que se fai tarde. Que, nun sendo tiempo para essas cousas, desta beç, de bistas yá chega. Anton, subrebolando l camino antre l Cuntorno i Ourrieta Caliente, chégan al Pilico de Fuontecinas. Botando-se, apuis, pul ribeiro de Fuontecinas arriba, ban a dar Peinha Ferreira, donde bíran pa la Cortinona i ban a dar al fondo de la Puontelhina, a la peinha adonde yá tenien drumido dues nuites.

    Nesse die, cerca de la ribeira, ciguonhas, pitas d’auga, melros, calandras, guarda-rius, lhabandeiras, reissenhores i inda outros páixaros bírun por eilhi a la farta. A nun ser ls melros i ls reissenhores, que les podien serbir, inda que naquel sítio nó, ls outros páixaros, uns por séren grandes i outros mui pequerricos, nun les serbien para nada.

    Ambora stando a çponer-se, inda se bien ũas racicas de Sol. Yá prontos pa se botáren a quemer, óuben, anton, un moucho a piar. Un cachico mais tarde, pul lhusque-fusque, porparában-se yá pa drumir, ampécan a oubir tamien ũa cruja a piar. Nin un nin outra les parciu star mi loinje deilhes. Assi i todo, la fadiga era tanta que, nistantico, stan yá a drumir.

    Soutordie, sábado, findada la ronda pul termo, puoden, anton, dar-se a la perguícia. Assi i todo, bótan-se a fazer l sou baláncio a ber se dán cun sítio i cul páixaro q’han de scolher pa quedáren a saber l nial adonde la Cuca habie de poner l sou uobo.

    Ampeçando, anton, por falar de ls páixaros que, nessa semana, tenien bido, bira-se la Cuca pa l Cuco:

    – Nun cuides, pori, que qualquiera nial mos sirbe. De todos ls que bimos, inda nin sei an que nial i de que páixaro bou a poner l uobo…

    – Si, lhembra-me de ber la pita ciega a scarbar ũa poça na borda dũa touça pa poner ls uobos. I, nun bonda nun le botar cama, qu’inda nun staba queta culs uobos, andando a mudá-los bárias bezes de sítio.

    – Apenas bou a cair n’asneira de poner l’uobo ne l nial deilha nin de la perdiç, de l paçpalhaço, de la quetobia, de la coquelhada, de la chínchara i inda doutros páixaros q’ándan pul monte, pulas tierras i puls lhameiros ou mesmo na auga!

    – Mas, anton, porquei?

    – Anton tu nun bés que la maior parte deilhes fázen l nial ne l chano, na broça de la borda dũa parede dun lhameiro, dũa cortina ou dũa tierra ou ne l meio de la yerba dun trigal i até nas spadanhas subre la auga de la ribeira?!

    – Si, i que mal hai nisso?

    – Carai, ls machos sodes mesmo chochicos de todo! Nin sei pa que quereis la cabeça! Quaije parece que la buossa ye uoca, que nun ten nada alhá drento i nun fui feita pa pensar sequiera un cachico!

    – Bá, nun te anrezines!…

    – Aton, tu nun bés q’assi, qualquiera queluobra, lhagarto ou outro bicho que beia l nial inda se bota, pori, a chuchar ls uobos ou a quemer ls paixaricos?!

    – Pus tenes rezon… Bonda ber la raposa!

    – Inda te digo mais… Sabes que, mal nácen, ls perdigones i ls paixaricos de l paçpalhaço i de la pita ciega bótan-se para fuora de l nial i ampeçan lhougo a andar i a fugir atrás de la mai? I, se bien calha, ls de la pita d’auga, inda que na auga i a nadar, son capazes de fazer l mesmo!

    – Cumoquiera, niun nial destes páixaros seia de-lei pa l nuosso antento. Pa nin falar d’abutros, nin d’abes de rapinha, de l cuorbo, nin de l pardal, de l stornino i de la andorina, páixaros q’ándan pul pobo. Mas nun te squeças de la palomba trocal, de la rola, de l gaio, de l picanço, de la boubielha, de la pega, de la milpiendra, de l pinche, de la calandra, de l guarda-rius, de la lhabandeira…

    – Tamien ne l nial dalgun de ls q’acabeste de dezir, apenas bou a poner l’uobo…

    – Mas porquei?

    – Uns pónen muitos uobos, outros poucos; uns pónen-los mi grandes i outros mui pequerricos; inda outros pónen-los mais queloridos i mui çfrentes de ls mius; outros antérran-los nun buraco; i inda outros pónen-los an sítios mui altos ou por donde passa muita giente.

    – Tamien nun seias tan eisigente!…

    – Bacatela! Tenemos ye que ber melhor, a la buolta deste sítio, que naide eiqui ben, a ber se damos c’un que seia melhor qu’estes.

    – Ah pus claro! L sítio tamien ye mui amportante. Ye que, cumo yá bimos, nun puode ser adonde steia siempre a passar giente, nin haia muitos bichos; nun seia mui húmado, nin mui seco; i nin mui alto, nin anterrado ou ne l chano.

     

    La scuolha de l nial i de l páixaro

     

    A las bezes, mesmo sin querer nin saber porquei, bolbemos al sítio adonde purmeiro cheguemos. Quando tornamos alhá, quedamos spantados al ber que ye nesse sítio que mos sentimos bien. Fui l que se passou culs cucos, quando, pula terceira beç, fúrun a parar a la peinha al fondo de la Puontelhina.

    Apuis dũa semana de, afadigados nas sues andanças pul termo d’Angueira, andáren a la porcura de l nial dun páixaro para, mais tarde, la fémea poner l sou uobo, ls cucos quaije se squecírun de que, a las bezes, l que mais mos agrada i antressa stá mesmo a la nuossa frente. Nun sei porquei, somos lhebados a oulhar pa l que stá loinje i a nun ber l que tenemos mesmo a la frente de ls uolhos. Será que mos passa, pori, cumo a aqueilhas pessonas q’ándan antretenidas a besitar outros países i que çconhécen grande parte de l sou? Até parece q’ándan a la porcura d’algo que, tenendo-lo an falha, percísan d’anchir alhá drento.

    Nũa besita a qualquiera sítio, hai, oumenos, dues maneiras de ber: ũa superficial i outra an prefundidade. Se la purmeira, sendo de relhance, só dá para ber las cousas pula rama, la sigunda dá pa las ber melhor, dando la atençon debida als pormenores. Assi i todo, coincer mundo nun ye tiempo perdido nin fai mal a naide.

    Acabada la ronda pul termo i bido l que quejírun i les daba jeito ber, ls cucos quédan-se uns dies puls alredores de la Puontelhina, l sítio que sculhírun para acampar. Scusado será lhembrar que, cumo dizen que Dius fizo quando acabou de criar l mondo, tamien eilhes, al sétimo die, percisában i aporbéitan, oumenos l deimingo, para folgar.

    Tenendo yá corrido muito mundo, culas sues buoltas pul termo, ls cucos quédan mesmo zlhumbrados cun Angueira. I nun ye d’admirar nin causo para menos. Ye que, seia pa ls lhados de Samartino, de la Speciosa, de Caçareilhos, de San Joanico, de Çarapicos ou de Abelhanoso; seia mais perto ou mais loinje de l pobo; seia monte, scampado ou praino; seia ne ls lhameiros, huortas ou tierras de cultibo; seia nas de l’Arena ou nas outras tierras; seia nas marges, ribeira abaixo ou ribeira arriba, ou loinje de la ribeira ou dalgun ribeiro; seia ne ls molinos ou nas açudas, an qualquiera lhado, ye todo tan ancantador que l mais defícel ye sculhir. Cun tanta bariedade de paisaiges, dá para qualquiera un passar alhá bien tiempo sin s’anfadar.

    Ne l final d’abril, se, de die, fai sol, nun cuideis, pori, que la caloraça nun s’aguanta. Mas las nuites, ũas anubradas i mais scuras i outras strelhadas i mais claras, son inda bien frescas. De l lhado de Samartino, inda assopra l sieiro, aquel bento que nin culas prumas se dá bida del.

    Nũa abrigada a meio de l fragaredo, la Cuca aporbeita l fenanco i porpara la cama para ambos a dous. Arrimados un al outro, bien acunchegadicos i a la lhuç de l lhunar, alhá s’amánhan i se calécen cumo puoden nas nuites qu’eilhi drúmen. Bá lá que nun stá de gelada, senó, cuitadicos, cumoquiera las passarien meio atrecidos ou até mesmo todos angaranhidos.

    Mas, antrando maio, l tiempo amaina. Assi, alhá ándan ambos a dous d’ala dada por donde calha. Cumo quien nun quier la cousa, cul sou bagar, mas cun oulhar curioso, spréitan ls outros páixaros, a ber s’apánhan algun par mais zaporcatado para, mais tarde, la Cuca, fazendo-se de cumbidada, le besitar l nial i alhá poner l sou uobo antre ls deilhes.

    Çfrentes de ls outros páixaros, mesmo daqueilhes que, andando pul mundo, nun ténen pouso cierto, ls cucos son fuorasteiros an qualquiera lhugar. Assi i todo, bendo ls outros, nun les quédan atrás. Anton, quando les dir na gana, tamien eilhes, nun arrebatamiento ameroso, fazendo dun lhameiro anxobal i de la yerba lhençoles, han de spormentar aqueilha cama berde i fofa.

    I mal serie que nun fússen tamien eilhes petiscando un cachico…

    Nun sendo de se çcuidar nin de çperdiçar l sou tiempo, la Cuca trata, anton, de ls porparos para oumentar la família. Que l Cuco nun era daqueilhes que percisában que les assobiássen pa buer. Apuis de le trazer bien dies a pan i auga, que ye cumo quien diç, a la spera i a refrear ls ánimos un ror de tiempo, la Cuca alhá s’anima i s’amostra pronta pa se botar als rituales amerosos.

    Anton, ũa manhana de sol, bólan, ribeiro arriba, até al purmeiro lhameiro q’ancóntran. I, sin sperar mais, ye mesmo eilhi, na borda por donde passa l ribeiro, que se bótan a brincar, a aqueilhas cuntas que tenien inda que fazer. Bai, anton, la Cuca ampeça a arrepinchar l Cuco. Bendo l qu’eilha querie, anton el pon-se a sfregar las sues nas prumas deilha. I, desta beç, la Cuca nun se fai rogada nin le queda atrás. Apuis dũas bicadicas amerosas del, eilha acruca-se na yerba. Bai, anton, el bota-se a las scarranchinas deilha. I, pa facelitar la cousa, la Cuca lhebanta l rabo i scarrancha las patas. Passado un cachico, abre i stica las alas, dando seinha de star yá sastifeita.

    Riacho 3L ribeiro de la Puontelhina

    Claro que l Cuco, nun sendo de se squecer de la sue oubrigaçon – galhar la Cuca –, andaba cu’esta lhembrança siempre na cabeça. Báh!… se calha, an beç de galhar – qu’isso ye l que l galho fai a la galhina –, cumoquiera serie mais própio screbir cucar. Mas, hábitos son hábitos… i la maneira de falar i de screbir nun deixa de ser tamien un hábito.

    – Até q’einfin!… Andaba acá c’ũa gana! Nun fusses tu tan ciumenta cumo sós i cumoquiera inda… – diç l Cuco.

    – Calha-te alhá sou pantomineiro! Saliste-me acá un criqueiro! Cun tanta deboçon que tenes pula cousa, quien t’oubir há de dezir que só pensas nisso! – anterrumpe-lo la Cuca.

    Cumprida esta oubrigaçon, pa lhá de hospedarie adonde la Cuca poner l sou uobo, inda les falta amanhar tamien hospedaige i hospedeiros pa la criaçon de l hardeiro. Anton, alhá de riba de la peinha, achegadicos un al outro, la Cuca i l Cuco, cumo buonos mirones i cun sou bagar, ban seguindo ls páixaros, q’ándan por eilhi al redor i les spértan maior atençon: un par de reissenhores i outro de melros. Siempre cu’eilhes debaixo d’uolho, çfarçadamente, bótan-se a rondar, por eilhi a la buolta, a spreitá-los. D’oubido i uolho bien listos, çcúitan, stúdan i trátan de seguir, cun oulhar antresseio, l bolo dun par i doutro. Bendo andar ls dous pares siempre por eilhi, inda que cada qual an sou galho, cumoquiera, seran bezinos i staran a cuidar de fazer ls sous niales nó mui loinje deilhi nin un de l’outro.

    Macho i fémea d’ambos ls pares ándan, ribeiro abaixo i ribeiro arriba, chochicos de todo, ambeiçados un pul outro. Assi, l par de cucos assiste, purmeiro, al prenúncio ameroso, apuis, al namorico i, finalmente, a aquel abraço ampetuoso de l macho a las scarranchinas de la sue fémea.

    Deilhi de riba, de l alto de l sou barandin, na spera de quien spreita, çfarçando la eideia que ténen ou l que les bai na cabeça, ls cucos ban botando l’uolho als pares de reissenhores i de melros, inda bien nuobos, que parécen heisitar na scuolha de l sítio adonde fazer l sou sinal: l galho de la uolmeira ou de la freixeira, mais arriba na outra lhadeira ou mais abaixo na borda daqueilha beiga, mesmo al fondo de la barreira, cerca de l regato fino i fresco. Die a die, ban-les seguindo, cun antresse çfarçado. Béien-los, anton, a passar i a parar antre l arboledo de la barreira un cachico abaixo i de l outro lhado de l fragaredo.

    Ne ls dies a seguir, cuntínan por eilhi todos afadigados i, cachico a cachico, cada qual c’ũa palhica, ũa yerbica ou ũa raiç ne l bico. Dous a dous, alhá ándan eilhes na canseira d’amanhar l sou nial: a antrelhaçar ls ramicos, las yerbas i raízes, a poner las prumas i a amanhar la cama. Até que la obra steia toda feita: sigura, bien amanhada, cumpleta, purfeita.

    Acabado l trabalho, ũa tarde cada un de ls pares arreda-se de l sítio adonde questuma parar. Anton, ls cucos bólan de la ribanceira pa la touça na barreira de la outra marge, quaije apegada al ribeiro. Poulando de galho an galho, bótan-se a ber se dan cul nial que, ne ls últimos dies, un i outro, por eilhi, tenien andado a trates de fazer. Spreitando antre ls amineiros, las uolmeiras, las freixeiras, ls spineiros i las silbas al fondo de l arboledo, mesmo adonde ampéçan las fróncias de l meio de la bara maior dũa freixeira, dan cul nial de ls melros. Un cachico mais abaixo de la barreira, antre ũas fróncias de carbalho, de frezno i un spineiro, arrodiado i tapado por ũas silbicas, alhá stá l nial de ls reissenhores.

    S’un home se ponisse eilhi a ber ls niales de ls dous pares, anquanto la altura d’l de ls melros le darie talbeç pul peito, l de ls reissenhores nin pula cinta le darie.

    Ponendo-se a spreitar i a ber melhor l nial de ls reissenhores, diç la Cuca:

    – Que guapa casa! Que rica morada! Airada, sigura, houmilde, mas de tan buono gusto! I que buona custruçon! Stá mesmo de-lei i cumo debe ser!

    – Pus tu ye que sabes!… Se ye l que mais te agrada, ye este que mos antressa!

    Cu’aquel modo própio de quien nun quier la cousa, l par de cucos, fingindo-se zantressados, ban porparando la rateira. Mas aguárdan, sin priessas, l bagaroso passar de ls dies. Çfarçadamente, ban-se, anton, arrimando un cachico mais a cada qual de ls dous pares pa ls spreitar, seguir, studar i çcuitar melhor i, assi, scolher bien l albo que tenien an bista: nin mais nin menos que l casal de reissenhores, inda bien nuobos i, que, por eilhi, ándan. Eilha na postura de ls uobos ne l nial, pa lhá i un cachico abaixo de l fragaredo, mas al redor de l ribeiro, i el a fazé-le cumpanha.

    I, antre bicos, l Cuco comenta:

    – Oulha que nin un nin outro son nada desaires!

    – Desaires?! Oulha que tu!… Mas tu biste bien? Son mas ye bien pimpones i eilegantes! Biste bien aqueilhas prumas? Que guapa bestimenta! I, anton, cantar!… Cántan que ye un primor!

    – Ténes rezon! Ye mesmo un casal cumo este que mos fai falta!

    – I biste bien la purfeiçon de l sou nial? Acá para mi, cumo este, deficelmente, ancuntraremos outro par!

    Ls cucos ban acumpanhando l poner de ls uobos, un a un, que spréitan antressados. Ambréian l sou tiempo. Regístran hábitos, rutinas, ritmos, tiempos i mobimientos. Bótan-se mesmo a adbinar yá l resultado. I, antes que la fetura mai abanque an casa – quier dezir, ne nial –, i, ampeçando l chuoco, quede de quarentena, l par de cucos spera pul tiempo cierto. La Cuca dá-se, anton, de cunta que, indas que por un stantico, l nial stá sin naide i sin begiláncia. Toda sorrateira, bota-se, anton, até lhá i força l’antrada. De patas abiertas subre las bordas de l nial, de ls trés uobos q’alhá stan, chucha un i pon outro. Nun ban, pori, ls duonhos çcunfiar de la marosca, çfarça l sou uobo antre ls outros dous de reissenhor.

     

    La criacon de l morgado

     

    Nun sendo pais znaturados, ũa beç ou outra, ls cucos ban spreitando i dando ũa oulhadela al nial adonde, bai yá para uns dies, la Cuca puso l uobo. Sin dáren nas bistas, míran l chuoco de la hospedeira. Ye que la Cuca andaba cismada na eideia de que la mai adotiba, nun sendo de subreciente cunfiança, fusse, pori, çcuidar-se ne l chuoco de l’uobo i na criaçon de l sou filhote. Mas, bendo todo l qu’eilha fai, admira-se de star siempre ne l nial. Cumoquiera, l macho le traga l çubiaco para eilha s’alimentar i, assi, nun tenga q’anterrumper l chuoco i stragar todo.

    – Anton, yá se te tirou la cisma de la cabeça? – pregunta-le l Cuco.

    – Si, agora que bi cumo eilha fai, stou bien mais çcansada!

    – Anton, tenemos q’amanhar maneira d’acupar l tiempo!

    – I se, cumo qualquiera fuorasteito, fússemos a ber melhor l q’hai pul termo?

    – Pul termo i pul pobo… qu’inda quaije nin bimos nada! – acrecenta el.

    – Si, que star eiqui i nun ber la poboaçon ye quaije, cumo diç la giente, star na eigreija i nun ber ls santos ou ir a Roma i nun ber l papa.

    – Assi, siempre mos çtraímos mais un cachico i tamien nun mos riende tanto l tiempo…

    – I siempre teneremos que cuontar als nuossos cumpadres, q’ándan por outros lhados, bien loinje d’eiqui… – diç la Cuca.

    Cumbencidos que l’amanhórun un sítio siguro, hospedarie i hospedeiros ciertos pa la hospedaige i la criaçon de l sou hardeiro, anquanto aguárdan que naça, déixan-se de coutelas. Sin qualquiera preacupaçon, passéian, sáltan, cántan i adbírten-se pulas lhadeiras, barrancas i beigas de l ribeiro i por outros sítios de l termo. Que ls pais adotibos, sin se dáren de cunta, i, inda porriba, de grácia, cuidaran del cula maior dedicaçon de l mundo.

    Bótan-se, anton, a bolar por donde calha i les dá na gana. De manhana, puls montes, tierras i beigas al redor de la peinha; pul meio de l die, toca a caçar nas beigas de las fuontes ou de las marges de ls ribeiros i a petiscar i a regalar-se c’uns bechicos que son mesmo un mimo. Cun gusto refinado, aprecían la lhambarice. Yá de papo cheno, bótan-se a drumir la séstia nũa selombra fresca, que yá fai calor. Se calha de stáren cerca dun filico d’auga fresca, aporbéitan p’amansiar la sede, a ber se l’auga les dá tamien ũa ajudica ne l trabalho de l papo i a la tripa. A las bezes, antreténen-se a arrepinchar-se i a refrescar-se. A meia tarde, ban até ũa touça ou ũa carrasqueira i el bota-se a cantar al zafio cun outros cucos. A la tardica, alhá tórnan pa passar la nuite na fraga de la Puontelhina.

    Tanto na ida cumo na buolta, la hospedeira alhá stá a chuocar ls uobos. Quédan, anton, inda mais çcansados. Assi i todo, a las bezes, quando calha de stáren por eilhi, la Cuca inda bai botando un uolho na hospedarie, pa s’assigurar que tudo bai bien i stá cumo debe ser. Antressados ne l calecimento, acumpánhan l germinar de l sou rebento. I nun s’apouquéntan. Aguárdan, pacientemente, pul nacimento del, que, bagarosamente, bai crecendo drento de l uobo. Que la sue beç nun há de tardar. Até q’ũa manhana, dando-se de cunta que la hospedeira saliu un cachico, ponendo-se a spreitar, béien, anton, un paixareco a remexer-se todo ne l nial. D’uolhos cerrados i sin prumas – qu’inda só tenie pelo malo –, bira-se para un lhado, bira-se pa l’outro i tantas buoltas dá que, deilhi a cachico, un de cada beç, bota para fuora de l nial la cuncorréncia: ls outros dous uobos que ls filhos legítimos de ls reissenhores inda nin picórun pa podéren salir de la casca. Arrimando-se mais un cachico i bendo ls outros uobos sborraçados ne l chano, quédan cula certeza: de la niada, só restra l sou filhote, l berdadeiro rei i senhor daquel nial.

    Nada les pesa na cuncéncia, nin a eilha, nin a el i, inda menos, al çacanica – que, sendo bichos doutra natureza, niun deilhes ten fraquezas dessas. Diç aton la Cuca:

    – Oulha, que se zunhássen! Fui-les bien feita! Quien les manda ser tan amperrunhados ou mandriones!

    Talbeç ls hospedeiros stubíssen a la spera que l nacíssen mais filhos. Mas, agora, solo se ressucitáren de l chano, para donde l purmeiro a picar la casca i a nacer atirou culs outros uobos. Assi i todo, nun çcunfían de nada. Trátan mas ye de l’anchir aquel papo sfameado al danhadico.

    Buono apreciador de l que ye buono i ls hospedeiros nun le déixan faltar, bonda-le abrir l bico a las lhambarices que le pónen na mesa – que ye cumo quien diç, le bótan na bordica de l nial – ou le lhieban a la boca. I cumo se regala l quemilon cul çubiaco que, prontamente, a horas ciertas i bárias bezes al die, ls pais adotibos le ban botando ne l papo.

    – Casal probezico, cumo se bei! Mas lhimpico, smerado, trabalhador i preacupado cul bien-star de la decendéncia! Luxos, nin bé-los, que nun son cu’eilhes! – diç la Cuca.

    – Q’oumenos, nun les falte l pan de cada die! I que Dius lo acrecente!…

    Ne l final de maio, agora que yá naciu l sou pimpolho i l tiempo yá stá caliente, bótan-se de cuntas que, sendo el de buona raça i, tenendo ls hospedeiros que ten, nun le ban a faltar todos ls cuidados i quemida a tiempo i horas i a la farta. Bai, pus anton, a tener buona criaçon.

    Nun tenendo que se relar cun nada, toca, anton, de s’adbertíren un cachico mais por donde calha.

    Hai, oumenos, dues rezones para s’ir a qualquiera lhado: an trabalho ou de besita. Quando se bai an trabalho, nun dá para ber quaije nada. Mas, se ye de besita, la cousa muda de figura pus nada mais hai que fazer. Anton, quando, pula purmeira beç, ls cucos passórun puls bários sítios para ber l termo d’Angueira, nin tiempo tubírun para oulhar an redor. Mas, agora, que tiempo lhibre nun les falta, ándan ne l sou fai que fai i stan eilhi pa s’adbertíren, que trabalho ye só ber l de ls outros.

    Mas, desta beç, andando ne l sou fai que fai, de la Puontelhina, bótan-se por Peinha Ferreira, Cuntorno i la Senhora pa Cabeço l Curbo; de l cimo de la Cuosta i de la Cruzica, por antre l Spino i l Ramalhal, pássan pa la Sapeira; dende, por Peinha Buieira na Stebica, l Chapeirón i Lhatas de l Meio, ban a dar al alto de Peinha la Bela. Pul camino – que ye cumo quien diç, de l’aire –, al passáren na Lhagona i na Stebica, adonde las tierras stan d’arada, béien un ou outro home, agarrado al arado i atrás dũa junta de bacas ou pareilha de béstias, al redor de las fragas, a bimar sues tierras. Mais adelantre, nũa touça de l Chapeiron, que pega cun Balhe de l Quadro, abístan tamien un ganado, culas canhonas todas çquiladas, amorrado ne l steio.

    Yá an Peinha la Bela, nun abistando niun gabilan por eilhi a bolar, quédan mais çcansados i déixan-se de quaisquiera cuidados.

    Cumo l própio nome eindica, Peinha la Bela ten ũa fraga grande i ye un de ls sítios mais guapos de l termo d’Angueira. A seguir als sierros, ye tamien un de ls sítios mais altos i cun mais buonas bistas.

    Anton, de riba de la fraga mais alta por donde passa la marra de l termo d’Angueira cul de Caçareilhos, la Cuca bira-se pa l Cuco i pergunta-le:

    – Yá biste bien l que s’abista deiqui?

    – Si, bei-se até mui loinje: tierras, sierras i montes todos bien guapos!…

    Deilhi de riba, fuora ls montes de Abelhanoso, Samartino, Cicuiro i Custantin, por donde passa la raia de Pertual cun Spanha i que nun déixan ber mais pa lhá, todo al redor, la bista alcança un ror de tierras i montes de ls cunceilhos de Miranda, Mogadouro, Bumioso, Macedo i de Bergáncia i até de Spanha: caras a naciente, la Speciosa, l Naso i outras tierras de la Pruoba, de Cicuiro, la Senhora de la Lhuç an Custantin, de Infainç i até Paradela, todas de l Praino Mirandés; las sierras de Mogadouro i de Bornes, mais a sul; las sierras de Nogueira i de Muntesino, a poniente; i, pa trás de l monte adonde stá l castielho d’Outeiro, la Sierra de Sanábria, an Spanha.

    A meia tarde, bólben pa la fraga de la Puontelhina. Ls dies a seguir pássan-los por eilhi a la buolta. Mas nun se squécen de ir spreitando cumo bai l sou pimpolho. Bendo-lo bien nutrido i cada beç mais crecidote, quédan todos cuntentos.

