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Angueira

Onte, Hoije i Manhana

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  • Esboço de um Programa de Ação por Angueira e pelo Concelho

    julho 3rd, 2017

    I- Linhas de força duma reflexão em torno de um Programa de Ação: o que fazer em Angueira e pelo Concelho

    1- Uma explicação

    Desta vez, opto por escrever em Português. E a razão é simples: não se trata, agora, de relembrar estórias e situações vivenciadas, num passado mais ou menos longínquo, pela gente de Angueira, mas, sim, de desenvolver uma reflexão e explana­r um conjunto de ideias que tra­duzem uma forma de perspetivar e de, assim, dar um contributo para a melhoria do futuro da aldeia e do concelho. Neste quadro, o que mais im­porta é que tais ideias sejam acessíveis a todos os potenciais leitores. No entanto, porque em An­gueira se man­tém a antiga toponímia, optei também por, ao longo do texto, utilizar a designação dos sítios do respetivo termo em Mirandês.

    2- Princípios subjacentes ao Programa de Ação

    * A política, no sentido etimológico e mais nobre do termo, respeita ao governo da cidade, ou melhor, de qualquer localidade (aldeia, vila, cidade), concelho, região ou país.

    * Um filho de qualquer terra tem, em relação à mesma, a obrigação de cuidar e tudo fa­zer para manter e não deixar degradar nem destruir o seu património.

    * O património é o legado deixado pelos antepassados às novas gerações. e que qualquer localidade, concelho, região ou país tem de mais genuíno e autêntico. Conferindo-lhe uma identidade pró­pria, é o que culturalmente os distingue em relação aos demais.

    * O património condensa a cultura da comunidade, as aquisições realiza­das ao longo da sua história, no processo de adapta­ção às condições natu­rais do seu es­paço vital, bem ainda as relações de familiari­dade e convivência, de troca e parti­lha de bens, de experiências e sa­beres entre os seus mem­bros estabeleci­dos em tal processo.

    * O património traduz as formas de pen­sar, sentir e agir, ou seja, as vivências e a alma da gente. Comportando várias dimensões, podemos nele distinguir o mate­rial do imaterial, o natural do cultu­ral, o público do privado.

    * O património privado é um legado familiar, cabendo em vida do respetivo titular adminis­trá-lo e preservá-lo de forma a poder transmiti-lo à posteridade.

    * O património edificado – casas, incluindo as do moleiro, moinhos e os próprios açu­des e calendras –, ainda que privado, interessando a toda a comunidade, é tam­bém um bem de interesse público. Se a sua preservação é, em primeira instân­cia, obriga­ção do respetivo titular, é-o também, subsidiari­a­mente, dos órgãos políticos e representativos da comuni­dade.

    * Pensar globalmente, agir localmente… Este princípio, que traduz a necessidade de encon­trar solu­ções locais para problemas que são globais, remete para a ideia de ser pela nossa casa, ou seja, pela localidade onde vivemos que é preciso começar, na convic­ção de que as de­mais farão o mesmo.

    * A atividade política, no sentido etimoló­gico e mais nobre do termo, é o governo da cidade, o que, na atualidade e no caso português, é extensível ao da freguesia, do conce­lho, da re­gião e do país.

    * Em democracia, o so­be­rano é o povo. Para ser legítimo, qualquer governo tem, pois, de se fundar na li­vre esco­lha dos cidadãos, que, para o ser, carece de ser esclare­cida. Mesmo que as escolhas dos cidadãos possam não ser as mais esclareci­das nem as melho­res, não resta outra atitude senão respeitá-las.

    * Na democracia representativa, os par­ti­dos políticos são, por via da representa­ção, media­dores entre os cidadãos e o sis­tema de governa­ção. No entanto, é a von­tade dos cida­dãos a que deve imperar e prevalecer. As­sim, não são os cida­dãos que têm de res­pon­der pe­rante os partidos, mas os elei­tos pe­rante os eleitores que repre­sentam.

    * O Poder Local democrático corresponde à criação de uma relação política que, ape­sar de diferente da mercantil, pressupõe também a celebração de um pacto, ainda que tácito, en­tre o(s) ci­dadão(s) e o(s) autarca(s), assente no compromisso do(s) elei­to(s) promo­ve­r(em) o desenvolvimento local. Assim, quando da elei­ção e antes da deci­são, o(s) au­tarcas deve(m) auscultar e os cidadãos manifestar-lhe(s) os seus principais anseios. Uma vez eleito(s), o(s) autarca(s), não se limitando a dar voz a si mes­mo(s), fica(m) vincula­do(s) ao dever de representar, respeitar e defen­der os interesses de todos os eleito­res.

    * O aprofundamento da relação política democrática tende a levar os ci­dadãos a tornarem-se cada vez mais exigentes em relação aos autarcas que ele­gem, o que po­de traduzir-se na apresentação de uma espécie de caderno de encar­gos, contemplando os seus principais anseios em relação ao que desejam para a sua terra e que os candidatos autárquicos se comprometem a adotar e a prosseguir de­pois de elei­tos.

    * É expectável que, em vez de navegar à vista e ao sabor das circunstâncias, os candidatos a autarcas apresentem ao eleitorado o seu plano de ação. Caso o não façam, deverão os eleitores exigir-lho, recusando, assim, passar-lhes um cheque em branco.

    * Recusando o maniqueísmo, nem tudo se reduz a ser branco ou preto. Entre os extre­mos desta polaridade cromá­tica, os próprios daltóni­cos, apesar de não pode­rem vislumbrar toda a pa­leta de co­res, conse­guem, contudo, descortinar, conso­ante as cambiantes, a intensi­dade e a predomi­nân­cia de um ou de outro, a variância, mas também a identidade semân­tica, das tonalidades de cin­zento que se lhes interca­lam.

    * Os políticos não são santos nem diabos, são pessoas. Partilhando as virtu­des e os defeitos intrínsecos à humana condição, não podem, contudo, abdi­car de marcar e orien­tar a sua ação por valores e princípios e de seguir a ética de ser­viço pú­blico. Recu­sando quaisquer formas de despotismo, maquiave­lismo, caciquismo e nepo­tismo, que não são admissí­veis, têm de prosse­guir o interesse público.

    3- Obra realizada pelo Poder Local democrático

    Ao longo dos últimos mais de 40 anos de Poder Local democrático em Portu­gal, as Juntas de Freguesia e a Câmara Municipal foram no concelho de Vimi­oso da responsa­bilidade polí­tica oscilante entre dois partidos políticos: o PS e o PSD. Assim, fo­ram sendo realiza­das obras e adotadas medidas que se traduzi­ram na melhoria de condi­ções de vida da po­pula­ção das freguesias e do conce­lho: abaste­cimento de água, sanea­mento bá­sico, recolha seletiva de lixos domésti­cos e ilumina­ção pública; rede viária, com a constru­ção de estradas munici­pais, (re)pavimentação de ruas e arranjo de cami­nhos rurais; constru­ção do Par­que Indus­trial, Mercado Municipal, Piscina Munici­pal, Parque de Campismo, Pavi­lhão Mul­ti­u­sos, Campo de Fute­bol e Casa da Cultura, na sede do concelho.

    Complementarmente a tais obras, foram tomadas outras medidas: a atribui­ção de subsí­dio à família quando do nascimento de uma cri­ança; Complexo Termal da Terro­nha; Parque Industrial e venda, a preço simbólico, dos respetivos espaços; Cen­tro In­terpreta­tivo e Mu­seu das Minas de Argozelo; Museu Marrano de Carção; Museu Rural de Caçarelhos; Feira do Pão, Feira da Castanha, Feira das Artes, Ofícios e Sabores de Vimioso; Par­que Ibérico, Turismo e Aventura; Des­porto Aventura e even­tos motorizados; recupera­ção de pom­bais, igrejas e capelas; arranjo de zonas de la­zer; construção de charcas espalha­das pelo termo para, atenuando a falta de água no verão, o gado dis­por de onde beber.

    No caso de Angueira, são assinaláveis algumas obras realizadas pela Junta de Fregue­sia, com base em projetos que obtiveram financiamento comunitário e outras com apoio da Câmara Municipal: zona bal­near e Parque de Merendas da Cabada; arranjo e pavimen­ta­ção da via entre San Sebastian e Terroso, ao longo da ri­beira; recupera­ção do Forno da Telha; reconstru­ção das pontes da Yedra, da Senhora e da Çanca; construção da sede da Junta e da Associa­ção Cultural e Recreativa; limpeza de matas; arranjo do açude das Uolmedas; ar­ranjo dos pontões das Antraugas e de Telhado; (re)pavimentação de ruas; constru­ção de charcas; ar­ranjo de caminhos rurais.

    No entanto, vários problemas persistem ainda na aldeia e no concelho. Não obstante as especificida­des de Angueira, tais problemas, não sendo exclusi­vos desta, são comuns à generali­dade das localidades das Terras de Mi­randa, do Nor­deste Transmon­tano e do Interior do país. Tratando-se, porém, de encon­trar so­luções locais para problemas globais, é pela nossa aldeia que temos de começar, na convic­ção de que as demais, sendo pró-ati­vas e exigen­tes com os seus representan­tes políticos, farão, ou acabarão por fazer, o mesmo.

    Tratando-se do Poder Local e tendo que ser pragmáticos, o que mais im­porta é solucionar os problemas que afetam a co­munidade. Assim, a nosso ver, o apoio dos munícipes deverá ser dado ao(s) candi­dato(s) autárquico(s) que, credivel­mente, se compro­meta(m) a inscrevê-los no respetivo pro­grama de ação e, acima de tudo, a fazer tudo quanto esteja nas suas mãos e ao seu alcance para os resolver.

    A obra realizada não pode constituir motivo para deslumbramentos e, ainda menos, servir de pretexto para esque­cer o muito que falta ainda fazer. Se nem sempre as op­ções tomadas e as priorida­des eleitas terão sido as mais adequa­das, importa, agora, em vez de nos pôr a chorar sobre o leite derramado, equacionar, apontar e relevar o que é mais ur­gente e prioritário realizar nos próximos mandatos daque­les a quem os eleitores ve­nham a conferir a responsabilidade política de gerir as autarquias: a Junta de Freguesia e a Câ­mara Munici­pal. Assim, as necessida­des que se enunciam correspondem ao que, por or­dem de prioridade, tendo em conta o interesse da localidade e do concelho, se consi­dera relevante prosseguir na duração dos respetivos mandatos.

    Tendo em vista a grandeza da obra a realizar, reconhece-se que os recursos financei­ros das autar­quias, longe de serem inesgotáveis, são sempre escassos. Ganha, assim, pleno sen­tido o velho aforismo: Roma e Pa­via não se fizeram num dia. Corroborando ainda um outro – devagar que tenho pressa –, admite-se que haja que definir priorida­des e, consequentemente, fasear as medi­das a tomar, de­vendo tal decorrer e ter como re­ferencial a importân­cia estratégica das mesmas em função das necessidades da localidade e dos inte­res­ses do concelho. Para além disso, o tempo que se julga necessário e adequado para a plena concretização das medidas propostas é o correspondente à duração de três mandatos autárquicos.

    Não se desconhece também que, enquanto não se esgotarem os fundos da União Euro­peia (UE), as autarquias podem ainda contar com avultados recursos financei­ros suple­menta­res. E não se ignora também que uma gestão rigorosa e criteri­osa destes per­mite potenciar e tirar mais adequado proveito dos mesmos.

    A extinção da freguesia de Angueira, decorrente da reconfi­gu­ração do mapa das fregue­sias, é uma problemática que, longe de se encontrar encer­rada, está ainda em aberto. É que a desig­nada União de Freguesias de Caçare­lhos e Angueira tradu­ziu-se, de facto e tão só, na ex­tinção desta freguesia e no apagamento de Angueira.

    Durante muito tempo, Angueira e Caçarelhos integraram, a nível religioso, a mesma paróquia. Por outro lado, Angueira dispunha apenas de uma única acessibilidade rodoviária: a EM 545 que, ligando-a a Caçarelhos, permitia aceder à EN 218, entre Miranda do Douro e Bragança, e, para além destas cidades, aceder também a Vimioso, a Mogadouro e ao mundo. Era, pois, passando por Caçarelhos, que qualquer habitante de Angueira podia aceder à rede de transportes públicos, incluindo os ferroviários, em Duas Igrejas.

    Depois do 25 de Abril, a organização religiosa e as acessibilidades sofreram também profundas alterações. Quanto às acessibilidades, o prolongamento da EM 545 de Angueira às Três Marras, primeiro, e a construção da EM 546, depois, permitiram aceder, por estrada, a Vimioso e a outras localidades do concelho e mesmo do de Miranda, bem ainda a Espanha, sem ter que passar por Caçarelhos. Mas, ainda a ritmo mais intenso que o da melhoria das ligações rodoviárias, lamenta­velmente, foram sendo encerradas as ligações ferroviárias que, por via es­treita, serviam o Nordeste Transmon­tano, começando, designadamente, pela linha do Sabor, que ligava Duas Igrejas ao Pocinho.

    A conjugação destes fenómenos conduziu à redução dos contactos e liga­ções entre Angueira e Caçarelhos.

    Qualquer união, para além da distância, fator que pode aproximar ou afastar entre si os elementos que a compõem, supõe a existência de algumas afinidades e de interesses comuns partilhados entre eles. Assim, se, ao reequacionar o mapa das freguesias, se tiver em conta, para além da maior proximidade, as afinidades existentes, inclusive as familiares, é entre An­gueira e Avela­noso que estas são mais fortes. Mas, se, para o efeito, a relevân­cia for conferida ao interesse co­mum – o percurso seguido pela ribeira e a respetiva bacia hidrográfica –, parece se­rem Serapi­cos e São Joanico, localidades contíguas também, as que mais se aproxi­mam de Angueira. Seja qual for o critério – com exceção do religioso e o da antiguidade da acessibilidade rodoviária –, nem a tradição, nem a distância, nem as afi­nida­des, nem mesmo a partilha de interesses comuns entre Angueira e Caçarelhos apon­tam para a união entre ambos.

    Neste quadro, parece mais ló­gico que Caçarelhos e Vilar Seco – localidade que não se percebe o motivo por que fi­cou de fora da reconfiguração que teve lugar – venham a constituir uma união de fregue­sias. Quanto a Angueira, depen­dendo do critério que vier a ser adotado, tanto poderá vir a constituir uma união com Avela­noso, como, tendo em conta o per­curso seguido pela ribeira, com Serapicos e São Joa­nico, passando, consoante o caso, Vale de Frades a consti­tuir união com Pinelo ou com Avelanoso.

    Trata-se de uma perspetiva política? Certamente, se dermos à política o sentido etimoló­gico e mais nobre e genuíno do termo: o governo da cidade. Este, para ser legítimo, tem de se fundar na livre escolha dos cidadãos, que, para o ser, carece de ser esclare­cida. Partidária? Não, sem prejuízo das con­vic­ções e op­ções, legíti­mas e constitu­cional­mente consagradas, que possamos ter em relação ao que considera­mos ser me­lhor para a terra onde nascemos ou vivemos, direito de que, en­quanto cida­dãos, nin­guém nos pode pri­var e não pode­mos, nem queremos, ab­dicar.

    4- É imperativo…

    4.1- Preservar o património

    A ideia subjacente à visão tradicional de património, sobretudo ao material e pri­vado, é a de tratar-se de um legado familiar deixado pelos antepassados à nova gera­ção dos seus membros. Passando de pais para filhos, sob a forma de herança, tal le­gado não lhes pertence plenamente; os seus atuais titulares têm apenas o direto a, en­quanto forem vivos, o administrar para, quando for chegada a hora, por sua vez, o transmiti­rem aos seus descenden­tes. Assim, cada geração tem, pois, o dever de ze­lar pelo património fami­liar, não o dei­xando degra­dar nem destruir, de forma a po­der transmiti-lo, se possí­vel ainda com mais valor, à sua descendên­cia.

    O património de qualquer lugar pode revestir diversas dimensões: material ou imaterial, natural ou cultu­ral, público ou privado. Mas, conden­sando a cul­tura da comunidade, é também pertença de todos os que nele habi­tam. As­sim, zelar pelo património, mesmo que privado, é cuidar também do inte­resse pú­blico.

    O património material compreende o edificado, que, sendo o mais visível e tangível em qualquer lugar, é também o que está mais sujeito à degradação gerada pelas inclemên­cias ocorridas e, até, pela simples passagem do tempo.

    Em Portugal, a intensificação das migrações – externa, a partir dos anos 60, e in­terna, a partir dos anos 70 do século XX – constituiu um problema que, conjugado com a redução da natali­dade e a perda da relevân­cia económica da agricultura, sobretudo após 1986, ano da sua integração na CEE, se traduziu no despovoamento das localidades ru­rais do interior do país. Assim, na generali­dade destas povoa­ções – o que corresponde a extensas áreas do território nacional –, resta, hoje, um reduzido número de residentes e, mais grave ainda que isso, uma população muito envelhe­cida, o que, no limite, pode condicionar, e comprometer mesmo, a própria de­fesa do país. Quem imaginaria que, poucos após o desaparecimento de Tito, a Jugoslávia, constituída pelas Repúblicas Socialistas da Bósnia-Herzegovina, Croácia, Macedónia, Eslovénia, Sérvia e do Montenegro, iria desintegrar-se e descambar nas maiores barbaridades e atrocidades cometidas por indivíduos e povos vizinhos que, anos antes, pelo menos aparentemente, tinham convivido pacificamente e integrado o mesmo Estado? Para o bem e para o mal, nada pode, pois, dar-se como definitivo e adquirido para sempre.

    Não espanta, pois, a existência de muitas casas, quase ao abandono e em ruína, a preci­sar de interven­ção urgente, na generalidade das nossas aldeias, pro­blema cuja solução re­mete para a convergência de esforços dos residentes, do Poder Local e do Go­verno nacional. Assim, importa que, complemen­tar ou mesmo autonomamente à polí­tica do Go­verno, os órgãos de Poder Local apostem em medidas que, aju­dando a revitalizar e revalorizar o res­petivo territó­rio, contribuam para o seu repovoa­mento.