    Yá perdiu l pelo malo i las prumas bán-le crecendo. Malhadas de castaneho i branco, scurécen cada beç mais. Çfrentes de las de ls outros pais que le stan a criar. Cuidando que seia sou, nin assi, stránhan ou çcunfian de nada. Mas nun admira, que son quaije analfabetos. De tanto amor i proua i tenendo solo aquel pimpolho, ándan mesmo ciegos de todo. Bien tratado, fuorte i rechonchudo, l morgado dá nas bistas a qualquiera un i stá, cumo cúidan ls pais de criaçon, quaije un reissenhor feito. Nin pula cabeça les passa que l que les saliu na rifa fui mas ye un buono melro! Mas, q’han de ber eilhes, que, quando pequeinhos, naide les mandou a la scola!

    Ne l ampercípio de junho, na eideia de béren bien la poboaçon, ls cucos, bótan-se até las Eiras Grandes, adonde cumoquiera seia eilhi l meio de l termo d’Angueira. Cumo inda mal ampeçara la segada i habie que sperar inda alguns dies pul acarreio i la trilha, solo eilhi hai uns restros de medeiros de palha inda de l anho atrasado. I, de ls Penhones, pónen-se a oulhar al redor.

    Mesmo dando-le l Sol de frente, que marabilha de spetaclo ber aqueilha lhina de l’hourizonte, i, abaixo deilha, aqueilha bacia zenhada pula purmeira cadena de montes al redor: Cabeço Molhón, Cabeço l Cuorbo, Cruzica, las Eiricas i Cabeço de la Binha; al fondo deilha, la ribeira i las huortas de las marges; a seguir i inda mais perto deilhes, la poboaçon! Deç la Cabada, passando pul Múrio, la Çanca, la Salina, la Mediana, l Areal i la Faceira até las Uolmedas, la ribeira parece ũa buolta fina i brilhante a anfeitar l peito de la poboaçon.

    Agora que stan cun tiempo, pónen-se tamien a ber l casariu d’Angueira: de l cimo al fondo de l pobo; l Balhe, las Scaleiricas i l Ronso; la capiellha i l Lhargo de Sante Cristo; las fuontes de l Balhe, de l Pilo i de la Eigreija; ls huortos i huortas de l Balhe, de l Pilo, de l Cachon i de la Çança; de l cimo al fondo de Saiago, ou seia, de la capielha de San Sabastian, passando pul Lhargo de Saiago, até al Sagrado i a la Eigreija.

    Assi i todo, deilhi de riba, nun dá para ber todo l casariu: de Sante Cristo, nun se béien las casas de la Beiga de l Casal i de la Mediana; de las casas de la Salina, la Çança i l Cachon, solo se béien ls telhados; i, de las de Saiago, ralas son las casas que se puoden ber. Mais loinje, l monte de l Pandon, l Sierro de San Joanico, l Sierro de ls Malhadales, la Gralheira, l Cabeço de la Quecolha, la Chana i l alto de l Milho i de l Rodelhón fórman la sigunda cadena de montes al redor d’Angueira. Fuora antre ls montes de la Gralheira i de la Quecolha, donde s’abista Santa Marinha, de la poboaçon i pa lhá deilhes, nada mais déixan ber.

    Sendo yá fin de tarde, tórnan para casa, que ye cumo quien diç, pa la fraga de la Puontelhina. Inda antes de se botáren a drumir, ban a spreitar l sou pimpolho. Lhambareiro cumo el ye i nun le faltando mimos nin quemida buona i a la farta, l rebento alhá bai, demorada, mas siguramente, crecendo cada beç mais. Stá tan grande i bien tratado que yá mal cabe ne l nial.

    Que suorte purfeita! Cuntinar la spece sin canseiras nin tener que cuidar de la decendéncia. Bonda spreitar l’ouportunidade, porparar l golpe i fazer la marosca: ancuntrar hospedeiros ciegos i simpricos, antrar-les an casa, sin dar nas bistas, poné-los a trabalhar por nuossa cunta i, inda porriba, sin tener que les pagar nada. Que han de cuidar de la cria cumo se fusse sou filho legítimo. Assi, ye que ye! Saber aporbeitar-se de l’einocéncia de ls outros! Cumo ye purfeita l’anteligéncia! Apuis, ye antrar de çcanso i gozá-lo cumo debe ser. Que, de l trabalho, outros se han de ancargar! Ye assi, deç que hai mundo, deç la criaçon de l purmeiro páixaro, s’algũa beç houbo un purmeiro. L mundo ye de ls spiertos i spabilados. Ls outros, que nun séian mandriones i trabálhen! Nun fázen mais que la sue oubrigaçon! Que mais han de querer do que serbir? Até les queda bien! I nun les há de faltar fetura recumpensa! Que se sfórcen i se dánhen! La deciplina siempre quedou bien als páixaros trabalhadores. Cumo queda bien la buona bida a aqueilhes que, cun anteligéncia suprior, amóstran merecé-la, cumo les parece ser l causo.

    Passados mais uns dies, nũa manhana bien caliente de l meio de junho, ls cucos bótan-se, ribeiro arriba, até l fondo de Bal de Conde i, deilhi, pa l cimo de ls lhameiros de Belharino. Nun lhameiro de l meio de l balhe de la Puontelhina, anda ũa manada de bacas i un burro a pascer. Un cachico mais arriba, nun de ls que stan guardados i cun buona yerba, páran un cachico nun galho de la corona dun frezno i, todos calhadicos, pónen-se a ber un gadanheiro a trates de l segar a la gadanha. Yá cun trés baranhos cumpletos, segados de punta a punta, cuntina el, de baixo a riba, a sgadanhar meio baranho. Apuis de birar, mas inda antes d’ampeçar a sgadanhar para baixo, saca de la piedra de smeril de l frasco de cuorno, que trai çpindurado de la cinta, i bota-se a aguçar la gadanha. Cula punta de l cabo ne l chano i la fuolha de la gadanha pa riba, passa bárias bezes la piedra, purmeiro, por un lhado i, a seguir, pul outro, até quedar bien aguçada. I nun admira que quede, pus, na tarde passada, la tenie stado a picar. Apuis, bota-se outra beç a sgadanhar, de riba a baixo, a cumpletar l baranho. I nun se çcuida, que la manhana stá mui caliente, i, pul meidie, de tanto sforço, l cuorpo cumoquiera le pedirá çcanso.

    Inda mais arriba, nun lhameiro de Bal de Conde, béien un mocico, cula sue spalhadeira, que, baranho a baranho, bai strampalhando la yerba pa, soutordie, la birar para qu’eilha seque cumo debe ser i, apuis, se poder arreculhir l feno ne l palheiro.

    Se calha, an beç de palheiro, serie mais acertado chamar-le feneiro. Mas, arrecáden alhá palha ou feno, ũa pa l botar de cama nas loijas i ũa i outro na manjadoura para acomodar las bacas i las béstias nas nuites d’eimbierno, ye palheiro que las pessonas le cháman.

    Ne l ampercípio de la tarde, yá an Belharino, nun de ls lhameiros de riba, que pega culs de Samartino, anda ũa família toda afadigada a cargar un carro de feno: un mocico i un garoto, cada qual cun sue spalhadeira, a ajuntar l feno de ls baranhos als muntones an dues fileiras de ganchadas, ũa dun lhado i outra de l’outro, de modo a que l carro passe pul meio, antre eilhas; l pai, cula spalhadeira carregadeira, a bendear ũa ganchada de cada beç pa riba de l carro; l filho mais bielho, an riba de l carro, a sigurar, amanhar i ancalcar las ganchadas i la carrada; atrás de l carro, anda la mai cul rastro, que parece un pende, a arrebanhar, ajuntar i a arrastrar l feno que bai quedando para trás, pa l home le botar pa riba de l carro. Bendeadas las ganchadas de cada lhado i a todo l cumprimento de l carro, l’home chama la junta de bacas pa l carro abançar pa las outras mais adelantre. Cargada la carrada, toca d’arratar i apertar, de la frente para trás i cruzar, apuis, de lhado a lhado, las lhúrias pa que l feno nun se perda i la carrada, culs solabancos, nun se sbarrulhe, pori, pul camino i nun chegue cumo debe ser al palheiro.

    – Mas que raio de trabalheira! – diç l Cuco.

    – Oulha que, pa lhá de l trabalho, hai inda que ber que cargar un carro de feno tamien ten la sue ciéncia.

    – Nun me digas!… Mas que raio de ciéncia será percisa pa fazer essa cousa?

    – Nun cuides, pori, que amuntónan i carrégan l feno cumo calha. Antes de mais, hai q’ajuntar l feno de ls baranhos, arrastrar las sobras i fazer dues fileiras de ganchadas, passando apuis l carro pul meio deilhas. Anton, l carregador ten de bendear, ampeçando de la frente para trás, ũa ganchada de cada beç para un de ls lhados de l carro; apuis, outra pa l outro lhado; a seguir, outra pa l meio i subre las dues purmeiras; i, atrás de las trés purmeiras, carrega outras tantas, cuntinando a fazer l mesmo até la traseira de l carro. I l moço q’anda an riba de l carro bai amanhando i ancalcando l feno. Assi, la carrada queda eiquelibrada i l feno nun se cairá pul camino.

    – Pus nin tenie pensado nisso. Claro que la carrada bai quedando cada beç mais grande até tapar las bacas, que, cuitadicas, mal se béien! I apuis, pul camino, culs trambolhones de l carro, la carrada nun se strangalha i l feno nun cai i se stranpalha pul chano?

    – S’oulhares bien pa l carro, berás que, por baixo de l feno i subre l rodado, ten la teceda, adonde ancáixan ls stadulhos i las canhiças. Antriçada i stribada nestes, que la sigúran, i subre la teceda, hai ũa gancha. Assi, la carrada bai de la punta de la cabeznalha, que stá atada pul sobeio al jugo de las bacas, até mais atrás de la teceda, adonde acaba la gancha. Cu’esta, que le fai oumentar, l carro queda mais cumprido i fai ũa grande carrada de feno. Assi i todo, apuis de cargar la carrada, l’home inda le dá ũa pendadela cul rastro.

    – Por isso, la carrada ye tan grande! Nin sei cumo cabe i passa puls caminos mais streitos i cun mais piedras sin se strampalhar! Se calha, ye por lhebar tanto peso que, por todos ls lhados de l termo, s’óuben tantos carros a chiar!

    – L peso ye tanto que, subretodo, se l camino ye a chubir, a las bezes, las bacas béien-se mal pa dar cunta de l recado. Nun te squeças q’ũa carrada de feno ten par’ende mais de siete metros de cumprimento, quaije trés de lhargura i d’altura, ancluindo l rodado. Por bias disso, las bacas lhíeban muito peso.

    – Nun sei cumo ye que tu sabes estas cousas todas! – diç l Cuco.

    – Pus, l’anho passado, bi cumo fazie la giente doutros pobos! Spero tener bido bien i que nun steia anganhada!

    Assi i todo, ls cucos nun se squécen de, oumenos dues bezes al die, ũa de manhana, antes de salíren, i outra pula tarde, apuis de bolbéren pa la peinha, dar ũa spreitadela al nial para ber cumo bai l sou pimpolho.

    Bien tratado i cada beç mais inchado, l filhote stá quaije un atleta! Yá maior que la mai adotiba, que le ten criado, mal cabe ne l nial. Çfrente de ls filhos de ls reissenhores bezinos i doutros niales, que son bien mais amperrunhados i ruinicos qu’el, nin assi ls pais adotibos çcunfían de nada. De buona lhinaige, l hardeiro, cada beç mais matreiro i cantador, há de fazer justícia a la fama, que yá ben de loinje i há de cuntinar. Que, cumo la giente diç, quien sal als sous nun degenera.

    La bida bai cuntinando naqueilha caminada campestre, bagarosa i sin cumplicaçones. A las bezes, l filhote stende l suonho lhargo i calmo. Mas, mal sperta, ampeça a botar un arremedo de cantilena que subressalta i quaije spanta la paixarada de la bezináncia. Cumo se tubisse algũa grácia, pon-se a spormentar aqueilha boç de canha rachada. Zalmada i afincadamente, fai, anton, que canta. Hai quien l’ambeije la zambuoltura de la boç, que nó l timbre. La moda, que ye pouco bariada, nun sperta buonas eimociones nin grandes ambeijas. Na oudiéncia hai, anté, quien s’anraibe, apouquente i zatine cula zarmonia de la fuga, cun aqueilhes gritos tan afinados que parécen ũa pieça de música dodecafónica, quaije cuncreta. Cun toda la rezon, ténen miedo que les sperte, spante i afugente ls garotos mais pequeinhos.

    Mas ls cucos nun son bichos de se dáren al çprézio nin stan eilhi para aguantar oufénsias. Nin acéitan zaforos de naide, que nun son cousas de se lhebar para casa. I nun son bichos pa zarmar. Pus que tápen ls oubidos! Se calha, querien ũa balada, nó?! Quien sabe, ũa sinfonia ou mesmo ũa ária?! Houmessa! Pus que se cunténten cul q’óuben, que ye de grácia!

    Nũa tarde de l ampercípio de julho, indo a bolar por eilhi arriba, quaije sin çtino, ls cucos páran na touça de la borda dun de ls lhameiros de l cimo de l Rodelhon. Deilhi a cachico, nũa senara de trigo, ampeça-se a oubir un home i la sue tie a cantar la “Dona Ancra”, ũa moda de la segada. Para andáren a segar assi tan animados, cumoquiera tenien acabado de drumir la séstia. Si, qu’era questume, pula maior fuorça de la calor, ls segadores botáren-se a la janta nũa selombra i, apuis, a drumir i çcansar un cachico.

    Quando ls segadores se cálhan, ls cucos quédan inda mais un cachico a bé-los, deilhi de riba, a segar l trigo. L home, la tie i dous filhos – un moço i ũa moça –, cada qual cun sue sucada – ye cumo quien diç, lhebando cada un trés sucos dũa beç –, dan a la fouce pa segar l trigo. A la frente de todos bai l pai, que, cunsante dá trés fouçadas – ũa an cada suco – cumpleta l manhuço que bota na gabielha q’ampeça a fazer na parte de l restrolho que bai quedando atrás del; a seguir, l moço bota ls sous manhuços i cumpleta, assi, las gabielhas de la sucada de l pai; apuis del, bai la mai que bota ls sous manhuços nas gabielhas que bai fazendo atrás deilha; i, atrás de todos eilhes, bai la moça que bota ls sous manhuços i cumpleta, assi, las gabielhas de la sucada de la mai. Chegados a la punta de la sucada, bíran todos a segar al cuntrairo. Cul corte de las fouces yá melhado, inda antes d’ampeçar nuoba sucada de riba para baixo, l pai pega na piedra aguçadeira i, ũa a ũa, pon-se a aguçar las fouces de todos deilhes. Cumo stá grande caloraça, todos aporbéitan pa buer un jarro d’auga de l cántaro, que stá eilhi, a la selombra dun carbalho. Apuis, bendo quatro fileiras de gabielhas yá segadas, anquanto la tie i ls dous filhos cuntínan a dar a la fouce, l’home lharga la fouce i bota-se a atar l pan. Agarrando gabielha a gabielha, junta cinco ou seis até anchir ls braços i, apertando bien a buolta cada braçada cula grinheira, anrosca la palha que sobra a la buolta de las spigas deilha i ata l manolho. Mal acaba de l’atar, l garotico, q’anda atrás del, dá-le outra grinheira de centeno pa fazer outro manolho. De seguida, cuntina a spipar las spigas de centeno de l manolho acabado de fazer i saca outra grinheira.

    Cun toda aqueilha caloraça própia de l més de julho, ponei-bos na piel de ls segadores i eimaginai la canseira que nun serie star de l çpuntar até al çponer de l Sol, fuora l tiempo de quemer i de sestiar, todas las outras horas de l die i, eiceto deimingo, todos ls outros dies de dues semanas a dar a la fouce.

    – Bó! Afinal, stan a segar trigo ou centeno? – pregunta la Cuca.

    Birando-se para eilha, l Cuco diç-le:

    – Nun cuides, pori, que só tu ye que sabes destas cousas! Oulha que, l’anho passado, noutro pobo que nun ye mui loinje deiqui, you stube atento i bi cumo fazien.

    I splica-le, anton, porquei:

    – Ye mesmo ũa senara de trigo. Sabes que la palha de trigo ye mais pequeinha, rija i stalhadiça que la de centeno. Cuido que ye por isso que fázen las grinheiras cun centeno.

    Cumo nunca biu todo, nun admira que l Cuco nun saba splicar-le bien cumo se passa la cousa. Tengo, anton, que bos dezir, qu’inda antes d’ampeçar la sementeira, al joeirar l trigo que ye para sembrar, las ties déixan-le quedar uns granos de centeno alhá pul meio. Por essa rezon, an qualquiera senara de trigo, béien-se, porriba del, alguns pies i spigas mais altos, que son de centeno. Assi i todo, nun habendo centeno subreciente na senara, l atador ten q’atar l pan cun grinheiras de trigo. Hai, anton, que sacar dues grinheiras de trigo i anxertar  ũa na outra.

    Deilhi a cachico, pa zanferrujar la boç, l Cuco bota-se a la sue cantilena:

    – Cu-cu!… Cu-cu!… Cu-cu!…

    Acreditando que cada “cu-cu” serie eigual a un anho, cumoquiera, la moça que staba a segar, solo para eilha i naide çcuitar, tenga preguntado: “Cuco de la carbalheira, quantos anhos me dás de solteira?” Ye que, oumenos na eideia deilha, quanto mais bezes l cuco cantar “cu-cu”, mais anhos la moça tenerá que sperar pula sue beç pa se casar. Bá lá qu’el nistantico se cansou. Oulhai que las moças acredítan an cada cousa…

    Pul meio de julho, yá toda la giente anda a trates de l acarreio de l pan de las tierras pa las Eiras. Un die, pul meio de la manhana, de la Puontelhina i oulhando caras a la poboaçon, ls cucos abístan un home i un moço an riba dun carro de bacas mesmo a chegar al cimo dũa tierra de la Cortinona. Passado un cachico, béien-los a arrimar l carro a la meda na parte mais alta dessa tierra. L home an riba de l carro i l moço ne l chano, ampéçan, anton, a cargá-lo. Manolho a manolho, l moço bai-les botando de la meda pa riba de l carro, adonde sou pai ls bai amanhando, ancalcando i, assi, cargando l carro. Yá cula meda a mais da meio i l carro cun mais de meia carga, l moço pega nũa staca pa botar ls manolhos qu’inda réstran na meda pa riba de l carro.

    Cargados todos ls manolhos, l rapaç pon-se a la frente de las bacas i, de la cabeznalha, pega i atira las angrideiras pa l pai que, de riba i pula parte de trás de l carro, abaixa por eilhas. Apuis de las apertar bien apertadas, de frente para trás, i de arratá-las, la carrada queda pronta pa seguir pa las eiras. I, cuitadicas de las bacas, alhá ban eilhas a puxar l carro, cargadico de manolhos i a chiar, a camino de las Eiras Grandes.

    Ls cucos bótan-se tamien a camino – que ye cumo quien diç, a bolar. Mal chégan a las Eiras Grandes, quédan zlhumbrados cul mobimiento i la acupaçon que, bien çfrente de las outras bezes q’alhá tenien stado, eilhi bai. Son fileiras i fileiras de bornales de l cimo al fondo de las eiras: uns dun lhado i outros d’outro; uns maiores i outros mais pequeinhos; son carros i carros, uns a salir i outros a chegar; i la trabalheira de toda aqueilha giente a çcargar ls manolhos de cada carrada pa l bornal. Se, ne ls dies a seguir, tornássen alhá, beríen cada bornal a crecer de die para die i las Eiras Grandes inda mais chenas deilhes. Se, an agosto, stubíssen inda por Angueira i tornássen alhá, berien, anton, un ror de giente a trates a la trilha.

    A nun ser, nun ou noutro die de caloraça, que se bótan até als montes, als lhameiros i a las huortas de Terroso ou de la Yedra de las marges de la ribeira, na maior parte de ls dies a seguir, ls cucos quédan por eilhi, antre l cimo i l fondo de la Puontelhina, a la selombra, a ber i apreciar las halbelidades de l sou hardeiro.

    La mai i l pai adotibos de l morgado a la fuorça ándan tan cuntenticos que dan grácias a Dius por les restrar aquel pimpolho. Un cachico mal ancarado, lhaganhoso, mormoso i bronco, ye berdade. Mas la bida ye mesmo assi… Nun se puode sperar que Dius mos dé solo filhos queridos i pimpones. Que, milagres, son, hoije an die, ũa raridade, cousa que yá mal se bei! Que, tamien a estes, yá les toca tener de spormentar ls bentos de l’adbersidade, la cuncorréncia zlial de tantos paganismos.

    Ne l sou comodismo ouportunista, l pimpolho alhá bai crecendo. Todo rechonchudo, nada parece cair-le mal nin anchir-le l papo i poné-lo sastifeito. Ten acá un apetite capaç de quemer un bui. De tan gordo que stá, ls criadores inda se lhémbran de le cuidar de la dieta i de l’acabar culas lhambarices. Mas, qual quei!… Son alhá capazes de le negar ou tirar qualquiera mimo que seia. Rejistindo, nin sequiera l coraçon ye capaç de seguir l que le dita la rezon. Quien sabe s’el un die nun ancontra ũa fémea, s’ancanta por eilha i le dá la proua! Puode ser q’aton se ponga a cuidar de l cuorpo, a baixar la barriga i a amanhar melhor la catadura…

    L pantomineiro merece-les ls maiores cuidados. Alhá cuntínan eilhes culs sous ancantamiento i cegueira. I nin amóstran qualquiera çcunfiança pula bestimenta – que nin siempre ls filhos se bísten ne ls mesmos sítios i questureiros de ls pais, pus gústan d’andar siempre mais na moda! –, nin mesmo pula corpuléncia – que las nuobas geraçones son cada beç mais fuortes i altas! Talbeç debido als maiores cuidados de sous pais i a la alimentaçon mais rica i bariada! – nin mesmo até pula cantilena que quaije ambergonha i deixa mal ls criadores! Einfin!… Naide ye purfeito! I quien sabe se l morgado nun há de benir a tener ũas liçones de solfeijo! Solo para ber s’amanha la boç i la cantilena! Todo bai mesmo de feiçon pa l morgado.

    Santa einocéncia! Tre­tas! Ç­cul­pas! L fi­lho d’ampréstimo, bien abon­a­do i todo re­ga­lado, nun bota fé a cun­tenén­cias: “Gordura ye fermosura! Eile­gán­cia, para quei?”

    Apo­rbeitando l tra­balho di­á­rio de ls criadores, siem­pre afadigados i na­quel ei­cesso de canseira, l pantomineiro, que dá bien nas bistas, bai a­lhongando, quanto puode, la lhe­tar­gie. I nun le pesa qual­quiera re­morso na alma ou na cun­cén­cia. Que nun ye bi­cho dado a esses des­pa­ra­tes i fra­que­zas! As­si, ye que la bida bai bien! Cama, mesa i roupa lha­bada!…

    Sous pais de berdade, de loinje a loinje i a la ctáncia, ban acumpanhando i apreciando las halbelidades de l hardeiro. Crecendo-le la proua cun tantos dotes, adbínan-le un feturo que pormete. Para mais, quemida a la farta, bariada i a horas, nun le falta; lhimpo qu’ye un brinquinho; eiducaçon smerada; mimos, tamien nun le négan! Todo quanto de melhor hai na bida! Que mais han de eilhes querer? Hospedeiros assi, cumoquiera, inda ls ban a recomendar a sous parientes i amigos.

    Que sous pais adotibos se cuiden i se póngan a palo, que l çacana pormete. Sabe el yá mais de la bida que l própio criador de l mundo! Cumo aqueilhes filhos que nun stan pa lhargar l que ye buono i salir de casa, sin s’amportar cun quien, cun tanto mimo, le criou, alhá bai el alhongando l berano. Cun toda la manha i grande artefício, bai gozando todo quanto de buono le dan i ten la bida, delheitando-se cula buona mesa. Quaije namorador, bai-se amanhando i ganhando cada beç mais proua! Ajeita la catadura, lhimpa la lhaganha i la monca, cumpon la poupa i ansaia la sunrisa.

    Mas l Sol yá queima i la segada yá bien tiempo que findou. Ye perciso ampeçar a correr mundo, a coincer outras tierras, las deilhi a la buolta i outras mais. Quando calha, só pa se treinar, ansaia un bolo solitairo, a la socapa, pa que nun déian pula falta del. Até q’un die, sentindo ls pais adotibos loinje deilhi i adbinando-los çprebenidos, scapa de l nial i eimigra. Eibita çpedidas, solo pa nun star a ferir sentimientos i la maneira de ser deilhes. Agradecimentos tamien nun quádran bien cula sue natureza clandestina i çacana. Por caminos scusos i atalhos, sin mais aqueilhas, nesse die, l patife zaparece.

    Quien nada ten de sou, oumenos, ten ũa bantaige: stando siempre pronto para s’ir ambora, nun percisa de tener que star a porparar l nabego pa la biaige. Cumo las rolas, q’ándan todas alboroçadas a porparar-se pa bolbéren a donde benírun, tamien ls cucos stán yá de pie an bola. Findando, anton, la sue stada an Angueira, tamien eilhes, seguindo l filhote, se ban ambora.

    Al tornar a casa, ls criadores sienten l bazio de la perda de la criatura. Bénen-les las soudades, mas cúnfian q’un die el inda há de tornar adonde se criou. Cul passar de ls dies, oumentando l zaspero, quaije pérden la spráncia. Zalentados, bai-les na alma ũa delor zourientada i baga, mas prefunda i intensa. Se, de loinje a loinje, quédan a saber q’alhá chegou un páixaro fuorasteiro ou pelegrino, renacendo-le l’eilusion, pregúntan-le se ten i les puode dar nuobas de l foragido. Mas, quaije nada mais, quédan a saber. Ambora oubindo falar del i quedando a saber puls sous amigos d’algũas andanças por tierras mais ou menos çtantes, nunca mais habien de le poner la bista an riba.

     

    Agradecimiento

     

    Tengo, de modo special, q’agradecer a Lila Martins, de Bal de Frades, las anformaciones que me dou subre la maneira de ser i de bibir de ls cucos; a mius armanos Eimílio i Aquilino subre ls páixaros q’habie, i inda hoije hai, an Angueira, ls modos de bida i ls trabalhos de ls lhabradores de l seclo passado; i inda a Zé Luís Quinteiro i a todos aqueilhes – i fúrun tantos que nin dá pa les star eiqui a nomear un a un – que m’ajudórun a relhembrar l nome de ls sítios de l termo d’Angueira.

    La referéncia a las caminadas, ou, dezindo talbeç melhor, a las bolandas, de l par de cucos pul termo d’Angueira, ye para que, quedando screbidos, nun se squéçan nin se pérdan, pori, ls nomes de ls sítios de l termo i adonde son i por donde pássan las marras de l termo d’Angueira culs de ls pobos bezinos: la Speciosa i Samartino, poboaçones de l cunceilho de Miranda; i Caçareilhos, San Joanico, Çarapicos i Abelhanoso de l cunceilho de Bumioso.

     

    Bocabulairo//vocabulário

     

    Abancar – permanecer, assentar-se, ficar // abutro – abutre // acá – cá // acupar – ocupar // acrucar-se – pôr-se de côcoras // adebertir-se – divertir-se // adebinar – adivinhar // adelantre – adiante // adil – terra de pousio // adonde – aonde, onde // adregar – calhar, acontecer // afiançar – garantir // aguelhada – vara de freixo utilizada para conduzir as vacas no trabalho // agradable – agradável // águila – águia // airada – arejada // aire – ar // al – ao // ala – asa, vamos // alhá – lá // alheno – alheio // alredor/es – em volta/arredores // amanaça/r – ameaça/r // ambeija – inveja // ambriar – empregar, investir // amentar – falar casualmente // ameroso – amoroso, macio // amorrado – dormente, em estado letárgico devido ao calor // ampaciente – impaciente // ampeçar – começar // ampercípio – início // amperrunhado – enfezado // amporén – pessoa franzina ou inútil, estorvo, impecilho // amuntonar – amontoar // an – em // ancalcar – calcar, comprimir com os pés // ancargar – encarregar // anchir – encher, saciar // ancumbeniente – inconveniente // andorina – andorinha // andubírun – (forma do verbo andar) andaram // anformacion – informação // anganhar – enganar // angaranhido – a tremer de frio // anfin – enfim // angendrar – engendrar // anho – ano // anjico – pessoa ingénua, anjinho // anquelíbrio – equilíbrio // anrezinar – zangar // anraibar – enfurecer // antento – intenção, propósito // anterrumper – interromper // anton/aton – então // antolhar – desejar sofregamente // antrada/antrar – entrada/entrar // antre – entre // antressar/eiro – interessar/eiro // antretener/ido – entreter/ido // antriçado – apertado, comprimido entre duas superfícies // anubrado – nublado // apartar-se – separar-se // apenas – talvez não // aporcatar-se – prevenir-se, precaver-se // apouquentar – preocupar // apuis – após, depois // arada (tierras de) – terra lavrada, parte das terras de sequeiro do termo, próprias para cereal, que, em anos alternados, são ou estão lavradas e, no ano seguinte, cultivadas, a produzir trigo ou centeio // arar – lavrar a terra // arbe – árvore // arboledo – arvoredo // arena – areia // armano – irmão // arrepinchar – salpicar com água // arrebanhar – apanhar os restos // arrecadar – guardar, recolher // arremedo – má imitação // arriba – acima // atabano – atavão, inseto que flagela o gado bovino, muar e asinino // auga – água // bacatela – bagatela // bagar/osamente – vagar/osamente // bai i ben – vai e vem // bal/he – vale // bantaige – vantagem // barranca – sucalco em terra ou pedra // beç – vez // beche – bode // bechico – bichinho // bençon – benção // bendear – lançar o feno ou a palha para o carro, o palheiro ou o medeiro // benir/da – vir/vinda // berano – verão // bercego – planta herbácia parecida com a aveia que se dá bem em solos graníticos (areia) // besita/r – visita/r // bezináncia/bezino – vizinhança/vizinho // biaige – viagem // bien – bem, muito // bima/r – lavra/r da terra pela segunda vez antes da sementeira // boer – beber // bolandas – voos, andanças // bolar/bolo – voar/voo // bonda – basta // bornal – pilha de cereal na eira com a forma de um pião invertido // botar pouca fé – não prestar atenção // boubielha – poupa // Bergáncia – Bragança // broça – qualquer tipo de sujidade, ervas daninhas // Bumioso – Vimioso // buolta – volta, colar // buono – bom // cabeznalha – parte da frente da teceda do carro de vacas por onde esta, através do sobeio, é fixada ao jugo // çafardan – safardanas // çacana/ice – canalha, canalhice // cachico – pedacionho // cadena – cadeia // calandra – ave do tamanho do melro que faz o ninho na parede dos moinhos perto do rodízio // calecer – aquecer // caleija – caminho estreito entre paredes, viela // caliendra – canal por onde corre a água do açude para o moinho // caliente – quente // caminada/camino – caminhada/caminho // cangalhas – rede de arame com a forma de semi-círculo que o lavrador coloca no focinho das vacas para evitar que comam enquanto trabalham // canha – cana // canhiças – componentes laterais amovíveis do carro de vacas que, colocadas verticalmente sobre a teceda, permitem aumentar a capacidade e sustentar a carga // canhona – ovelha // Çarapicos – Serapicos // casariu – casario // castielho – castelo // çcansar/dico/çcanso – descansar/dinho/ descanso // catadura – aspeto // çcoincido – desconhecido // çcuidar – descuidar // çcunfiar/nça – desconfiar/nça // cena/r – ceia/cear // centeno – centeio // cerrar – fechar // çfarçar – disfarçar // çfeita – desfeita // cfrençar – diferenciar // cfréncia – diferença // çfrente – diferente // chafandin – fala-barato // chano – chão // checharra – cigarra // cheno – cheio // chínchara – pequeno pássaro que faz o ninho na erva dos lameiros // chougarço – chaguarço, pequena planta rasteira de folha miúda que cresce nas moitas // chubir – subir // chuchar – sugar o conteúdo do ovo // chuoco – choco // cielo – céu // cien – cem // ciguonha – cegonha // coincer – conhecer // coneilho – coelho // coquelhada – pequeno pássaro que faz o ninho no chão de terras lavradas ou de pousio // corona – coroa // coutela – cautela // çpedir/da – despedir/da // çperdiçar – desperdiçar // çponer – pôr-do-Sol // çprebenido – desprevenido // çprézio – desprezo // çpuntar – despontar // çquilado – tosquiado // cruja – coruja // çtacar – destacar // ctáncia – distância // çtino – destino // çubiaco – alimento que aves levam no bico para os filhos // cuidar – pensar // cul/a – com o/a // culidade – qualidade // cumoquiera – talvez // cun/c’un/c’ũa – com/com um/com uma // cunceilho – concelho // cuncéncia – consciência // cunsante – conforme, consoante // cuntinar – continuar // cuorbo – corvo // cuorda – corda // cuorno – chifre // cuosta – costa, descida ou subida de um monte // danhar/dico – danar/danadinho // da peto – de propósito // deç que – desde que // de pie an bola – pronto para se pôr a andar // deciplina – disciplina // deilhi – dali // deimingo – domingo // de-lei – como deve ser // dende – daí // desaires – feio // dezir – dizer // die – dia // dieç – dez // dous/dues – dois/duas // dreito – direito // drento – dentro // fago/fai (formas do verbo fazer) – faço/faz // filico – fozinho // eicesso – excesso // eiceto – excepto // eimbierno – inverno // eindicar – indicar // dũa – duma // eilha/eilhes – ela/eles // eilhi – ali // eilusion – ilusão // eimaginaçon – imaginação // eindicar – indicar // einfin – enfim // einocéncia – inocência // eiqui – aqui // eisagero – exagero // el – ele // ende – aí // fago/fai – (formas do verbo fazer) faço/faz // fame – fome // fenanco – erva seca // ferranha – centeio em verde que, no inverno, se dá aos animais ruminantes // folecra – pequeno pássaro que faz o ninho nos ramos de arbustos // frezno – freixo // fuolha (tierras de) – folha (terras de), parte cultivada das terras de sequeiro, próprias para produção de cereal (trigo ou centeio) // fuonte – fonte // fuora – fora // fuorasteiro – visitante/viajante vindo de fora // gabilan – gavião // gabielha – gabela, pequeno braçado de cereal // galhar – galar, fecundar o ovo da galinha // galhina – galinha // galho – ramo, galo // ganado – rebanho // gancha/da – apetrecho de madeira que se coloca sobre a teceda do carro de feno/montão de feno para carregar ou carregado de cada vez no carro // golo – gole // grano – grão // grilho – grilo // grinheira – espécie de corda feita com o próprio cereal para atar o molho // guapo – bonito, pimpão // hardeiro – herdeiro // hospedaige/eiro – hospedagem/eiro // húmado – húmido // huorta – horta // i – e // Infainç – Ifanes // janta – refeição principal do dia, almoço // l/la – o/a // lhá – lá // lhabandeira – lavandisca // lhabrar/da – lavrar/da // lhadeira – ladeira, encosta // lhado – lado // lhadron/aige – ladrão/ladroagem // lhagarto – lagarto // lhameiro – lameiro, prado com cerca // lhambarice – lambarice, guloseima // lharaita – fome // lhata – pequena horta // lhebar – levar // lhéngua/lhenguaige – língua/linguagem // lhiebre – lebre // lhibulina – libelinha // lhimpa – debulha do cereal, limpa // lhina – linha // lhinaige – linhagem // lhougo – logo // lhusque-fusque – lusco-fusco // lhuna/r – lua/r // lhúria – corda longa e grossa que prende as maiores cargas dos carros de vacas // liçon – lição // loinje – longe // mai – mãe // mala rés – má peça, mau caráter // mandrion – preguiçoso // manhana/ica – manhã/zinha, amanhã // manhuço – quantidade de caules de cereal que, enquanto ceifa, o ceifeiro consegue suster na mão // mano – mão // manolho – molho/feixe de cereal // márcio – março // marge – margem // marie pousa – mariposa, borboleta // marie tresa – louva a Deus // maron – carneiro de cobrição // meidie – meio dia // melhado – gume com mossas e que, por isso, não corta bem // milpiendra – ave amarelada cujo ninho, com a forma de cesto, pendura nas árvores, papa-figos // moler/ineiro/ino – moer/leiro/inho // monton – montão // mormoso – moncoso // moucho – mocho // Muntesino – Montesinho // muordo – mordo, bicada // nabego – tralha // naide – ninguém // nial – ninho // niada – ninhada // nin – nem // ningũa – nenhuma // nisquiera – nem sequer // nistantico – num instante, rapidamente // niũa – nem uma, nenhuma // niun – nenhum // nũa – numa // nuite – noite // nun – não, num // nuobas – notícias, novidades // olga – baixa fértil entre pequenas elevações do terreno // oucasion – ocasião // oufénsia – ofensa // oulhadela – olhada // oulhar – olhar, ver // oumenos – ao/pelo menos // oumentar – aumentar // ourrieta – pequeno vale fértil // pa – para // paçpalhaço – codorniz // paixarina – borboleta // pa lhá – para lá // palomba/r – pomba/l // parcer – parecer // parro – pato // pascer – pastar // perdiç – perdiz // perdigon – perdiz macho, perdigão // perdon – perdon // peinha – fragaredo // pelegrinaige – pereginação // pelegrino – peregino // pelo malo – penugem // pende – pente // pequerrico – pequenino // piçarra – pedra de xisto // pie – pé // piel – pele // pilo/ico – tanque ou pequeno tanque de água onde bebem os animais // pita – galinha // pita-ciega – ave noturna, noitibó // pita d’auga – galinhola // pitico – pintainho // pobo/açon – povo/ação // poner – pôr // purmanhana – alvorecer, manhã cedo // porparar/o – preparar/ção // pori – por azar // porriba – por cima // poniente – poente // praino – plano, planalto // preacupaçon – preocupação // própio – próprio // proua – vaidade // pruma – pena // pul/a – pelo/a // punta – ponta // puolo – pó // purfeito – perfeito // purmanhana – alvorecer, manhã cedo // purmeiro – primeiro // quaije – quase // quejírun – (forma do verbo querer) quiseram // quelor – cor // queluobra – cobra // quemer/ida/ilon – (forma como se pronunciam em Angueira as palavras) comer/comilão // quérgan – (forma do verbo querer) queiram // questumar/e – costumar/e // questureiro – costureiro // quetobia – cotovia // quien – quem // rabialba – pequena ave // racica – raiozinho de sol // ralo – raro // rapinha – rapina // reata – corda ou correia de prender as bestas pelo pescoço ou pela cabeçada para as conduzir // recoincimiento – reconhecimento // regato – ribeirito, fio de água // reissenhor – rouxinol // relar – ralar // relba/r – lavra/r pela primeira após a ceifa // relhance – relance // restrolho – parte enraizada do caule de trigo ou de centeio que, após a ceifa, fica na terra // rezon – razão // riba – cima // riente – rente // riu – rio // ronda – volta // ror – grande quantidade // Samartino – São Martinho de Angueira // sartigalho – saltão // saudable – saudável // sbarrulhar – ruir, cair abaixar // sborraçado – esborrachado // scaleiricas – escadinhas // scarabeilho – escaravelho // scarbar – remexer a terra com as unhas // scarranchar – abrir muito as pernas // scarranchinas – cavalitas // scoba – giesta // scola – escola // sculhir – escolher // screbir – escrever // scuolha – escolha // scusa/do – escusa/desnecessário // seclo – século // segada/or – ceifa/eiro // seinha – sinal // selombra – sombra // sembrar/da – semear/da // senara – seara // sequiera – sequer // sesta – sexta feira // séstia – sesta // sfameado – esfomeado // sforço – esforço // sfregante – instante // smerado – esmerado, apurado, perfeito // solo – só // sobeio – correia larga e comprida de pele que permite atar a cabeznalha do carro de vacas ao jugo // socapa (a la) – disfarçadamente // soutordie – no dia seguinte // spadanha – espadana, planta aquática com a folha em forma de espada // spabilar/ado –despertar/esperto, listo // spanto/ado – espanto/ado // Speciosa – Especiosa // spetaclo – espetáculo // spertar – despertar, acordar // spineiro/spino – espinheiro/espinho // spipar – puxar pelo caule de centeio // splicar – explicar // spráncia – esperança // spreita/r – espreita/r // squecer – esquecer // squierdo – esquerdo // stadulhos – dois paus curvos colocados verticalmente entre a cabeznalha e a teceda que suportam lateralmente a carga dos carros de vacas // stafa/r/do/dico – canseira, cansar/do/dinho // stalhadiça – quebradiça // stantico – instantinho // star – estar // steio – sombra de uma mata onde o rebanho repousa nos dias de verão para se proteger do calor // stornino – estorninho // stragar – estragar // strangalhar – escangalhar // strampalhar – espalhar // strelhado – estrelado // stribado – encostado, estribado // subreciente – suficiente // sucada – conjunto de sulcos (geralmente, três) que cada ceifeiro leva de cada vez // sunrisa – sorriso // suprior – superior // teceda – plataforma de madeira sobre o rodado do carro de vacas onde é colocada a carga // temprano – temporão // tener – ter // tierra – terra // tomelhina – planta aromática parecida com o tomilho // tomielho – tomilho // touça – mata de carvalhos // trapola – galho cortado a curta distância do caule da árvore onde rebentam novos galhos e que serve também para trepar a árvore // tubisse/tubírun – (formas do verbo “tener”) tivesse/tiveram // ũa – uma // uobo – ovo // uoco – oco, vazio // uolho – olho // uolmo – olmo, negrilho // xara – esteva // yá – já // ye – (forma do verbo ser) – é // yerba – erva; you – eu // zafinado – desafinado // zafio – desafio // zaforo – desaforo // zalentado – desalentado // zalmado – desalmado, cruel, desumano // zambuolto – desenvolto // zanjun – mata-bicho, pequeno almoço // zantressado/eiro – desinteressado/eiro //  zaparecer – desaparecer // zaporcatado – desprevenido // zarmar – desarmar // zaspero – desespero // zastre – desastre // zatinar – perder o tino // zaugar – desaguar // zeinho – desenho // zenhado – desenhado // zlial – desleal // zlhumbrado – deslumbrado, encantado // zourientado – desorientado //

    Para saber o significado de outras palavras, carregue no “link”:

    http://www.mirandadodouro.com/dicionario/

    Caso queira visualizar algumas fotos aéreas de Angueira, sugiro a consulta do blogue:

    http://portugalfotografiaaerea.blogspot.pt/2017/01/angueira.html

    Se quiser saber a localização de alguns sítios do termo de Angueira, carregue no “link”:

    www.openstreetmap.org/searchquery=Angueira%2C%20vimioso%2C%20portugal#map=12/

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  • Angueira ten muita PROUA…

    outubro 27th, 2024

    Nota Prévia: uma prevenção

    Se o/a leitor/a não está familiarizado/a com a Língua Mirandesa, sugiro que, para facilitar a compreensão do texto, o leia a meia-voz. Se, mesmo assim, sentir dificuldade em compreender o sentido ou descobrir o significado de alguma palavra menos usual ou cuja grafia se afasta mais da portuguesa, não hesite em consultar o Dicionário que pode encontrar indicado no final do mesmo.

    Breves notas sobre a grafia do Mirandês

    Em Mirandês, não se pronuncia o som v, que é substituído pelo da letra b; usualmente, o prefixo des é substituído, consoante os casos, por ç ou z no início da palavra; para não se confundir com a contração da preposição a com o artigo definido o, que, em Mirandês, se escreve e lê al, o artigo definido o escreve-se l, mas lê-se também al; salvo raras exceções, os ditongos nasais ão e õe escrevem-se an e on; o m final das palavras portuguesas é, no Mirandês, substituído pela letra n; geralmente, o l inicial das palavras é substituído pelo dígrafo lh; já o dígrafo ch, em Mirandês, lê-se sempre tch; talvez por, inicialmente, ser apenas uma língua falada, o Mirandês tende a contrair os pronomes, artigos, preposições e as conjunções com as palavras seguintes, quando estas são iniciadas por vogal.

    De la Poboaçon, de l Termo, de las Pessonas i Paisaiges i de la Ribeira

    Se nun bos amportais, bou a passar an rebista, al de lebe i por alto, ls redadeiros 70 anhos an Angueira, ou seia de 1954 até al final de 2024.

    Bista de la poboaçon d’Angueira zde l cimo de l Múrio, ou seia, de sudoeste caras a nordeste.

    Cunsante l tiempo fui passando, zafertunadamente, passórun a morar an Angueira cada beç menos pessonas. Assi, de cerca de 700 q’alhá bibien na década ampeçada an 1950, quando you era inda garotico, réstran hoije cerca de 80 a morar alhá de forma permaniente.

    De las pessonas q’alhá nacírun

    Antre 1950 i 1960, ls homes i las ties, i até mesmo alguns moços i moças, éran mui debotos de se botáren a fazer garoticos. Assi, nun admira nada que, cumo an todos ls lhados, tamien an Angueira nacíssen muitos garoticos i alguns deilhes sin pai (re)coincido i, cumo tal, zorricos. Nun éran nada ralas las ties que, dun ou de bários tius, tenien mais de cinco i até dieç ou mais filhos.

    Mas, yá nesse tiempo, fúrun tamien muitas las pessonas i até famílias anteiras que, scapando d’Angueira, eimigrórun pa la América de l Sul, arriba de todo pa l Brasil.

    An 1961, ampeçou la rebuolta de l Mobimiento Popular de Libertaçon d’Angola. Fui tamien nesse anho que la Ounion Indiana fizo la oucupaçon de Goa, Daman i Diu. Inda me lhembra de, an 1962, Antonho Perdigon i Norberto Crespo tenéren tornado de la Índia, adonde, stando a cumprir l serbício melitar, na oucupaçon an 1961, fúrun feitos presioneiros pulas tropas de la Ounion Indiana.

    Assi, ne ls anhos 60, muitos moços fúrun oubrigados a ir pa la tropa, a cumbater na guerra quelonial an Angola (a partir de febereiro de 1961), na Guiné (a partir de janeiro de 1963) i an Moçambique (a partir de setembre de 1964). Pa lhá desses moços, muitos homes i algũas ties scapórun, a salto, pa la Fráncia i outros países mais zambolbidos de la Ouropa, a la percura de trabalho i de melhores cundiçones de bida. Claro que, assi, Angueira fui quedando cada beç cun menos giente.

    Yá ne ls anhos 70, las ties i ls filhos d’eimigrantes que stában a trabalhar noutros países de la Ouropa deixórun tamien Angueira pa s’ajuntáren als sous tius ou pais. Pa lhá destes, la maior parte de la restrante Mocidade saliu tamien d’Angueira pa studar i trabalhar an Bergáncia i nas cidades mais amportantes de Pertual: Lisboua, Porto, Coimbra, Braga i inda outras mais…

    Angueira: la poboaçon bista de l cimo de l cabeço de la Quecolha, ou seia, de norte caras a sul.

    Cun la giente nuoba fuora, ne l strangeiro ou nas maiores cidades de Pertual, passou a ber-se na poboaçon i a cruzar-se ne ls caminos i a ancuntrar-se e l termo d’Angueira cada beç menos giente. L nacimento de garoticos ampeçou a scassear i a nun dar sequiera pa cumpensar l númaro de pessonas que se morrien ou que cuntinában salindo d’Angueira.

    Cabeços, tierras de cultibo, ancluindo cortinas, purmeiro, i pouco apuis, lhameiros i até huortas fúrun quedando sien ganados, sien buiadas i sien cultibo. Las tierras de sequeiro quedórun d’adil, até se cubríren de yerba, chougarços, spineiros, xaras, scobas i outro monte; broça, trampos i silbas fúrun ambadindo i cubrindo lhameiros i caminos; las çudas, caliendras, casas de molineiro i ls molinos, deixando de moler, nun tardarien an antrar an rúina. Corriças, currales, palheiros i até casas de bibir, quedando al abandono ou sien naide na maior parte de l tiempo – cerca de onze meses ne l anho –, ampeçando por perder teilhas, acabórun tamien por antrar an rúina.

    La migraçon de muitas pessonas, ũas pa l strangeiro i outras pa las cidades a la beira-mar i l cuntrolo de la natalidade reduzírun muito l númaro de nacimientos i de garotos na scola i de pessonas nas rues, na eigreija, nas tabernas, nas casas de morar i na poboaçon. Assi, restrórun a morar an Angueira quaije solo ls bielhos que, quando se muorren i passado algun tiempo, son sustituídos por outros bielhos de la geraçon a seguir i, cumo tal, solo un cachico mais nuobos.

    Huortas de la Faceira i Cimo de l Pobo d’Angueira bistos de Cabeço la Binha, ou seia, de noroeste caras a sueste.

    An menos de 30 anhos, tal cumo an Angueira, fumos bendo tamien nas restrantes poboaçones de l cunceilho de Bumioso, de la Tierra de Miranda, de l destrito de Bergáncia, de l Nordeste Stramuntano i até de l Anterior de Pertual, cada beç maior çpoboamiento.

    Que bos parece? Nun ye mesmo ũa lástima?! De quien tenerá sido la culpa? Las pessonas que nun tubírun outro remédio senó salir a la porcura de melhores cundiçones de bida para eilhas i pals sous tengo la certeza que nun fúrun eilhas las respunsables pul porblema. Aton, quien ye que teneran sido ls respunsables i, cumo tal, ls culpados por este porblema por que ten benido a passar l nuosso Paíç? Ls respunsables fúrun i cuntínan a ser muitos, mas als que fúrun forçados a eimigrar ye que, sendo eilhes las maiores bítimas, nun podemos star a culpá-los.

    Ua de las redadeiras pessonas d’Angueira qu’inda me lhembra de tener eimigrado pa l Brasil, para adonde, antre 1913 i 1920, tenien yá scapado ls sous armanos João i Zezinho i la sue armana Ana, fui la dona Palmirinha. L pai deilhes, qu’era de ls Licos de la Bila, a seguir a la Anstauraçon de la República, stubo a deregir l Registro Cibil d’Angueira; la mai era de la família de las Marreiras d’Angueira. Ls pais, eilha i sous armanos/a, ancluindo l melitar António, formában ũa de las mais amportantes famílias d’Angueira daquel tiempo. Cumoquiera por séren decendientes de seguidores de ls Lhibarales de l seclo XIX, salindo als sous parientes, pais i filhos serien giente de l “Rebiralho”, cumo dantes se dezie de las pessonas que, nun se dando bien i sendo até perseguidas pul Regime, éran de la Ouposiçon. Talbeç tenga sido por essa la rezon que, apuis de l 28 de maio de 1926, l sou António, qu’era militar i se daba cun figuras amportantes de la República, sendo perseguido pula Ditadura, nun le restrou outro remédio senó scapar-se de l Paíç pa l stremo Ouriente, adonde tenerá passado la maior parte de l sou tiempo de bida.

    Berdade ou mintira, dízen que la filha de la sue armana Ana, i, cumo tal, sobrina de la dona Pamirinha i de ls sous armanos, se tenerá casado c’un canadiano lhigado al mundo de la sétima arte. Hai inda quien diga q’l filho de ambos a dous, tamien el famoso i, cumo sou pai, lhigado al cinema, será aton decendiente d’Angueira. Dízen tamien que, hai bien anhos, este casal i l sou filho teneran besitado i passado alguns dies an Angueira na casa que hardórun de ls sous abós maternos i d’Angueira, qu’era mesmo a la frente de la casa de la grande amiga de la dona Palmirinha, la dona Maria Rosa Steba i de l capitan António Bernardino, ls pais de Paulo Bernardino. Mas, cumo ls nuobos duonhos de la casa nun tornórun a Angueira, cul tiempo, la sue casa antrou an rúina. Hoije, deilha, só réstran uns cachos de parede i de l terreno adonde fui eideficada.

    Seia ne l Brasil ou noutros países de l’América, seia an Fráncia ou noutros países de la Ouropa para donde muita giente mais probe d’Angueira eimigrou, seia quien saliu pa studar ou trabalhar an qualquiera cidade de Pertual ou quien cuntinou a bibir na poboaçon, todos eilhes/as ténen sabido honrar Angueira. Bonda lhembrar que, rejistindo al çtino que les staba marcado ou a la mala suorte a que stában cundanadas, pessonas i até famílias mais probes botórun-se a çcubrir i correr mundo pa melhorar las cundiçones de bida deilhas i las de ls sous filhos.