    Em Angueira, para além das casas de viver, há ainda, em ambas as margens da ribeira, os moinhos, alguns dos quais com a respetiva casa do moleiro, bem ainda os açudes e as ca­lendras – canais que desviam a água do seu curso natural para a conduzir do açude ao moinho e às hortas existentes ao longo das mesmas –, a exigir urgentes cuidados.

    Excluindo o moinho de Telhado – que, como sempre ouvi dizer, é do povo –, os demais são património privado. Assim, é aos proprietários que, em primeira instância, incumbe cuidar deles e fazer as obras necessárias para os não deixar degradar ou arruinar mais, evitando, assim, que se percam para sempre.

    O que se passa com este património de An­gueira é, pois, muito preocupante. Se, pelos moinhos da Yedra e da Nalsa, bem como pelo pisão, que, em tempos, existiu na Cabada, e foram destruídos ou estão em com­pleta ruína, já pouco ou nada se pode fazer, quanto ao dos Lucas ou das Trés Ruodas, ao de Terroso, ao da Senhora e ao de Telhado, às casas do moleiro, aos açudes e às calen­dras, se, urgentemente, não se lhes acudir, dentro de pouco tempo, também já pouco, ou mesmo nada, restará deles.

    A questão da propriedade dos moinhos e das casas do moleiro – que têm vários proprietá­rios, alguns dos quais residentes no estrangeiro e mesmos desconhecidos, à maior parte dos quais faltará saber e vontade, condições e recursos financeiros para os cuidar e preser­var devidamente – complica ainda mais a sua recuperação, mas não impede que a sua conserva­ção seja também do interesse de todos.

    Caso diferente é o dos açudes e das calendras que, para além de reserva e canal de água desti­nada a fazer girar a mó dos moinhos, eram também, e continuam a ser, aproveitados para regar as hortas contíguas às margens da ribeira. Tratando-se, pois, de bens coleti­vos, a propriedade dos mesmos é, salvo melhor opinião, comunitária.

    Se os respetivos proprietários não têm meios nem condições para os recuperar, os ór­gãos do Poder Local não podem ficar indiferentes ou passivamente à espera de que, a breve prazo, este património, continuando a degradar-se a ponto de que, tornando-se irrecuperá­vel, se perca para sempre. Em ambos os casos, é à Junta de Freguesia e à Câ­mara Municipal que, subsidiariamente e em diálogo com todos os interessados – os residentes e os respeti­vos proprietários –, incumbe encontrar soluções e arranjar forma de lhes acudir – nem que, em situação limite, seja por via da expropriação – que permitam cuidar e salvaguar­dar este património.

    Apostando na convergência de vontades e mediante o recurso aos fundos da UE, poderão ser encon­tradas formas de, conciliando a prossecução do interesse público com o direito privado, acudir, recuperar e dar fun­ção útil a tão rico património. Deixar que tudo continue como está – ou seja, a degra­dar-se – é que a ninguém aproveita.

    Para ser democrático, o governo de qualquer localidade, município, região ou país tem de se sustentar num acordo tácito entre quem desempenha car­gos políticos e os seus eleitores. Aos titulares de tais cargos incumbe tudo fazer para que a sua terra e o seu povo alcancem, tenham e mante­nham as melhores condições de vida. E, hoje, já não se trata apenas de providenciar e garantir o sus­tento de toda a gente, mas sim de fazer com que todos vivam bem, isto é, que pos­sam desfrutar também do patrimó­nio que os antepassa­dos deixa­ram.

    Para além de uma obrigação de todos, cuidar do património, tanto do material como do imaterial, é também uma forma de preservar a cultura, a memória da gente – seus hábitos e costumes, seus modos de ser, de falar, de se divertir, de trabalhar e de viver – e de a transmitir à nova geração. E esta é, simultaneamente, uma mis­são e uma tarefa para que todos somos convidados e estamos convocados.

    Manter o que há de mais autêntico e genuíno e, culturalmente, caracteriza e distingue uma aldeia, um concelho, uma re­gião ou um país em relação aos demais é o que, para além da vitalidade econó­mica, tende, atual­mente, a tornar-se, cada vez mais, um dos principais motivos de atração de novos visitan­tes e possíveis novos residentes.

    4.2- Providenciar a existência de uma reserva estratégica de água no concelho

    Entre as medidas a tomar, deve ser dada priori­dade àquelas que, pelo seu previsível impacto e urgência, sejam mais relevantes para a aldeia e para o concelho. Assim, para além da promoção da recuperação do património edifi­cado, com possí­vel im­pacto no retorno de alguns naturais e na atração de novos moradores à locali­dade, é prio­ritá­ria a criação de uma reserva estraté­gica de água no concelho, pelo seu poten­cial impacto no abastecimento de água às populações de algumas localidades, no com­bate a incêndios, na rega de hortas e na manutenção do caudal ecoló­gico mínimo da ribeira de Angueira, imprescindível para a salvaguarda do lagostim e de outras espécies piscícolas nela existentes, durante o verão. E, quanto mais a montante (nascente) esta for do conce­lho, maior será o impacto e o proveito que dela podem tirar as localida­des que o inte­gram.

    Estas duas medidas potenciariam ainda a dinamização do mer­cado de tra­ba­lho, tendo, previsivelmente, assinalável impacto no au­mento da oferta de emprego no concelho, designadamente, no sector da construção civil.

    5- Razão de ser das duas medidas prioritárias a realizar em Angueira

    5.1- Recuperação do património edificado: casas, moinhos, açudes e calendras

    Nos anos cinquenta do século XX, a população residente – crianças e adultos – em Angueira rondava seis centenas de habitantes. Gradualmente, a partir dos anos 60, com a emigração, as migrações internas e a redução da natalidade, iniciou-se um processo que se traduziu na diminuição da população residente. Assim, resi­dem, atual e permanente­mente, na aldeia menos de uma centena de pessoas. E, não ha­vendo crian­ças, os atu­ais residentes são, maioritariamente, já bas­tante idosos. As­sim, não es­panta que haja, hoje, enorme quantidade de casas desabitadas, algu­mas das quais ameaçam ruína.

    Entre o Gago, a montante da povoação, e a Ribeira de Baixo, a jusante, existiam, no termo e ao longo da ri­beira de Angueira, vários moinhos, cujos açudes funcionavam como um sistema articulado de aproveitamento da água. Assim, a água libertada pelo açude do moinho de cima, começando pelo do Gago, permitia, sequencial­mente, encher o açude seguinte e pôr a funcionar os moinhos de baixo: dos Lucas (ou das Trés Ruodas), de Terroso, da Yedra, da Senhora, de Telhado e da Nalsa. No ri­beiro do Ba­lhe, mais concretamente no Cachon, havia ainda o moinho do se­nhor João Capa­dor, que, há muito tempo, deu lugar à moagem que, ainda em vida dele, foi desati­vada. Na Cabada, havia ainda o pisão, com o seu açude e, junto ao poço dos Pun­tones, o Forno da Teilha.

    Hoje, dos moinhos do Gago, da Yedra e da Nalsa e do pisão da Cabada restam ape­nas vestígios e os respetivos açu­des. Assim, excluindo a recuperação destes, já pouco ou nada mais há a fazer em relação àqueles. Os restantes quatro – os moi­nhos e as casas do moleiro dos moi­nhos dos Lucas, de Terroso e da Senhora – ainda são recuperá­veis. Mas, se, urgentemente, não se lhes deitar a mão, dentro de pouco tempo este patrimó­nio centenário acabará tam­bém por ruir e tornar-se irrecupe­rá­vel. Lembro, a propósito, que, na pedra com argola onde eram presas as bestas que transportavam os sacos de grão, mesmo ao lado do tranqueiro esquerdo da porta do moi­nho da Senhora, está inscrito o número 1247, data que corres­ponde a 104 anos após o Tratado de Zamora, celebrado em 5 de outubro de 1143, relativo ao reconheci­mento da indepen­dên­cia de Portugal.

    Para além dos moinhos e das casas do moleiro de três deles, é possível recuperar os açudes, incluindo o do pisão (açude das Almas), e as calendras, evi­tando-se, as­sim, a perda deste patri­mónio e dando préstimo às referidas casas, eventual­mente, para tu­rismo rural. Dos moinhos recuperados, poderá ser explorado o seu potencial pedagógi­co pelos agrupamentos de escolas de Vimioso e dos concelhos vizinhos.

    Para recuperar os açudes e as calendras dos moinhos (dos Lucas, de Terroso, da Ye­dra, da Senhora, das Almas, de Telhado e da Nalsa), basta consolidar o respetivo pare­dão e as paredes das margens de cada açude, e, eventual­mente, aprofun­dar um pouco, limpar e regularizar o leito da ribeira e das calendras. Que pouco mais será necessá­rio e se po­derá fazer. É que fazer subir mais o nível má­ximo atual da água dos açu­des implica­ria alagar e perder muitas das hortas existen­tes nas mar­gens da ribeira. E, com maior propriedade ainda, para além de outras coi­sas mais – designadamente, a dificuldade de obter autorização da autoridade compe­tente –, o mesmo se pode dizer da eventual construção de nova represa de água na ribeira.

    5.1.1- Apoio a prestar pela Câmara Municipal à recuperação do património edificado

    Uma das possíveis modalidades de apoio à recuperação do património edificado que a Câmara Municipal de Vimi­oso pode prestar – provavelmente a mais inteligente e menos dispendiosa – será disponibili­zar os respetivos serviços de engenha­ria e arquite­tura para estudar soluções, aconselhar os muníci­pes, orientar os proje­tos, acompa­nhar e fiscalizar as obras, para além do apoio logístico à elaboração de dos­siês a submeter a financiamento da UE. Desta forma, para além do conforto térmico e de outras comodidades que as casas poderão ganhar, será também mais fácil conseguir-se que a sua recupe­ração respei­te a traça e utilize as técni­cas e os materi­ais tradicio­nais. Pela presta­ção de tal apoio, é aconselhável que a Câ­mara se limite a co­brar aos proprie­tá­rios um preço mera­mente simbólico.

    Quanto à recuperação dos açudes e das calendras, deverão ser os respetivos servi­ços de engenharia e arquitetura a projetar, elaborar e submeter os dossiês a financia­mento da UE, orientar e fiscalizar os trabalhos de recupera­ção. Desta forma, preservando adequadamente o património arquitetónico, todos – a Câmara, a Junta, o dono da obra, os moradores e, sobretudo, a localidade e o conce­lho – fica­rão a ganhar.

    Como alguns dos moinhos e casas do moleiro têm vários proprietários, a CMV de­verá notificá-los a fim de, dentro de um prazo razoável que, para o efeito, lhes fixar, faze­rem as obras necessárias. Caso os respetivos proprietários não se entendam e não se prontifi­quem a recuperá-los, a CMV deverá proceder à respetiva expropria­ção e recuperação.

    5.2- Construir, urgentemente, uma represa de água no ribeiro da Caba­nhona

    A ribeira de Angueira é um dos dois cursos de água mais importantes do conce­lho de Vimi­oso. Nas­cendo em Terras de Aliste, em Espanha, antes de desaguar no Maçãs, ao longo do seu percurso, passa em Alcani­ces e, já em Portugal, banha os termos de São Martinho de Angueira, Angueira, Avela­noso, Serapi­cos, São Joanico, Caçarelhos, Vimioso, Vila Chã da Ribeira, Campo de Víboras, Uva, Mora, Vale de Algoso, Algoso, Teixeira, Saldanha, Valcerto e Junqueira, localida­des dos concelhos de Vimioso, Miranda do Douro e Mogadouro.

    Só no termo de Angueira, desaguam na ri­beira os ribeiros de Belha­rino, da Puon­te­lhina, de Fuontecinas, do Balhe, da Faceira e das Barrei­ras, na margem di­reita; e os ribeiros das Queijeiras, dos Milanos, da Cabanhona, da Fraga, de Ourrieta la Fuonte, de Souga­nho e do Prado, na margem es­querda.

    Nos da Cabanhona e dos Milanos – os dois maiores ribeiros que, no termo de An­gueira, desaguam na ri­beira –, con­fluem as águas da chuva e de várias nascentes de terras com mui­tos quilómetros quadra­dos de área e extensão: o da Caba­nhona, que nasce em Genísio e re­cebe ainda águas dos termos de Caçarelhos e de An­gueira (Bal de Molhado, Carras­quito, Tra­bacinos, Frez­nos, Bal de l Quadro, Çtante, Malhados, Sculqueira, Lhatas de l Meio, Chapeiron, Ste­bica, Palombeiras, Muola, Sa­peira, Lha­gona, Spino, Lhadron, Rama­lhal, Cabanhona, Cabeço Molhon e Cabeço l Cuorbo); o dos Milanos, que nasce na Especi­osa e recebe ainda águas do termo de An­gueira (Ca­beça Gorda, Ourrieta Mo­rena, Lhamei­ras, Peladas, Portu­gueses, Mila­nos, Palanca­res, Casca­lhal e Cabeço Mo­lhon). Daí que, quando chove intensamente, estes ri­beiros ga­nhem grande caudal, fazendo, assim, aumentar consideravelmente o nível das cheias da ri­beira.

    Ambos os ribeiros cor­rem e desa­guam em vales apertados: o da Cabanhona e o da Re­tuorta. Dispõem, assim, de condi­ções orográfi­cas ímpares e muito favoráveis que facilitam e tornam me­nos dispen­dioso construir em cada um deles – ainda que uma posteriormente à outra – uma represa.

    Sobretudo no inverno, mas também no outono e na primavera, nos anos de maior pluviosi­dade, é usual haver várias e grandes cheias na ribeira de Angueira. Por exem­plo, no inverno e na prima­vera de 2016, cho­veu tão intensamente que a ribeira e a vala da irri­gação ainda corriam em agosto e os açudes estavam ainda cheios de água, o que, há mui­tos anos, já não acontecia. É que, geralmente, a partir do fi­nal de ju­nho, começa a es­cas­sear a água na ribeira, mesmo nos açudes, deixando, durante o verão, de ha­ver água suficiente para garantir um caudal capaz de alimen­tar poços e açu­des, a vala da irrigação e a zona balnear da Ca­bada.

    A construção da vala da irrigação, entre Terroso e as Uolmedas e com vários quilóme­tros de extensão, foi um dos investimentos mais avultados que, nos anos 60 do sé­culo passado, o Estado fez em Angueira. No entanto, em vez de construir uma re­presa própria que permitisse reter a água das chuvas de outono, inverno e prima­vera, limitou-se a aproveitar, fazendo-lhe ligeiras adaptações, o açude do moinho de Terroso que, a partir de então, foi impedido de funcionar. Assim, não tendo sido constru­ída uma represa de água adequada e não dispondo, pois, de água suficiente para alimentar a vala durante o verão, nunca se tirou o devido proveito do investimento realizado na construção da mesma.

    A captação de água para abastecimento público de Vimioso e de algumas localidades da parte sul do concelho – Algoso, Campo de Víboras – é feita na ribeira de Angueira. No ve­rão, sobretudo nos anos de seca, que tendem a ser cada vez mais frequentes, é vulgar faltar água suficiente para assegu­rar o abastecimento de água de quali­dade à sede e àquelas aldeias do conce­lho e o caudal ecoló­gico mí­nimo da ribeira que, ao longo do seu percurso, permita ali­men­tar açudes e poços para poder re­gar as hor­tas, preservar o lagostim e outras espécies piscícolas, bem ainda acudir a qualquer incên­dio. É, pois, imprescindí­vel encontrar forma de aproveitar e re­ter a água das chuvas de ou­tono, inverno e prima­vera, em Angueira, para que o conce­lho dela possa dis­por durante o verão.

    Assim, tendo em conta as condições orográficas favoráveis, é, pois, urgente cons­truir no ribeiro da Cabanhona, na zona da Se­nhora e a noroeste de Cabeço Mo­lhon, uma represa de água e, posteriormente, uma outra no ribeiro dos Milanos, ao cimo da Retuorta e a nordeste de Cabeço Molhon. As duas represas ficariam separadas entre si por Cabeço Molhon. Sendo poucas e de reduzida dimensão as hor­tas existen­tes nas margens destes ribeiros, será pe­queno, em ter­mos agrícolas, o preju­ízo decor­rente da construção destas re­presas. Para além disso, tal construção pode ser feita com recurso a fund­os da UE.

    A construção desta(s) represa(s), com alguns metros de altura, em terra batida e pe­dra, a montante da Cabada e perto do ponto onde o(s) ribeiro(s) da margem es­querda desaguam na ribeira, é uma medida que, há dezenas de anos, os agricultores mais avisados apontavam como solução para a escassez de água – designadamente, para alimentar a vala da irrigação – que se faz sentir no verão. Porém, tal ideia nunca assu­miu a forma de proposta, uma possível razão por que, ainda hoje, se repetem, cronica­mente, as mesmas situações problemáticas que urge, agora, resolver: cheias da ribeira, entre o final do outono e o início da prima­vera, e escassez de água e consequente seca do respetivo leito e dificuldade de rega das hortas, du­rante o ve­rão.

    Para além de permitir regular o volume das cheias da ribeira no tempo mais chuvoso e de, no tempo mais seco, alimentar, pelo sistema de vasos comunicantes, a vala da irrigação das hortas que ficam entre a Yedra – ou seja, as de Ourrieta Caliente, Tan­que, Cabada, Cachon, Çanca, Salina, Mediana e Faceira – e as Ulmedas, a construção da(s) referida(s) represa(s) teria ainda as seguintes vanta­gens adicionais para An­gueira e para o conce­lho: passa­riam a dis­por de água suficiente e de melhor quali­dade para abastecimento público e de helicóp­te­ros, quiçá mesmo avi­ões, de com­bate a incên­dios no verão. Direta ou indiretamente, esta solução beneficia­ria a maior parte ­das povoa­ções do conce­lho de Vimioso (An­gueira, Avelanoso, Serapi­cos, São Joanico, Vimi­oso, Vila Chã da Ri­beira, Uva, Mora, Campo de Víboras, Vale de Al­goso e Algoso), bem como algu­mas do concelho de Mi­randa do Douro (Granja) e de Moga­douro, que são banhadas pela ribeira, e ainda o de Bra­gança e até mesmo o ayuntami­ento de Alcanices em Espanha.

    A alternativa à construção da(s) represa(s) perto do sítio onde o(s) ribeiro(s) desa­gua(m) seria fazê-la no leito da própria ri­beira. Porém, devido à reduzida diferença de altitude entre os pon­tos mais a montante e a jusante do seu leito no termo de Angueira, tal construção, para além do seu ele­vado custo, faria alargar vários hecta­res de hortas. Assim, teria um enorme impacto ambiental, o que, presumivelmente, poderia levar as autorida­des competen­tes a não autorizar a sua construção.

    6- Outras medidas a realizar em Angueira e sua razão de ser

    Para além das obras enunciadas como mais prioritárias, há também que realiza­r ou­tras e assegurar ainda a adoção de diversas medidas que, para Angueira e, provavel­mente, ou­tras povoa­ções do conce­lho, se reves­tem de enorme importân­cia e de grande relevân­cia e que, seguida­mente, se enunciam.

    Nem todas estas medidas apresentam o mesmo grau de complexi­dade e dificul­dade de execução, nem idênti­cos valor, es­forço e custo finan­ceiro, nem ainda a mesma urgência. Três mandatos autárquicos parecem ser o tempo necessário, adequado e suficiente para as levar a cabo.

    6.1- Corrigir erros nas linhas de demarcação entre o termo de Angueira e das aldeias vizi­nhas e concluir a sinalização dos sítios do termo de An­gueira no OpenStreetMap

    Devido à emigração e as migrações internas da segunda metade do século passado, praticamente toda a gente nova saiu de Angueira, onde fica­ram ape­nas os mais ido­sos. Com o gradual desaparecimento destes e a decadência da agricultura, a maior parte das terras passaram a fica­r de adil e de monte. Assim, hoje, é quase impossível delimitar com preci­são, e já poucos sabem de quem são, as ter­ras, onde estão os mar­cos e são as marcações da maior parte delas, sobretudo daque­las onde já quase só há monte e touças. E o mesmo se passa com as marras e as linhas de demarcação entre o termo de Angueira e os das povoações vizinhas.

    A toponímia do termo de Angueira é em Mirandês. Como cada vez há menos pes­soas que ainda sa­bem os nomes e a localização exata dos sítios a que correspondem, im­porta loca­lizá-los num mapa a fim de que, quando as pessoas mais velhas desaparece­rem, não se perca esta toponímia.

    O termo de Angueira confronta, a norte e a noroeste, com o de Avelanoso; a noro­este, com o de Serapicos; a poente e a sudoeste, com o de São Joanico; a sudoeste e a sul, com o de Caçarelhos; a sueste, com o da Especiosa; e, a nascente e a nordeste, com o de São Martinho de Angueira.

    As marras que separam estes termos foram, há muito tempo, colocadas nos respeti­vos lugares. É possível que, devido à lavra das terras e às touças que foram cres­cendo e sendo arrancadas, muitas delas tenham sido arrancadas também. Agora, que, há tanto tempo, várias terras não são lavradas e com o monte e as touças que foram crescendo, será muito difícil encontrar muitas das marras.

    Com os casamentos entre rapazes e moças das povoações vizinhas, al­gumas ter­ras destas aldeias passaram, por herança, a pertencer a pessoas que passa­ram a mo­rar noutras. Assim, os proprietários de algumas delas deixaram de residir na povoa­ção. Contudo, não deixaram de fazer parte do termo de Angueira. E o mesmo se pas­sou também com pes­soas que, vindas de outras povoações vizinhas, por casa­mento, passaram a residir em Angueira.

    Desde o final de 2015, em trabalho de equipa com o David Domingues, topógrafo que, embora nascido e residente em França, é originá­rio de Angueira, e contando ainda com ajuda de ou­tros naturais, temos vindo a localizar e sinalizar no OpenStreet­Map (ver http://openstreetmap.org/#map=14/) os vários sítios do termo, em Mirandês. No início de 2016, constatámos a existência de muitos, grandes e graves er­ros, neste e noutros mapas, incluindo a carta militar, onde figu­ram Angueira e as aldeias vizinhas, na sinalização das linhas de demarca­ção en­tre os respetivos termos, correspondentes a uma área de vários kms2 em prejuízo de Angueira:

    i) Entre Angueira e Avelanoso, consta dos mapas como sendo do termo de Avela­noso, parte de Ca­becico de Porros e da Chana, as Barreiras, Quebra Cambas, o Absedo de Bal de Xardon, Bal de Xardon, a Bouça, o Milho, Stendeiro de Pardos, parte do Rodelhon, parte das Abelheiras, a Marmolina, Cabeço Alto, os Salgadeiros, a Malhadica e Cruç Branca, sítios que sempre pertenceram ao termo de Angueira. Curiosa­mente, o António Esteves alertou-me de que, antigamente, para o gado bo­vino poder circular nestes locais do termo de Angueira, o respetivo proprietário ti­nha que ter uma licença especial. Fica, assim, explicado, pelo menos em parte, este erro que consta da carta militar;

    ii) Entre Angueira e São Joanico, constam dos mapas como sendo do termo de São Joanico, as Foias, Bal de Freixo e parte das Temadas, do Queimado, das Lhapas e de Peinha la Bela, sítios que são do termo de Angueira;

    iii) Entre Angueira e Caçarelhos, constam dos mapas como sendo do termo de Caçare­lhos parte do Çtante e de Bal de l Quadro, que são do termo de Angueira.

    Ora, como sempre ouvi dizer, todos os mencionados sítios fazem parte, provavelmente há centenas de anos, do termo de Angueira.

    Hoje é possível, através de GPS, encontrar e registar em cartas e mapas as coordenadas com a localização exata das marras. Ficará, assim, claro para todos onde ter­mina o termo de uma povoa­ção e começa o das povoações vizinhas, o que pe­rmite evi­tar desentendimentos futuros que, bem vistas as coisas, não são bons nem aprovei­tam a ninguém.

    A referida constatação levou-nos a suspender a tarefa até ver clarificada a questão e corrigidos os erros que detectáramos nos mapas. Solicitei, para o efeito, a colaboração e o apoio do represen­tante de Angueira na Junta da União de Freguesias. Mas como, até ao momento atual, tudo parece estar na mesma, continuamos a aguardar melhor oportunidade para retomar e podermos concluir a tarefa a que nos propuséramos.

    6.2- Organizar um serviço de brigadas de limpeza de matas e floresta

    A situação de quase abandono – campos por cultivar, com mato ou floresta – em que, atualmente, se encontra grande parte das terras de sequeiro do termo de An­gueira obriga a equacionar formas de atenuar o risco de incêndio que, a qualquer momento, sobretudo no verão, nelas pode deflagrar. Assim, e porque várias dessas terras têm como proprietários muitos não residentes, alguns deles emigrantes no Brasil ou em países da UE e sem meios e recursos financeiros suficientes para, por inicia­tiva própria, assegurar a lavra e limpeza dos mesmos e suportar os respeti­vos custos, importa que a Câmara Municipal ou a Junta de Freguesia providen­ciem a organização ou garantam a contratação de brigada(s) de limpeza que, a custo aceitável, possam assegurar a limpeza de matas e floresta e à poda e lavra desta.

    Assim, detetada a existência de situações de falta de limpeza de matas ou floresta susceptíveis de facilitarem a deflagração ou a propagação de incêndios e de comprometerem a segurança, a Câ­mara Municipal ou a Junta de Freguesia notificarão o(s) proprietá­rio(s) no sen­tido de re­solverem o problema, alertando-os de que, caso o não faça(m) dentro do prazo conce­dido para o efeito, providenciarão a realização da referida limpeza, cobrando ao(s) proprietá­rio(s) uma importância equivalente ao respetivo custo.

    6.3- Concluir a construção do troço entre a Cruzica (Angueira) e a Especiosa da estrada (inter)municipal (EM 546) que liga Vimioso à Especiosa e ao Naso

    Há já muitos anos, eram ainda Zé Mi­randa e Júlio Meiri­nhos, respetivamente, os presiden­tes da Câmara de Vimioso e da Câmara de Miranda do Douro, fez-se o rompi­mento da estrada entre a Cruzica, pas­sando pelo Ramalhal e pelas Lhameiras, no termo de Angueira, e a Especiosa. Tra­tava-se de fazer uma ligação rodoviária, de interesse e responsabilidade intermunicipal, mais curta entre Vimioso e o Naso, que serve também São Joanico e Angueira e que, mais rápida e facilmente, permitiria ainda aceder a outras localidades do concelho de Miranda do Douro: Póvoa, Ifanes e Paradela, entre outras. Já depois de ter sido feito o rompimento, a mudança dos presidentes das menciona­das câmaras municipais e dos respeti­vos partidos traduziu-se na suspensão, até ao presente, da constru­ção do refe­rido troço desta estrada.

    Parece, agora, chegado o tempo de retomar e concluir uma obra, de interesse e responsabilidade intermunicipal, que, sem qualquer razão plausível, foi interrompida. Tratando-se de uma via destinada a servir interesses comuns a dois concelhos, a Câmara Municipal de Vimioso terá que, para o efeito, concertar estratégias, congregar vontades e conjugar esforços com a de Miranda do Douro no sentido de prosseguir e concluir esta obra.

    6.4- Construir uma variante à estrada municipal (EM 545) entre Angueira e as Três Marras que permita desviar da povoação a maior parte do trânsito automóvel

    Atualmente, muitos veículos automóveis ligeiros e pesados têm de passar pela povoa­ção. A construção de uma variante à EM 545, entre Stendeiro de Pardos, no alto do Rodelhon, e a ponte da Cabada, permitiria desviar a maior parte do trânsito automóvel, sobretudo o de pesa­dos, da povoa­ção. Para além do percurso ser mais plano, mais curto e mais rápido, evitar-se-ia, ainda, a passagem pelo Lhargo de Sante Cristo, sítio onde os camiões têm grande dificuldade em passar, tendo de, para o efeito, fa­zer grandes e difíceis manobras. Mesmo assim, alguns acabam por embater e danificar as pare­des de algumas casas e da capela.

    Com o preço a que hoje estão as terras e o abandono da agricultura, será reduzido o prejuízo para esta e pouco elevado o custo da construção da referida variante. Bastará seguir, alargar e corrigir parte do traçado do caminho já existente entre o alto do Rode­lhon, o cruzamento ao cimo de Boca ls Balhes, o Lhombo de las Eiras e as Eiras Grandes até ao cimo da Caleija de la Senhora e a capela de San Sabastian e, a partir deste, abrir uma nova via até a Cabada. No cimo das Eiras, a vari­ante deverá dar acesso ao caminho atualmente existente e que, pela Rua das Eiras, vai dar ao Ronso. Entre a capela de San Sebas­tian e a ponte da Cabada, haverá que construir um novo troço, de poucas cerca de duzentos de metros de via, que, seguindo pelas cortinhas do Tanque, per­mita desviar o trânsito automó­vel e evitar, assim, que te­nha de passar pela Rua de Saiago e pela Eigreija.

    Perguntar-se-á: por que motivo, podendo, à data da construção do prolongamento da EM 545, entre Angueira e as Três Marras, antever os inconvenientes da passagem do trân­sito pela povoação, decorrentes do percurso que viria a ser adotado, não aler­tou para os mesmos?

    A resposta é simples: na época, os habitan­tes de An­gueira sabiam que esse prolonga­mento da estrada melho­rava o acesso a muitas das suas propriedades; o percurso alternativo desviaria o trân­sito do centro da aldeia, o que, então, era visto como sendo uma desvaloriza­ção da mesma.

    Há quem considere conveniente não revelar todas as implica­ções de­correntes de uma solução que, eventualmente, possa vir a ser adotada. Não sendo esse o caso, desde já se clarifica que a construção de cerca de duzentos me­tros de um novo troço de via, entre San Sebastian e a Cabada, é uma solu­ção transitó­ria, mas, atual­mente, a possível, dada a aparente falta de ne­cessidade e devido aos eleva­dos custos que outra comportaria: a construção de uma nova ponte sobre a ribeira, entre a atual ponte da Se­nhora e o poço do Canhiço, que, mais diretamente, permita ligar San Sebas­tian a Cabeço l Curbo, e um novo troço de via que, acompanhando, pela ver­tente nascente deste, a represa, a cons­truir no ribeiro da Caba­nhona, de forma a que se possa, a partir de Angueira, aceder mais facilmente à EM 546, na zona do Rama­lhal, e resolver, assim, o problema do acesso no inverno – provocado pelo gelo ou pela neve – pela Cuosta. Nesta hipótese, a parte nordeste do Ramalhal passaria a dis­por de condi­ções propí­cias – me­nor relevo e profundidade, melhor exposição solar e ainda melhores acessos – e mais favorá­veis à poste­rior instalação de uma nova zona balnear em An­gueira, susceptível de atrair veranean­tes de outras localidades do concelho de Vimi­oso e dos conce­lhos vizinhos, bem ainda de Alcanices e que, assim, poderão vir a, tempo­raria­mente, ocu­par casas que venham a ser recuperadas em Angueira.

    6.5- Dar préstimo ao antigo edifício da escola

    Vários anos após o incêndio que deflagrou na antiga escola, a Câmara Municipal de Vimioso procedeu à recupera­ção do edifício, que foi construído pelo povo nos anos 30 do século XX. No entanto, não quis, ou não soube, dar-lhe uma função útil. Assim, as duas grandes salas que o compõem encontram-se vazias e sem qualquer prés­timo.

    Como as suas instalações reúnem as condições necessá­rias para o efeito, a antiga escola pode ser convertida num centro de dia, com ocupação e serviço de almoço para pessoas da terceira idade. Evi­tar-se-ia, assim, que os ido­sos ainda não incapacita­dos tenham que, prematura­mente, ser interna­dos em lares, ficando afasta­dos e sem os cuidados da família e deixando a aldeia ainda mais despovo­ada.

    6.6- Plantar árvores de sombra na povoação e em alguns sítios do termo

    Antes do grave acidente ocorrido, há já muitos anos, na central nuclear de Tchernobyl, ha­via olmos de grande porte na povoação e em vários sítios do termo de Angueira que, no mesmo ano, seca­ram: na povoação, havia-os no Balhe, no Ronso, no largo onde era a fonte da Eigreija, no Cachon, na Çanca e na Salina; no termo, havia-os na Yedra, na Re­tuorta, na Cabada, na Açuda de las Almas, nos Puntones, nas Ulmedas e nas Antrau­gas.

    Os olmos eram árvores de grande porte – o caule dos maiores chegava a atingir mais de um metro de diâmetro –, de altura idêntica, senão maior, ao dos maiores choupos. Era no topo daqueles que as cegonhas faziam os seus ninhos. A exemplo do que aconteceu em todo o Nordeste Transmontano e, inclusive, também em França – pelo menos em Sainte Eulalie de Cernon, departamento do Aveyron, na Occitanie –, só vários anos após aquele acidente é que os olmos voltaram a rebentar e as cegonhas regressaram. Mesmo assim, ao atingirem cerca de uma dúzia de centímetros de caule, os olmos acabam por secar.

    A arborização, então existente na povoação, ajudava a suportar os rigores do clima, especial­mente o intenso calor de verão. Com o desaparecimento dos ol­mos, hoje pou­cas são as árvores que restam e que, com a sombra, ajudem a ameni­zar as ele­vadas temperaturas que se fazem sentir na mesma estação.

    Será, pois, da maior conveniência proceder à replantação de árvores de sombra, quanto possível de espécies autóctones, pelo me­nos nos seguintes sítios da povoação: Lhargo de Saiago, Sagrado, Cachon, Çanca, Sa­lina, Balhe, Beiga de l Casal e Canhada.

    6.7– Disponibilizar aos moradores e visitantes acesso livre à Internet

    Duas das três operadoras de telemóveis – Nós e Vodafone – têm fraco ou nenhum sinal em Angueira. Atualmente, porque só a MEO dispõe de uma força de sinal aceitá­vel, muitos moradores e, sobretudo, os visitantes não têm acesso nem con­tacto fá­ceis com o exterior, o que os impede de aceder ao que se passa no mundo.

    Como já acontece em outros sítios do país – por exemplo, no conce­lho de Esposende –, seria vantajosa para toda a gente a disponibili­zação do acesso fácil, livre e rápido à In­ternet na povoação.

    Para além disso, há também que pressio­nar as operadoras de telemóveis no sentido de porem à disposi­ção da gente de Angueira a rede 4G. Desta forma, qualquer mora­dor ou visi­tante poderá a ela aceder mais facilmente. Assim, fica resolvido, pelo me­nos em parte, o problema da difi­culdade de acesso pelas redes de telemóvel.

    6.8- Fazer uma conduta subterrânea destinada à passagem de linhas e cabos e substituir os postes telefónicos e elétricos existentes na povoação 

    Quando, no final dos anos 50 e 60 do século passado, foram instala­dos os postes, as linhas telefónicos e os cabos elétricos, as pessoas, que ansiavam por passar a dispor de te­lefone e de eletricidade o mais rápido possível, sem ficarem a aguardar mais tempo à es­pera deles, nem se deram conta do mal que ali ficavam. Depois, acaba­riam por se acostu­mar a vê-los ali. Mas, quem vai de fora logo se dá conta de quão inestéticos são e mal ficam uns postes tão feios e tantos fios a cruzar-se e a atraves­sar de um lado para o outro da rua, uma das coisas que, esteticamente, mais preju­dica a beleza das nossas povoações. E Angueira não escapa a isso.

    Para resolver o problema, há que sensibilizar os moradores e convencer a Câmara Municipal de Vimioso a fazer uma conduta subterrânea em todas as ruas da povoa­ção, come­çando pelas mais importantes, e a aprovar um regulamento próprio. De­pois, há ainda que sensibili­zar e convencer as concessionárias – a PT e a EDP – a mu­dar e fa­zer pas­sar as respetivas linhas ou cabos por tal conduta. Passando o forneci­mento de eletricidade e do serviço telefónico e, eventualmente, de internet e de televi­são por cabo, a ser feito por esta conduta, para além de se reduzir o risco de avarias e melhorar tais serviços, acaba-se com a inestética e densa amálgama aérea de fios e ca­bos atualmente visíveis entre os pos­tes elétri­cos e telefónicos e as habita­ções.