    Bamos a ber l que nesse tiempo se passaba i cumo i de que bibien las famílias d’Angueira. Eimaginai ũa scaleira cun cinco degraus a partir de l chano, apartados por dous patamares a meio de la chubida. Era assi por trés scalones de çfrentes númaros de degraus que se repartien las famílias d’Angueira.

    L degrau de l fondo de l purmeiro scalon era pertença de las famílias mais probezicas i mais numarosas d’Angueira: Cacaitas, Tonas, Balazaros, Canhonos, Cucos, Machacos, Galharitos, Botelos, Stroilas, Purpetos, Tabras, Rilos, Joanilhas, Eibaristicos, Casetos, Rucicos. Oumenos an algũa cousa habien de ser las purmeiras!… Cada ũa destas famílias bibie an sue casica pequeinha, c’ũa ou dues debisones – cozina sien chupon, c’ũa mesa, scanhos, sentalhos i almairo cun alguas malgas i pratos de lhouça, potes de fierro, caldeira i baldo de lhata: sobrado adonde pais i filhos drumien –, nũa caleija cerrada, rodeada dalgũas casicas doutras famílias de la mesma cundiçon i situaçon. Las porpiedades que tenien éran mi pouquitas i pequeinhas: ũa huortica na marge de la ribeira, dun ribeiro ou nũa baixica i ũas terricas an cabeços de l termo. La maior parte destas famílias ou tenien un oufício mal pago, ou trabalhában a la jeira, ou tenien ũa pareilha de burros ou de mulas, ou éran quinteiros de las famílias mais abastadas. Algũas deilhas éran de cuntrabandistas.

    L degrau a seguir era acupado por un cachico menos de famílias, mas que, de sou, tamien eilhas pouco mais tenien que miséria: Pitascas, Charrucos, Zorros, Manulones, Correios, Rabones, Bichas, Moquitas, Guerrilhas, Formarizes, Rifeiros, Paradinhas, Uorfos, Cadatos, Fucianos, Baldalgosos, Fonas. Tenien tamien mais algũas huortica i terricas, ũa pareilha de mulas ou machos pa las arar. Algũas deilhas tenien ganado ou ũa junta de bacas, mas éran de meias i trabalhában inda a la jeira para outras famílias mais abastadas i andenheiradas.

    A seguir, ne l terceiro degrau de l purmeiro patamar, tenien lhugar outras famílias: las de ls Soldados, Fertunatos, Bileiros, Francequitos, Raianos, Almonicos, Furones, Piçarras, Cholas, Centos, Zicos, Quinteiros, Nalgas, de l Molino. Ls sous oufícios cumo ls de carpinteiro, moleiro, ferreiro ou alfaiate éran un cachico mais bien pagos. Mas, nun bondaba tener algun destes ou doutros oufícios pa garantir l sustento de la família. Assi, c’ũa pareilha de burros ou de mulas ou c’ũa junta de bacas, habie que cultibar ũa ou dues huorticas, ũas terricas, ũa cortina i se calha até dun ou dous lhameiros.

    L purmeiro degrau de l segundo patamar era acupado por algũas famílias un cachico mais abastadas: ls Coelhicos, Raticos, Polidos, Chetas, Caçuolos, Frescos, Lhagartinhas, Plilhas, Maxeminos, Stopas, Canoios. Estas tenien mais algũas porpiedades de sou – huortas, lhameiros i tierras de cultibo –, ganados, cabradas, ou juntas de bacas.

    La situaçon i l modo de bida de las famílias de l segundo degrau de l segundo scalon éran un cachico melhores i mais zafogadas que las de ls outros que yá andiquemos Remediadas i cun algũas maiores i melhores porpiedades éran las famílias de ls Cristos, Rondos, Quintanilhas, Peros, Turieles, Jós, Cereijas, Bitorinos, Nabarros, Carais, Chic’Albinos.

    An Angueira, nun faltában tamien algũas famílias que acupában l patamar i degrau de l cimo de la scaleira i qu’era l scalon de las famílias mais abastadas, andenheiradas i cun mais, mais grandes i melhores porpiedades: huortas, lhameiros, cortinas, tierras de cultibo i outros bienes cumo maiores i melhores casas de bibir i cun ourdenados i ampregos mais amportantes i melhores cundiçones de bida. Estas famílias que acupábanl l mais alto scalon de la scaleira, falában grabe (Pertués), a que, por isso, le chamábamos “fidalgos”: Studantes/as ou Marreiras, Stebas, Soras, Xabieres, Mocas, Dionízios, Capadores/as, Santos/as, Toucinos, Cachonas, Floréncios, Luisicos, Morais i la de l Padre Lino.

    Bárias de las famílias d’Angueira formában cumo que ũa spece de clã: Soras, Stebas, Quintanilhas, Raianos, Ciegos, Rucicos, Cachonas, Perdigones, Raposos, Canoios, Toucinos, Rondos, Piçarras, Cachopos, Caldeiras, Prietos, Frescos, Manulones, Cadatos, Studantes, Capadores, Casetos, Charrucos, Mocas, Xabieres, Agustenhicos, de l Molino, Caçuolos, Cereijas, Coiros, antre outras.

    Pessonas i Famílias Eilustres Nacidas i Decendientes d’Angueira: ls STEBAS

    An Angueira, nalguas famílias, nacírun pessonas que deixórun decedientes amportantes, pessonas de grande balor, anteligéncia i mérito, que mos dan i de quien, cun toda la rezon,  tenémos muita PROUA!

    Ls primos Stebas. Fáltan eiqui la soudosa dona Anita, porsora, filha de l senhor Aran Steba, i l soudoso Américo Preto Esteves, porsor, filho de l tiu Moisés Steba. De la squierda pa la dreita: Emílio Arão Preto Esteves (chefe de Rep. de Finanças-ap.); Paulo Esteves Bernardino (jurista, derigente de la PJ i de la INTERPOL-ap.); João Eduardo Cura Mariano Esteves (dantes Juiç de l Tribunal Custitucional i, atualmente, Persidente de l Supremo Tribunal de Justícia); José Manuel Rodrigues Miranda (antigo Persidente de la Cámara de Bumioso i outros cargos outárquicos); Rui Manuel Rulo Preto Esteves (filho de Américo Preto Esteves i, pa lhá d’abogado i Porcurador de la República, ye agora Juíç Zambargador de l TCA-Norte); Luísa Maria Esteves Pires, filha de la porsora Anita Esteves i que ye Diretora de la CORANE.

    Família alhargada de ls primos STEBAS: las sues ties, filhas/os i sobrinas/os. Ls dous retratos de riba fúrun tirados ne l Restourante Bileira na Bila (Bumioso), adonde, pul meidie de 29 d’agosto, almuorçórun ls fameliares que se béien ne l retratos gentilmente cedidos pul filho Paulo António de Melo Esteves Bernardino. Oubrigado, Paulo.

    Pul meio de la tarde desse die até ampeçar a anuitecer, fui la merenda al aire lhibre ne l lhargo, fresco i guapo pátio que queda na parte de trás de la casa de morar an Angueira, cerca de l forno i al cimo de la huorta i q’aparta las dues partes de la casa.

    Casa de la dona Maria Rosa Esteves (Steba) i de l capitan António Bernardino, a meio de la poboaçon, un cachico abaixo de la capielha i de l Lhargo de Sante Cristo. Hai pouco tiempo, Paulo Bernardino mandou recuperar esta casa q’hardou de sous pais. Maria, la mais nuoba de ls sous trés filhos, botou-le ũa mano, ajudando a penheirar l barro pa recuperar l forno de cozer l pan i aplicar na parede de l pátio antre las dues partes de la casa. Parabienes, Maria! Assi ye que ye i que se fai!…

    Cun la perséncia de ls fameliares i mais alguns parientes i cumbidados, ls filhos i la tie fazírun-le ũa surpresa a Paulo Bernardino pus era l die de l sou anibersairo. Ne l final de la saberosa merenda, al redor de l bolho, todos le cantemos ls Parabienes i felcitemos pus nun ye todos ls dies que se cumplétan 76 anhos.

    La surpresa que, an Angueira, la família fizo a Paulo Bernardino. Este i todos ls outros retratos de l almuorço i de la merenda fúrun tirados i cedidos pul sou filho. Oubrigado, Paulo António.

    I ũa cousa bos puodo dezir: nunca tenie bido a Paulo Bernardino tan eimocionado. Pa lhá de darmos bien a la lhéngua culs bários parientes i cumbidados, tengo inda que bos dezir l seguinte: tubimos eilhi un eisemplo de que pessonas amportantes de la bida pública nacional q’alhá stában – trés juízes, dous deilhes que fórman un casal, el l Persidente de l Supremo Tribunal de Justícia i la sue tie, la dr.ª Sílvia Pires, Juíç Zambergadora de l Tribunal de la Relaçon de Coimbra – nun percisórun de se poner an bicos de pies nien de falar cun las outras pessonas de riba de l cabalho, cumo quien les stá a fazer um fabor. Bien pul cuntrairo: falórun cun todas las pessonas, até mesmo culs cumbidados que nien sequiera coincien, d’eigual para eigual cumo se de coincidos hai muitos anhos i de bielhos amigos se tratasse. Pa lhá d’ambos a dous membros de l casal séren ancantadores i buonos cumbersadores, bie-se bien que stában a ser francos, bien queridos i genuínos.

    Tamien por isso, fui para mi i pa la mie tie ũa honra passar a coincé-los i tener cumbibido un cachico cun eilhes.

    Cumo puodeis ber, Angueira ten todas las rezones pa quedar chena de proua por tener decendientes tan eilustres i, arriba de todo, tan buonas pessonas.

    Sendo ũa pessona que stá a zampenhar um alto cargo na hierarquie de l Stado Pertués, notou-se que, ambora nun dando muito nas bistas, passórun bárias bezes pul Lhargo de Sante Cristo, ne l centro de la poboaçon d’Angueira, carros-patrulha de la GNR. Claro que quien sabie qu’iba a star alhá, pa nun comprometer la sue segurança, nun dixo a naide.

    I mais ũa cousa tengo inda que bos dezir: todos quantos eilhi stábamos bien gostariemos d’ls tener i ber mais bezes por Angueira. Seran, pula cierta, bien-benidos i recebidos! Spero que, ne l feturo, isso benga a acuntecer bien bezes.

    Causo téngades deficuldade an ancuntrar l segnificado ou antender algũa palabra, cunsultai: http://www.mirandadodouro.com/dicionario

    Tomo inda la lhiberdade de partilhar cun bós alguns aspetos de la Lhéngua, modas de la Música i amostras de la Cultura de la Tierra de Miranda, coincida tamien cumo l Praino Mirandés:

    Dulce Pontes – Tirioni: https://www.youtube.com/watch?v=vuq37DXFHd4

    Galandum Galundaina – Siga a Malta: https://www.youtube.com/watch?v=8JHU2oGx0sE

    Las Çarandas – Perlimpinchin: https://www.youtube.com/watch?v=5W6u5rhdw4M

    Galandum Galundaina – La Lhoba: https://www.youtube.com/watch?v=D-JRPwabObw

    Né Ladeiras – La Çarandilheira: https://www.youtube.com/watch?v=MfJkNaJyj40&list=RDMfJkNaJyj40&start_radio=1&rv=D-JRPwabObw

    Galandum Galundaina – Siga a Malta: https://www.youtube.com/watch?v=8JHU2oGx0sE

    “Povo que Canta” de Michel Giacometti – Tiu Lérias (de Paradela) – L Pingacho

    Anquanto la Lhéngua Fur Cantada (filme de João Botelho, cun Catarina Wallenstein i João Gomes)>testo de Amadeu Ferreira – Dues Lhénguas i cuido que dito por Paulo Meirinhos (?):

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  • Bá, çculpai-me alhá!…

    outubro 8th, 2024

    Cumo teneis bido, caras/os amigas/os, este anho, a la purmeira bista, puodo dar la eideia q’ando cun cachico de perguícia. Mas, puodeis crer que nun ye bien assi… Ando, mas ye, cun falta de tiempo, l que me ten ampedido de fazer alguas cousas que bien gostaba de cuntinar a fazer cun mais afinco.

    Bárias rezones ténen cunduzido a essa falta de tiempo: las oubricas na casica d’Angueira, que ye tan pequerrica que mais parece ser de brincar ou de monhecas; cumo, ambora nun pareça, hai quaije 50 anhos que sou bien docico. Assi, tengo la necidade de caminar cerca dua hora i meia por die pula cidade de Braga i, quando stou an Angueira, pul sou termo pa tirar retratos de las sues huortas, lhameiros, ribeira, ribeiros, campos de cultibo, caminhos, cabeços, piedras, fragas i peinhas, balhes, puontes, çudas, molinos, corriças, paredes, casas de bibir, para ber se cunsigo quedar un cachico mais amargo; outros trabalhicos de rebison de testos que me ténen pedido pa fazer; cuntinar a admenistrar las 22 páiginas de ls grupos – un por cada poboaçon de l cunceilho de Bumioso – de la Rede Atalaia CumBida; outros porblemas de salude que mos ban batendo a la puorta… Anfin, quien ye que nun sabe cumo, hoije an die, la bida ye?!

    Cuntino a tener alguas eideias na cabeça que gostarie de la screbir i eiqui publicar. A ber se, a partir d’agora, amanho un cachico mais de tiempo çponible pa screbir outros testos subre Angueira, las sues pessonas i famílias, las festibidades i outras manifestaçones culturales.

    A ber bamos, cumo por alhá se diç que dízen ls ciegos…

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  • Angueira doutro tiempo

    janeiro 28th, 2024

    A las bezes, nun mos fai nada mal, pul cuntrairo, fai-mos mesmo bien, pus inche-mos la alma i adoça-mos un cachico lhembrar pessonas, paisaiges i cousas de la bida, de la nuossa i de la doutras pessonas, que yá nun ye possible tornar a ber de todo ou cumo éran dantes.

    Retrato tirado nun berano dantigamente ne l Cimo de l Pobo, mesmo a la frente de la casa de l tiu Zé Luiz Pero, del i de mie mai, que queda un cachico arriba i na mesma rue de la casa de la Scola bielha.

    Estes freixos q’anton se bien i que, calculo you, cumoquiera teneran durado cerca de cien anhos i cumoquiera starien inda outros tantos se nun les ténen botado abaixo. Até les tenéren cortado, stubírun eilhi an pie i un al lhado de l outro ne l huorto al cimo de la Beiga de l Casal, pegados a i pul lhado de baixo de la calçada de la cortina de la tie Florentina i de l sou home, l tiu Trambia, tamien coincido por Fermino Cachopo, i de l tiu Zé Pinin, sou armano, i la tie Teresa Garrusca, sue cunhada i la segunda tie de l sou armano Pininico.

    L huorto era de l tiu Raposo i de la sue tie. Mas, quando el i la sue família scapórun pa l Brasil, bendírun-lo a tiu Zé Coiro i a la sue tie.

    Apuis de la muorte de l tiu Zé Coiro i de la sue tie, la tie Zulmira Sicha, tocou-le nas partilhas a Ana Marie Coira, la filha dambos a dous.

    Deste sítio, la bista de parte de l termo d’Angueira caras a poniente ye mesmo zlhumbrante.

    Este retrato de ls mesmos freixos, huortas, tierras, montes i sierros fui tirado poucos anhos mais tarde, na primabera, cumoquiera antre final d’abril i l ampercípio de maio.

    Ye esse l causo de ls dous freznos de ls retratos que, bendo de la rue de la casa de la scola ne l Cimo de l Pobo i de drento de la casa de mius abós paternos, apuis de mius pais i agora de mius sobrinos, me aquestumei a ber. Mas, passados cerca de 40 anhos, yá nun ye possible tornar a bé-los.

    Assi i todo, inda me fázen lhembrar la cabeleira, cun risca al meio, a tapar la cara dua tie.

    Claro que ls Sierros d’Angueira, ambora un cachico çfrentes, alhá cuntínan a ber-se na lhinha de l hourizonte, de cabeça alhebantada a çtacar-se de l peito de la mai-tierra.

    Antre ls Sierros i ls freznos – ls senos abonados i chenos de proura i la farta cabeleira – dun lhado i doutro desta, inda me parece ber las lhadeiras a çcair pa las huortas de la Faceira i de la Faceira de l Prado, apuntando pa l bientre de la tie, adonde cuntina a correr la ribeira que dá bida a la tierra i la fai dar sou fruito.

    Ou serie pori un par de namorados de manos dadas?!…

    Mas nun cuideis pori que ye solo desta paisaige d’Angueira caras adonde bemos l Sol a çponer-se que tengo soudades. Qual quei!…

    Ambora l monte de las Eiras Grandes tape i sconda las paisaiges que, nun fura el, poderiemos, oumenos an parte, ber de la casa de mius pais caras a naciente – a Samartino, a Cicuiro, a Custantin i al monte de la Senhora de la Lhuç, l sítio por donde passa tamien la raia, mas tamien pa ls lhados de sueste, ou seia, caras a la Speciosa, al Naso, a la Pruoba, a Einfanç, a Paradela i a Malhadas i Miranda -, la berdade ye que, apuis de passarmos pula caleija que de las Eiras Grandes bai a dar al Pilico de Fuontecinas, ribeira arriba, apuis de abançarmos de l fondo de la Yedra, pa Terroso, pul Juncal, eilhi mesmo al lhado de l Castro, i chegarmos al Gago, onde passa la marra qu’eilhi aparta l termo d’Angueira de l de Samartino, tenemos mais outro spetaclo splandoroso de l termo d’Angueira. Eiqui, dun lhado i doutro, nas dues marges de la ribeira, tenemos caminos, huortas, lhameiras i lhameiros; i, pa lhá de poços de rega, fuontes i ribeiros, tenemos tamien çudas, caliendras, molinos i casas de ls molineiros; i inda tenemos todo l arboredo de brimeiros, salgueiros, choupos, amineiros, uolmos i freixos i pul ls montes, ampeçando de baixo parriba, freixieiras, spineiros, sibeiras, touças i touçones de carbalhos i alguas carrasqueiras, urzes, tomielhos, scobas, xaras i chougarços.

    Lhadeira de l monte de las Eiras Grandes d’Angueira birada a poniente ou caras al cimo de la poboaçon bistas ne l berano de l eirado de l tiu Mantano, a un cachico menos de 705 metros d’altitude.

    La huorta que se bei na olga, al lhado de l camino i a meia barreira de la chubida pal monte de las Eiras Grandes ye de Guilherme que, apuis de se reformar i tornar de Pamplona para Angueira, la oumentou, tratou i melhorou muito. Todos ls dies, purmanhana bien cedo i quaije até a la nuite, alhá anda el a lbabrar, scabar, arrincar las yerbas ruins, a sembrar, a strumar, a regar la huorta i a tratar de las arbres de fruito. Trata-la tan bien que la trai siempre nun mimo i la fai dar quaije un cachico de todo: nabos, coubes, patatas, rabas, freijones, garbanços, bóbidas, pumientos, tomatos, seladas, morangos, maçanas, peras, ubas, péssegos, melones, balancies i inda mais fruitos.

    Praino ne l alto de l monte de las Eiras Grandes d’Angueira, bisto de norte para sul ou, cumo quien diç, de riba para baixo. L camino que, neste sentido, passa pul lhado squierdo de las Eiras caras a la capielha de San Sebastian, ne l cimo de Saiago, i al molino de la Senhora. De l cimo al fondo, ne l sentido norte/sul, las Eiras Grandes teneran al todo antre 250 i 300 metros de comprimiento i ua lhargura variable antre 100 i 120 metros ne l cimo de l monte. Lhembra-me bien de, inda garoto i yá moço, pul final de julho, ber estas eiras de l cimo al fondo (norte a sul) i dun lhado al outro (poniente a naciente) cun bárias filas de bornales amontonados i ancustados uns als outros i, apuis, an agosto, sustituídos por outros tantos medeiros de palha.

    Un cachico de la stória mais antiga d’Angueira

    Pus l que arriba dezimos de las pessonas, podemos tamien dezi-lo a respeito de las poboaçones. Ye solo causo de rebobinarmos la fita de l tiempo un cachico mais atrás. Assi, agora que, andando al para trás, yá cheguemos i stamos a meio seclo XIII, antre 1256 i 1246, bamos a parar eiqui mesmo un cachico solo para bermos l quei, de mais amportante, se staba a passar an Angueira i an alguas outras poboaçones de la Tierra de Miranda…

    Sabemos hoije que, tenendo an bista, poboar i cultibar l território, arriba de todo las poboaçones i las tierras raianas, que quedában cerca de la frunteira, Don Sancho I, filho de Don Afonso Henriques, l purmeiro rei de Pertual, fizo la doaçon d’Angueira i de l sou termo a Don Tello Fernandes.

    Las outoridades d’agora, an beç de seguíren l eisemplo de Don Sancho I, todo fázen para que, an beç d’animar las pessonas qu’inda móran loinje de la frunteira marítima pa cuntinar a bibir, a fazer pula bida i a zambolber las sues tierras, se póngan a andar deilhas i scápen pa las cidades i pa cerca de l mar. Bonda dezir que ls dous bereadores de l partido que ganhou las eileiçones outárquicas de 1921 ne l cunceilho de Bumioso móran an Bergáncia l mesmo se passando cun alguns técnicos de la Cámara Municipal de Bumioso. Haberá melhor cumbite qu’este para que las pessonas scápen de las poboçones de l cunceilho?

    Mas, passados cerca de 50 anhos, se tantos, ls hardeiros de Don Tello habien de bender esta sue hardáncia a quien les disse uns morabitinos por eilha. Fui assi que la poboaçon, l termo i un molino d’Angueira – tengo sérias rezones pa cuidar que serie l Molino de las Trés Ruodas a meio de Terroso -, an cerca de dieç anhos, passórun a fazer parte de ls domínios de l Mosteiro de Moreiruola. Se este mosteiro yá tenie recebido donaçon de tierras an Eifanç, Custantin, Palaçuolo i Genízio, an troca de deixar anterrar ls donadores ne l mosteiro, porque ye que cumprou todo l termo i la poboaçon d’Angueira? Tengo para mi que tenerá sido debido a la ribeira i ls ribeiros d’Angueira, assi cumo a la grande quantidade de huortas i lhameiros nas suas marges i a la fartura de cascalheiras pa la criaçon de peixes na ribeira.

    ALERTA: atençon, mie cara amiga i miu caro amigo. Prebino-bos de que, desta beç, al cuntrairo de las outras i de l que fiç culs outros, stou a screbir diretamente eiqui este testo. Assi, anquanto eiqui stubir este abiso, l testo inda nun stará cumpleto. Buona semana i un beisico ou abraço.

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    maio 7th, 2023

    Cumo todos ls dies bemos i oubimos dezir na telbison, hai, na maior parte de ls spitales de l Paíc, grande falha de médicos p’acumpanhar las ties ne l trabalho de parto i a dar a la lhuç ls ninos.

    Bamos, aton, a ber cumo, hai cinquenta ou mais anhos, se passában estas cousas. Era you yá moço i lhembra-me de, quando inda garotico, la tie Sabel Tarasca, que, nesse tiempo, era la parteira, cuntinar a ajudar las ties d’Angueira a parir. Nun bos scandalizeis cun esta palabra, pus era assi que, nesse tiempo, alhá se dezie dar a la lhuç ou botar ls ninos al mundo.

    Cuido que tenerá sido eilha que, a mi i als mius armanos de pai i mai – Jorge, Anica, Eimílio i Aquilino, todos nós, cumo nuosso pai i nuossa bó Ana, coincidos pula alcunha de Pera/o –, mos tenerá ajudado a benir al mundo, i a tirar-mos de la barriga de la nuossa mai – la tie Marie Rosa, Quintanilha d’alcunha – i, apuis, pula purmeira beç, a lhabar-mos, a anxugar-mos i a bestir-mos i inda a oubir la nuossa purmeira cantilena.

    Pula parte que me toca, tengo, oumenos, que dezir: “Oubrigado, tie Sabel Tarasca!”. Claro que, s’ambas a dues inda hoije fússen bibas, mie mai tenerie 106 anhos d’eidade i la tie Sabel Tarasca, oumenos dieç, mas, cumoquiera, inda mais qu’eilha.

    Cumo será fácel d’eimaginar, nun fui solo a mi i a mius armanos que la tie Tarasca ajudou a benir al mundo. Cuido you que tenerá tamien ajudado a la maior parte de las mais de ls de la nuossa eidade i d’Angueira a botá-los al mundo.

    S’l trabalho de parto dalgũa tie nun corrisse de lei, nun habie outro remédio, senó, ir a chamar tiu Chic’Albino, l barbeiro que fazie las bezes d’anfermeiro d’Angueira, i s’inda stubisse a tiempo, l doutor a Bumioso ou lhebá-la, de burro ou a cabalho, al spital de la Bila. Nun admira, aton, que, tamien por isso, nesse tiempo se morríssen tantos “anjicos” i ties inda mi nuobas.

    Afertunadamente, hoije an die, yá mos podemos queixar, i cun toda la rezon, de nun haber i ls spitales, mesmo ls de las maiores cidades, nun tenéren oustetras subrecientes p’acumpanhar l trabalho de parto i oussiliar las ties i las moças a botar al mundo ls sous ninos i ninas. Eimaginai cumo serie se las ties i las moças d’agora tubíssen tantos ninos cumo tenien las daquel tiempo… Claro stá que, s’assi fusse, oumenos nun teneriemos la falta de giente, arriba de todo garoticos, moças i moços, i l grabe porblema de çpoboamiento q’afeta la maior parte de l nuosso Paíç i, arriba de todo, la Tierra de Miranda, l restro de l Nordeste Stramuntano i l anterior de l Cuntinente.

    Esta ye ũa maneira de lhembrar i d’houmenagear mie Mai i todas las outras Mais que, hai cerca de setenta anhos i sin qualquiera assisténcia médica, botórun las “moças” i ls “moços”, la giente de la mie geraçon al mundo. Claro qu’esta ye tamien ũa houmenaige, indas que sencielha, a todas las outras Mais de l mundo.

    Oubrigado, Mai! Tenemos muitas soudades buossas, tie Marie Rosa Quintanilha.