    6.9- Fazer uma conduta para drenagem das águas pluviais na povoação

    Quando, há muitos anos atrás, a Câmara Municipal de Vimioso instalou a rede de saneamento básico em Angueira, não providenciou a instalação de uma conduta pró­pria destinada à recolha e drenagem das águas pluviais, que permita evitar que, nos dias mais chuvosos e em que haja enxurradas, sobretudo de outono, inverno e prima­vera, a água da chuva es­corra pelas ruas e nestas se forme gelo.

    Assim, ao tratar de instalar a conduta subterrânea para passagem de cabos telefóni­cos e elétricos, é de aproveitar para, paralelamente, instalar também outra conduta destinada à recolha e canalização das águas pluviais para o ribeiro do Balhe.

    6.10- Reconstruir algumas das habitações que estão em ruína e risco de se perder

    Algumas casas de Angueira, atualmente em ruína, mas que, pela sua localização ou pela importância que tiveram na vida das pessoas e na cultura da aldeia, sendo, a vários títulos, memoráveis, merecem ser reconstruídas: a casa do senhor Cor­reia e da dona Laura, na Rua do Cachão; a casa da dona Palmiri­nha, pouco abaixo da capela de Sante Cristo, na Rua da Salina; e a casa do Padre Lino, perto do Ronso, também esta recentemente demolida por ameaçar ru­ína e falta de entendi­mento entre os respetivos herdeiros.

    Na sequência do incêndio que, há já vários anos, consumiu a casa do sr. Correia e da dona Laura, a Câmara Municipal de Vimioso procedeu à demolição total do interior e par­cial das paredes exteriores da mesma. Já neste verão, como se pode constatar por fotogra­fias publicadas nas redes sociais, a pretexto de alargar a Rua do Cachão, demoliu-se a garagem e o que restava das paredes exteriores da casa viradas a po­ente e a sul. Em relação a uma e a outra destas opções, expresso as minhas reservas. É que, a meu ver, em vez de demolir as paredes, a Câmara Munici­pal deveria ter op­tado por protegê-las de forma a evitar a infiltração de água da chuva. Assim, para além de ganhar tempo até que, eventualmente, aparecesse al­guém interessado em reconstruir a casa ou a Câmara dispor de fundos suficientes para o fazer, não se inviabili­zaria a futura reconstrução de uma casa, a vários títulos, memorável, de An­gueira. Foi nela que as pessoas de várias gerações viram, pela primeira vez na vida, a projeção de um filme; foi a primeira casa de Angueira com luz elétrica, produzida por um gerador, décadas ainda antes de chegar à aldeia a eletrici­dade; foi nela que muitos alunos da dona Laura – especialmente os que se preparavam para o exame de admissão ao liceu, mas não só – continuavam o estudo após, diaria­mente, haverem cumprido o horário escolar habitual; e, sobretudo, esta casa tinha um largo pátio interior, circular e com vários degraus, que, salvaguardadas as devidas propor­ções, fazia lembrar um tea­tro grego clássico, bem como um grande alpendre co­berto, também interior, a rodear o pátio e que dava acesso aos cómodos da casa, e ainda um lindo, amplo e vistoso solário, virado a sul, todos fabulosos. Trata-se de uma casa que, mais que um foco, foi mesmo um farol de civilização em relação a An­gueira. Lamenta-se, pois, o que se fez a esta que era uma das casas mais memoráveis de An­gueira. Espera-se que esta última demolição não comprometa definitivamente, tor­nando-se irreversível, a possibilidade de eventual reconstrução de uma casa com tantas memórias dignas de registo.

    Porque as casas não são apenas pedras e o “progresso” não se traduz em arrasar tudo o que é velho e passado e parte da memória e da cultura de um povo, defender o patrimó­nio arquitectónico é preservar também muito do que dignamente representa os que nos antecederam e está associado à memória dos mesmos por parte da respetiva descendência e de quantos, hoje, residem em Angueira ou a ela se sentem afetivamente liga­dos.

    Assim, a Junta de Freguesia e a Câmara Municipal, deverão contactar os herdeiros des­tas casas no sentido de os auscultar, motivar e apoiar na respetiva reconstrução. Se, de todo em todo, tal se revelar inviável, deverão, então e como se preconiza para o caso dos moinhos e respetivas casas do moleiro, ser estudadas e aplicadas outras soluções tendentes a evitar a perda definitiva deste património.

    6.11- Assegurar ou concessionar um circuito de transportes públicos no concelho

    Uma população residente envelhecida e a care­cer cada vez mais de assistência mé­dica tem de se deslocar mais frequentemente ao Centro de Saúde, ao médico e à farmácia e ainda, como qualquer cidadão, a outros serviços públicos. As contingên­cias próprias do transporte escolar não permitem responder adequadamente às necessi­dades destas pessoas. Se não dispuserem de automóvel próprio e de carta de condução, atual­mente, só o poderão fazer a expensas próprias e recor­rendo ao ser­viço de táxi ou, aleatoriamente, a boleias. Ora, tratando-se de pessoas, geralmente com baixas refor­mas e fracos recur­sos, é-lhes incomportá­vel suportar os elevados custos de tais deslocações.

    Assim, torna-se imprescindível disponibilizar ou concessio­nar uma rede de minibus que, diariamente, assegu­re à população resi­dente nas aldeias a possibilidade de se deslocar à sede do conce­lho.

    6.12- Delimitar uma área de proteção dos castros da Quecolha e do Castro

    Para além da capela de S. Miguel, existem no termo de Angueira dois exemplares memoráveis e ainda mais antigos que testemunham a riqueza do seu património: o castro da Quecolha e o castro do Castro. Sobretudo nas imediações do pri­meiro, a lavra das terras fez emergir alguns vestígios que, hoje, ornamen­tam o espaço entre a sede da Junta e da Associação e a fonte do Pilo. No entanto, é bem provável que outras peças aí encontradas tenham tido, eventualmente, outro destino.

    Parece necessário afastar semelhante risco. Assim, importa delimitar uma área de proteção a cada um dos dois castros existentes no termo de Angueira e expropriar as terras à volta dos mes­mos de forma a salvaguardar as ruínas e a evitar que sejam destruídas e possam tornar-se irrecuperáveis.

    6.13- Melhorar as vias pedonais existentes ao longo das margens da ribeira

    Quando da construção das barragens de Bemposta, Picote e Miranda do Douro, era habitual aos sábados e domingos de verão muitos barragistas, acompanhados de suas famílias, passarem o dia a Angueira e usufruírem, assim, da frescura própria das margens da ribeira, tomar banho, pescar e “caçar” lagostins.

    Ainda hoje, a ribeira de Angueira apresenta um conjunto de atrativos turísticos – o arvoredo, o sistema de açudes, calendras e moi­nhos, as casas do moleiro, as hortas, as variedades de fauna e flora e a fres­cura que, nas suas margens, se sente no verão – condições favoráveis que a tornam um ponto aprazí­vel para a realização de piqueniques, passeios a pé, de bicicleta, a cavalo ou de burro e outras atividades de lazer. Melho­rando as vias que acompanham a ribeira, aproveitar-se-ia bem melhor todo esse grande potencial que a mesma apresenta.

    Trata-se de fazer com que, para além dos visitantes, também os residen­tes possam delas desfrutar e por elas circular com maior facilidade, rapi­dez, comodi­dade e segu­rança e possam ainda ser aproveitadas pelos agricultores para se desloca­rem para as suas hortas.

    6.14- Sinalizar sítios e percursos, percursos, corriças e fontes existentes no termo

    Por entre a aridez da paisagem, há em vários sí­tios e espalhadas pelo termo de Angueira uma nas­cente ou fonte, ge­ralmente seguida de uma augueira que, com maior ou menor fio de água, interrompe aquela secura. Será de toda a conveniên­cia em assinalá-las nos percursos do termo de forma a que eventuais pedestrianos se possam orientar, saber a localiza­ção exata em que se encontram e, em caso de necessidade, refres­car-se e abastecer-se de água.

    6.15- Sensibilizar o alcalde de Alcanices para a necessidade de melhorar a via rodoviária entre a fronteira das Três Marras e a dita localidade e o acesso à E-82

    Aprofundar contactos com o alcalde do ayuntamiento de Alcanices no sentido de o sensibilizar para a necessidade de melhorar a carretera de Portugal das Três Mar­ras, via de ligação entre a raia e a E-82 nesta vila espanhola. Tal melhoria, com corre­ção de percurso e alargamento da via, deveria ainda contemplar um novo ponto de liga­ção entre es­tas vias, entre a carre­tera de San Bitero e a carretera de Arcocilho, mais a poente do atual entroncamento, localizado junto ao posto da Guardia Civil.

    6.16- Encontrar solução para cultivo de latas e terras de regadio e aproveita­mento dos lameiros

    Devido à orografia e aos cursos de água existentes no termo, Angueira dispõe, nas margens da ribeira e dos ribeiros, de muitas latas ou hortas: Chapaçals, San Mi­guel, Ribeira de Baixo, Nalsa, Souganho, Antraugas, Te­lhado, Ulme­das, Faceira, Areal, Fa­ceira de l Prado, Mediana, Salina, Cachon, Balhe, Çanca, Múrio, Cabada, Tanque, Ourri­eta Caliente, Yedra, Ter­roso e ainda as de Bal de Conde, Puntelhina, Retuorta e Caba­nhona. Sendo terras de aluvião e rega­dio, de muito boa qualidade e grande poten­cial para a pro­dução de hortícolas, estas latas da­vam, em regra, duas produ­ções anuais.

    Até aos anos 80 do século passado e não obstante a emigração, eram muito raras as ter­ras de Angueira, mesmo as de se­queiro, que ficavam de adil. A maior parte de­las, sem fa­lar das latas e outras terras de regadio, ou eram de cultivo ou lameiros para pasto dos ani­mais.

    Com o abandono da agricultura, subsequente à entrada de Portugal na CEE, as ter­ras de sequeiro foram as que, primeiro, deixaram de ser cul­tivadas, ficando de floresta ou de monte. Poucos anos mais tarde, passou-se o mesmo com as baixas e as corti­nhas mais frescas, de regadio, de al­guns vales. Mais recente­mente, nas margens da ribeira e dos ribeiros, são já muitas as latas por cultivar e até al­guns lameiros que não são lim­pos, nem guardados. Apesar de ficarem per­to da povoação, algumas latas da Fa­ceira, da Mediana e da Salina encontram-se já, hoje, sem cultivo. Tratando-se de terras de aluvião, irrigáveis e muito férteis, é escandaloso, quase até crimi­noso, encontra­rem-se nesse estado. É que, como se sabe, em Por­tugal não são mui­tas as ter­ras de tão boa qualidade e aptidão agrícola. Seria essa uma das razões pelas quais, nos séculos XIII e XIV, o abade do mosteiro de Moreru­ela – dono de terras do termo de Angueira – as concedia a quem as pudesse cultivar. Assim, se, ainda não há muito tempo, estas latas da­vam duas produções anuais, agora, muitas delas não dão sequer uma.

    Claro que se pode continuar à espera de que os eventuais mecanismos da usurpação e/ou os que são pró­prios da concentração capitalista se encarreguem de resolver os problemas decorren­tes do tipo de propriedade existente… Havendo, porém, que incentivar o cultivo, ao me­nos, das la­tas e o aproveitamento dos lameiros, propõe-se que, para o efeito e recusando aqueles mecanismos, come­çando pelas latas das Ulme­das, da Fa­ceira, da Mediana, da Salina, do Cachon e da Çanca, todas elas com possibili­dade de rega pelo canal da irrigação, se faça, antes de mais, o seguinte:

    i) Solicitar apoio ao Ministério da Agricultura para medir, calcular áreas, fazer as plan­tas da localiza­ção exata das latas e o levanta­mento dos respetivos proprietá­rios;

    ii) Auscultar os proprietários no sentido de sa­ber se estarão dispostos a ceder, por arrendamento, as suas latas para cultivo por possíveis inte­ressados;

    iii) Estabelecer o preço da renda a pagar aos seus proprietários, variá­vel em função da respetiva área e tendo como referencial uma percentagem do va­lor anual do subsí­dio atribuído pela UE a terras de cultivo;

    iv) Estabelecer a duração do contrato de arrenda­mento (10 anos?) e o valor da indemni­zação ao arrendatário pelo tempo que fal­tar para cumprir a duração do con­trato.

    Assegurar ainda aos proprietários que não perdem o direito às suas terras e só as cederão para arrendamento se o desejarem; que, caso as ce­dam, poderão, se o quiserem, denun­ciar e resolver o contrato de arrendamento.

    O que se propõe fazer em relação àquelas latas, poderá ser, posteriormente, alar­gado às restan­tes: Chapaçals, San Miguel, Prado, Ribeira de Baixo, Nalsa, Souganho, Telhado, Antrau­gas, Faceira de l Prado, Balhe, Francosa, Múrio, Cabada, Ourrieta Caliente, Ye­dra e Terroso.

    Finalmente, poder-se-á ainda proceder de idêntica forma em relação aos lameiros e às terras de se­queiro mais férteis existentes no termo de Angueira.

    Braga, 3 julho de 2017

    António Preto Torrão

    Se quiser visualizar algumas fotos aéreas de Angueira, sugiro a consulta do blogue

    http://portugalfotografiaaerea.blogspot.pt/2017/01/angueira.html

    Caso queira saber a localização de alguns sítios do termo de Angueira, carregue no “link”:

    www.openstreetmap.org/searchquery=Angueira%2C%20vimioso%2C%20portugal#map=12/

    Se quiser ficar a saber um pouco mais sobre Angueira, pode ir até lá e/ou pedir a adesão a “Angueira Atalaia”, grupo do FaceBook:

    https://www.facebook.com/groups/1750219901696026/

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  • Pagar l Bino. La Tradiçon Inda Será l Qu’Era?

    abril 9th, 2017

    Nota Prévia: uma prevenção

    Se o/a leitor/a não está familiarizado/a com a Língua Mirandesa, sugiro que, para facilitar a compreensão do texto, o leia a meia-voz. Se, mesmo assim, sentir qualquer dificuldade em compreender o sentido ou descobrir o significado de alguma palavra menos usual ou cuja grafia se afasta mais da portuguesa, não hesite em consultar o Vocabulário que pode encontrar no final do mesmo.

    Breves notas sobre a grafia do Mirandês

    Em Mirandês, não se pronuncia o som v, que é substituído pelo da letra b; usualmente, o prefixo des é substituído, consoante os casos, por ç ou z no início da palavra; para não se confundir com a contração da preposição a com o artigo definido o, que, em Mirandês, se escreve e lê al, o artigo definido o escreve-se l, mas lê-se também al; salvo raras exceções, os ditongos nasais ão e õe escrevem-se an e on; o m final das palavras portuguesas é, no Mirandês, substituído pela letra n; geralmente, o l inicial das palavras é substituído pelo dígrafo lh; já o dígrafo ch, em Mirandês, lê-se sempre tch; talvez por, inicialmente, ser apenas uma língua falada, o Mirandês tende a contrair os pronomes, artigos, preposições e as conjunções com as palavras seguintes, quando estas são iniciadas por vogal.

    Agradecimiento

    Cumpletou-se un anho subre la purmeira publicaçon d’algũas lhembráncias de la mie anfáncia que fiç ne l miu blogue. Torno, agora, a screbir subre outras lhembráncias qu’inda guardo de cousas que, ne ls anhos cinquenta i sessenta de l seclo passado, era you garotico, se passában na poboaçon adonde fui criado i bibi anté als dieç anhos. Steia onde stubir, deficelmente poderei squecer Angueira.

    Tengo q’agradecer a las pessonas que me cuontórun ou me lhembrórun dalgũas cousas que you nun sabie ou de que yá staba squecido: a Zé Luís Ché; a miu primo Chico, filho de miu tiu Eimílio Quintanilha; a Marie Rosa Rucica; a miu armano Eimílio i a sou filho i miu sobrino Carlos, a quien agradeço tamien por me tener outorizado a publicar un de ls retratos tirado po el.

    Las cousas qu’eiqui tengo screbido i me propongo cuntinar a screbir ténen la marca dun tiempo bien çfrente de l que agora bibimos. Morában, anton, an Angueira, quaije sietecientas pessonas, muitas deilhas moças i rapazes, la mocidade d’anton. Para berdes cumo demudou, bonda dezir qu’éramos tantos ls garoticos q’anton andábamos a la scola que anchiemos dues salas. Pus, hoije, nin sequiera um hai i la scola fui ancerrada bai yá un ror d’anhos. De la mocidade daquel tiempo réstran, agora, uns poucos de bielhos i, hoije an die, Angueira yá nin nobenta pessonas tenerá.

    Por bias de la eimigraçon pa l Brasil i outros países de l’América, purmeiro; pa la Fráncia, Almánia, Spanha i outros países de l’Ouropa, apuis; i, mais recentemente, tamien debido a la migraçon pa bárias cidades de Pertual. Tal cumo outras poboaçones de la Tierra de Miranda, de l Nordeste Stramontano i de l restro de Pertual, Angueira fui perdendo, assi, la maior parte de la gente nuoba. Restrando quaije solo bielhos, siempre q’alhá torno, ye un delor d’alma ber que, cumprindo l çtino, i cumo un die – spero que steia inda bien loinje – tamien mos há de tocar a nós, zafertunadamente, fáltan mais algũas pessonas ne l pobo que, cun muita pena mie, yá mos deixórun para siempre.

    Mas deixemos-mos de cousas tristes, que, cumo se questuma dezir, tristezas nun págan díbedas i tamien augas passadas nun fázen moler molinos.

    Preacupa-me q’l que scribo i publico seia ũa amostra fiel de la maneira cumo, dantes, éran i se passában las cousas. Cumo tod’mundo sabe, las tradiçones son l que son i ténen un peso einorme. Mas, lhembrá-las i dá-las a coincer nun quier dezir que se steia anteiramente d’acordo cun todas eilhas.

    La fuonte de l Pilo

    Oumenos anté als anhos setenta de l seclo passado, habie alguns sítios de l termo, mas, arriba de todo, na poboaçon, qu’éran ls que mais agradában a la rapaziada d’Angueira: ls poços de la Cabada i de ls Puntones, adonde, ne ls dies de maior calma de l berano, ls moços i ls garotos íban a dar uns margulhos i a chafurgar na ribeira pa se refrescáren. Yá las moças solo s’atrebien a nadar a la nuite i ne l poço de l Canhiço. Pa lhá destes, éran trés ls sítios, todos ne l meio de la poboaçon, que la mocidade apreciaba inda mais: la fuonte de l Pilo, adonde manaba tanta auga que nunca secaba; un cachico arriba desta fuonte, l Ronso, un de ls lhargos adonde la mocidade questumaba fazer la maior parte de ls beilaricos; inda mais arriba, cerca de la capielha ne l meio de l Lhargo de Sante Cristo i por baixo de la frauga de l tiu Ferreiro i de la casa de l tiu Aran, l paredon q’apartaba la rue i ls huortos de riba de l Pilo. Era eiqui que, antre l final de primabera i l ampercípio d’outonho, a la tardica, s’ajuntaba la rapaziada pa cumbersar i se debertir.

    L Ronso, l largo adonde era la casa i la taberna de l tiu Cereijas i de la tie Mar’Inácia Fresca, ye ũa ancruzelhada adonde ban a dar bárias rues d’Angueira: la que, de la Eigreija dá pa las Eiras Grandes; las que, de San Sabastian i de l Lhargo de Saiago, apuis de s’ajuntáren junto a la casa i a la frauga de tiu Crespo, dan pa Sante Cristo i, apuis, pa l Cimo de l Pobo, pa la Mediana, pa la Salina i pa l Cachon; ye tamien al Ronso que ban a dar las Scaleiricas.

    Ambora fusse ne l Ronso, que, nas tardes de deimingo, la mocidade fazie la maior parte de ls beilaricos i, ne l ampercípio d’outonho, las troulas de las fiestas, ũa beç ou outra, fazien-les tamien ne l Lhargo de Saiago, ne l fondo de l Cachon, ne l Lhargo de Sante Cristo i anté mesmo ne l Cimo de l Pobo, cerca de la casa de la Scola. Ne l arraial de las fiestas, ls moços i las moças d’Angueira i ls qu’íban d’Abelhanoso, de Caçareilhos, de la Bila i d’outros pobos al redor da-peto pa la troula, anchien por cumpleto qualquiera lhargo de la poboaçon.

    A quien nun sabe ou yá se squeciu, lhembro que, nesse tiempo, d’eimbierno, las rues i ls lhargos éran un lhodaçal pus inda nun stában calcetados[1]. Bá lá que las fiestas cun troula éran ne l ampercípio de l outonho. Se nun chubisse, mesmo ne ls dies mais frius de l anho, ls outros bailos fazien-se al aire lhibre. Mas, cumo l lhodo nun daba jeito pa se beilar i pa quedar cula roupa toda molhada ne l cuorpo, bondada la que s’apanhaba a trabalhar, quando chubie, ls moços, se querien beilarico, tenien, anton, q’amanhar un salon pa podéren dar al pie.

    Dantes, ne l Ronso[2], puls lhados de riba i de baixo de la sanja qu’eilhi habie, passaba l ribeiro de l Balhe a cielo abierto, pus inda nun tenie sido ancanhado nin feita la sede de la Associaçon i de la Junta. Al fondo de la sanja, adonde ye agora la parte de riba de l salon de la Associaçon, habie ũa puontica de piedra piçarra por donde las pessonas passában, a pie anxuto, dũa pa l’outra marge de l ribeiro de l Balhe. Ye este ribeiro que, zde l fondo de la Francosa, passando pul Balhe, pul Pilo, pul Cachon, anté la Çanca, aparta ls dous bairros d’Angueira: na marge dreita, l de Sante Cristo i, na marge squierda, l de Saiago.

    Na marge dreita, dantes, antre l ribeiro de l Balhe i la rue que, de l Ronso, passando pul fundo de las Scaleiricas i pula casa de l tiu Rucico, la frauga de l tiu Ferreiro i la casa de l tiu Aran, dá pa l Lhargo de Sante Cristo, çcaindo pa la fuonte i pa l chafariç de l Pilo, habie quatro barrancas, cada qual cun sue calçada ou paredon, ou seia, dues fileiras d’huortos apartadas por outra rue. Znibeladas ũas de las outras, las barrancas formában ũa spece de quatro socalcos. Antre la calçada de la rue de riba i l paredon q’ls cercaba pula parte de baixo i de cerca de l fondo de las Scaleiricas anté la caleija q’ls apartaba de la casa de l tiu Sora, éran ls huortos de riba de l Pilo [3]; l paredon de baixo destes huortos formaba outra calçada subre outra rue i, antre la calçada de baixo desta rue i l ribeiro, habie inda outra fileira, la de ls huortos de baixo de l Pilo [4]; la rue q’apartaba las dues fileiras d’huortos ye la que, de l Ronso, passando pul lhado de baixo de las casas de l tiu Sora, de l tiu Luís Quintanilha, de l tiu Abaristico i de l tiu Massemino i pula parte de riba de las de l tiu Canhotico, de l tiu Manuel Júlio, de l tiu Rifeiro i de la dona Laura, dá pa las de l tiu Armandico i de l tiu Joan Capador, yá na rue de l Cachon.

    Casas de l tiu Arán i de l tiu Ferreiro bistas de l Pilo

    La casa de l tiu Aran (de branco i a la squierda), la frauga i la casa de l tiu Ferreiro (de piedra piçarra, a la dreita) bistas de la fuonte de l Pilo. Hai pouco tiempo, l eidefício de la frauga i de la casa de l tiu Ferreiro fúrun recuperadas por miu armano Eimílio.

    Antre la calçada de l fondo de ls huortos de baixo i la rue que, pul lhado de Saiago, de l Ronso dá pa la Eigreija, apertado antre las paredes de l fondo de ls huortos i de las huortas de l Pilo, estes na marge dreita i aqueilhas na marge squierda, cuorre l ribeiro de l Balhe. Ne l lhado de Saiago, antre la puontica de piedra, un cachico abaixo de la sanja de l Ronso, i la fuonte de l Pilo, habie dantes bários uolmos mi altos. A seguir a la fuonte i al chafariç, antre l ribeiro i la rue que, de l Ronso, passando pul lhado de riba de la fuonte, de l chafariç i de las huortas, bai anté la Eigreija, son las huortas de l Pilo. Cerca de la fuonte i de l chafariç de l Pilo i na mesma rue, habie outra calçada mi alta, adonde, dantes, era l pomar de las armanas Marreiras – la dona Laura i la dona Adelaide –, i, uns anhos apuis, Manuel Perdigon i Alice de l tiu Manuel Júlio habien de custruir la sue casa de bibir.

    Angueira-Huortas de l PiloRue que, de l'Eigreija, passando pul chafariç i la fuonte de l Pilo, dá pa l Ronso. A la squierda de la rue, béien-se las huortas de l Pilo

    Era ne l paredon de la calçada antre la rue que dá pa Sante Cristo i ls huortos de riba de l Pilo que, al abaixáren de Saiago pa l Ronso, las porcissones de las fiestas de San Lucas i de Nuossa Senhora de l Resairo, l coto de la Bila i la rapaziada – qual era l moço que, nesse tiempo, nun gostaba de fazer las bezes de fogueteiro?! – botában las maiores çcargas de foguetes. Aton, la garotada, lhargando las manos i scapando-se a las mais, salie de la porcisson p’apanhar las canhas que caíen subre l Pilo. Lhembra-me bien de Manuel Turiel apanhar un ror deilhas. Mas, mie mai, agarrando-me bien pula mano, nun me deixaba ir a apanhá-las.

    Mas, deixemos-mos de porcissones que nin solo de relegion bibe l’home – nin la mulhier, claro stá! – i, inda menos, las moças i ls moços.

     

    Namoriscar na fuonte

     

    Naquel tiempo, éran estes ls sítios d’antretenimento de la rapaziada. I rezones pa l gusto de ls moços por estes sítios i, arriba de todo, pul paredon porriba de ls huortos de riba de l Pilo, nun le faltában. Sendo mais alto, abista-se i bei-se deilhi todo quanto se passa al redor i ne ls outros dous sítios, que, quedando cerca de l ribeiro de l Balhe, son mais baixos: la fuonte de l Pilo i l Ronso. Mesmo na poboaçon habie quatro fuontes, mas la de l Pilo, cul chafariç i l lhabadeiro, era la mais amportante[5]. Era a esta fuonte que, a la tardica, las moças íban anchir ls cántaros d’auga i, cumo tal, era neilha que qualquiera rapaç speraba pula sue moça. Aporbeitában, assi, pa se béren, trocáren ũas palabricas i, cumoquiera, inda para, pul lhusque-fusque, çfraçadamente, se fazéren ũas fiesticas. Cumo la lhuç eilétrica inda demorarie uns anhos a chegar a Angueira, quien sabe se, a las scundidas, nun se darien anté mesmo uns beisicos!

    Era tamien neste sítio que, a la tardica, antre l final de primabera i l ampercípio de l’outonho, la rapaziada questumaba ajuntar-se pa cumbersar i se debertir un cachico. Pa lhá de ser antre la taberna de l tiu Morais i la tie Bexela i la de l tiu Cereijas i la tie Mar’Inácia Fresca, dues de las trés ou quatro q’anton habie an Angueira[6], era inda un eicelente, cumoquiera mesmo l melhor, punto de ousserbaçon. Deilhi, podien ber todo l que se passaba a la buolta: de l Lhargo de Sante Cristo al Ronso, a Saiago i anté la Eigreija; quien abaixaba ou chubie pu las Scaleiricas; quien benie de l lhado de riba, de l Balhe i de las Eiras Grandes, ou de l lhado de baixo, de l Cachon. Mas, arriba de todo, era deilhi q’ls rapazes podien spreitar i ber melhor las moças qu’íban a la fuonte anchir un ou dous cántaros d’auga para casa.

    Fuonte de l PiloFuonte de l Pilo. Anté als anhos setenta de l seclo passado inda nun habie sido custruída la sede de la Junta i de la Associaçon.

    Stá bien de ber que qualquiera moça tenie que tener l maior cuidado. Ye que poderie star, pori, a bé-los ou a spreitá-los algũa tie para, apuis, ir a dezir a la mai de la moça l que biu ou qu’eimaginou ber.

    – Á Ana, nun quiero star a antrometer-me na tue bida! Bien sabes que nun sou dessas chaldriqueiras que só stan bien a falar mal de ls outros. Mas, se fusse a ti, andaba d’uolho na tue Sabel! Oulha qu’inda onte, a la tardica, eilha i un moço stában bien animadicos arrimados a la fuonte!

    Angurriando la tiesta, pergunta-le la mai de la moça:

    – Mas tu tenerás bido bien, Marie? Nun starás, pori, cunfundida?! Bei alhá tu qu’inda un die destes ũa dessas lhénguas de farrapos me dixo que la tue Rosica ye daqueilhas que, chegando a las Scaleiricas, questuma arramar l’auga de l cántaro solo pa tornar a la founte!

    – Isso son cousas de quien mos quier mal a mi i a eilha. Quien diç essas cousas só quier ber se la defama!

    – Oulha que tamien me dixo que la tue Rosica anda metida cun moço i que les bírun scundidos atrás dun uolmo, bien junticos i el a ampalpar! I inda acrecentou: “I oulha que nun era l cántaro!” Claro que you nun acreditei. Se te stou a falar nisto, ye solo para beres cumo son algũas pessonas…

    – Isso só puode ser cousa dũa mala lhéngua! Pus, cumo toda la gente sabe, pula mie Rosica, puodo poner las manos ne l lhume!

    – Tamien you tengo la certeza que la mie Sabel ye ũa moça dreita! I ai deilha que nun fusse!… Cumo bien sabes, you gusto de las cousas mui dreitas!

    – Oulha que tenes cada ũa, Ana! I qual de nós ye que nun gusta?!… Yá biste, pori, algũa tie que nun gustasse de las cousas assi cumo tu dizes?!

    – Claro que nó, Marie! Pus mal serie q’assi nun fusse!…

    – Al cuntrairo de muitas outras q’ándan por ende, a mi bonda-me la mie! Bei mas ye alhá se t’aporcatas cula tue Sabel. Oulha que, deilha, naide me cuontou, fui you que bi!…

    – Mas l que fizo, anton, la mie garota?! Tu bien sabes ls cunseilhos que le dou pa que nun se fie nin se deixe lhebar na cumbersa de niun rapaç! Só se fui por ber las outras qu’eilha fizo isso!…

    – Oulha, tu ye que sabes! Mas bei s’eilha toma juízo! A ber s’un die destes nun te chega, pori, cul caldo antornado a casa!…

    – Ui, buona jeira! Nin me digas ũa cousa dessas!… Que, se l miu Zé çcunfia ou algũa pessona le sopra algo al oubido, ye bien capaç de le dar ũa túndia!

    Claro que, nesse tiempo, ningũa mai daba muita lhiberdade a las filhas. Anton, s’algũa nun fusse de subreciente cunfiança, la mai, arriba de todo se stando yá squermentada, çcunfiasse qu’eilha serie bien capaç de, nun sfregante, armar algũa, nin cairie n’asneira de la mandar solica a la fuonte. Ye q’habie algũas moças – i nun éran poucas – tan galdrapas que, se les daba na belharaça, arramában l’auga de l cántaro nas Scaleiricas só pa tornáren outra beç a la fuonte!

    Mas, s’algũa moça se demoraba un cachico a mais na fuonte, anton, la mai era bien capaç de se botar anté lhá pa l’apressar un cachico mais:

    – Nun sei que cuntas tu botas a la bida, Sabel! Q’andas tu a fazer pa te demorares tanto tiempo na fuonte? I oulha lhougo an que sítio! Debe ser pa que toda la gente te beia! Quantas bezes te dixe pa nun dares cunfiança als rapazes?! Mas nun tomas eimenda! Nun bés las bergonhas que me fazes passar?! Ai se tou pai sabe!…

    – Mas que mal fiç you, mai? Yá nun se puode falar c’un rapaç? Quereis, pori, que bá para freira?!

    – Calha-te alhá, tontica! Quien t’oubir cuidará que me quieres cumbencir que stabas a rezar a algun santo! Oulha que nun ye a niun desses que quiero que te pongas a rezar! Inda sós mui nuoba pa pensares nessas cousas! Aton tu nun sabes cumo son ls rapazes?! Ye que nun hai modo de qualquiera un se cuntentar! Se le dás un dedo, pega-te na mano; se le dás la mano, yá quier l braço; quando t’aporcatas…

    – Mas yá bos dixe que nun fiç nada de mais!…

    – Nada de mais?! Yá biste bien la figura q’andas par’ende a fazer?! I cuidas, pori tamien, que naide bos biu bien achegadicos ne l bailo de deimingo passado ne l Ronso?! Quieres qu’essas chaldriqueiras ampécen a dar a la lhéngua subre ti i passares a ser falada por toda la gente?! Oulha que moça falada ye cumo ũa galdrapa. Ls moços solo la quieren pa brincar. Que, pa se casar, ralos son ls que las aceitan an sigunda i, inda menos, an terceira, quarta ou quinta mano.

    Claro stá que nun cumbenie a la mai star a amentar a la filha ne L Stalhico, aqueilha coincida stória passada noutro pobo bezino i que, bien anhos apuis, Alfredo Cameiron tan bien habie de mos cuontar cumo tenendo-se passado an Tortulhas, ũa poboaçon eimaginaira de la Tierra de Miranda. An beç disso, mais balie cuntinar a dar l raspanete a la filha:

    – Saliste-me acá ũa stoubada! Nun sei a quien saliste! Oulha que a mi nun ye, que you nun era nada assi! Por mais que te diga pa nun te deixares lhebar na cumbersa de qualquiera un, nun hai quien te cumbença! Bei se fazes, mas ye, cumo Glória, que nun ten nada que se le apunte?! Assi, ye que tu eras ũa moça dreita…

    – Essa cirigaita dá ares de ser mesmo ũa santica, nun ye?! Isso cuidais bós, que nun sabeis de la missa a metade!… Falando de burranca an beç de burro, ye quaije cumo dezie l’home daqueilha stória que, nun destes seranos, pai mos stube a ler: “Quien nun la coincer que la compre!…”

    – Deixa-te de cousas i reza mas ye pa que tou pai nun saba nin çcunfie de nada! Lhibra-te que le chegue algũa cousa als oubidos! Quiero ber cumo t’amanhas anton cu’el! Cumoquiera nun te çafas de lhebar ũas chapadas bien lhebadas! I oulha que son bien mercidas! Bei, mas ye, se tomas eimenda!

    Habie, anton, que star siempre d’uolho listo neilhes. Yá se sabe que, na resultado destas brincadeiras, nun será l moço a chegar a casa c’un nino na barriga. Para mais, andando ambos a dous tan chochicos, todo habie que fazer pa que nun fusse, pori, la chabasquita chegar a casa c’un zorrico i tenéren, apuis, sous pais q’oubrigar l rapaç a casar i la rapaziada a fazer-le pagar l bino a la mocidade…

    Claro q’ũa mai aporcatada mandaba un armanico – quien sabe s’anté un primico –, c’ũa barrila ou ũa pchorra solo para, fazendo-le cumpanha, ser un strobilho pa la filha i l sou par. L garotico siempre oubrigarie la moça, que nun serie nada desaires, a cuntener-se, ampedindo-la mesmo, por mais stoubada que fusse ou chochica q’andubisse, de fazer algũa maluqueira, qualquiera cousa que nun fusse de l agrado de la mai i, inda menos, de l pai… Que, de qualquiera rapaç, mesmo de l mais pintado i menos zanquieto, nada de buono se puode sperar. Anton, se la cousa ampeça a calecer i s’ancontra acendalha, nin l’auga de l cántaro – i, se calha, nin mesmo la de la fuonte – será subreciente p’apagar aquel ancéndio.