    Bocabulairo/Vocabulário

    afertunadamente – felizmente \\ al – ao \\ alhá – lá \\ an – em \\ anho – ano \\ anterior – interior \\ armano – irmão \\ arriba – acima \\ beç – vez \\ benir – vir \\ bien – bem, muito \\ Bila – Vila (de Vimioso) \\ bó – avó \\ Bumioso – Vimioso \\ buosso – vosso \\ çpoboamiento – despovoamento \\ cumoquiera – talvez \\ cuntinar – continuar \\ cuidar – pensar \\ de lei – como deve ser \\ dezir – dizer \\ die – dia \\ dieç – dez \\ dues – duas \\ eilha – ela \\ el – ele \\ houmenaige – homenagem \\ lhabar – lavar \\ lhembrar – lembrar \\ l – o \\ la – a \\ lhuç – luz \\ mai – mãe \\ mi – mim, muito \\ mie – minha \\ miu – meu \\ mos – nos \\ ningũa – nenhuma \\ ningun – nenhum \\ nino – menino \\ niũa – nem uma, nenhuma \\ nũa – numa \\ nun – não \\ nuosso – nosso \\ oumenos – pelo menos \\ oussiliar –auxiliar, ajudar \\ oustetra – obstetra \\ paíc – país \\ purmeiro – primeiro \\ rezon – razão \\ sencielha – singela \\ solo – só \\ soudade – saudade \\ spital – hospital \\ stramuntano – transmontano \\ stubisse – (forma do verbo “star”) estivesse \\ subreciente – suficiente \\ tamien – também \\ telbison – televisão \\ tener – ter \\ tie – tia, mulher, senhora \\ tiu – tio, homem, senhor \\ tubíssen – (forma do verbo “tener”) tivessem \\ ũa – uma \\ yá – já \\ ye – (forma do verbo ser) é \\ you – eu

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  • Será que o Poder Central se redime das políticas que condenaram o Nordeste Transmontano, especialmente a Terra de Miranda, ao despovoamento e ao abandono?

    março 5th, 2023

    A criação do Ministério da Coesão Territorial e a localização da respetiva secretaria de Estado em Bragança parece serem, talvez mais do que um indício, um sinal de que se pretende melhorar o panorama geral do País, mudando o paradigma das velhas políticas seguidas até à atualidade pelos governos do século passado e pelos que, já neste século, antecederam o atual.

    Contrariamente ao que se passou nas Regiões Autónomas da Madeira e dos Açores, que, a partir da entrada de Portugal na CEE, usufruíram de avultados fundos da União Europeia (EU) que lhes proporcionaram a possibilidade de realizarem largos investimentos, o interior do Continente, especialmente o Nordeste Transmontano, continuaram a ser discriminados e a “ver navios”, em termos de investimento público e privado, em relação ao litoral. Assim, os governos dos anos 80 e 90 do século passado, para além de incentivarem o abandono da agricultura tradicional, encerraram as três linhas de caminho de ferro de via estreita – Sabor, Tua e Corgo –, que, embora mal e porcamente, com material circulante lento, incómodo e obsoleto, iam, apesar de tudo, servindo Trás-os-Montes.

    Ultimamente, o atual Governo tem andado em périplo pelas capitais, cidades e vilas dos distritos do interior. Contudo, mais que as palavras e as promessas, interessam os atos e as realizações. Esperamos que, não se tratando de mera propaganda, tal medida represente e se traduza numa séria e decisiva aposta na coesão territorial do País.

    Assim, é chegada a hora de o atual Governo redimir o Poder Central do abandono a que, por ação ou omissão, os governos da Ditadura e mesmo os posteriores ao 25 de Abril de 1974, por falta de investimento no interior, contribuindo para a diáspora, ajudaram a sugar a população para as localidades do litoral. Por essa via, conduziram ao despovoamento e à hecatombe demográfica que afetam Trás-os-Montes, especialmente o Nordeste Transmontano e, ainda mais gravemente, a Terra de Miranda: os municípios de Miranda do Douro, Vimioso e Mogadouro.

    Com a mobilização dos aderentes aos movimentos cívicos criados na Terra de Miranda – a Rede Atalaia em 2018 e o Movimento Cultural da Terra de Miranda (MCTM) em 2020 – e, especialmente, com a elaboração e a discussão pública do Plano Estratégico da Terra de Miranda (PETM), o Movimento Cultural da Terra de Miranda dotou os referidos municípios e o próprio Governo de um plano de desenvolvimento para esta zona do País. O Poder Central e o Poder Local passaram, assim, a dispor de um instrumento, que, funcionando como bússola, pode, a partir de agora, nortear a sua ação neste território.

    Entre os seus projetos de ação, o PETM acolhe a proposta da equipa de quatro engenheiros, que, em nome da Associação Vale d’Ouro e pro bono, procedeu ao estudo comparativo, em termos de percurso, de população servida, de impacto económico e ambiental, de redução de tempos de percursos e de custos do projeto e da viabilidade da sua concretização, fundamenta e sustenta a sua proposta de opção pela construção de uma linha de caminho de ferro de alta velocidade (AV) de ligação do Aeroporto Francisco Sá Carneiro, passando por Paços de Ferreira, Amarante, Vila Real, Murça/Alijó, Mirandela, Macedo de Cavaleiros, Bragança e Terra de Miranda, à linha do AVE Vigo – Madrid, em Zamora, e, pelo norte de Espanha, à França, em detrimento da linha de ligação de Aveiro, passando por Viseu, Guarda e Vilar Formoso, até Medina del Campo e seguindo depois para Madrid.

    Porém, para meu espanto, há poucos dias, pela voz do secretário de Estado das Infra-estruturas, que, a convite da/o sr.ª/sr. Deputados distritais do Partido Socialista, se deslocou a Bragança, os Transmontanos foram brindados, em pleno inverno, com mais um banho de água fria. Afastando-se da posição assumida pela sr.ª ministra da Coesão Territorial – que havia declarado anuir à estratégia delineada pelo MCTM, adoptando-a como sua e possível modelo a aplicar a outras zonas do interior do País, se comprometeu a apoiar a concretização das propostas contempladas no PETM –, o referido sr. secretário de Estado, sem o mínimo pudor e qualquer respeito pela gente do Nordeste Transmontano e desprezando o trabalho desenvolvido pela equipa que, pro bono, produziu os estudos preparatórios da viabilidade de construção de uma via férrea de AV, ligando o Aeroporto Sá Carneiro às capitais de distrito e outras localidades importantes dos distritos do Porto, Vila Real e Bragança, seguindo, depois, pela Terra de Miranda até Zamora, com ligação a Madrid e, pelo norte de Espanha, a França. Fazendo letra morta desta proposta, o sr. secretário de Estado produziu declarações, que, parecendo afastar-se das linhas de força da ação do atual Governo, decalcam a bafienta cartilha política anteriormente seguida pelos governos do antes, mas também do pós-25 de Abril.

    O Toural da feira, a nordeste do Santuário do Naso.

    A partir dos anos 80 do século passado, o Nordeste Transmontano talvez tenha sido uma das zonas “privilegiadas” do território mais “prontamente contemplada” com o encerramento das linhas de caminho de ferro de via estreita. Agora, o dito sr. secretário de Estado, seguindo uma estranha forma de “compensar” Trás-os-Montes dos desmandos e arbitrariedades com que o “presentearam”, remete a construção da via férrea de AV que serviria (servirá?!) Trás-os-Montes para as calendas ou, recorrendo a uma expressão mais popular, para o Dia de São Nunca à tarde. Parece, assim, considerar que Trás-os-Montes não precisa – quiçá, nem merece! – que lhe seja conferida qualquer prioridade de forma a poder ser contemplada com investimento público na ferrovia. De uma só penada, deu, assim, mais uma machadada no sonho acalentado por aqueles que mantinham a esperança de que o atual Governo não perderia a oportunidade para, convertendo o múltiplas vezes reiterado círculo vicioso em virtuoso, redimir o Poder Central das discriminações arbitrárias com que, no passado, “premiou” Trás-os-Montes e o restante interior e que conduziram ao despovoamento de cerca de 2/3 do território do Continente. A litoralização dos investimentos e a consequente fixação de cerca de 2/3 da população na estreita faixa litoral compreendida entre Braga e Sines foram erros sucessivamente repetidos pelos vários governos que, há mais ou há menos tempo, antecederam o atual.

    Vejamos, então, como o sr. secretário de Estado das Infra-estruturas equaciona o problema: a “espinha dorsal” ferroviária, por ele referida, tem, a meu ver e desde longa data, vindo a assistir à concentração do investimento público e privado no litoral. Nas doutas palavras do referido governante, “A geografia é o que é”(!…)” Terá sido assim que o País chegou ao lamentável estado em que, atualmente e mesmo nas suas palavras, se encontra: “Portugal “tem a população quase toda no eixo Braga/Faro e todas as infraestruturas de transporte se ligam (…) a esse eixo”, pelo que “sem estruturar esse eixo a utilidade das outras infraestruturas fica muito prejudicada.”” (Ver página: https://eco.sapo.pt/2023/02/27/governo-rejeita-comecar-ferrovia-por-tras-os-montes-e-nao-promete-alta-velocidade/?fbclid=IwAR3DHN0ZdONln-bIKK75snq-hFkFYeoAu4GTFiHQUhLsNOLrC5xIZjHHLLc – consultada em 5 de março de 2023).

    O referido governante parece esquecer que a geografia, sobretudo a humana, está longe de ser a única condicionante da distribuição da população pelo território. Mais que condicionada pelas condições físicas ou naturais, embora sem deixar de as ter em conta, a ocupação humana e a distribuição da população pelo território são, acima de tudo, condicionadas pelos investimentos realizados, ou pela falta deles, e, no caso de Trás-os-Montes e do restante interior, pelo abandono a que, pelo menos, desde meados do século passado, o Poder Central os tem vindo e continuado a condenar. Foi assim que, nos anos 60 e 70, e, nos anos 80 e 90 do século passado, o Poder Central tem vindo a aproveitar, primeiro, as remessas de divisas dos emigrantes e, após a entrada de Portugal na CEE, os Fundos Europeus – destinados a promover a coesão europeia, aproximando o nível de desenvolvimento dos países periféricos/menos desenvolvidos ao dos países centrais/mais desenvolvidos da UE – para, avisada, acertada e coerentemente, continuando a concentrar o investimento público e privado no litoral, aprofundar o diferencial de desenvolvimento entre as regiões do País. Assim, é nos mesmos locais onde sempre foram feitos os investimentos e que, por isso mesmo e que, para além dos países que acolheram os nossos emigrantes, sugaram a população das terras do interior, que o Poder Central continua a concentrá-los. Não admira, pois, que os desequilíbrios da distribuição da população pelo território, anterior e historicamente gerados, corram o risco de serem ainda aprofundados e mais agravados, quase mesmo “perpetuados”. Assim, com 2/3 da sua população a ocupar uma faixa litoral de menos de 30 kms a partir da linha costeira entre Braga e Setúbal e da faixa costeira algarvia, não será de admirar que, como, há muitos anos, dizia o saudoso dr. Eurico Lemos Pires, mais dia menos dia, Portugal caia ao mar. Depois, lavando as mãos como Pilatos ou vertendo lágrimas de crocodilo, imputam a responsabilidade pela situação aos governantes que os precederam. Ainda que com um trago amargo de boca, quase apetece dizer: Dizem que Portugal é pequeno!… Afinal e pelos vistos, até parece ser grande demais! Por este andar, qualquer dia ainda é capaz de aparecer por aí um político de meia tigela, mas dotado de vastos lampejos de “argúcia”, a propor-nos vender em saldo a qualquer outro país eventualmente interessado cerca de 2/3 do nosso território atual!

    “O centralismo é uma doença de que o país padece e que é muito provocada pelo desconhecimento. (…) O centralismo é sempre justificado em nome de um suposto racional de eficiência, que depois sucumbe à monstruosidade e inoperância das máquinas que são criadas. E temos então esses exemplos bizarros: florestas geridas a partir da Avenida da República, em Lisboa, ou coisas desse género, que sabemos o dano que provocam ao país e ao seu desenvolvimento.” (António Cunha, presidente da CCDR-N, na “Entrevista”, realizada por Luís Miguel Queirós e Manuel Roberto, Público, sábado, 18 de março de 2023, pág.ª 41). Seguindo o anacronismo da velha lógica denunciada pelo sr. presidente da CCDR-N, nas declarações do sr. secretário de Estado, vislumbra-se estar subjacente ao seu pensamento, justificar-se a continuidade das velhas políticas que têm vindo a tornar cerca de 2/3 do território do Continente num espaço de mato, abandonado, sem ninguém que o cultive e defenda e, como tal, condenado a ser pasto de incêndios. Tal “visão” só merece mais um comentário: perante uma maneira de pensar “tão lúcida, esclarecida, inovadora, ousada, equilibrada e justa”, o interior “está bem servido!”… Bem vistas as coisas, o pensamento do referido governante em nada se afasta ou difere – pelo contrário, decalca-a! – da lógica de pensamento sobre o País daqueles “esclarecidos, preocupados com os problemas e amigos do peito” do Nordeste Transmontano, que, há cerca de 40 anos, por ação ou por omissão, mandaram ou permitiram encerrar as linhas férreas de via estreita, que, embora mal, apesar de tudo, iam servindo a população de Trás-os-Montes: a Linha do Sabor, a Linha do Tua e a Linha do Corgo. Em vez de modernizar as linhas e o material circulante de forma a permitir praticar maiores velocidades, reduzir o tempo de viagem e conferir-lhes melhores condições de segurança, conforto e maior comodidade, o Poder Central e a concessionária preferiram encerrar de vez estas linhas férreas que tanto custaram e tempo levaram a serem construídas.

    Tendo em conta o teor das declarações proferidas pelo sr. secretário de Estado das Infra-estruturas, que, anuindo ao convite que lhe foi dirigido pela/o sr.ª/sr. Deputados distritais de Bragança do Partido Socialista, se “dignou” deslocar-se a Bragança, para tomar a liberdade de, com a maior desfaçatez e alto e bom som, dar a entender aos “pretensiosos, sonhadores e irrealistas” Transmontanos: “Ora, tomem lá, que é para aprenderem!”

    Sabendo que, infelizmente, a quase generalidade dos governos tomam decisões sobre medidas políticas a aplicar em função do número de possíveis eleitores existentes nas localidades, nos municípios e distritos, nas províncias, regiões ou zonas mais importantes do País, os governantes podem, porventura, laborar num erro: esquecer os laços e a ligação afetiva dos naturais que, devido à diáspora, ou dos que, por motivos de estudo, trabalho ou familiares, tiveram que deixar a terra natal para e/migrarem para o estrangeiro ou se fixarem nas grandes cidades do litoral. Se há alguns casos em que, só esporadicamente e por motivos de força maior, voltam de visita à terra de origem, muitos outros – arrisco mesmo dizer a maior parte dos Transmontanos –, mesmo os que residem no estrangeiro, mantêm fortes ligações à terra natal. Nestas situações, pode acontecer que, divididos entre “dois amores” – à terra de origem e àquela onde residem –, a sua opção de voto não seja condicionada apenas por uma das localidades. Assim, é bem possível que, na hora de votar, o façam na(s) força(s) política(s) que, do seu ponto de vista, alguma ou mais coisas importantes fez/fizeram em prol da sua terra-natal.

    Tenho sérias dúvidas que alguém ou algum organismo tenham feito o levantamento dos naturais de quaisquer localidades, concelhos, distritos, províncias, regiões e zonas de Portugal a residirem noutros. Podemos, contudo, imaginar os muitos milhares de eleitores transmontanos e a primeira geração dos seus descendentes, que, residindo no estrangeiro ou nas grandes cidades do litoral do País, a sua opção de voto seja condicionada também pela atenção prestada e a ação votada pelas forças políticas ao seu torrão-natal. Seja como for, aqui fica o alerta…

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  • Baláncio de l Blogue Angueira.net

    janeiro 10th, 2023

    Nota Prévia: uma prevenção

    Se não está familiarizada/o com a Língua Mirandesa, sugiro que, para facilitar a compreensão do texto, o leia a meia voz. Se, mesmo assim, sentir qualquer dificuldade em compreender o sentido ou descobrir o significado de alguma palavra menos usual ou cuja grafia se afasta mais da portuguesa, não hesite emconsultar o dicionário cujo “link” pode encontrar no final do mesmo.

    Algumas especificidades fonéticas e ortográficas da Língua Mirandesa

    Embora o Português e o Mirandês tenham origem no Latim, pelas vicissitudes do processo histórico, seguiram percursos e tiveram formas de evolução diferenciados. Assim, paralelamente à evolução do galaico-português, ocorreu a do ásture-leonês, que, na Terra de Miranda, viria a chamar-se Mirandês. Daí que a Língua Mirandesa tenha algumas especificidades fonéticas e ortográficas próprias que a diferenciam do Português. Vejamos, então, algumas delas: em Mirandês, não se pronuncia o som v, que é substituído pelo da letra b; usualmente, o prefixo des é substituído, consoante os casos, por ç ou z no início da palavra; para não se confundir com a contração da preposição a com o artigo definido o, que, em Mirandês, se escreve e lê al, o artigo definido o escreve-se l, mas lê-se também al; o diminutivo das palavras derivadas portuguesas formado pelo acrescento do sufixo inho/a no Mirandês é substituído por ico/a e, menos frequentemente, por ito/a; as palavras que em Português terminam na vogal nasal ã, no Mirandês, perde o til e fica terminada em ana (ex.ºs: manhã/Manhana, marrã/marrana); salvo raras exceções, os ditongos nasais ão e õe escrevem-se an e on; o m final das palavras portuguesas, no Mirandês é substituído pela letra n; geralmente, o l inicial das palavras é substituído pelo dígrafo lh; o dígrafo ch lê-se sempre tch; o Mirandês – talvez por, inicialmente, ser apenas uma língua falada – tende a contrair os pronomes, artigos, preposições e as conjunções com as palavras seguintes, quando estas são iniciadas por vogal.

    Baláncio de quaije uito anhos de publicaçones subre Angueira

    L final d’anho questuma ser l tiempo cierto pa se fazer qualquiera baláncio. Ye assi na eiconomie, nas ampresas, ne l Stado i ne ls serbícios públicos. Pus tamien a mi, que prezo la transparéncia, la prestaçon de cuntas i l dreito a la anformaçon, me parece que tengo algũas oubrigaçones an relaçon a quien ten tenido pacéncia i coraige pa me star a aturar, bendo ls testos que, zde 13 de abril de 2016, tengo benido a publicar ne l Blogue Angueira.net.

    La maior parte deilhes screbi-los an Mirandés, la lhéngua que, an casa, era falada por mie mai i miu pai i sous filhos. Assi, fui an Mirandés que, tal cumo ls mius armanos, eicetuando l mais nuobo, you daprendi tamien a falar. Cumo tal, l Mirandés ye la mie purmeira lhéngua materna. Claro stá que tamien tengo screbido un ou outro testo an Pertués, la mie sigunda lhéngua, que daprendi a falar ne l cumbíbio cun outras pessonas de la gente fidalga d’Angueira, na eigreija i, apuis, quando, antre ls siete i ls dieç anhos, andei a la scola an Angueira, daprendi tamien a screbir.

    Claro que nun fui nada fácele nin siempre pacífica la coeisisténcia de dues lhénguas na cabeça de l mesmo garoto. Bondará, a este respeito, ler l eicelente testo Dues Lhénguas de l eilustre i soudoso Amadeu Ferreira.

    Apuis de me aposentar de la carreira d’anspetor de la Eiducaçon, pa nun me sentir einútele i sin acupaçon, dou-me na cabeça de, pula purmeira beç, ampeçar a screbir an Mirandés. Cumbenirá lhembrar que, quando era garoto i, bien anhos apuis, yá d’adulto, mi ralas serien las pessonas que screbien an Mirandés. Bá lá que, pa lhá de l soudoso i eilustre padre, i apuis doutor, António Mourinho, an debido tiempo, ampeçórun mais pessonas a screbir tamien an Mirandés. Antre todas eilhas, tengo que, arriba de todo, tornar a lhembrar outro eilustre studioso – zafertunadamente, tamien el yá zaparcido – mirandés, Amadeu Ferreira, de quien la lhéngua i la cultura mirandesas, sin squecer tamien Angueira, son mi grandes debedoras. A abaluar pulas ambestigaçones q’alhá fizo, puls testos que subre eilha screbiu i pula palestra q’alhá dou als partecipantes ne l Encontro dos Blogueiros do Praino, Amadeu Ferreira amostrou un special aprécio por Angueira, pul sou patrimonho, specialmente puls molinos mais antigos nas marges de la ribeira, i inda pula sue stória. Claro que outras/os hai que, seguindo tamien l eisemplo deilhes, pa lhá de studáren, screbíren i publicáren an Mirandés, fundórun i ténen benido a animar la Associaçon de la Lhéngua i Cultura Mirandesas. Grácias a outras/os i tamien a eilhes, bai yá para uns anhos que l Mirandés ampeçou a ser ansinado, purmeiro, an algũas scolas de l cunceilho de Miranda i, apuis, an algũas Associaçones de Stramuntanas an Lisboa i ne l Porto.

    Se lirdes l testo De Trapos se Fai ũa Manta de Farrapos. Ls Porpósitos Deste Blogue (https://www.angueira.net/2016/04/19/33), que, an 19 de abril de 2016, publiquei ne l Blogue Angueira.net, podereis quedar a saber las rezones que me lhebórun a screbir estes testos.

    La mie eideia era – i cuntina a ser – dar a coincer a las pessonas d’Angueira, als sous decendientes i a las de ls pobos bezinos, arriba de todo, de la Tierra de Miranda, un cachico de cumo era la bida de las pessonas d’antigamente. Abibando-les la mimória, poderan, assi, muitas deilhas lhembrar-se i matar soudades de la sue gente i d’Angueira.

    Bamos aton a ber l quei, antre 13 de abril de 2016 i 31 de dezembre de 2022 (Gráf.º 1), se passou culs testos que tengo benido a screbir i a publicar ne l Blogue Angueira.net:

    Eicetuando 2017, anho an que, por bias de tener stado acupado a dar formaçon als diretores de scolas i agrupamientos de scolas de l Norte, de l Centro, de Lisboa e Vale do Tejo, de l Alentejo i de l Algarve, publiquei mi pouquitos testos. Assi i todo, an 2017, l númaro de bejitantes de l Blogue fui maior q’l de 2016. Ne ls restrantes anhos, l númaro de bejitantes i de bisualizaçones fui oumentando todos ls anhos anté, an 31 de dezembre de 2022, alcançar un total de 15 127 bejitantes i de 25 421 bisualizaçones.

    Cumo se puode ber ne l Quadro 1 i serie de sperar, Pertual, seguido por Spanha, Stados Ounidos, Fráncia i Brasil, son ls países cun mais bejitantes i bisualizaçones de todos ls testos. Solo nun me passarie pula cabeça que ls Stados Ounidos quedarien a la frente de la Fráncia i de l Brasil an númaro de bisualizaçones.

    Bendo agora la çtribuiçon de bisualizaçones por Cuntinentes (Gráf.º 2), arriba de todo, l’Ouropa, mas tamien las Américas, çtácan-se de ls restantes. Ye na África q’hai menos bisualizaçones de ls testos de l Blogue. Assi i todo, quaije trés meses i meio antes de, a 13 de abril de 2023, cumpletar uito anhos, fui bejitado i bisualizado an 68 países. Bamos aton a ber ls dieç testos de l Blogue cun mais bisualizaçones (Quadro 2):

    Ambora tenga sido publicado hai menos tiempo (2022), de todos ls testos, “Portugal de Lés a Lés”: Passaige de 2 400 “Motards” por Angueira, an pouco mais de meio anho, fui aquel que, ne l Blogue Angueira.net, tubo mais bisualizaçones. La rezon disso cumoquiera seia por tener sido bisto por alguns de ls partecipantes ne l çfile. Pa lhá disso, de todos ls testos de l Blogue, hai seis que ténen mais de 1 000 bisualizaçones, un cun mais de 900 i outro cun mais de 800, tenendo sido quatro deilhes publicados an 2016 i un – l sigundo mais bisto – an 2018.

    Cumbenirá sclarecer que, ne l miu modo de ber, l testo que talbeç tenga sido mais bisto será La Compra dun Albardin na Feira de l Naso. Se calha, preguntareis bós: Mas por quei? Son dues las rezones: la purmeira, por tener sido publicado an cinco partes na “Fuolha Mirandesa”, por simpático cumbite i decison de l porsor, scritor i amigo Alfredo Cameirão, persidente de la Associaçon de la Lhéngua i de la Cultura Mirandesas i responsable pula dita “Fuolha“, an outras tantas eidiçones seguidas de l Jornal do Nordeste; la sigunda, por estas leituras nun stáren cuntablizadas ne l miu blogue.

    Eiqui queda l mui agradecimiento i un abraço al dr. Alfredo Cameirão, scritor mirandés que leio cun grande agrado, porsor i pessona que muito admiro pul sou dinamismo i dedicaçon a la Tierra de Miranda i a la causa de la Lhéngua Mirandesa, sin squecer l Nordeste Stramuntano.

    Hai inda outro texto, Bícios, Manhas i Artimanhas de l Burro de l Tiu Adriano, que, por tener sido partilhado ne l blogue dun amigo, las bisualizaçones deste testo ne l sou blogue tamien nun stan eiqui cuntablizadas.

    Tengo q’acrecentar q’l oumento de l númaro de bejitantes i de bisualizaçones de ls testos de l Blogue Angueira.net se debe tamien a las paiginas, arriba de todo, stramuntanas de l FaceBook, algũas deilhas de la Diáspora i, cumo tal, çtinadas als nuossos eimigrantes. Eiqui queda tamien l miu agradecimiento a las i als administradoras/es dessas paiginas por me tenéren outorizado a partilhar neilhas ls testos de l Blogue.

    Claro stá qu’inda réstran muitas outras stórias antressantes passadas antre la gente antiga d’Angueira i que fago tençon de, an debido tiempo, benir a publicar neste Blogue.

    I, cumo, pula cierta, preguntarie Fernando Pessoa se screbisse an Mirandés: Baliu la pena?

    Cuido que se puode dezir que si, q’l baláncio ye positibo. Hoije, mais pessonas sáben un cachico mais acerca d’Angueira, de la sue gente mais antiga, de ls porblemas mais defíceles q’hoije afétan la poboaçon, l sou termo i la gente q’alhá bibe. Alguns decendientes de pessonas d’Angueira, que, na purmeira metade i anté als anhos 60 de l seclo passado, fúrun oubrigados a eimigrar pa las Américas, mas, arriba de todo, pa l Brasil, tornórun a bejitar Angueira a ber i a saber de fameliares de sous pais que quedórun por Angueira ou qu’eimigrórun pa países de l’Ouropa.