    Cumo, al cuntrairo de l que se passaba culas moças, niun moço chegaba de barriga a casa, ningun pai ou mai s’amportaba ou se preacupaba muito culs sous rapazes. A nun ser que a algun deilhes, le disse na belharaça d’ir a la taberna, meter-se na jogatina i botar-se a gastar i a buer sin tino…

    Mas, tamien qualquiera pai podie quedar çcansado. Ye que, coincendo-se toda la gente, siempre habie de star a ber un amigo ou mesmo outro home prontos a, sendo causo disso, cuntar-le las halbelidades de l artista. Qu’estas éran daqueilhas nobidades que, depressa, cuorrien mundo i se spalhában pula poboaçon, quedando, nistantico, toda la gente a saber l que s’habie passado.

    Ua mai moderna

    Nun cuideis, pori, que todas las mais éran cumo Ti’Ana, que se botou a ralhar cula filha solo pula tie Marie le dezir que la biu a namorar na fuonte. Nó, tamien habie algũas que bien l namoro de las filhas de maneira çfrente.

    Cuontaba-se que, pul final de l eimberno, uns meses apuis de saber de l namoro de la sue Mariana, la tie Regina, an beç de, cumo outras farien, le ralhar, se bira pa la filha i le diç:

    – Á Mariana, a ber se cumbidas l tou moço pa, deimingo que ben, merendar cun nós eiqui an nuossa casa. Sabes que nun bonda el ser de buona família i ir todos ls deimingos a la missa! Hai que ber tamien quales son ls sous pensares de bida.

    – Pus si, mai. Se bós i pai quereis, talbeç Chico nun s’amporte de benir a nuossa casa, a merendar cun nós.

    I Mariana assi fizo. P’agradar als pais de la moça, l rapaç, nun se fazendo rogado, alhá aparciu para merendar. I, mal acaba de quemer ũas lhascas de presunto i ũas rodelas de chouriço i de buer un copo de bino, saca dun cigarro i, todo cunsolado, bota-se anton a fumar.

    Quien nun gustou nada de le ber de cigarro na boca fui la mai de la moça. Anton, inda mal l rapaç acaba de se çpedir de Mariana a la puorta, tie Regina chama pula filha i, torcendo la nariç, diç-le:

    – Á Mariana, gustei de ls modos de l rapaç. Nun me parciu niun baldebino. Solo nun gustei de l ber de cigarro na boca. Oulha q’uesse ye un de ls maiores bícios i defeitos q’un home puode tener! Yá biste l denheiro que todos ls dies un fumador queima an cigarros?! Tenes q’arranjar maneira del lhargar l cigarro i deixar de fumar!

    – Si, mai! I s’el nun quegir?

    – Oulha q’apuis, quando t’aporcatares, nun dás bida del! Oulha que, quando ampecemos a andar de namoro, tou pai tamien gustaba bien dun cigarrico! Mas you lhougo le zanganhei: “Oulha, Joquin, se quegires andar cumigo, tenes que deixar de fumar.” Y el nun tubo outro remédio, senó, lhargar l cigarro! I fui se quijo!…

    Cumo moça oubediente qu’era, Mariana fizo cumo sue mai le mandou. Mas l rapaç, que de burro nun tenie nada, ampeçou a falhar ne l cumprimento de ls sous deberes i oubrigaçones. Passórun uns dies, ũa semana, anté un més i el nada. Se, dantes, nun percisaba que naide l’assobiasse pa se botar a buer – ye cumo quien diç, staba siempre pronto pa brincar –, apuis de lhargar l cigarro, parcie tener perdido toda la buntade de se botar a trates a la cousa.

    Sentindo la falha, bai aton la moça queixa-se a sue mai:

    – Á mai, you fiç tal cumo me dezistes. Dixe-le a Chico que tenie que lhargar l cigarro. I el assi fizo. Mas, zde anton, nun sei que maleita le dou. Ye que se le tirou la buntade toda! Mesmo passado mais q’un més, nun tornou a querer botar-se a brincar!…

    – Sabes que mais, filha?! Oulha, ũa beç por outra, bai-le, mas ye, dando un cigarrico! A ber s’el se torna a animar i s’arrebita!…

    Quando, cul cunsentimento de la moça, l rapaç torna a fumar i todo torna outra beç a ser cumo era dantes: stá siempre cun toda la çposiçon, i anté deboçon, i pronto a brincar. Assi, nunca mais se negou a cumprir la sue oubrigaçon.

    Passados mais alguns dies, la mai de la moça cumbida l rapaç pa jantar an casa. Anton, mal acaba la janta, Chico saca de l cigarro i pon-se a fumar. Al bé-lo, l pai de la moça, todo spantado, bira-se pa l rapaç i diç-le:

    – Anton, Chico, agora torneste a fumar?!

    Bai la tie Regina, fingindo nun saber de nada, bira-se pa l sou home i diç-le:

    – Fuma i fumará!… I tu tamien hás de fumar!…

    Claro que, nesse tiempo, a nun ser de ls de la carteira, naide inda falaba de ls outros malefícios de l cigarro.

     

    La cigana, l cigano i l ciganico

     

    Lhembra-me doutro eipisódio passado cun casal de ciganos inda nuobos i ne l ampercípio de bida. Cumo miu tiu Demingos Quintanilha me cuontou, todos ls meses ambos a dous i l sou filho íban passar uns dies a Angueira: el ne l negócio de burros i eilha a pedir smola. Nun sei porquei nin por culpa de qual, un die anraibórun-se un cul outro. Bai aton Agusto deixou de porcurar Cacilda a la nuite i, mal se falando, só resmungában antre eilhes.

    Un die, pul lhusque-fusque, Cacilda porpara-se pa fazer la cena nun de ls lhados de l curral de l tiu Bidal, ne l Balhe, adonde questumában parar. Pon l pote al lhume, çcasça ũas patatas, junta-le ũas coubes, acrecenta-le un cibico de chicha de cochino i un chabiano, que, nessa manhana, las ties d’Angueira le tenien dado de smola.

    Anquanto l pote ampeça a ferber, lhembra-le que bai yá para uns dies que nun habie modo de, a la nuite, l sou home la porcurar para nada. Pon-se aton a dar buoltas a la cabeça a ber s’amanha maneira de le cumbidar pa la cousa.

    Apuis de todos trés cenáren, sin nin sequiera tenéren trocado ũa palabrica, stában Agusto a la buolta de l lhume i, na outra punta de l curral, Cacilda a la lhuç de la candeia, cul ciganico ne l regaço, a trates a la lhouça. Bai aton la mai segreda-le al oubido de l garotico:

    – Á mé filho, vai dizer ao pai que se poonha na mãe!

    Sendo bien mandado, l ciganico deixa l regaço de la mai, arrima-se al lhume, adonde l pai staba a calecer las manos, i fai, anton, l qu’eilha le mandou. Achega-se un cachico mais al pai i, cun toda la einocéncia, diç-le baixico:

    – Ó pai, poonha-se na mãe!

    Carai!… palabras nun fússen ditas! Nun sfregante, l pai, todo nerbioso i culs uolhos a chiçpar de raiba, bira-se pa l ciganico i, amanaçando-le cula nabalha que tenie inda na mano, grita-le:

    – Cala-te lá, seu lagaanha, que te saco já os olhos cu’esta navaalha!

    La mai, que staba inda a trates d’arrumar la lhouça, fingindo nun saber de nada, cun aire todo çcunsolado, zeiludido i zaprobador, diç, anton, pa l pai de l garotico:

    – Nun farás a vontade à criaança, seu coração de pedra dura!…

     

    Pagar l bino

     

    Quanto a namoricos, cumo nun podie deixar de ser – i inda hoije se bei i acuntece an qualquiera parte –, ũa beç por outra, subretodo por causa d’algũa moça mais guapa i cun buona hardança, a quien nun faltarien pertendientes, habie lhuitas antre alguns rapazes. Assi i todo, era cousa rala d’acuntecer antre ls moços de Angueira. Mas, culs de fuora, la cousa era doutra maneira…

    Lhembra-me bien de la tradiçon de pagar l bino, que, na mie bida de garoto, habie an Angueira i, cumoquiera, noutras poboaçones bezinas.

    Quando, passados muitos anhos q’habia ambarcado pa l Brasil, tornaba de bejita a Angueira, l brasileiro, arriba de todo se, sendo inda sulteiro, benisse cula eideia d’arranjar moça i de se casar, trataba de pagar l bino a todo mundo. Assi, ne l purmeiro deimingo, a la tardica, fazie-se-le ũa fiesta d’houmenaige, cun beilarico i todo. Anton, el pagaba l bino i ls antremoços als homes i als moços i uns rebuçados i ũas almendras a las ties, a las moças i als garoticos. Daba, assi, proba de que se tenie salido bien por fuora, que staba bien de bida i qu’era, anton, un home andenheirado i de respeito.

    Habie inda outra situaçon çfrente desta, an que tenie tamien que se pagar l bino i qu’era tamien doutros pobos bezinos d’Angueira i, cumo se puode ber an http://baglina.blogspot.pt/2011/05/l-tiempo.html, cumoquiera, de la Tierra de Miranda i alredores.

    Bamos, anton, a ber cumo era essa cousa de tener que pagar l bino…

    Qualquiera rapaç de fuora que, debido a algũa moça que tenie debaixo d’uolho i, pa le pedir namoro, aparcisse an Angueira, mas, subretodo, se yá andubisse arrimado a la pimponaça, dũa cousa habie de quedar ciente: por mais proua que tubisse i mais spabilado i fuorte que fusse, deficelmente scaparie a, mais die menos die, tener de pagar l bino a la mocidade.

    Era cumo quien diç: Quieres la moça? Anton, purmeiro, tenes que mos pagar l bino!

    Fusse ne l termo ou ne l pobo, la rapaziada armaba-le un cerco i fazie-le ũa spera anté l’apanhar i nun le deixar scapar sin le lhebar a la taberna de l tiu Cereijas ou a la de l tiu Morais. Anton, todos ls moços s’ajuntában a la buolta del, i cun caixa i bombo, a acumpanhar l toque de la gaita de foles de l tiu Agrepino Albardeiro ou de l acordeon de Eiduardo Sidório ou de l harmónico de Norberto Crespo, rodeában l cuitado pa l lhebar a la taberna i, lhougo eilhi, le fazer pagar un cántaro ou, se calha, mesmo un almude de bino, un baldo de antremoços a la mocidade i uns saquitos de almendras ou uns docicos a las moças, sin squecer inda uns rebuçadicos pa ls garotos que stubíssen ne l beilarico.

    Ye que, fiesta sin beilarico, nun era fiesta!…

    Anton, subretodo al deimingo i dies de lomeada, l rapaç tenie q’andar d’uolho listo i pie delgeiro, perbenido i cun todo l cuidado pa, trocando-le las buoltas als rapazes, nun ser apanhado cula moça nin se deixar agarrar por eilhes. Tamien cumbenie nun se çcuidar d’andar cun algun denheirico na carteira. Ye que, an qualquiera oucasion i, quando menos sperasse, podie tener, pori, que pagar l bino a la mocidade. Si, que, nestas situaçones, nun serie fácel que l taberneiro le fiasse…

    Anton, agarrando-le un rapaç por un braço i outro por outro, un dun lhado i outro doutro i culs outros todos atrás del, diç-le un deilhes:

    – Bá, ben cun nós al bailo que bamos a fazer ne l Ronso! Cumo puodes ber, gaiteiro i tocadores yá nun mos fáltan! Carai, hoije ye que bai ser acá ũa fiesta!…

    – I nun te apoquentes… que la moça nun te fuge, pus ben mesmo atrás de nós! – diç-le outro.

    – Cumoquiera será melhor deixar la cousa para outra beç! Hoije tengo que me ir yá ambora, pus stou c’un cachico de priessa! Ye que, al tornar para casa, tengo inda que passar pul lhameiro perto de la marra, adonde quedórun las bacas quando bin para acá! – respunde-les l rapaç de fuora.

    – Deixa alhá las bacas, qu’eilhas nun se ban ambora i spéran mais un cachico por ti! – diç-le un de ls rapazes.

    – Ben, mas ye, cun nós a la taberna de l tiu Cereijas. Stou an crer que nun te negarás a pagar uns copicos als tous amigos! – acrecenta outro.

    – Oulhai que bien gustaba de bos los pagar. Mas, hoije, nun bin prebenido! Talbeç seia melhor deixarmos la cousa para outro die! – respunde-les l de fuora.

    – Ah, nó! Anton nun bés que stá todo porparado i la gente toda a la spera! Cumo tiu Cereijas i tou pai se conhécen i se dan bien, cumoquiera nun se negará a fornecer-te fiado!

    – Bás a ber que nun t’arrependes! Mira tu que la moça bien merece, pus ye toda pimponaça!

    Arrodeado de rapazes i culas cousas deste jeito, nun habie maneira de se çafar. Assi, nun tenie outro remédio senó pagar.

    Este era l précio que qualquiera moço de fuora, çcoincido ou mesmo coincido, que fazisse esta façanha tenie que pagar por eilha. Que, solo apuis, la rapaziada le cunsideraba çquitado de l pagamento deste tribuito. Mas, apuis d’haber cumprido esta oubrigaçon, la cousa acababa an bien: an beilarico i grande borga, podendo, a partir d’anton, l namoro cuntinar i l moço passar a andar çcansado sin que la rapaziada l’amportunasse mais.

    Cuontaba-se que, nun stando puls ajustes, alguns, fazendo-se de balientes i amostrando tençon de rejistir, acabórun por lhebar uns ancuntrones i safanones i, até, salir d’Angueira un cachico scalabaçados. Mas, l mais normal era chafurgá-los, cun roupa i todo, ne l chafariç de l Pilo. Eimaginai cumo serie la suorte deilhes se fusse ne l eimbierno! I se uns pouquitos se çafórun, la maior parte deilhes tubírun que s’amanhar i pagar l bino.

    Mas, nesta, cumo an muitas outras situaçones, hai siempre çfrentes maneiras de ber las cousas: la de la rapaziada de la poboaçon i la de l moço de fuora a quien la rapaziada querie que le pagasse ou le fazie pagar l bino.

    Fui l que se passou cun Zé Luís Ché. Sigundo el me cuontou an agosto passado, quando andaba de namorico c’ũa moça de la Speciosa, ũa beç, a la tardica, bota-se d’Angueira anté lhá, na sue bicicleta. Nun ye que la rapaziada l’apanhou i l’agarrou i nun querie deixá-lo salir d’alhá sin q’antes pagasse l bino! Nun cunseguindo çafar-se deilhes i nun stando tamien puls ajustes, rejistiu-les cumo i l mais que puodo. Aton, pégan i chímpan cu’el ne l chafariç cun roupa i todo. Assi, quedou que nin un pitico quando chube.

    Bá lá que, pa suorte del, la cousa se passou ne l final de la primabera!…

    Anton, Ché nun tubo outro remédio senó scapar-se para Angueira todo molhado, bien fresquito i quaije a tritar. Mas, nun sendo el un rapaç buono d’assoar, inda pul camino, nun le sal de la cabeça: “Heis de me las pagar, carai!” I pensa lhougo nũa maneira de se çforrar i bingar deilhes.

    Ne l final desse berano – na fiesta de Nuossa Senhora –, cumo de questume, a la tardica, la rapaziada de la Speciosa bota-se, a pie, anté Angueira, pa la troula. Abistando-les ne l Ronso, Ché, pula meia nuite, lharga l bailo i bota-se a camino de Cabeço Molhon por donde, de madrugada, le palpitou qu’eilhes habien de passar al bolbéren pa la Speciosa.

    Trata, anton, de sculhir l que le parciu ser l sítio mais de-lei pa l sou antento: la cortina de l tiu Jó, na purmeira de las dues olgas, a la squierda i a menos da meio de la chubida pa la ancruzelhada que, ne l alto de cabeço Molhon, dá pa la puonte de la Yedra i pa las Lhameiras i inda a buona çtáncia de las outras: la de ls Milanos, que dá pa las Lhameiras i pa la de Lhadron, que dá tamien pa l Ramalhal, Ourrieta Morena i Cabeça Gorda.

    A meio de la cortina de l tiu Jó, a seguir a la barranca mesmo porriba de la caleija qu’eilhi hai, ajunta un munton de piedras. Ne l canto de baixo de la cortina, birado pa la Senhora, pon-se, anton, a la spera deilhes an riba de la parede quaije a chegar a la caleija que dá pa la corriça de l tiu Américo Furon i que ye na outra punta.

    De madrugada, quando, pul camino de las Lhameiras, tórnan pa la Speciosa, apuis de tenéren passado pula puonte, que queda un cachico abaixo de l molino de ls Deminguitos na Senhora i porriba de l poço de l Canhiço, i, lhougo a seguir, la de l ribeiro de l Ramalhal, ne l cimo de la chubida a meia barreira antre la Cabanhona i Cabeço Molhon, ban a dar aqueilha caleija, l sítio adonde, an riba de la parede i un cachico antes de la barranca de l lhado de baixo de la cortina de l tiu Jó, Ché spera por eilhes.

    Al scuitá-los barreira arriba, seinha que stán quaije a chegar a la caleija, Zé Luís pon-se a meia lhadeira ne l meio de la cortina i ampeça a apedreá-los. Cumo l paredon debaixo de la cortina, que stá a sigurar la barranca, ye mui alto, ls moços de la Speciosa óuben las piedras a fungar-les porriba de la cabeça. Claro que s’eilhes fússen debotos de Nuossa Senhora i, pul final de la manhana, tubíssen ido a la missa cantada i apuis a la procisson de la fiesta, cumoquiera inda cuidaríen que stában a botar eilhi ũa çcarga de foguetes quaije tan fuorte cumo la que botórun ne l Pilo, a meio de la porcisson. Mas, cumo só chegórun al bailo ne l Ronso mesmo a la tardica, la sue deboçon deberie ser a outras santas.

    Fusse cumo fusse, anton eilhes, arrimandando-se bien al paredon i dando bien a la pierna, alhá se çáfan de lhebar culas lapadas na cabeça. Sendo de nuite, indas que de lhuna chena i cielo strelhado, stando Ché pul lhado de riba, coincendo bien l terreno i nun sabendo ls de la Speciosa quantos serien ls que stában eilhi a apedreá-los, de todos eilhes niun s’atrebiu a botar-se a acaçá-lo. Bá lá que, assi, apuis d’apanháren l reciu de la ribeiro, oumenos inda calcírun un cachico.

    Eimaginai bós an que stado nun teneran quedado las ciroulas d’oumenos alguns deilhes…

    Bien se bei que, adonde i quando menos se spera, hai que star siempre aporcatado i tamien que, subre qualquiera cousa, hai siempre çfrentes maneiras de ber. Si, que, oumenos neste causo, hai dous puntos de bista: ũa cousa ye apanhar i pegar un rapaç i oubrigá-lo a pagar l bino; outra ye star na piel daquel a quien quieren oubrigar, ou oubrigan mesmo, a pagá-lo…

    Mas nun cuideis que ls moços d’Angueira stában lhibres i se çafában de la oubrigaçon de pagar l bino a la rapaziada! Nó, que la çfréncia só era esta: l rapaç de fuora tenie que pagar l bino d’adelantrado, inda durante l namoro i antes de pensar an casar-se; l d’Angueira era apuis de l casamento que tenie q’l pagar. Que, nestas, cumo noutras cousas, nun podie haber mais çcriminaçones. Habie era que afiançar que la criatura de fuora nun se scapasse, se ponisse a andar ou acabasse cul namoro sin pagar l bino a la mocidade. Que la paga pul moço qu’era d’Angueira essa staba siempre cierta i garantida pus serie fácele d’ancuntrar i de le botar la mano…

     

    Notas

     

    [1] Dantes, todas las rues d’Angueira éran an tierra batida i ancalcada puls carros de bacas i de bestas quando, por eilhas, passában culas carradas de strumo, feno, manolhos, sacos de grano, palha, patatas ou lheinha. Uns anhos antes de l 25 de Abril de 1974, la Cámara de Bumioso mandou calcetar la rue que, ampeçando na Eigreija i passando pul Cachon i por Sante Cristo, bai a dar a la casa de la Scola. Mas, anton, l calcetamento só chegou a la capielha de Sante Cristo. Solo apuis de l 25 de Abril, ye que la outarquie mandarie calcetar deilhi pa riba, dessa capielha a la casa de la Scola i, mais alguns anhos apuis, las outras rues.

    [2]- Quien, de l Ronso, oulhar pa l Pilo, ou seia caras a poniente, antre l ribeiro de l Balhe i la rue que, deilhi dá pa la capielha i l Lhargo de Sante Cristo, bei cumo que zeinhado un triánglo anclinado pa la squierda, cula punta mais aguçada nesse lhargo i la base, que, de l fondo de la casa de l tiu Canhotico bai a dar al fondo de la capielha de Sante Cristo. Cunsante l oulhar se bai çtanciando de l Ronso i caras a poniente, ls lhados de l triánglo – l ribeiro de l Balhe, pul lhado de baixo, i la calçada culas casas a la dreita de la rue que, de l Ronso, dá pa la capielha de Sante Cristo, pul lhado de riba – ban-se alhargando i apartando cada beç mais un de l’outro. Antre l ribeiro, pul lhado de baixo, i la rue, pul lhado de riba, hai un znible que, zde l Ronso i, mais abaixo, de l fondo de la casa de tiu Canhotico junto al ribeiro, bai oumentando anté adonde ampeça l Lhargo de Sante Cristo.

    [3]- Estes huortos éran l de l Marineiro, que l tiu Galharito trazie de renda, l de l tiu Morais, l de la tie Palombica, l de l tiu Aran, l de l tiu Zé Fuda i l de l tiu Ferreiro. Hoije, yá nin ls duonhos nin ls huortos éisisten. Aqueilhes yá nun stán antre nós i estes fúrun acupados debido al alhargamiento de las rues de riba i de baixo de ls mesmos.

    [4]- Éran ls huortos de la tie Deolinda, que fui pa l Brasil i l bendiu a tiu Chafin, i l de l Padre Lino, que, apuis de la custruçon, fúrun acupados pula sede de la Associaçon i de la Junta. Mais cerca de la fuonte de l Pilo, éran ls huortos de la dona Laura i l de l tiu Manuel Júlio, qu’inda nun bai muito tiempo, Manuel Perdigon ajuntou solo nun.

    [5]- Las fuontes  de la poboaçon son la de l Pilo, la de l Balhe, que ye un cachico mais arriba i que, de berano, questuma secar, la de la Eigreija, qu’era ne l fondo de las huortas de l Pilo i al cimo de las de l Cachon i que, quando calcetórun las rues, la antupírun, i inda la de la Salina. Pa lhá destas, yá un cachico zbiada de la poboaçon, hai inda la de l Múrio. Pul termo, hai muitas outras fuontes: la fuonte Santa, las de Souganho, de ls Chapaçales, de San Miguel, de l Prado, de las Barreiras, de Bal de Xardon, de la Bouça, de ls Salgadeiros, de Bal de Conde, de la Puontelhina, de Belharino, de l Rodelhon, de Fuontecinas, de ls molinos de Terroso, de las Lhameiras, de Balhe de l Quadro, de Lhatas de l Meio, de l Cunho, de l Chapeiron, de la Queiruola, d’Ourrieta la Fuonte, de la Cuosta, de l Spino, de l Nabalho i de la Francosa. La maior parte de las fuontes de l termo son la naciente d’alguns ribeiros.

    [6]- Las outras tabernas, que, nesse tiempo, habie tamien an Angueira, éran la de l tiu Pandeirelo i la de l tiu Paradinha.

     

    Bocabulairo – vocabulário

     

    Acá – cá \\ acordeon – acordeão \\ acoutelado – acautelado, prudente \\ acupado – ocupado \\ adonde – aonde \\ afiançar – garantir, assegurar \\ aire – ar \\ al – ao \\ alhá – lá \\ Alemánia – Alemanha \\ almendra – amêndoa \\ alredores – arredores \\ ancéndio – incêndio \\ amanaçar – ameaçar \\ amanhar – arranjar \\ ampalpar-se – apalpar-se \\ amportar – importar, interessar \\ ancalcada – calcada \\ ancanhar – canalizar \\ anchir – encher \\ ancruzelhada – cruzamento \\ ancuntrar/o – encontrar/o \\ andubisse – (forma do verbo andar) andasse \\ anfáncia – infância \\ angurriar – enrugar \\ anho – ano \\ anraibar – enraivecer \\ antento – intento \\ antretenimento – entretimento \\ anton – então \\ antupido – entopido \\ anxuto – enxuto \\ apartar – separar \\ aparcer – aparecer \\ aporcatar-se – precatar-se \\ apuis – depois \\ armano – armano \\ armar – arranjar, preparar, montar \\ arramar – despejar \\ arriba – acima \\ arrimar – encostar \\ assi i todo – mesmo assim \\ atreber-se – atrever-se \\ auga – água \\ bailo – baile \\ baldebino – valdevino, pobretana \\ barranca – sucalco cuja terra é suportada por um paredão \\ barrila – bilha de água \\ beç – vez \\ beilar/ico – bailar/e \\ beisico – beijinho \\ bejita – visita \\ belharaça – maluqueira \\ benir – vir \\ bien – bem, viam \\ bielho – velho \\ Bila – vila de Vimioso \\ bino – vinho \\ bolber – regressar, voltar \\ bondar – bastar \\ borga – farra \\ bos – vos \\ botar-se – pôr-se a caminho \\ buer – beber \\ Bumioso – Vimioso \\ buolta – volta \\ burranca – burra ainda nova \\ cachico – pouquito \\ çafar – livrar \\ capielha – capela \\ çcansado – descansado \\ caleija – caminho/rua estreito/a entre paredes \\ caliente – quente \\ calma – muito calor \\ çapaç – capaz \\ çcarga – descarga \\ çcascar – descascar \\ çcriminaçon – discriminação \\ çcubrir – descobrir \\ çcuidar – descuidar \\ çcunfiar – desconfiar \\ çcoincido – desconhecido \\ cenar – cear/jantar \\ çfamar –difamar \\ çforrar-se – desforrar-se \\ çfraçadamente – disfarçadamente \\ çfraçar – disfarçar \\ cfréncia/çfrente – diferença/diferente \\ chabasquita – tontinha \\ chabiano – chouriço azedo de sangue \\ chafurgar – mergulhar na água \\ chagar – chatear \\ chicha – carne \\ chiçpar – faíscar \\ chuber – chover \\ chubir – subir \\ cibico/cibo – pedacinho/pedaço \\ cielo – céu \\ cochino – porco \\ coincer – conhecer \\ corriça – construção quadrada ou retangular, de xisto ou granito, telhada ou não, espalhadas pelo termo onde, nas noites de inverno, os pastores encerram os rebanhos \\ cortina – propriedade com muro a toda a volta \\ çpedir – despedir \\ çponibilizaçon – disponibilização \\ çposiçon – disposição \\ çquitar – livrar \\ çtanciar – distanciar \\ c’ũa/c’un – com uma/um \\ cul/a – com o/a \\ cumoquiera – talvez, provavelmente \\ cumbenir – convir \\ cumprir-se – completar-se \\ cun – com \\ da peto – de propósito \\ deilha – dela \\ deimingo – domingo \\ de-lei – como deve ser \\ delor – dor \\ demudar – mudar \\ desaires – feio(a) \\ díbeda – dívida \\ diç/xe/xo – (formas do verbo dezir) diz/disse \\ dieç – dez \\ die de lomeada – dia santo ou de festa \\ drento – dentro \\ duonho – dono \\ eicelente – excelente \\ eideia – ideia \\ eimaginairo – imaginário \\ eimbierno – inverno \\ eilha – ela \\ eilhi – ali \\ einocéncia – inocência \\ eiqui – aqui \\ ende – aí \\ fácel – fácil \\ fiç/fizo – (formas do verbo fazer) fiz/fez \\ fuonte – fonte \\ fuora – fora \\ galdrapa – estouvada \\ guapa – bonita \\ gustar/o – gostar/o \\ halbelidade – habilidade \\ hardança – herança \\ harmónico – concertina, acordeão \\ houmenaige – homenagem \\ huorto – horto \\ inda – ainda \\ indas que – ainda que \\ jogatina – jogo de cartas \\ l – o \\ lhá – lá \\ lhabar/deiro – lavar/douro \\ lhadron – ladrão \\ lhargar/o – largar/o \\ lhasca – lasca, fatia \\ lhebar – levar \\ lhibardade – liberdade \\ lhibrar – livrar \\ lhodo – lodo, lama \\ lhuç – luz \\ lhusque-fusque – lusco-fusco, escuro \\ lhume – lume \\ lhuna – lua \\ mai – mãe \\ manar – nascer água \\ manhana – manhã \\ mano – mão \\ mos – nos \\ nariç – nariz \\ munton – montão \\ nel – nele \\ ni’sequiera – nem sequer \\ nistantico – depressa, num instante \\ niun/ũa – nenhum/a \\ nó – não \\ nobidade – notícia \\ nũa – numa \\ nun – não, num \\ nuobo – novo \\ olga – nome dado em Angueira a uma pequena orreta \\ oumentar – aumentar \\ oumenos – pelo menos \\ Ouropa – Europa \\ ousserbaçon – observação \\ paga – pagamento \\ pa lhá – para além \\ palombica – pombinha \\ parcer – parecer \\ pchorra – pequena bilha com duplo gargalo \\ pegar – agarrar \\ pertendiente – pretendente \\ pessona – pessoa \\ piedra piçarra – pedra de xisto \\ pie – pé \\ piel – pele \\ pimponaça – bonitona \\ poboaçon – povoação \\ porcissan – procissão \\ pori – por acaso, talvez \\ porsor – professor \\ priessa – pressa \\ pul/a – pelo/a \\ puontica – pequena ponte \\ punto – ponto \\ pus – pois \\ purmeiro – primeiro \\ qualquiera – qualquer \\ quegir – (forma do verbo querer) quiser \\ quemer – comer \\ quijo – (forma do verbo querer) quis \\ rala – rara \\ rejistir – resistir \\ rucica/o – mulher/homem pequena/o de cabelo loiro, castanho ou grisalho \\ rue – rua \\ safanon – safanão \\ sanja – vala subterrânea, aqueduto \\ scaleiricas – escadinhas \\ scalabaçado – ferido na cabeça \\ scapar – escapar, fugir \\ scola – escola \\ screbir – escrever \\ scuita – escuta \\ sculhir – escolher \\ seclo – século \\ seinha – sinal \\ sfregante – instante \\ smola – esmola \\ senó – senão \\ serano – serão \\ spabilado – desperto \\ sperar – esperar \\ squermenta/da – má experiência/escaldada \\ squierda – esquerda \\ stalhico – estalinho \\ steia – (forma do verbo star) esteja \\ strelhado – estrelado \\ strobilho – estorvo, impecilho \\ stubir – (forma do verbo star) estiver \\ subreciente – suficiente \\ tamien – também \\ tençon – intenção \\ tener – ter \\ tie – tia, mulher, esposa, senhora \\ tiu – tio, homem, marido, senhor \\ tornar – regressar, voltar \\ trabiesso – travesso \\ traie – (forma do verbo trazer/traer) trazia \\ tritar – tremer de frio \\ troula – arraial \\ tubo – (forma do verbo tener) teve \\ túndia – coça \\ ũa – uma \\ uolho – olho \\ uolmo – olmo, negrilho \\ talbeç – talvez \\ xaldroqueira – mexeriqueira \\ yá – já \\ ye (forma do verbo ser) é \\ you – eu \\ zalmado – desalmado \\ zanquieto – irrequieto \\ zde – desde \\ zeinho – desenho \\ znible – desnível \\ zorrico – filho natural, nascido fora do casamento e registado, por via de regra, como sendo de pai incógnito.

     

    Para saber o significado de outras palavras, sugiro a consulta do sítio

    http://www.mirandadodouro.com/dicionario/

     

    Se quiser visualizar algumas fotos aéreas de Angueira, sugiro-lhe que consulte do blogue

    http://portugalfotografiaaerea.blogspot.pt/2017/01/angueira.html

     

    Caso queira saber a localização de alguns sítios do termo de Angueira, carregue no “link”:

    www.openstreetmap.org/searchquery=Angueira%2C%20vimioso%2C%20portugal#map=12/

     

    Caso queira pedir a sua adesão ao grupo “Angueira Atalaia”, carregue no “link”:

    https://www.facebook.com/groups/1750219901696026

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  • Anterruçon de la Scrita. Ũa Splicaçon als Mius Amigos

    março 8th, 2017

    Direis ou preguntareis pul menos alguns de bós: mirai q’oulhai que… mas l qu’este, que, ultimamente, ten stado tan calhadico, andará por ende a fazer?

    I, quien sabe, se nun direis tamien: seia cumo fur, de buona mos çafemos!… Ye que, assi, mos lhibremos de tener que star a aturá-lo!…

    Preguntais, dezies bien i teneis bós toda la rezon!… Que, cumo se sabe i inda que, a las bezes, nun pareça, pa todas las cousas i todo quanto acuntece hai siempre ũa rezon de ser, anque nin siempre rezonable… I, cumo stá bien ber, tamien neste causo nun haberie de ser çfrente…

    Mas podeis quedar çcansados, que nun ye, pori, por tener stado malo!…

    I, tamien podeis crer, queda-bos yá eiqui la amanaça: nun habeis de perder pula demora!…

    Bai yá para alguns meses, nun tengo screbido nada que se beia ou, dito d’outra i melhor maneira, que se puoda amostrar!… Mas, berdade seia dita: ye que, ne ls últimos tiempos, tengo andado, por ende i por donde calha, a fazer que fago i, por bias disso, un cachico acupado cun algũas anzonices. D’outubro para acá, an eiquipa cun mais trés ou quatro amigas i amigos, tengo andado, por eiqui i por eilhi, ou seia, por algũas de las capitales de çtrito i outros sítios de l paiç, ou melhor, de l Cuntinente – mas loinje de mi querer  lhebar-bos a pensar que seia l de l tiu Belmiro, de la família de ls Azebedos i de la sue giente!… – a cumbersar, i tamien a botar i spalhar ũas palabricas – hai quien, an beç disto, diga sembrar i questume, anté, chamar-le formacion –, culs diretores de ls agrupamientos i scolas d’algũas de las nuossas porbíncias: Algarbe, Alenteijo, Ribateijo, Stremadura, Beira Litoral i Douro Litoral. I, anté al final deste més, cuntinarei inda a andar por ende a cunsumir i a azucrinar la cabeça als diretores de ls agrupamientos i scolas de las outras Beiras i de l Minho.

    Ambora a mi me dé grande gusto fazé-lo, cuitados deilhes!… Que muitos tubíran yá, i alguns outros tenerán inda que tener, pacéncia subreciente pa me star a aturar!… Cumoquiera que, nin que seia solo culs sous botones, dirán mesmo alguns deilhes: mas que raio de mal tenerei you feito a Dius para isto me tener tocado i este me haber salido na rifa?!…

     

    Bocabulairo/vocabulário

    Acá – cá / als – aos / anté – até / amanaça – ameaça / anque – ainda que, embora / anterruçon – interrupção / anzonice – enzonice, coisa sem valor / azucrinar – apoquentar / beç – vez / berdade – verdade / bós – vós / boton – botão / buona – boa / cachico – pouquito / çafar – livrar / çcansado – descansado / causo – caso / çfrente – diferente / çtrito – distrito / cul – com o / cumoquiera – talvez / cunsumir – cansar / cuntinar – continuar / deilhes – deles / Dius – Deus / dezir – dizer / eilhi – ali / eiqui – aqui / ende – aí / lhebar – levar / loinje – longe / ls – os / malo – doente / mirai qu’oulhai que – vejam bem / miu – meu / mos – nos / nun – não / paiç – país / porbíncia – província / pori – talvez / pula – pela / quien – quem / rezon – razão / rezonable – razoável, racional / salir – sair / scola – escola / screbir – escrever / sembrar – semear / solo – apenas, só / splicaçon – explicação / star – estar / Stremadura – província da Estremadura / subreciente – suficiente / tan – tão / tener – ter / tiu – tio, senhor / tocar – calhar / tubíran – (forma do verbo “tener”) tiveram / ũa – uma / ye – (forma do verbo ser) é / yá – já / you – eu

     

    Para saber o significado de outras palavras, sugiro a consulta do sítio

    http://www.mirandadodouro.com/dicionario/

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  • Bícios, Manhas i Artimanhas de l Burro de l Tiu Adriano

    novembro 11th, 2016

    Nota Prévia: uma prevenção

    Se o/a leitor/a não está familiarizado/a com a Língua Mirandesa, sugiro que, para facilitar a compreensão do texto, o leia a meia-voz. Se, mesmo assim, sentir qualquer dificuldade em compreender o sentido ou descobrir o significado de alguma palavra menos usual ou cuja grafia se afasta mais da portuguesa, não hesite em consultar o Vocabulário que pode encontrar no final do mesmo.