    A todas/os las/als amigas/os que ténen tenido la coraije pa se botáren a ler testos an Mirandés, parabienes i oubrigado, beisicos i abraços.

    Buono Anho de 2023 a todas/os!

    Bocabulairo \\vocabulário

    Abaluar – avaliar \\ abibar – avivar \\ aire – ar \\ a la/al – à/ao \\ alhá – lá \\ alredores – arredores \\ amentar – referir, falar \\ ampeçar – começar \\ ampercípio – princípio \\ an – em \\ anganhar – enganar \\ anspetor – inspetor \\ anton/aton – então \\ antrar – entrar \\ antre – entre \\ aparcer – aparecer \\ apartar – separar \\ aprécio – apreço \\ apuis – após, depois \\ armano – irmão \\ arriba – acima \\ auga – água \\ baler – valer \\ balhe – vale \\ beç – vez \\ bejita/nte – visita/nte \\ berano – verão \\ bielho – velho \\ bien – bem \\ benido – (verbo benir) vindo \\ bondar – bastar \\ botar-se – pôr-se a fazer qualquer coisa \\ búltio – vulto \\ buntade – vontade \\ buolta – volta \\ cachico – pouquinho \\ calhar – acontecer por acaso, calar \\ causo – caso \\ çcanso – descanso \\ çcuidar – descuidar \\ çcunfiar – desconfiar \\ çfile – desfile \\ cheno – cheio \\ coincer – conhecer \\ coraige – coragem \\ çpachado – despachado \\ çpique – despique \\ c’ũa/c’un/cun – com uma/um, com \\ cul/a – com o/a \\ cumbenir – convir \\ cumoquiera – talvez \\ cunsante – consoante \\ cunta/r – conta/r \\ cuntablizado – contabilizado \\ decendiente – descendente \\ decison – decisão \\ deilha – dela \\ del – dele \\ dezir – dizer \\ dieç – dez \\ dreito – direito \\ dũa – duma \\ eilha – ela \\ eilhi – ali \\ eimbierno – inverno \\ eiqui – aqui \\ el – ele \\ fame – fome \\ feitiu – feitio \\ fondo – fundo \\ fuora – fora \\ houmenaige – homenagem \\ houmilde – humilde \\ huorta – horta \\ inda/s –ainda \\ l/la – o/a \\ lhá – lá \\ la – a \\ le – lhe \\ lhadeira – encosta \\ lhado – lado \\ lhargo/uito – largo/uinho \\ lhembrar – lembrar \\ mai – mãe \\ mala/o – má/mau, doente \\ manhana – manhã \\ mano – mão \\ marge – margem \\ mi – mim, muito \\ mie/miu – minha/meu \\ naciente – nascente \\ nacírun – (verbo nacer) nasceram \\ naide – ninguém \\ nel – nele \\ nin – nem \\ nin sequiera – nem sequer \\ niũa/ningũa – nem uma, nenhuma\\ nó/nun – não \\ nũa – numa \\ nuobo – novo \\ nuosso – nosso \\ oumenos – pelo menos \\ parcer – parecer \\ paixarada/páixaro – passarada/pássaro \\ palo – pau \\ pie – pé \\ poner – pôr \\ poniente – poente \\ porparar – preparar \\ porriba – por cima, do lado de cima \\ puonte – ponte \\ pul/a – pelo/a \\ puolo – pó \\ pus – pois \\ punton – pontão \\ quaije – quase \\ qualquiera – qualquer \\ quedar – ficar \\ quegirdes (forma do verbo querer) – quiserdes \\ rejistir – resistir \\ riba – cima \\ scaleiras – escadas \\ sclarecer – esclarecer \\ scuitar – escutar, ouvir \\ seclo – século \\ senó – senão \\ sfregante – instante \\ solo – só \\ Spanha – Espanha \\ spantar – espantar \\ spreitar – espreitar \\ stramuntano – transmontano \\ stubo/isse (verbo star) – esteve/ivesse \\ studar – estudar \\ suorte – sorte \\ talbeç – talvez \\ tempra – têmpera \\ tengo – (verbo tener) tenho \\ tie/tiu – tia, mulher, esposa/tio, homem, marido \\ tubo/isse (verbo tener) – teve/tivesse \\ ũa – uma \\ yerba – erva \\ zabafar – desabafar \\ zafertunadamente – infelizmente

    Para saber o significado de outras palavras, carregue no “link”:

    http://www.mirandadodouro.com/dicionario/Se quiser aderir a qualquer dos 23 grupos da Rede Atalaia, basta acrescentarao nome de cada localidade do concelho de Vimioso a palavra Atalaia. Pesquise, depois, o nome do(s) grupo(s) no Facebook e peça a sua adesão ao(s) mesmo(s).

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  • Rezon de Ser de la Formaçon de ls Mobimientos Cíbicos “Rede Atalaia” i “Movimento Cultural da Terra de Miranda”

    agosto 28th, 2022

    Nota Prévia: uma prevenção

    Se não está familiarizada/o com a Língua Mirandesa, sugiro que, para facilitar a compreensão do texto, o leia a meia voz. Se, mesmo assim, sentir qualquer dificuldade em compreender o sentido ou descobrir o significado de alguma palavra menos usual ou cuja grafia se afasta mais da portuguesa, não hesite emconsultar o dicionário cujo “link” pode encontrar no final do mesmo.

    Algumas especificidades fonéticas e ortográficas da Língua Mirandesa

    Embora o Português e o Mirandês tenham origem no Latim, pelas vicissitudes do processo histórico, seguiram percursos e tiveram formas de evolução diferenciados. Assim, paralelamente à evolução do galaico-português, ocorreu a do ásture-leonês, que, na Terra de Miranda, viria a chamar-se Mirandês. Daí que a Língua Mirandesa tenha algumas especificidades fonéticas e ortográficas próprias que a diferenciam do Português. Vejamos, então, algumas delas: em Mirandês, não se pronuncia o som v, que é substituído pelo da letra b; usualmente, o prefixo des é substituído, consoante os casos, por ç ou z no início da palavra; para não se confundir com a contração da preposição a com o artigo definido o, que, em Mirandês, se escreve e lê al, o artigo definido o escreve-se l, mas lê-se também al; salvo raras exceções, os ditongos nasais ão e õe escrevem-se an e on; o m final das palavras portuguesas, no Mirandês é substituído pela letra n; geralmente, o l inicial das palavras é substituído pelo dígrafo lh; o dígrafo ch lê-se sempre tch; o Mirandês – talvez por, inicialmente, ser apenas uma língua falada – tende a contrair os pronomes, artigos, preposições e as conjunções com as palavras seguintes, quando estas são iniciadas por vogal.

    Agradecimentos

    Agradeço a todas/os quantas/os, abnegadamente, disponibilizando o seu tempo e o seu saber à causa, contribuíram para a formação e às/aos que têm vindo a aderir e a apoiar os dois movimentos cívicos – Rede Atalaia e Movimento Cultural da Terra de Miranda –, criados em prol da resolução dos graves problemas que afetam o bem-estar, a língua e a cultura da população das localidades dos três municípios da Terra de Miranda.

    Criaçon de ls Mobimientos Cíbicos Rede Atalaia i Movimento Cultural da Terra de Miranda

    A la purmeira bista, teneran sido çfrentes las rezones que lhebórun alguns cidadanos de l cunceilho de Bumioso, por um lhado, i outros de ls cunceilhos de Miranda de l Douro i de Mogadouro, por outro, a criar estes dous mobimientos cíbicos.

    La toma de cuncéncia de l mui alto númaro de abstençones nas Eileiçones Nacionales i, arriba de todo, nas Outárquicas de 2017, lhebou alguns cidadanos ouriginairos de bárias poboaçones de l cunceilho de Bumioso a, ne l final desse anho, dáren ls purmeiros passos pa la formaçon de la Rede Atalaia. Agregando 23 grupos, un a mais que las 22 poboaçones de l munecípio de Bumioso, fui criada a 6 janeiro de 2018 cumo forma de podéren tamien dar l sou cuntrebuto al Movimento pelo Interior. Stando persentes i anterbenindo nas einiciatibas deste mobimiento, nas quales apersentórun ls sous puntos de bista.

    Dous anhos i un cachico mais apuis, a 6 de márcio de 2020, preacupados cul negócio de l trespasse de la sploraçon de seis barraiges – trés deilhas ne l Douro Anternacional i na Tierra de Miranda i outras tantas tamien ne l Nordeste Stramontano –, alguns cidadanos ouriginairos de bárias poboaçones de ls cunceilhos de Miranda de l Douro i de Mogadouro dórun ls purmeiros passos cun bista a la formaçon de l Movimento Cultural da Terra de Miranda. Arriba de todo, este mobimiento fui criado pa prebenir i alertar Sue Eiceléncia l Sr. Persidente de la República, l Gobierno, ls Deputados, ls Outarcas, ls Mirandeses, ls Purtueses i la Outoridade Tributaira pa l que poderie star a passar-se cul negócio de l trespasse de la sploraçon de las barraiges eisistentes i sploradas pula EDP – las de Miranda de l Douro i Picuote ne l cunceilho de Miranda de l Douro, la de Bemposta ne l cunceilho de Mogadouro i las restrantes noutros munecípios de Trás-ls-Montes. Ye que çcunfiaban que las ampresas ambolbidas neste negócio starien a porparar-se pa se çafáren de pagar ls debidos ampuostos. Assi, culas sues manobras, poderien perjudicar estes munecípios, negando-les l dreito a recebir la parte de ls mesmos, receita que, cumo todo lhieba a crer, les será debida.

    Mas, pa lhá destas, que fúrun las mais próssimas, houbo inda outras rezones q’hai muito tiempo bénen perjudicando ls trés cunceilhos de la Tierra de Miranda – Miranda de l Douro, Mogadouro i Bumioso – i inda outros de l Nordeste Stramontano i que, cumo tal, lhebórun a la criaçon destes dous mobimientos: l squecimento, l abandono i la falta d’ambestimiento i de zambolbimiento a que, antes i apuis de l 25 de Abril de 1974, ls gobiernos les ténen cundanado; i, debido a isso, l amprobecimiento que lhebou a l’eimigraçon, al çpoboamiento, al ambelhecimiento de la populaçon, al ancerramiento de las bias de l camino de fierro i d’outros serbícios públicos eissenciales: scolas, houspital, stradas, carreiras, bancos, tribunales, correios, antre outros. Estes porblemas ajúdan-mos a antender l stado lhastimoso a que, ne ls dies d’hoije, chegou la demografie, l’eiconomie i la situaçon social de la gente de la Tierra de Miranta, de l Nordeste Stramuntano i de l Anterior de Pertual. Mas nun cuideis, pori, que ye por falta de recursos própios – bien pul cuntrairo! –, que chegórun a un stado de tal grabidade.

    Ne l seclo passado, milhentas pessonas – dezenas de milhar deilhas de la Tierra de Miranda – fúrun forçadas, pus nun tubíran outro remédio, senó, eimigrar pa las Américas i, a partir de ls anhos 60, para outros çtinos na Ouropa, adonde, apuis de cunseguíren lhebar ls fameliares, refazírun las sues bidas. Assi i todo, las qu’eimigrórun pa países de l’Ouropa – arriba de todo pa la Fráncia i pa l’Almanha –, mantenendo las sues raízes, oumenos ũa beç por anho, quaije todas an agosto, tornában, i inda tórnan, a las sues tierras pa ber i matar soudades de la sue gente i tratar de las sues porpiadades. La maior parte deilhas (re)custruíran ou amanhórun las sues casas. I, cula eideia dun die tornáren, de beç, pa Pertual, muitas deilhas fúrun cumprando mais porpiadades. Assi, quando se reformórun, algũas tornórun de beç pa Pertual, mas la maior parte deilhas, pa podéren star perto de ls sous filhos i nietos, i de ls sous amigos i cuntinar a aceder als serbícios de salude desses países, pássan metade de l anho an cada lhado: ls meses mais frius, ou seia ne l outono i d’eimbierno, ne ls países para donde eimigrórun, i la outra metade, ne ls meses mais calientes, ou seia na primabera i ne l berano, an Pertual.

    Atentos al que cuntina a passar-se i a la grabidade de la situaçon an que hoije s’ancóntran las poboaçones de ls trés cunceilhos de la Tierra de Miranda, ls dous mobimientos ténen inda mais cousas an quemun: cada qual, ne l tiempo próprio i a sou modo, publicou un lhibro adonde apersenta las sues maiores preacupaçones i dá cunta, a la populaçon i als outarcas, de las sues porpuostas de seluçon para aqueilhes que, ne l sou modo de ber, son ls maiores porblemas de l cunceilho de Bumioso i de la Tierra de Miranda: Concelho de Vimioso, O Desafio da Interioridade (2018), por parte de la Rede Atalaia; l Plano Estratégico da Terra de Miranda (2022), por parte de l Movimento Cultural da Terra de Miranda. Cumo se puode ber nestes lhibros, ls dous mobimientos ténen inda an quemun la maior parte de ls oubjetibos, preacupaçones i porpuostas de seluçon q’un i outro aperséntan. Bien bistas las cousas, cada qual a sou modo, ambos a dous se porpónen ajudar a rebitalizar las poboaçones de l cunceilho de Bumioso i de ls outros dous munecípios de la Tierra de Miranda.

    Assi i todo, hai tamien algũas cousas que cfréncian estes dous mobimientos: la stratégia i la dinámica seguidas na dibulgaçon de las sues atebidades por parte de l Movimento Cultural da Terra de Miranda. Assi, an márcio i abril de 2020, inda antes de la sue formaçon, cuntando cula eisiténcia de bárias associaçones ne ls cunceilhos de Miranda de l Douro i de Mogadouro – Associaçon de la Lhéngua Mirandesa, Frauga, Lérias, Galandum Galundaina, Chocalheiro de Bemposta –, apostou an ambolber i mobelizar estas associaçones na formaçon i nas atebidades de l mobimiento. A 13 de julho, apersentou l sou Manifesto al Paíç nũa cunferéncia d’amprensa. Pa lhá disso, ten cunseguido tamien ambolber políticos de ls bários partidos i outarcas, jornalistas i las telbisones na dibulgaçon de quemunicados i nobidades subre l negócio de las barraiges. La clareza de l oubjetibo que lhebou ls fundadores de l mobimiento a ouníren-se i a criá-lo, l sou protagonismo, las sues strutura, forma de ourganizaçon, de debison de l trabalho i de dibulgaçon de la sue atebidade, juntamente culas peripécias de l negócio que parece séren scandolosas, fúrun l furmiento q’ajudou l mobimiento a crecer i a tornar-se mais coincido i, assi, a cunseguir l apoio i a tornar-se capaç de mobelizar mais gente ne l Paíç.

    Por sue beç, apuis de criada, la Rede Atalaia fui tratando de la sue strutura ourganizacional i, cunsante iba oumentando l sou númaro d’aderentes – an 17 de maio de 2018, tenie yá alcançado 5 450 adesones! –, fui ponendo a funcionar l grupo i la páigina de cada poboaçon de l cunceilho. Passados trés ou quatro meses, todas las poboaçones de l cunceilho tenien ls sous grupos formados, las sues páiginas a funcionar i la maior parte deilhas ls sous admenistradores nomeados. Assi, grácias als admenistradores de ls grupos de las poboaçones, la Rede Atalaia, cachico a cachico – ou seia, més a més –, fui siempre crecendo, anté, antre ls que neilhas nacírun, eimigrados ou nó, ls sous decendientes i amigos, ne l final d’agosto de 2022, quedar a pouco mais de 200 nuobas adesones p’alcançar 18 000 ne l cunjunto de ls grupos i poboaçones de l cunceilho. Pa se perceber bien l segneficado de l númaro d’adesones, bonda lhembrar que, fazendo fé ne ls Censos de 2021, an 31 de dezembre desse anho, l cunceiho de Bumioso yá só tenerie un cachico mais de 4 100 moradores. Inda an 2018 i ne ls anhos a seguir, pa lhá de la participaçon nas einiciatibas de l Movimento pelo Interior, alguns de ls fundadores de la Rede Atalaia fúrun recebidos an oudiéncia por Sue Eiceléncia l Sr. Persidente de la República, cumbersórun cul menistro de l’Agricultura i, juntamente cul persidente de la Cámara Munecipal, recebírun ũa figura amportante de la política nacional na bejita que fizo a Bumioso. Cumo forma de sensibelizar a todos eilhes pa ls porblemas de l cunceilho, fazírun-le l’antrega de l lhibro Concelho de Vimioso, O Desafio da Interioridade. Pa lhá disso, l aderente, pintor i músico José Augusto Coelho tocou, pa Sue Eiceléncia, l hino de la Rede Atalaia, de l’autorie de Piedade Galhardo i musicada pul grupo Maranus, i antregou-le tamien l quadro Tia Papoila, l retrato dũa figura representatiba de l cunceilho de Bumioso, pintado por el.

    Ne l miu modo de ber, pa la Rede Atalaia i l Movimento Cultural da Terra de Miranda tenéren inda mais fuorça, solo les falta dáren-se las manos i, caminando a la par i ounindo sfuorços antre eilhes i cula gente i culs outarcas de ls trés cunceilhos, eisegíren al Poder Central que les preste, agora, l’atençon i les faga la justícia, que, hai tiempo demais, les ye debida, mas les ben a ser negada: zambolber i rebitalizar la Tierra de Miranda, cumo tamien l Nordeste Stramuntano i todo l Anterior de l Paíç.

    Todos trés – la Tierra de Miranda, l Nordeste Stramuntano i todo l Anterior de l Paíç – percísan, merécen i yá nun ye sin tiempo q’l Poder Central ampece a fazer-les la justícia que les ye debida, mas que, nun passando de la cepa tuorta, tarda demais. Seia cumo fur, muitos son yá ls cidadanos que nun stan çpuostos a quedáren mais tiempo, quetos, calhados i de manos atadas, a la spera que la seluçon de ls sous porblemas les caia de l cielo.

    Fuorça i upa a todos eilhes!

    Para saber o significado das palavras mais difíceis, carregue no “link”:

    http://www.mirandadodouro.com/dicionario/

    Se quiser aderir a qualquer dos 23 grupos da Rede Atalaia, basta acrescentar ao nome de cada localidade do concelho de Vimioso a palavra Atalaia. Pesquise, depois, o nome do(s) grupo(s) no Facebook e peça a sua adesão ao(s) mesmo(s).

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  • “Portugal de Lés-a-Lés”: Passaige de 2 400 “Motards” por Angueira

    junho 19th, 2022

    Nota Prévia: uma prevenção

    Se o/a leitor/a não está familiarizado/a com a Língua Mirandesa, sugiro que, para facilitar a compreensão do texto, o leia a meia-voz. Se, mesmo assim, sentir qualquer dificuldade em compreender o sentido ou descobrir o significado de alguma palavra menos usual ou cuja grafia se afasta mais da portuguesa, não hesite em consultar o Vocabulário que pode encontrar no final do mesmo.

    Breves notas sobre a grafia do Mirandês

    Em Mirandês, não se pronuncia o som v, que é substituído pelo da letra b; usualmente, o prefixo des é substituído, consoante os casos, por ç ou z no início da palavra; para não se confundir com a contração da preposição a com o artigo definido o, que, em Mirandês, se escreve e lê al, o artigo definido o escreve-se l, mas lê-se também al; salvo raras exceções, os ditongos nasais ão e õe escrevem-se an e on; o m final das palavras portuguesas é, no Mirandês, substituído pela letra n; geralmente, o l inicial das palavras é substituído pelo dígrafo lh; já o dígrafo ch, em Mirandês, lê-se sempre tch; talvez por, inicialmente, ser apenas uma língua falada, o Mirandês tende a contrair os pronomes, artigos, preposições e as conjunções com as palavras seguintes, quando estas são iniciadas por vogal.

    Agradecimentos

    Agradeço à professora Fátima Malheiro, à arquiteta Vera Fernandes, aos engenheiros Vítor Moreira e Jorge Fernandes, ao professor Adérito Carabineiro, ao dr. Álvaro Moreira (advogado), ao coronel Manuel Lopes, ao Francisco Afonso, meu parente basileiro, e aos conterrâneos Nuno Bilber, Ricardo Preto, Avelino Gomes e David Alves, que, gentilmente, me disponibilizaram e/ou autorizaram a publicar fotos de sua autoria que têm vindo a partilhar na página do grupo Angueira Atalaia. A todas/os e a cada uma/um delas/es, muito obrigado e um abraço.

    La passaige de las i de ls motards por Angueira

    Hai ũa rezon pa tener screbido este testo an Mirandés: Angueira ye ũa de las dues poboaçones – la outra ye Bilasseco – de l cunceilho de Bumioso adonde inda se fala tamien la Lhéngua Mirandesa. Hai quien diga que fui por anfluéncia de l porsor Moreno, mas, ne l miu modo de ber, arriba de todo por proua i se tenéren yá morrido las pessonas mais bielhas qu’inda la falában, zde final de l seclo passado, deixou de se falar Mirandés an Caçareilhos.

    Na tarde de deimingo, die 12 de junho de 2022, apuis d’almuorço, pulas dues de la tarde, you i Dulcineia, la mie tie, stábamos ambos a dous a salir de casa qu’era de mius pais, ne l Cimo de l Pobo d’Angueira, adonde naci i passei la mie anfáncia. Mal ponimos l pie fuora de la puorta, pássan por nós quatro ou cinco motas, mui grandes i potentes i de matrícula nacional i strangeira.

    Motards de l Portugal de Lés-a-Lés a antrar ne l cimo de l pobo d’Angueira na tarde de 12 de junho de 2022

    Rue de Sante Cristo abaixo, passado un cachico, pássan por nós mais outras tantas motas i, apuis, inda mais outras. A camino de l Pilo, adonde íbamos a tomar café cun miu armano Emílio, mie cunhada Cristina i ls nuossos amigos i sous bezinos Adérito i Teresa Carabineiro – que stában tamien a passar uns dies an Angueira –, cuntínun a passar por nós inda mais motas. I l mesmo se passou ne l restro dessa tarde.

    Angueira: passaige de ls motards pul Lhargo de Sante Cristo.

    Stábamos todos nós, mais Guilherme de l tiu Lazarete i la sue tie, a la selombra ne l cabanhal de la sede de l’Associaçon Cultural, cada qual a tomar sou café. Oulhando pa l cimo de las Scaleiricas, abisto anton ne l aire, purmeiro, dous ou trés i, un cachico apuis, dues ou trés dezenas d’abutros a bolar mui alto i an circlo subre l ribeiro de l Balhe. Nun dou pa ls cuntar nin ber bien a todos, pus staba muita lhuç i l cielo, indas que cun algũas nubres, mui claro. Éran tantos que quaije parcie que stában apostados an fazer cuncorréncia als abiones que todos ls dies pássan pul cielo de l termo d’Angueira. Assi i todo, inda les tirei alguns retratos cul telemoble, pus tenie-me squecido de la máquina de tirar retratos an casa.

    Angueira: abutros a bolár ne l cielo porriba de las Scaleiricas, ne l ampercípio de la tarde de 12 de junho de 2022.

    Deilhi a cachico, cuntínun a passar de l Lhargo de Sante Cristo pa l de l Ronso i, por antre la casa de l tiu Cereijas i de la tie Mar’Inácia Fresca i la sede de la Junta i de l’Associaçon Cultural, cada beç mais motas.

    Angueira: retrato animado de la passaige de ls motards pul Lhargo de Sante Cristo.

    Stando ũa tarde de calma mi caliente, dous motards de Felgueiras i mais uns poucos páran las motas ne l Ronso. Parcendo stafados i star cun friu squesito, abáncan junto a nós, a la selombra, i aporbéitan pa tomar café i se refrescáren cun golo d’auga i outras bubidas.

    Angueira: motards a çcansar un cachico ne l café i cerca de la fuonte, de l chafariç, de ls huortos de l Pilo i por baixo de la sede de l’Associaçon Cultural i de la Junta.

    De seguida, mais alguns motards páran las motas i aporbéitan tamien pa se refrescar i çcansar un cachico a la selombra dũa nogueira, cerca de la fuonte, de l chafariç i de ls huortos de l Pilo.

    Angueira: las i ls motards antre la fuonte i l chafariç i cerca de ls huortos de l Pilo a çcansar un cachico a la selombra.

    Cuntinando a chegar cada beç mais motas, ampecei a tirar-les retratos de çfrentes sítios: purmeiro, de la baranda i de l terraço porriba de la frauga de la casa qu’era de l tiu Ferreiro i de la tie Clorinda i que miu armano Emílio cumprou i recuperou; de seguida, ancuostei-

    Passaige de ls motards de l Lhargo de Sante Cristo pa l Lhargo de l Ronso an Angueira.

    -me a la squina de la parede porriba de l terraço de la casa qu’era de l tiu Sora i de la porsora Eirnestina – recustruída puls nietos que l’hardórun – i, birado pa l Lhargo de Sante Cristo, mas oulhando tamien para antre l cimo i l fondo de las huortas de l Pilo, yá quaije ne l Cachon i cerca de l fondo de l pobo; apuis, ne l Lhargo de Sante Cristo, porriba i antre la capielha, l cimo de la casa qu’era de l tiu Morais i un cachico abaixo de l curral i de las loijas de las bacas de l tiu Aran, birado caras a las casas de l tiu Canoio i de l tiu Joan Fresco, coincido tamien cumo tiu Ratico – cumprada, recuperada i adonde, hai mais de dieç anhos, passou a morar l porsor Brancal de l Porto –, tirei dezenas de retratos.

    Angueira: passaige de ls motards pula Rue de Sante Cristo abaixo.
    Retrato animado de la passaige de ls motards pulas huortas de l Pilo caras a l’Eigreija d’Angueira.

    Era yá fin de tarde quando you i Dulcineia tornemos para casa ne l Cimo de l Pobo i un cachico arriba de la casa de la scola bielha. L fondo desta, dando de caras cul amigo Carlos Pires – filho d’Ana Guiomar i nieto de la tie Piadade –, la sue tie i l filho deilhes, que, benidos de Lisboua, stában tamien a passar uns dies por alhá, stubimos eilhi a cumbersar cun eilhes, miu primo Francisco i Ana Marie Coira, la sue tie, qu’eilhi stában tamien.

    Carlos Pires (de cuostas), la sue tie, miu primo Farncisco i Ana Marie Coira, la sue tie, i la mie Dulcineia a béren passar ne l Cimo de l Pobo ls últimos motards que chegórun a Angueira.

    Solo a partir de las siete i meia de la tarde, antes de se çponer l Sol, ye que deixemos d’oubir qualquiera rugido de motas a passar ne l Cimo de l Pobo. Assi i todo, stou an crer que, cumoquiera, serie yá lhusque-fusque quando ls motards que chegórun mais tarde a Angueira teneran salido pa San Joanico, passando, apuis, pul PINTA, pula Bila (Bumioso), por Pinelo ou por Carçon i pula bila d’Argozelo, poboaçones de l cunceilho de Bumioso, uns i outros apuis por Outeiro a camino de la Cuncentraçon an Bergáncia.

    Soutordie, quando you, la mie tie i l nuosso filho mais nuobo tornábamos para Braga, na outostrada, passórun por nós, an sues motas, dezenas de motards. Tamien eilhes tornában para casa. Na área de serbício antes de Bila Real, inda falei cun casal mi simpático subre la biaige que, na biespera, tenien feito anté la Cuncentraçon de motards i l que, nesta, se passou an Bergáncia.

    Un reparo

    Por çcuido, ou, cumoquiera, por çtraçon, ls outarcas de la Junta de l’Ounion de Fraguesies de Caçareilhos i Angueira i de la Cámara Munecipal de Bumioso nun teneran dado coincimento a las pessonas i, subretodo, al moço que splora l café de qu’íban a passar por Angueira milhentos motards de l Portugal de Lés-a-Lés. Dando aires de nun saber de nada i star çprebenido, l moço nun pudo aporcatar-se i anquemendar mais garrafas d’auga i de cerbeija nin outras bubidas i, anté mesmo, uns petiscos pa matar la sede i la fame a tantos partecipantes neste çfile. Stando el solico a serbir ls clientes, tamien nun tubo manos a medir p’abiar tantas pessonas q’ambadírun l café.

    Nun fura isso, ls fuorasteiros poderien tener sido mais bien aculhidos i atendidos. Bondaba abrir tamien l bar de la Zona Balnear i Parque de Merendas de la Cabada. Poderien, assi, çcansar i refrescar-se un cachico a la selombra i chafurgar, anté, na ribeira. Nun quedarien assi bien mais de-lei?

    Angueira: Zona Balnear i Parque de las Merendas de la Cabada ne l berano.

    Quien sabe s’alguns deilhes, pa zantorpecer las piernas i refrescar tamien ls uolhos, nun se botarien, ribeira abaixo ou ribeira arriba, a dar un poulico a la Senhora ou anté al Múrio! Poderien, assi, pa lhá de guapas paisages, ber l molino, la casa de l molineiro, la çuda i las huortas d’Ourrieta Caliente ou las de la Cabadica i de l Múrio.

    Ora dezi-me alhá: pa lhá dun çperdício, nun fui ũa pena?! Nun será yá tiempo de quien nun puode, nun sabe ou nun quier saber, nin relar-se ou dar-se al trabalho a fabor de l bien público – de la poboaçon, de la sue gente i de ls bejitantes –, arrumar las botas i, dando la beç a outros, nun quedar por ende atrás de mais uns çtonicos de l eirairo público i, assi, a tener que dar aires de fazer que fai?

    Angueira: speilho d’auga na Zona Balnear i Parque de Merendas de la Cabada ne l outono. Retrato tirado pula amiga Fátima Malheiro, porsora de l Porto, a quien agradeço por me tener outorzado a publicá-lo.

    Seinha disso, ye que, pul final de tarde, la dona Palmira Cereijas dixo a la mie tie que, al passáren ne l Cimo de l Pobo, dous motards, bendo-la a regar l jardin a la frente de casa, parórun i le pedírun que les regasse cula mangueira. Quedórun, assi, todos cunsolados i agradecidos.

    Fui ũa suorte you i la mie tie nun tenermos salido d’Angueira nessa tarde i, bermos assi l çfile de ls motards i les tirar alguns retratos. Calhou tamien de star por lhá l amigo David Alves, moço natural d’Angueira, mas que bibe i trabalha an Balhadoliç (Spanha), que fizo dous bídeos deilhes, nas motas, a passar al fondo de la poboaçon, de l Pilo pa la Eigreija. Indas que tenga que l’agradecer por me tener outorizado a partielhá-los, tengo muita pena, mas nun ye possible publicá-los eiqui.

    Dues ou trés cousas acerca d’Angueira

    A quien alhá passou i solo la biu de relhance, tengo que dezir dues ou trés cousas subre Angueira, la poboaçon i l sou termo, un circlo de cerca de trés a quatro quilómetros de raio, de tierras de cultibo i de monte, al redor deilha.

    Aporbeito tamien pa partielhar ũa bista de la poboaçon d’Angueira – ye probable que remonte, oumenos, al seclo VII – i de l sou termo, adonde, antes d’alhá chegáren ls Romanos, habie dous castros de ls Celtiberos: l de la Quecolha i l de l Gago, que, cumo nun podie deixar de ser, stan arruinados.

    La poboaçon d’Angueira bista de l alto de l Múrio, retrato tirado ne l berano de 2019

    Ambora sendo de l munecípio de Bumioso – que, juntamente culs de Miranda de l Douro i de Mogadouro, fórman la Tierra de Miranda –, Angueira ye ũa poboaçon de l cunceilho de Bumioso adonde, pa lhá de Pertués, inda se fala tamien Mirandés.

    De la ribeira d’Angueira, tengo que lhembrar ls sous carangueijos outóctones (lagostins de pata branca) i las bariedades de peixes – scalhos, barbos, xardas, antre outros – q’alhá habie a la farta, mas, zafertunamente, stan an bias de stinçon; las çudas, ls molinos i casas de ls molineiros, que stan, hoije, an rúina; i, nas marges de la ribeira i de ls ribeiros que, neilha, ban a zaugar, las huortas, mui fértiles i mimosas, algũas deilhas que yá nin sequiera stan cultibadas, i ls lhameiros, alguns deilheis pouco cuidados ou mesmo al abandono.

    Angueira: represa ne l ribeiro de la Puontelhina an Bal de Conde. Retrato tirado pula porsora Fátima Malheiro.
    Angueira: lhameiros de la Puontelhina.

    Lhembro tamien que, antre l termo i la poboaçon, pa lhá de l forno de la teilha ne ls Puntones i de l pison de la Cabada, ribeira abaixo, ribeira arriba, habie inda an Angueira, nas sues marges, pa lhá de las uito çudas, quatro caliendras i trés casas de l molineiro de que réstran inda siete i trés, uito molinos de que réstran inda quatro cun bários seclos: l de las Trés Ruodas ou de ls Lucas, i l de l tiu Alfredo, un al cimo i outro al fondo de Terroso, l de ls Deminguitos na Senhora, l mais antigo pus data, oumenos, de l seclo XIII, i inda l de Telhado. Lhembro que, antre 1246 i 1256, l mosteiro de Moreiruola (Spanha) cumprou als hardeiros de Don Tello Fernandes – a quien l rei Don Sancho le tenie feito la doaçon d’Angueira – la poboaçon, la eigreija, un molino – cuido que tenerá sido l de las Trés Ruodas – i l todo l termo d’Angueira. Ambora an rúina, las çudas, caliendras, casas de l molineiro i molinos que réstran son inda recuperables.

    Angueira: molino de las Trés Ruodas ou de ls Lucas an Terroso. Retrato tirado pul angenheiro Vítor Moreira.
    Angueira: casa de l molineiro de l molino de la tie Amélia i de l tiu Alfredo de l Moilino al fondo de Terroso i al cimo de la Yedra. Na çuda deste molino, ne ls anhos 60 de l seclo passado, l Goberno mandou fazer la represa i, a partir deilha, l canal d’eirrigaçon antre la Yedra i las Uolmendas, cun cerca de trés kms i todo el an cantarie.
    Represa de l sistema d’eirrigaçon d’Angueira ne l final d’eimbierno. Ampeça eiqui l canal de l’eirrigaçon, cun cerca de trés kms, que sigue pula marge dreita de la ribeira i dá pa regar las huortas de la Yedra, Ourrieta Caliente, la Senhora, de l Tanque, de la Cabada, Eigreija, Çança, de l Cachon, de la Salina, Mediana, de ls Puntones, de la Faceira i de las Uolmedas. Retrato tirado pula porsora Fátima Malheiro.
    Angueira: casa de l molineiro de l molino de ls Deminguitos ou de la Senhora, cerca de 200 metros arriba de la Zona Balnear i Parque de Merenda de la Cabada. An frente desta casa i al fondo d’Ourrieta Caliente stan l molino i la çuda.
    Angueira: piedra cula data de 1247 porriba de la argolha d’atar las béstias que lhebában al pan pa l molino de ls Deminguitos na Senhora.

    Quédan eiqui alguns retratos de lhameiros i huortas q’hai nas marges de la ribeira i de ls ribeiros.

    Angueira: lhameiros de Boca ls Balhes pa la Francosa. Retrato tirado ne l ampercípio de la primabera.
    Angueira: huortas de l fondo de la Faceira. Mesmo serbidas pul canal de l’eirrigaçon, parte deilhas yá nin stan cultibadas.
    Angueira: huortas de la Mediana i de Faceira de l Prado. Alhá atrás i mais loinje, béien-se ls Sierros, al meio i un cachico mais baixo, l Cabeço de la Binha que tapa l monte de la Gralheira i, a la dreita, l Cabeço de la Quecolha.
    Angueira: huortas de la Mediana. Mesmo serbidas pul canal d’eirrigaçon, algũas yá nin sequiera stan cultibadas.
    Angueira: çuda de las Uolmeda. Deiqui, pula caliendra de las Antraugas, iba l’auga pa l molino de Telhado.

    Ne l termo d’Angueira, cerca de ls Sierros i ne l Prado i a cerca de trés quilómetros de la poboaçon, inda alhá stá la capielha de San Miguel – ũa de las, senó mesmo la mais antiga de ls alredores – i, al redor deilha, un antigo semitério.

    Angueira: la capielha de San Miguel. Retrato tirado, hai yá alguns anhos, por Francisco Afonso, miu pariente brasileiro, filho de mie prima Maria Albina Chic’Albina i de Lázaro Stroila.

    Sabeis ũa cousa? Pa lhá d’inda se falar la Lhéngua Mirandesa, de l ancanto de las bistas, de ls guapos recantos i paisaiges – peinhas, ribeira/os, fauna i flora bariadas –, an Angueira, nun fáltan ganados de canhonas, de burros i buiadas.

    Angueira: Fraga de la Puontelhina ne l ampercípio de la primabera. Retrato tirado de la Cortinona ne l alto de la marge dreita de l ribeiro de la Puontelhina.
    Angueira: Peinha de la Garça. Retrato tirado por Álvaro Moreira, abogado de l Porto.
    Lhontras na ribeira d’Angueira ne l eimbierno. Retrato tirado pul amigo Vítor Moreira, angenheiro de Braga.
    Angueira: pista de carambelo i niebe na Cabada. Retrato tirado pul angenheiro Vítor Moreira.
    Angueira: un nebon. Retrato tirado pul miu pariente Ricardo Preto, filho de ls mius primos Joan Quintanilha i Ana Marie Canoia.
    Angueira: anchena ne l Parque de Merendas de la Cabada. Retrato tirado por Nuno Bilber.
    Angueira: madronheiro de l Sierro de ls Malhadades. Retrato tirado ne l final de l’outonho pul angenheiro Jorge Fernandes.
    Angueira: canha-frecha. Retrato tirado pul dr. Álvaro Moreira, abogado de l Porto.
    Burro i buiada nun lhameiro de l termo d’Angueira. Retrato tirado ne l berano pul coronel Manuel Lopes..
    Un ganado i l perro de guarda ne l termo d’Angueira. Retrato tirado ne l eimbierno pula porsora Fátima Malheira.

    Grandes ou pequeinhas, mais ricas ou mais probes, nun fáltan an Angueira casas antigas, molinos, corriças, palombares, huortas, tierras i lhameiros a la benda. Cuido que nun son nada caros nin será defícel recuperá-los.

    Angueira: a l’antrada i de l lhado dreito de la caleija, la casa de bibir de l tiu Chico Regino i de la tie Felizarda; al fondo, la casa de morar de l cabo Xabier i de la Ti’Ana Caneda an Saiago.
    Angueira: casa de ls Raianos an Saiago
    Angueira: caleija, forno, pátio i casa de morar de la tie Janeira an Saiago.
    Angueira: casa de l tiu Chafin i de la tie Sabel Cadata an Saiago.
    Angueira: casa de l tiu Cereijas i de la tie Mar’Inácia Fresca ne l Lhargo de l Ronso. Pa lhá de la casa de bibir, éran tamien eiqui la sue taberna, l sou açouge i la sue penson.
    Angueira: parte de baixo i antrada de la casa de las Machacas an Sante Cristo. Retrato tirado pul angenheiro Vítor Moreira.
    Angueira: palombar de ls Quintanilhas na Canhada.
    Angueira: corriça de ls Zilros an Ourrieta l Castro. Cumo esta, hai inda ne l termo d’Angueira mais de 15 corriças.
    Angueira: casica de la huorta de ls Galharitos, al fondo de la caleija de Peinha Ferreira i al cimo de la çuda de Terroso.

    Pessonas que se deixórun ancantar por Angueira

    Hai mais de quarenta anhos que alguns homes de posses – médicos dentistas, angenheiros, abogados, porsores, comerciantes i profissonales doutros ramos i serbícios –, benidos de fuora – subretodo de Braga, mas tamien de l Porto, de Biana de l Castielho, de Puonte de Lima i doutras cidades i bilas –, ne l tiempo própio de la caça, ampeçórun a aparcer, oumenos un die por semana, pa caçar perdizes, lhiebres, coneilhos, rolas i outros páixaros an Angueira. Cula alteraçon de la lei de la caça i l cunsentimiento de ls moradores i duonhos de las tierras, decidírun criar la Zona Associatiba de Caça d’Angueira. Pouco apuis, passórun tamien a caçar jabalis i corsas. De seguida, ampeçórun a cumprar i a recuperar casas antigas i alguns deilhes a morar an Angueira.

    Angueira: casas recuperadas na Rue de Sante Cristo. A la dreita, casa de l tiu Ratico i de la tie Justina Rata, cumprada i recuperada pul porsor Brancal, de l Porto; a la squierda, casa recuperada pul miu pariente, l dr. juiç Rui Stebes.
    Angueira: casa de morar de l tiu Chetas i de la tie Blisanda Bitorina, cumprada i recuperada pul angenheiro Vítor Moreira, de Braga.

    Hai outros que, de tiempos a tiempos i an bárias alturas de l anho, seia berano ou eimbierno, outonho ou primabera, ban anté lhá passar algũas semanas.

    Hai trés ou quatro anhos, un casal francés cumprou i recuperou la casa de la scola nuoba i passou a morar an Angueira, adonde recebe muitos strangeiros.

    Casa de scola nuoba, recuparada i oumentada pul casal francés Castelli-Fontenay, que passou a bibir an Angueira.

    Al mesmo tiempo, pa lhá de ls eimigrantes, algũas pessonas nacidas tamien an Angueira, mas que, hai muitos anhos, dalhá salírun pa studar i/ou trabalhar an cidades de Pertual, ampeçórun tamien a recuperar ou a recustruir las casas q’hardórun de sous pais.

    Assi, hoije an die, cumo podereis ber, Angueira yá nun ye la mesma: a par dalgũas casas arruinadas, ye possible tamien ancuntrar outras yá recuperadas.

    Angueira: fachada Sul i lhado birado pa la Salina de la casa de l capitan Bernardino i de la dona Marie Rosa Steba, recuperada pul filho i miu pariente, dr. Paulo Bernardino.
    Angueira: casa de la dona Anfáncia Cachona, recuperada pul filho, angenheiro Aníbal i la arquiteta Vera Fernandes.
    Angueira: frauga i casa de morar de l tiu Ferreiro i de la tie Clorinda, cumprada i recuperada pul major Emílio i Cristina Torrão.
    Angueira: casas qu’éran de la dona Anfáncia Cachona i de la tie Nabarra, recuperadas pul sou filho, angenheiro Aníbal i la arquiteta Vera Fernandes.
    Angueira: casas de Sante Cristo. A la squierda, la casa de l tiu Alexandre i de la tie Francequita, recustruída puls pais de l’anfermeira Teresa Carabineiro i, mais recentemente, por esta i l sou home, l porsor Adérito Carabineiro; al meio, la capielha de Sante Cristo i, a la dreita, l curral de l tiu Arán i l lhado naciente de la casa de las Machacas. Rue abaixo, ũa buiera, atrás de cinco bacas i ũa sobrana de raça mirandesa. Retrato tirado pula porsora Fátima Malheiro.

    Deixai, anton, que bos faga ũa pregunta: nun será de fazer cumo eilhes?

    Motards ou nó, zafio-bos, assi, a mudar d’aires: a trocar l frenesi i rugidos de la cidade pul silenço i la paç de l campo; a deixar la poluiçon i l stress pa tornar a la calma natural i a respirar aire lhimpo i puro; a scapar de las multidones pa cumbibir cun pessonas outénticas i bibenciar ls sous modos de bibir i de bida; a deixar l acunchego i las comodidades de la bida moderna de la cidade i a anfrentar las cundiçones própias – carambelo, niebe, friu i calor – de la bida natural; a botar pa trás de las cuostas las cousas malas de l persente para, an lhiberdade, rebibir situaçones de l passado; a trocar l’ouniformidade de cumportamientos, ls modos de bida i las maneiras de bibir ourbanos pulas dibersidade i simplecidade própias de l ambiente i de la bida natural.

    Bá, bamos alhá! Amanhai un tiempico lhibre, pegai na mota i nas alparagatas i botai-bos anté lhá!

    Angueira cumBida!

    Bocabulairo//vocabulário

    Abancar – assentar-se // abion/es – avião/ões // abiar – servir, despachar // abogado – advogado // abutro – abutre // acá – cá // adonde – aonde, onde // aire – ar // al – ao // alhá – lá // alparagatas – chinelos, sapatilhas // al redor – em volta, ao redor // alredores – arredores // ampeçar – começar // ampeçar – começar // ambadir – invadir // an – em // ancantar – encantar // ancuostado – encostado // anfáncia – infância // anganhar – enganar // anho – ano // anquemendar – encomendar // anté – até // anton – então // antrada/antrar – entrada/entrar // antre – entre // aparcer – aparecer // aporcatar-se – prevenir-se, precaver-se // apuis – após, depois // armano – irmão // arriba – acima // – após, depois // armano – irmão // arruinado – arruinado, em ruína // assi – assim // assi i todo – mesmo assim // auga – água // balhe – vale // Balhadoliç – Valhadolid // beç – vez // bejita/nte/r – visita/nte/r // benida – vinda // benir – vir // berano – verão // Bergáncia – Bragança // bezino – vizinho // bia/s – via/s // biaige – viagem // bibir – viver // bielho – velho // bien – bem, muito // biespera – véspera // bila – vila // Bilasseco – Vilar Seco // bolar – voar // bonda – basta // bornal – pilha de cereal na eira com a forma de um pião invertido // bubida – bebida // buer – beber // bui/ada/eira – boi ou touro/boiada/boieira // Bumioso – Vimioso // buolta – volta, colar // buono – bom // cachico – bocacinho // caliente – quente // caleija – caminho estreito entre paredes, viela // caliendra – canal por onde corre a água do açude para o moinho // calma – muito calor, calma // caminada – caminhada // camino – caminho // canhona – ovelha // capielha – capela // carambelo – gelo // çcansar – descansar // çcanso – descanso // çcuido – descuido // çcunfiar – desconfiar // çfile – desfile //çfrente – diferente // chafariç – chafariz, tanque de água para o gado beber // chafurgar – mergulhar // chano – chão // cheno – cheio // chubir – subir // cielo – céu // circlo – círculo // coincer – conhecer // coneilho – coelho // corriça – construção retangular no termo, em pedra solta de xisto ou de granito, com telhado ou não, onde o pastor recolhe o rebanho nas noites de inverno // çperdício – desperdício // çponer – pôr-do-Sol // çprebenido – desprevenido // çtáncia – distância // çtonicos – tostõezinhos // çtraçon – distração // çuda – açude, presa de água de moinho // cuidar – pensar // cul/a – com o/a // cumbeniente – conveniente // cumoquiera – talvez // cun/c’ũa – com/com um/a // cunceilho – concelho // cuntinar – continuar // cuosta – costa, descida ou subida de um monte // da peto – de propósito // dar aires – dar aspeto, parecer // deilhi – dali // deimingo – domingo // de-lei – como deve ser // dezir – dizer // dieç – dez // die – dia // dixo/e – (formas do verbo dezir) disse (3.ª e 1.ª pessoa, respetivamente) // donde – onde // dou – (forma do verbo dar) dou/deu // dous/dues – dois/duas // duonho – dono // dreito – direito // drento – dentro //dũa – duma // eilha – ela // eilhes – eles // eilhi – ali // eimbierno – inverno // eiqui – aqui // eirairo – erário // eisistir – existir // el – ele // ende – aí // fago/fai/fizo – (formas do verbo fazer) faço/faz/fez // fame – fome // frauga – forja // friu – frio // fuonte – fonte // fuora – (do lado de ou de) fora // fura – (forma do verbo ser ou ir) fora // ganado – rebanho/gado // golo – gole // grano – grão // guapo – bonito, pimpão // hardar/eiro – herdar/eiro // hoije – hoje // home – homem, marido // huorta – horta // i – e // inda/s – ainda // juiç – juiz //  l/la – o/a // lhá – lá, além // lhado – lado // lhameiro – lameiro, prado cercado por muro // lhebar – levar // lhembrar – lembrar // lhéngua – língua // lhiberdade – liberdade // lhibre – livre // lhiebre – lebre // lhougo – logo // lhuç – luz // lhusque-fusque – lusco-fusco // loinje – longe // malo/a – (adj.) mau/má //mano – mão // marge – margem // mi – mim, muito // molineiro – moleiro //molino – moinho // naide – ninguém // naciente – nascente // nebon – nevão // ne l – no // niebe – neve // nieto – neto // nin – nem // ningũa – nenhuma // nin – nem // nun stante – num instante, rapidamente // niũa – nem uma, nenhuma // niun – nenhum // nó – não // nubre – nuvem // nũa – numa // nuite – noite // nun – não, num // nuobo – novo // oulhar – olhar, ver // oumenos – pelo menos // ouniformidade – uniformidade // ounion – união // ourbano – urbano // outarca – autarca // outéntico – autêntico // outonho – outono // outorizado – autorizado // outostrada – auto-estrada // pa – para // paç – paz // paisaige – paisagem // pa lhá – para lá // palombar – pombal // parcer – parecer // parriba – para cima // passaige – passagem // Pertual – Portugal // pessona – pessoa // Piadade – Piedade // pie – pé // pierna – perna // pilo – nascente de água // pobo – povo, povoação // poboaçon – povoação // poner – pôr // pori – por azar // porparar – preparar // porriba – por cima // poulico – pulinho // praino – planalto // probe – pobre // própio – próprio // proua – vaidade, orgulho // pul/a – pelo/a // punta – ponta // puodo/ie – (forma do verbo poder) posso, pôde/podia // puorta – porta // purmeiro – primeiro // quaije – quase // quejísse/quérgan – (formas do verbo querer) quisesse/queiram // questume – costume // quien – quem // quier – quer // ralo – raro // relar-se – preocupar-se, chatear-se // relhance – relance // rezon – razão // riba – cima // rue – rua // ror – rol, grande quantidade // rugido – ruído, barulho // salbaige – selvagem // sbarrulhar – ruir, cair abaixar // scaleiricas – escadinhas // scalho – escalo, espécie de peixe fluvial // scola – escola // screbir – escrever // seclo – século // seinha – sinal // selombra – sombra // sequiera – sequer // siete – sete // sobrana – vitela na fase de transição a vaca // solo – só // son – (forma do verbo ser) são // soutordie – no dia seguinte // Spanha – Espanha // spece – espécie // splicar – explicar // squecer – esquecer // squesito – esquisito // squierdo – esquerdo // squina – esquina // stafado – cansado // staçon – estação // stan – (forma do verbo star) estão // stinçon – extinção // subretodo – sobretudo // tener – ter //tengo – (forma do verbo tener) tenho // tie – senhora, mulher, esposa, tia // tiempo/ico – tempo/inho // tiu – senhor, homem, marido, tio // todo – tudo // uito – oito // yá – já // ye – (forma do verbo ser) é // yerba – erva // you – eu // xardas – pequenos peixes em fase de crescimento // zafertunado – infeliz // zafio – desafio // zantorpecer – desentorpecer // zaparcer – desaparecer // zaporcatado – desprevenido // zaugar – desaguar // zde – desde

    Para saber o significado de outras palavras, carregue no “link”:

    http://www.mirandadodouro.com/dicionario/

    Se quiser visualizar algumas fotos aéreas de Angueira, sugiro a consulta do blogue:

    http://portugalfotografiaaerea.blogspot.pt/2017/01/angueira.html

    Caso queira saber a localização de alguns sítios do termo de Angueira – as informações orográficas e a toponímia em Mirandês foram, respetivamente, inscritas pelo David Domingues e por mim próprio –, carregue no “link”:

    www.openstreetmap.org/searchquery=Angueira%2C%20vimioso%2C%20portugal#map=12/

    Se quiser aderir ao grupo Angueira Atalaia ou a outro dos 23 grupos da Rede Atalaia, basta acrescentar ao nome de cada localidade do concelho de Vimioso a palavra Atalaia. Pesquise, depois, o nome do grupo no Facebook e peça a sua adesão ao mesmo.

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  • De-ba-gar, De-ba-ga-ri-co, Alhá Fúrun Chegando Tamien a Angueira las Nobidades de la Bida Moderna

    abril 20th, 2022

    Nota Prévia: uma prevenção

    Se o/a leitor/a não está familiarizado/a com a Língua Mirandesa, sugiro que, para facilitar a compreensão do texto, o leia a meia-voz. Se, mesmo assim, sentir qualquer dificuldade em compreender o sentido ou descobrir o significado de alguma palavra menos usual ou cuja grafia se afasta mais da portuguesa, não hesite em consultar o Vocabulário que pode encontrar no final do mesmo.

    Breves notas sobre a grafia do Mirandês

    Em Mirandês, não se pronuncia o som v, que é substituído pelo da letra b; usualmente, o prefixo des é substituído, consoante os casos, por ç ou z no início da palavra; para não se confundir com a contração da preposição a com o artigo definido o, que, em Mirandês, se escreve e lê al, o artigo definido o escreve-se l, mas lê-se também al; salvo raras exceções, os ditongos nasais ão e õe escrevem-se an e on; o m final das palavras portuguesas é, no Mirandês, substituído pela letra n; geralmente, o l inicial das palavras é substituído pelo dígrafo lh; já o dígrafo ch, em Mirandês, lê-se sempre tch; talvez por, inicialmente, ser apenas uma língua falada, o Mirandês tende a contrair os pronomes, artigos, preposições e as conjunções com as palavras seguintes, quando estas são iniciadas por vogal.

    Las nobidades de la bida moderna

    Indas que la Tierra pareça praina i parada, la berdade ye qu’eilha ye redonda i stá an mobimiento cunstante i siempre a demudar. Ambora haia quien, cumo aqueilhes tontos de ls Stados Ounidos que, nun acreditando na ciéncia, biba na eiluson de que las cousas nun son assi, i, cumo tal, cuide i querga q’l mundo nun ande nin demude, puode trabar la marcha, mas nun cunsigue parar la ruoda de l tiempo. Ye solo ũa queston de tiempo, pus, mais cedo ou mais tarde, las nobidades acában por chegar a qualquiera lhugar.

    Debagar, debagarico, alhá ban chegando a Angueira

    A seguir a la custruçon de la strada antre Caçareilhos i Angueira i de la puonte de la Cabada ne ls anhos quarenta i cinquenta de l seclo passado, debagar debagarico, na sigunda metade de l mesmo seclo, alhá fúrun chegando a Angueira inda outras nobidades, algũas ambenciones, las nuobas tecnologies, cumo, hoije an die, se diç: las de la lhaboura, las de casa, las de quemunicaçon a la çtáncia, las d’antretenimiento – l’auga ancanhada, l telfone i l rádio, antre outras. Claro stá que la telbison, tal cumo ls frigorifos, só chegarien uns anhos mais tarde, apuis d’alhá chegar la lhuç eilétrica.

    Pul final, i tamien palantre, de ls anhos cinquenta, cada tie, pa lhá da cuntinar a ajudar l’home na lhaboura i de cuidar de la cria, de ls cochinos i de las pitas, tenie inda por sue cunta toda la lhida de casa: fazer la quemida, lhabar la lhouça, barrer i arrumar la casa, lhabar, passar a fierro i remendar la roupa i cuidar de ls garotos. Nun bondando isso, d’eimbierno, al serano, inda se botaba a filar un manelo de lhana ou de lhino ou a fazer meia. I, yá na cama, inda tenie q’aturar l sou home. Nesse tiempo, se calha cumo inda hoije acuntece oumenos a algũas deilhas, nun faltaba que fazer a las ties…

    Pula manhana ou a la tarde, fazisse friu ou calor, alhá íban eilhas a camino de l lhabadeiro cada qual cun sou baldo ou cesto de roupa suja. Pa la lhabaige de la roupa, habie an Angueira, cumo que an regime de franchising, nuobe lhabadeiros al çpique antre eilhes: cinco funcionában an outros tantos sítios de l ribeiro de l Balhe – un al cimo de la cortina de ls Prietos, i mesmo abaixo de la Francosa, outro al fondo de la caleija de l Balhe, outro ne l Pilo i mais dous, un al cimo i outro al fondo de l Cachon – i inda mais quatro noutros tantos sítios de la ribeira – na Senhora, na Cabada, na Çanca i ne ls Puntones.

    Las máquinas de lhabar roupa, q’anton funcionában a la mano i a auga i xabon, éran las ties ne ls lhabadeiros. I éran tan çpachadas que, a la mano i cula lhéngua – algũas deilhas tenien mesmo lhéngua de prata! –, alhá íban dando cunta de l recado: lhabar toda la roupa suja de casa i de l pobo ne l lhabadeiro. Si, qu’inda haberie que sperar uns pares d’anhos até estas máquinas ampeçáren a ousar OMO, l purmeiro i mais coincido de ls puolos de lhabar la roupa q’alhá s’usou. Assi i todo, stou an crer qu’éran las lhénguas de prata que lhabában mais branco! Bá, se calha, nin serien las ties, i inda menos aquel puolo pa la roupa, mas cumoquiera ls homens de letras – i, claro stá, tamien de númaros – quien ponie las ties a cuidar que l OMO lhaba mais branco! Claro stá que, a la par destes i doutros puolos i an beç de l xabon i destas ties, las fidalgas ampeçórun a ousar ls xabonetes pa lhabar la cara i l cuorpo.

    Cumoquiera las purmeiras máquinas que chegórun a Angueira téngan sido las de questura Singer pa las ties i ls homes cun ls oufícios de questureira, d’alfaiate i de çapateiro. De questureiras, lhembra-me de la dona Adelaide Capadora, que, afertunadamente, inda ye biba, de la Tolhidica i de la tie Muda, mas cumoquiera inda haberie mais; d’alfaiates, lhembra-me de l tiu Dabid, que scapou pa l Brasil, de l tiu Almonico i de l tiu Manuel Fertunato; de çapateiros, lhembra-me de l tiu Arnesto Raiano, de l tiu Lino i de sou pai, l tiu Eibaristico, i inda de l tiu Albinico, que quaije só fazie cholos i que, pu l final de bida, scapou pa l sou filho ne l Brasil.

    Nesse tiempo, solo l cura – l padre Zé Maria, que, cula sue criada, bibie an Caçareilhos – i l senhor Correia tenien carro legeiro. Todo ls dies, pa lhá de l Breviário – purmeiro, l padre Zé Maria i, apuis, l padre Silbestre –, farien la lheitura de l Novidades. Solo eilhes, por deber d’oufício, i l senhor Correia, pa quedar a par de l que se passaba ne l Paíç i ne l Mundo, ye que passarien ls uolhos puls jornales. Las restrantes pessonas d’Angueira, pa lhá de ls lhibros de ls garotos pa la scola, de l Catecismo“, de l’A Rosa do Adro i, se calha, tamien de l Livro de São Cepriano – que ye l santo padroneiro d’Angueira –, poucas mais tenerien outros lhibros de sou, an casa.

    Fuonte: Anúncio de coleccionador no OLX

    Pula mesma altura, tal cumo tenerá acuntecido tamien nas poboaçones al redor d’Angueira i noutras de la Tierra de Miranda, pa lhá de ls adubos, de ls nitratos, de l remédio de las patatas, de las máquinas trilhadeiras, dun ou dous tratores, d’algũas bicicletas, moterizadas i dalguns carros legeiros, furgonetas i dun camion, tamien la auga canalizada i l telfone chegórun a Angueira. Habie mesmo seis ou siete famílias que tenien auga canalizada, retrete i banho – la maior parte de las restrantes casas de bibir só passarien a çponer destas comodidades un cachico antes ou a seguir al 25 de Abril de 1974 – i telfone an casa. Assi, s’adregasse algũa de las restrantes pessonas de l pobo percisar de telfonar, bondaba ir até a la casa de l tiu Manuel Júlio, ne l meio de l pobo, adonde l telfone público i l posto de correios funcionában, i ũa de las sues filhas – la menina Regina ou la menina Alice – alhá staba pronta pa l’atender i fazer la lhigaçon.

    Telfone antigo. Foto por Dayvison de Oliveira Silva em Pexels.com

    Cula strada i la puonte prontas, pa lhá de ls purmeiros carros legeiros, ne ls anhos cinquenta, ampéçan tamien a chegar a Angueira tendeiros, çapateiros i ls baratilhos. Apuis, ne ls anhos sessenta, alhá chégan tamien ls bendedores de redes d’arame i de xaragones de scuma pa la cama. Mas, çfrentemente de la maior parte de las ties, algũas deilhas, nun podendo cumprá-los anton, cuntinórun inda mais algun tiempo a drumir an camas de fierros i xaragones de cuolmo de palha ou de fuolha de milho.

    Ne l ampercípio de ls anhos sessenta, quando ampeçou la guerra an Angola, Guiné i Moçambique, yá habie an Angueira alguns apareilhos de rádio. Lhembra-me d’Antonho Zilro i de ls Manulones ponéren ls sous a la jinela, a tocar bien alto. Quien ls quegisse scuitar quedaba aton a saber las nobidades de la guerra quelonial i podie inda oubir uns fados d’Amália Rodrigues, Fernando Farinha i Tony de Matos, ũas modas de ls cunjuntos Maria Albertina i António Mafra i inda Eugénia Lima a tocar acordeon. Claro que, ne l sereno de las nuites de berano, habie tamien quien, assentado a la puorta de casa, se ponie a spreitar l cielo a ber se, pa lhá de la lhuna i las streilhas, bie passar aqueilhas cousas de ls russos de que, a la boca pequeinha, s’iba anton oubindo falar: l satélite Sputnick i la perra Laica a las buoltas ne l spácio.

    Fuonte: Retrato tirado por Clem Onojeghuo an Pexels.com

    Bede bien cumo nesse tiempo éran las cousas… Bondaba q’ũa tie cumprasse qualquierea cousa ou aparato moderno, era quaije cierto que, de seguida, la maior parte de las outras ties nun le quedarien atrás. Assi, quaije poderiemos saber qual l anho, pus era por épocas i por modas: la de l OMO i doutros puolos de lhabar la roupa, la de ls xaragones de scuma, la de las camisas de nailo i de tebé, la de las calças de terilene, la de ls fugones, la de las panelas de presson, la de las telbisones, la de ls frigorifos, la de las arcas cungeladoras, la de las máquinas de lhabar roupa…

    Mas nun cuideis q’ls moços i ls homes quedában atrás de las ties. Á pus si, buona jeira! Ambora nin tanto, tamien eilhes, se calhasse haber un cachico mais de denheiro na carteira, pa lhá de l ambriáren na compra dũa tierra, dun lhameiro, dun motor de rega ou mesmo dun trator, alhá íban amanhando maneira de cumprar tamien un apareilho de rádio, ũa bicicleta, ũa telbison, ũa moterizada i inda outras nobidades…

    Yá que falemos dalguns apareilhos modernos i d’antretenimiento, nun puodo squecer-me inda d’amentar ne l gramophone que, ne ls anhos cinquenta de l seclo passado, a las bezes, s’oubie a tocar an casa de las armanas Marreiras, las donas Laura, Adelaide i mais dues, todas eilhas porsoras diplomadas. Fui tamien ne l pátio anterior de la casa deilhas que, pul final de ls anhos cinquenta i pula purmeira beç, bi ũa fita de cinema i la lhuç eilétrica. Ye que, pa lhá de la parte telhada i de la outra sin telhado desse pátio formáren un pequeinho anfitriato, la casa era almiada por lhámpadas pus tenie gerador d’eiletrecidade.

    Ye ũa pena qu’esta casa, que fui un outéntico farol de cebelizaçon an Angueira i de que ls hardeiros fazírun doaçon al Munecípio de Bumioso, por obra de la Cámara i de la Junta, an paga, apuis de l ancéndio, an beç de recuperar las paredes ou, d’oumenos las porteger, las téngan mandado botar abaixo, deixando todo al abandono, eilhi, mesmo a meio de la poboaçon i ne l stado que podeis ber.

    Nun bondando, cula çculpa de séren propiadade particular, nada fazéren pa recuperar ls açudes, caliendras, molinos – oumenos un deilhes de l seclo XIII –, casas de molineiro i doutras casas de bibir, que s’ancóntran an rúina pul termo, nas marges de la ribeira i na poboaçon d’Angueira, ye assi que, probes i, inda porriba, mal agradecidas, aqueilhas outarquies cuidan de l sou i nuosso patrimonho!

    La Biblioteca Itinerante de la Fundação Calouste Gulbenkian

    Fui tamien ne l ampercípio de ls anhos sessenta de l seclo passado que, pula purmeira beç, chegou a Angueira outra seinha de la bida moderna: un home i ũa moça nũa carrinha cinzenta, carregadica de lhibros pa ls amprestar als garotos, a las mocicas i a toda la giente que ls quegisse ler. Cumo, an letras grandes, se lie por fuora, oumenos nun de ls lhados de la carrinha, era la Biblioteca Itinerante de la Fundação Calouste Gulbenkian.

    Benida de Caçareilhos, al chegar a Angueira, la carrinha seguie, de la eigreija i por Sante Cristo, pul pobo arriba, até la casa de la scola. Iba, assi, dũa punta a la outra de la poboaçon. Siempre a chubir, chegando al cimo de l pobo, l xofer paraba-la mesmo al lhado de la casa de la scola. Mal apitaba, las pessonas ampeçában a arrimar-se a la carrinha. Anton, la moça, que l’acumpanhaba, abrie la puorta de trás de la carrinha. Alhá drento, bien-se prateleiras i prateleiras chenas de lhibros, de bárias quelores, todos mui bien arrumados i dreiticos. Stou an crer que, pa lhá de las porsoras, naide mais tenie inda bido tantos lhibros juntos. Assi, na purmeira beç que la Biblioteca Itinerante chegou a Angueira, era ber las pessonas al redor deilha, de boca abierta i cun cara de spanto.

    Fuonte: Biblioteca de Arte/Art Library Fundação Calouste Gulbenkian

    Mal béien chegar la carrinha, las garoticas i ls garoticos q’andában a la scola, que nin paixaricos a la spera de çubiaco, son ls purmeiros a arrimar-se; apuis, las mocicas; i, finalmente, algũas moças i ũa ou outra tie. Si, que ls moços i ls homes éran mais dados a outros antretenimientos: a jogar a la bola nas Eiras Grandes, a jogar la barra ne l Ronso, a jogar las cartas i a buer uns copos na taberna i inda outros de que nun balerá la pena i será melhor nin amentar…

    Nun serie de stranhar que, nas purmeiras bezes, algũas pessonas quedássen un cachico çcunfiadas i de pie atrás. Ye qu’inda habie pouco tiempo que tenie stado an Angueira un missonairo a fazer prédicas a la nuite na eigreija. I, nũa deilhas, qu’era subre la confisson, preguntaba el:

    – Humberto Delgado confessava-se? – i el própio respundie: Não, esse não se confessava, não!…

    Aton, deixando falar l bino – que pouco cumoquiera nun serie –, responde-le tiu Brisdo de l meio de l’eigreija:

    – Esse nun se confessaba, nó!…

    I, quaije gritando de l púlpito, l missionairo torna a preguntar inda outra beç:

    – E Henrique Galvão confessava-se? Não, esse não se confessava, não!…

    I, nun le deixando star solo el a falar, respunde-le outra beç tiu Brisdo:

    – Á pus nó! Esse nun se confessaba, nó!…

    Se calha, lhembrando-se de las prédicas de l missionairo, al béren la carrinha, algũas pessonas serien bien capazes de se preguntar: Nun será, pori, cousa de la giente daquel general de la Ouposiçon? Ora, bede bien: naquel tiempo, a nun ser ls de ls garotos pa la scola, quien mais tenerie lhibros an casa? Solo la giente fidalga, i nin toda, pus éran cousa mui rala i mi cara. I, cumo se questuma dezir, quando la smola ye grande, até l probe çcunfia… Sabie-se alhá l que starie screbido naqueilhes lhibros i por trás daquilho! Para mais, las pessonas nun stában aquestumadas a recebir nada de naide i, de la Cámara i de l Gobierno, só recebien la décima, las licéncias i multas, ou seia, cuntas pa pagar!… Aton, algũas deilhas apréssan-se a preguntar al cura – l padre Silbestre –, a la porsora – la dona Laura –, al persidente de la Junta – l senhor Correia –, al regedor – l tiu Chic’Albino – i, se calha, até mesmo al senhor Joan Capador, l que serie aquilho. Mas, bá lá que niun deilhes trociu la nariç a la nobidade.

    Fuonte: https://vilanovaonline.pt/2018/06/12/daniel-faria-historla-contrafactual

    Quedando a saber qu’era cousa de cunfiança, yá mais çcansadas, apuis, ũa beç por més, cerca de la casa de la scola, de la capielha de Sante Cristo ou de la Eigreija – ls trés sítios de l pobo adonde la carrinha questumaba parar an Angueira – las mocicas, ls garotos i algũas ties, mal chega la Biblioteca Itinerante, lhougo s’arríman p’antregar a la moça ls lhibros que yá tenien lido i pa lhebantar outros qu’eilha les acunselha a lhebar pa ls ler an casa.

    Represa de l sistema d’eirrigaçon d’Angueira. Retrato tirado pula amiga Fátima Malheiro a quien agradeço por me tener outorizado a publicá-lo.

    Pul final de ls anhos sessenta, ampeçou aqueilha que, cumoquiera, tenerá sido la mais amportante obra que, ne l tiempo Salazar, l Goberno mandou fazer an Angueira: l sistema d’eirrigaçon; la represa na çuda de l molinho, al lhado de las casas de l tiu Alfredo de l Molino, de l tiu Antonhico i de la tie Sabelica, al fondo de Terroso i al cimo de la Yedra; i l canal de la eirrigaçon – todo an cantarie, mas assente an piedra piçarra –, cun cerca de trés quilómetros de cumprimento. Seguindo pula marge dreita de la ribeira i passando pul cimo de las huortas, l sistema d’eirrigaçon d’Angueira possiblitou passar a regar pul pie las huortas i lhameiras de la mesma marge de la ribeira: las de la Yedra, d’Ourrieta Caliente, de la Senhora, de l Tanque, de la Cabada, de la Eigreija, de l Cachon, de la Çanca, de la Salina, de la Mediana, de la Faceira i de las Uolmedas.

    Canal de l sistema d’eirrigaçon d’Angueira un cachico arriba de la puonte de la Yedra, d’Ourrieta Caliente. i de l Pilico de Fuontecinas. Retrato tirado pul amigo Vítor Moreira a quien agradeço por me tener outorizado a publicá-lo.

    Fui tamien pul final de ls anhos sessenta, que la Cámara de Bumioso ampeçou a calcetar la rue, que, nesse tiempo, era la percipal d’Angueira i que, de l’Eigreija, passando pul Cachon i Sante Cristo, bai a dar al cimo de l pobo. Mas, la purmeira parte dessa obra, só chegou a la capielha de Sante Cristo.

    L 25 de Abril truxo outros progressos a Angueira: la Cámara Munecipal de Bumioso cumpletou l calcetamiento de la rue percipal antre la capielha i l cimo de l pobo i, uns anhos mais tardc, mandou botar alcatron nas restrantes rues d’Angueira; amanhou ls caminos de l termo d’Angueira; mandou botar alcatron na strada antre Caçareilhos i Angueira. Yá culs Fondos de la CEE, mandou fazer la strada de lhigaçon d’Angueira a Abelhanoso, las Trés Marras i Samartino i la strada de San Joanico até la Cruzica, ũa nuoba lhigaçon antre Angueira i Bumioso; mandou custruir la scola nuoba; mandou fazer l sistema de saneamento d’Angueira. Por sue beç, la Associaçon Cultural i la Junta de Fraguesie d’Angueira mandórun fazer, antre la fuonte de l Pilo i l largo de l Ronso, l salon de cumbíbio, l bar i la sede dambas a dues.

    Apuis destas i doutras obras que, subretodo ls eimigrantes fúrun fazendo an sues casas, las pessonas passórun a tener melhores cundiçones de bida i comodidades an casa i mesmo na lhaboura. Assi i todo, Angueira, cumo las poboaçones de la Tierra de Miranda i de l Nordeste Stramuntano, debido a la salida de ls studantes i de la giente nuoba, a la deminuiçon de ls nacimientos i a la muorte de ls mais bielhos, fúrun perdendo muitas pessonas i quedando cada beç mais çpoboadas.

    Assi, tamien you sou lhebado a dezir cumo screbiu Eça de Queirós, aquel grande outor a que nun le faltaba Cebelizaçon, ponendo Jacinto a tocar l fonógrafo que nun se cansaba de repetir la boç de l cunselheiro Pinto Porto: Quien nun admirará ls progressos deste – ou, dezindo talbeç melhor, daquel – seclo?

    Bocabulairo \\vocabulário

    Abaluar – avaliar \\ abaixar-se – abaixar-se \\ abaixo – abaixo \\ abiado – servido, despachado \\ açucre – acúcar \\ acuordo – acordo \\ adbinar – adivinhar \\ aire – ar \\ alantre – em frente, avante \\ alborotado – alvoroçado \\ alhá – lá \\ almiado – iluminado \\ al redor – à volta \\ alredores – arredores \\ ambencion – invenção, inovação \\ ambriar – aplicar, gastar \\ amentar – referir, mancionar, falar \\ ampeçar – começar \\ ampedir – impedir \\ ampercípio – princípio \\ ancanhada – canalizada \\ anganhar – enganar \\ antes de tiempo – prematuramente \\ anton/aton – então \\ antrar – entrar \\ antre – entre \\ aparcer – aparecer \\ apartar – separar \\ apuis – após, depois \\ armano – irmão \\ arrimar – aproximar \\ ateimar – teimar \\ auga – água \\ balhe – vale \\ barreira – encosta \\ beç – vez \\ belharaça – maluqueira \\ berano – verão \\ bielho – velho \\ bien – bem \\ boç – voz \\ bonda – (forma do verbo “bondar”) basta \\ botar-se – pôr-se (a caminho) \\ buolta – volta \\ cachico – pouquinho \\ calhar – calar, acontecer por acaso \\ caliente – quente \\ çcansar – descansar \\ (ç)coincido – (des)conhecido \\ çculpa – desculpa \\ çcunfiar – desconfiar \\ cebelizaçon – civilização \\ çfalhecido – desfalecido, moribundo \\ çfazer – desfazer \\ çfréncia/r – diferença/ciar \\ çfrente/mente – diferente/mente \\ çfruitar – desfrutar \\ chano – chão \\ chuber – chover \\ chubir – subir \\ cielo – céu, firmamento \\ coincer – conhecer \\ colgado – suspenso, pendurado \\ cortina – terreno fértil cercado por muros de pedra \\ çpachado – despachado \\ çpedir – despedir \\ çpindurado – dependurado \\ çpique – despique \\ çpoboado – despovoado \\ çponer – dispor \\ çposiçon – disposição \\ çtáncia – distância \\ çtribuir – distribuir \\ çuda – açude \\ cula – com a \\ cumoquiera – talvez \\ cuolmo – colmo, pequeno feixe de caules de centeio \\ custante – constante \\ danhado – atrevido, danado \\ dar a la pata – fugir, escapar \\ da peto – de propósito \\ debagarico – lentamente \\ debertimento – divertimento \\ deç – desde \\ deimingo – domingo \\ dezir – dizer \\ dũa – duma \\ eigual – igual \\ eilha – ela \\ eilhi – ali \\ eimbierno – inverno \\ eiqui – aqui \\ feitiu – feitio \\ fondo – fundo \\ fugon/es – fogão/ões \\ fuolha – folha \\ fuora – fora \\ grabe – Português \\ halbelidade – habilidade \\ hardar – herdar \\ huorta – horta \\ jinela – janela \\ l/la – o/a \\ lhá – lá, além \\ lhabar/deiro – lavar/lavadeiro \\ lhabrar – lavrar \\ lhadeira – encosta \\ lhado – lado \\ lhameiro – lameiro \\ lhana – lã \\ lheitura/lher – leitura/ler \\ Lhéngua – Língua (Mirandesa) \\ lhida de casa – lida de casa \\ lhuç – luz \\ manhanha – manhã \\ manelo – porção de lã ou estriga de linho que se coloca na roca para fiar \\ mano – mão \\ mercido – merecido \\ mi/mie/miu – muito/mim/minha/meu \\ moda – canção, música \\ nin – nem \\ nobidade – notícia, novidade, invenção \\ nũa – numa \\ nuobas – novidades, notícias, novas \\ ócalos – óculos \\ oulhar – olhar \\ oumenos – pelo menos \\ outéntico – autêntico \\ outor – autor \\ pa – para \\ padroneiro – padroeiro \\ paixarico – passarinho \\ parcer – parecer \\ parriba – para cima \\ pequeinho/pequerrico – Pequeno/pequerrucho \\ percura – procura \\ perra/o – cadela/cão \\ pessona – pessoa \\ pie – pé \\ poner – pôr \\ pongo (verbo poner) – ponho \\ porriba – por cima, do lado de cima \\ porparado – preparado \\ poular – saltar \\ Praino – Planalto (Mirandês), plano \\ proua – vaidade \\ presson – pressão \\ pul/a – pelo/a \\ puolo de lhabar la roupa – detergente \\ purmanhana – ao alvorecer \\ pus – pois \\ quegirdes/quegisse – (formas do verbo querer) quiserdes/quisesse \\ quemunicaçon – comunicação \\ questura/eira – costura/eira \\ ralo – raro \\ respuosta – resposta \\ restrante – restante \\ scaleiras – escadas \\ sclarecer – esclarecer \\ scuitar – ouvir \\ sculhir/do – escolher/ido \\ scuma – espuma \\ seclo – século \\ seinha – sinal \\ selombra – sombra \\ sequiera – sequer \\ sfergante – instante \\ smola – esmola \\ solo – só \\ soudade – saudade \\ spácio – espaço \\ sperteza – inteligência \\ spormentar – experimentar \\ squina – esquina, canto exterior de uma casa \\ star – estar \\ streilha – estrela \\ stubo/isse (verbo star) – esteve/ivesse \\ subrebibir – sobreviver \\ subreciente – suficiente \\ talbeç – talvez \\ tejeiras – tesoura \\ tempra – têmpera \\ trato – contrato oral \\ truxo – (forma do varbo “tra(z)er”) trouxe \\ uolho – olho \\ xabon/ete – sabão/sabonete \\ xaragon – colchão de palha de centeio ou de folha de milho (designação que se dava em Angueira) \\ xofer – condutor de automóvel \\ yá – já \\ ye – (forma do verbo ser) é \\ yerba – erva \\ you – eu \\ zafertunadamente – lamentavelmente \\ zafio – desafio \\ zalmado – desalmado \\ zaparcer – desaparecer \\ zapuntado – desapontado \\ zasperado – desesperado \\ zaugar – desaguar

    Para saber o significado de outras palavras, sugiro a consulta do sítio

    http://www.mirandadodouro.com/dicionario/

    A quem queira visualizar algumas fotos aéreas de Angueira, sugiro a consulta do blogue

    http://portugalfotografiaaerea.blogspot.pt/2017/01/angueira.html

    Caso queira saber a localização de alguns sítios do termo de Angueira, carregue no “link”:

    www.openstreetmap.org/searchquery=Angueira%2C%20vimioso%2C%20portugal#map=12/

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