    Breves notas sobre a grafia do Mirandês

    Em Mirandês, não se pronuncia o som v, que é substituído pelo da letra b; usualmente, o prefixo des é substituído, consoante os casos, por ç ou z no início da palavra; para não se confundir com a contração da preposição a com o artigo definido o, que, em Mirandês, se escreve e lê al, o artigo definido o escreve-se l, mas lê-se também al; salvo raras exceções, os ditongos nasais ão e õe escrevem-se an e on; o m final das palavras portuguesas é, no Mirandês, substituído pela letra n; geralmente, o l inicial das palavras é substituído pelo dígrafo lh; já o dígrafo ch, em Mirandês, lê-se sempre tch; talvez por, inicialmente, ser apenas uma língua falada, o Mirandês tende a contrair os pronomes, artigos, preposições e as conjunções com as palavras seguintes, quando estas são iniciadas por vogal.

    Agradecimiento

    Por me parcer que bal bien la pena, tengo que bos cuontar alguns eipisódios de la bida d’algũas pessonas d’Angueira passados na sigunda metade de l seclo XX, la parte de la mie bida an que cu’eilhas cumbibi. Cumo qualquiera outro, tamien esse tiempo nun tornará mais.

    Lhebando ũa bida defícele, quaije madrasta, essas pessonas – las que quedórun ne l pobo i, subretodo, las que fúrun forçadas a eimigrar – amostrórun tener anteligéncia i coraige mais que subrecientes i séren capazes d’ancuntrar maneira de cuntrariar las malas cundiçones i ls azares de la bida i scapar, assi, a la mala suorte i a un çtino bagamundo.

    Nũa lhuita custante pula subrebibéncia, fameliares, amigos i bezinos sabien dar-se la mano uns a outros ne l trabalho, por torna-jeira, nas lhimpas, nas matáncias, ne ls fenos i a apanhar patatas. Assi, todas se coincien bien.

    Dando-mos ũa liçon de bida, cunseguírun aguantá-la. Nun cruzando ls braços nin quedando a la spera, ansinórun-mos, assi, a seguir palantre; a rir mesmo de las cousas mais sérias de la bida; a lhuitar, ateimar i zirrar; a porcurar l remédio pa ls bários males adondequiera que seia; a anfrentar l mundo i l çcoincido; a nun negar l que i donde somos i, assi, a nun perder las nuossas raízes.

    Cuontar estas cousas ye dar teçtemunho i fazer tamien ũa pequeinha houmenaige, que bien mercida ye, a estas pessonas. Assi i todo, nun bamos, pori, cair na tentaçon de les çafar qualquiera falha. Claro que, arriba destas, stan las sues culidades.

    Nesse tiempo, ls própios animales éran tamien figuras mui amportantes ne ls eipisódios de la bida, ne l trabalho i ne ls debertimientos de ls sous duonhos. Afeitas a cumbibir cula bida natural, nun spanta qu’esse tiempo fusse marcado pulas bibéncias i maneiras de ber mui marotas de las pessonas.

    Al amigo Carlos Rodrigues i a mius armanos Eimílio i Aquilino, l miu agradecimiento por me tenéren lhembrado dalguns eipisódios de la bida destas pessonas.

    L tiu Chabiano

    Tiu Adriano era de la família a que, cumoquiera por todos séren de teç morena, le ponírun l’alcunha de ls Prietos, cumo éran coincidos trés armanos i cuido que dues armanas: tiu Joan, tiu Zé i tiu Adriano; la tie Ricardina, mai de la tie Jubantina, i la tie Sabel Prieta, la mulhier de l tiu Rabon i mai d’Antonho Rabonico.

    Sigundo cuontában l tiu Massemino i la tie Marie Caldeira i que, ambora mal, me lhembra d’oubir dezir tamien a miu pai, dórun a tiu Adriano la alcunha de Chabiano por bias dun eipisódio passado quando el era garotico.

    Nun deimingo d’eimbierno, inda bien cedo, sous pais i armanos fúrun todos a la missa. Quedando l garotico mais nuobo solico an casa, antes de salir, diç-le la mai:

    – Adrianico, cuida de la quemida que stá ne l pote al lhume. Bei alhá se nun te queimas! Mas nun le deixes apagar. Se stubir a apagar-se, bota-le mais un trampo, i, se l’auga nun ampeçar a ferber, chega-le mais brasas al pote.

    Pa se calcer, l garotico pon-se al redor de l lhume i toca a chegar-le brasas al pote. Assi, ferbendo cada beç mais, l’auga ampeça a arramar-se pulas bordas de l testo. Cumo nun cunseguie dar cunta de l nabego, bota-se, aton, a correr, rue abaixo i dũa puonta a l’outra de l pobo, p’abisar la mai. Mas, stando yá todo mundo na eigreija i l cura a rezar missa, la mai, birando-se pa l garoto, ralha-le baixico:

    – Chiu!… Calha-te, rapaç!… Nun bés que stamos na eigreija i a missa?!…

    Bendo que nin sequiera la mai l’iba acudir, yá quaije zasperado, respunde-le el que, pul bistos, yá de garotico amostraba tener jeito para ambersar:

    – Nin chite, nin chote! Se quegirdes benir, beni, q’l chabiano arrebentou-se-mos ne l pote!

    I fui assi q’Adrianico Chabiano quedou. A par de la alcunha de família – pus mantubo inda la de ls Prietos –, einaugurou tamien ũa nuoba lhinhaige: la de ls Chabianos. Assi, a las filhas i al filho del, yá naide les chamarie Prietos, mas Chabianos.

    A quien nun sabe, sclareço que chabiano ye ũa bariedade de fumeiro, feita de massa de pan, sangre i gorduras de cochino i que, nesse tiempo, nun era muito de l agrado de la maior parte de ls garotos.

    L mesmo fizo l pobo culs dous outros armanos a que puso tamien inda outra alcunha: Joan Mantano ou Joan de la Manta a un, i Zé Perdiç al outro. Indas que todos Prietos d’alcunha, cada qual de ls trés armanos habie de passar la sue nuoba alcunha a la sue decendéncia: tiu Joan de la Manta als Mantanos, tiu Zé Perdiç als Perdigones i tiu Adriano als Chabianos.

    Mas, deixando, agora, de parte ls outros armanos…

    Morando un cachico abaixo de la nuossa casa, lhembra-me de, zde garoto, ber l tiu Adriano siempre mui afadigado a cuidar dun macho i dũa mula, de l sou burro, de dous perros i de l sou ganado.

    Home pequeinho i franzinico, tiu Adriano questumaba caminar cul pie squierdo atrabessado i arrastrando-le un cachico pul chano. Cumoquiera serie debido a ousar albarcas – ũas sandálias feitas de tiras de borraixa de pneu, mui duras i mal amanhadas, q’anton, habie. Sufrindo de la bista, nun bie grande cousa. Assi, ne l final de bida, nun tubo outro remédio, senó, ousar ócalos.

    Cumo era pastor, fazisse friu ou calor, alhá andaba quaije todo l santo die cul ganado por todos ls sítios de l termo d’Angueira que, por isso mesmo, coincie cumo la palma de las manos i poucos mais. Era un de ls poucos que, cula ajuda de sous perros, tenie todo l cuidado pa nun deixar que l sou ganado fazisse algũa lhobada. Mas, çfrentemente de l que de la maior parte deilhes se dezie, era tamien pa que las sues canhonas nun fússen, pori, armar algũa an qualquiera huorta ou n’algun pan. I se, mesmo contra la sue buntade, l’armássen, staba pronto a cumpensar qualquiera un a quien l sou ganado tubisse dado perjuizo.

    Dando-se bien cun toda la gente, cumo tamien cula sue tie, ls sous filhos i l restro de la família i cuidando cumo debe ser de ls sous perros, béstias i ganado, era un home sério i a que nun se le coincien einemigos.

    Trabalhador, pacato i respeitador, tamien nun se le coincien bícios nin era dado a fiestas ou al jogo. Çfrente de la maior parte de ls outros homes d’Angueira, nin sequiera iba pa la taberna. Assi i todo, al almuorço, al jantar i a la cena i, ũa beç por outra, mesmo fuora de las horas de quemer, apreciaba ũa pinguita! Assi, nun eimbierno mais friu, an que, alhá pul termo, quedou malo i se puso mui fraquito, mal chegou a casa, la tie Justina fizo-le ũas festicas, calciu-le las manos i dou-le un cacharrico de bino caliente i cun açucre que lhougo le fizo arrebitar.

    Que se saba i, oumenos, anquanto la tie Justina fui biba i se, yá de biúdo, deixarmos de parte algun namorico de bielhos, pa lhá de pequeinhas marotices i bien çfrente de l que farie l sou armano, tiu Joan Mantano, a tiu Adriano naide le coincie stórias cun outras ties.

    Tiu Adriano era casado cula tie Justina, ũa de las filhas de la tie Fábia i de l tiu Querido i, cumo tal, armana de la tie Eba, que, antes de, cul sou home i ls sous filhos, se mudar pa Figueirinha de Mogadouro, bibie na casa antre la de l tiu Chico Piçarra, la de l tiu Joanilha i la de l tiu Chetas, al fondo de l Cachon, yá cerca de la puonte de la Çanca i mesmo al fondo de Sante Cristo. Un cachico a la frente de la casa de la tie Eba, mas yá pa lhá de l ribeiro de l Balhe i an Saiago, quedaba la casa de ls pais de las dues armanas. Tenien tamien un armano, mas, qu’inda nuobo, scapou pa l Brasil.

    Tamien tiu Adriano i la tie Justina bibien an Sante Cristo, mas ne l cimo de l pobo, lhougo a seguir i abaixo de l tiu Zé Luís Pero i de la tie Bubiana Pera, quaije a la frente de la casa de la scola i porriba de la de l tiu Joan de la Manta. Apuis de la muorte de la tie Luisinha, la sue mulhier, este sou armano cuntinarie a bibir anté al final de bida i inda bien anhos, na mesma casa, mas, por queston de partilhas culs filhos, ne l lhado de riba, i cula tie Adozinda Cacaitas. Cumo tiu Mantano nun serie de star queto nin de fácele sustento, la sue cumpanha, que questumaba mesclar grabe i mirandés, a las bezes, queixaba-se a quien se metie cu’eilha:

    – O raio do Mantano nun me dá nin me deixa an çcanso!…

    L outro armano, tiu Zé Perdiç, bibie cula tie Studanta i quatro filhos – ls Perdigones – an Saiago, cerca de la eigreija, bien loinje de sous armanos. La filha mais bielha de la tie Studanta – la tie Delaide – yá era casada i bibie cun tiu Américo Furon an sue casa, quaije apegada a la parte de riba de la eigreija, porriba de la casa de l tiu Querido, na rue que dá pa l fondo de l Cachon, pa la Çanca i pa la Salina.

    La purmeira casa de bibir de l tiu Adriano i de la tie Justina nun daba diretamente pa la rue. Era na caleija antre este i la loija de las bacas i l palheiro de l tiu Mantano i lhougo a seguir al forno de cozer l pan. Sendo caras a naciente i birada pa la cortina de ls Prietos, ne l Balhe, antre la casa i la sue huorta, que pegaba mesmo cul ribeiro, tenien inda la parte de la lhadeira. Cumo la casa tenie dous pisos, de la puorta d’antrada chubie-se, por ũas scaleiras, pa l sobrado, adonde era la parte de bibir. Por baixo de l piso de baixo deilha, era ũa loija i la corteilha de ls cochinos.

    Caleija antre las casas de l tiu Adriano i de l tiu Mantano.pngCaleija de ls Prietos, antre la casa de l tiu Adriano, a la squierda, i, de frente, porriba i a la dreita, l palheiro i la loija de las bacas de l tiu Mantano. Por baixo i al fondo de la caleija, bei-se la puorta que dá pa l carreiron, pa las huortas i pa l ribeiro de l Balhe.

    Las paredes de la casa de bibir son de piedra piçarra, cula parte birada a naciente raiada de cal, i ls tranqueiros, la çapata i la troça de la puorta d’antrada i de la jinela, la baranda i la squina de cantarie. De la baranda i de la jinela de l sobrado, abista-se zde l fondo de l Balhe a la Francosa i anté al alto de las Eiras Grandes. Deilhi, subretodo na primabera i ne l berano, tenien, anton, ũas bistas splandorosas.

    casa-donde-purmeiro-bibirun-l-tiu-adriano-i-la-tie-justinaA la dreita, la casa de piedra piçarra raiada de cal, adonde purmeiro bibírun tiu Adriano i la tie Justina i, a la squierda, las traseiras de la casa de bibir, de la loija de las bacas i de l palheiro de l tiu Mantano.

    La caleija que aparta las casas qu’éran destes dous armanos dá tamien pa l Balhe, por un carreiron que serbie d’atalho pa ls lhabadeiros de l ribeiro i para s’ir a pie pa las Eiras Grandes.

    Era ne l ribeiro de l Balhe, na cortina de ls Prietos, que, d’eimbierno i na primabera, quando l ribeiro lhebaba mais auga, algũas ties de l cimo de l pobo íban a lhabar la roupa. Ls dous ou trés lhabadeiros, qu’ende habie, éran ne l canto al fondo de la cortina de l tiu Chetas i de la tie Blisanda Bitorina i de l lhameiro de l tiu Abílio Cadato i la tie Jubantina i al cimo de las huortas de l Balhe, junto al carreiron que dá pa las Eiras Grandes. Bondaba a las ties abaixar pul carreiron de la lhadeira – adonde nun les faltaba tamien buona beiga pa stendéren la roupa a secar – i stában yá ne l ribeiro.

    De berano, algũas dessas ties íban a lhabar la roupa ne l poço de la huorta de l tiu Coelhico, al fondo de la Francosa; las outras íban als lhabadeiros de l fondo de las huortas i de la caleija de l Balhe, de l Pilo ou de bários sítios de la ribeira: Cabada, Çanca, Puntones i mesmo de las Antraugas.

    Bista de l ribeiro i de las huortas de l Balhe, adonde las ties de l cimo de l pobo d’Angueira íban a lhabar la roupa. A la squierda, béien-se las Eiras Grandes i, a la dreita, l cimo de l pobo.

    Naquel tiempo, era ne ls lhabadeiros que las ties d’Angueira – ũas a la mano i cun auga i xabon i outras tamien cula lhéngua – íban a lhabar, i lhabában mesmo, la roupa suja de toda la gente d’Angueira. Inda antes d’alhá s’ampeçáren a bender ls puolos de lhabar roupa i ls apareilhos de rádio, yá an Angueira, i subretodo cula lhéngua, se lhababa mais branco! Era tamien ne l lhabadeiro que las ties dában cuonta i quedában a saber las nobidades de las pessonas d’Angueira – algũa moça sulteira q’andasse de barriga ou ũa mulhier tamien sulteira ou biúda q’andasse metida cun qualquiera home i inda outros scándalos –, que corrien inda mais delgeiras que l’auga nas anchenas de la ribeira i mesmo anté q’l bento.

    Uns anhos mais tarde, éran yá las filhas de l tiu Adriano i de la tie Justina moças feitas, sous pais mandórun fazer ũa casica nuoba, toda an cantarie, mesmo apegada i pul lhado de baixo de l sou curral que dá pa la rue de la Scola. Deixando l’antiga casa de bibir para arrumos, passórun eilhi a morar anté al final de sues bidas.

    Por ls dous armanos – tiu Adriano i tiu Mantano – séren bezinos i quaije de la mesma eidade de l tiu Zé Luís Pero, siempre houbo amisade i cunfiança antre todos trés. Coincendo-se bien i ajudando-se uns als outros siempre qu’era perciso, niun deilhes lhebaba a mal q’outro se botasse a fazer caçoada del. Assi, ne l die que fúrun a la tirar la suorte, tiu Zé Luís Pero, bendo tiu Adriano mui triste i çcunfiando que serie por nun tener quedado apurado pa la tropa i cumo, nessa altura, l sou bezino andaba cun cegucha ne ls uolhos, diç-le el:

    – Á Adriano, se nun fússen ls uolhos, tenies quedado apurado!…

    Todo zapuntado, tiu Chabiano deixa, anton, scapar:

    – Tafoda ls uolhos!…

    Antre las dues grandes guerras, quando inda nuobo i sulteiro, tiu Mantano, stubo eimigrado an Fráncia, a trabalhar nas obras, adonde ganhou ũas crouas. Quando tornou para Angueira, puodo, assi, cumprar mais fazienda – tierras, huortas i lhameiros –, ũa buona buiada i un ganado. Çfrente de sou armano, pus era bien mais fuorte i tenie mais perjunçon qu’el, tiu Joan Prieto – era tamien assi coincido l tiu Mantano – falaba grabe. Tenie tamien algũa sobérbia i muita proua culas sues bacas, ls sous bitelos i inda mais cul sou bui.

    Bida de pastor

     

    Inda nuobo, mas yá casado, tiu Adriano ampeçou por tener un ganado de meias cul senhor cabo Xabier. Mais tarde, cunseguiu lhibrar-se i çfazer l trato, quedando l ganado a ser solo del i de la sue tie. Assi, todo l santo die, fusse d’outonho ou d’eimbierno, tocaba-le a el tener q’andar, pul termo d’Angueira, atrás de las canhonas. Yá na primabera i de berano, era pul final de la tarde, a la nuite i purmanhana que tenie q’andar cu’el. Assi, passaba la maior parte de las nuites fuora i loinje de casa, a drumir junto de ls sous perros i de las sues canhonas, anroscado na sue mantica na cabanha, al lhado de l chequeiro. Claro que, ne l berano, de die, pula calma, l ganado quedaba amorrado ne l steio, an qualquiera touça ou algũa corriça de l termo. Mas, an março, abril i maio i an setembre i outubre, quando habie que lhabrar i tratar de las tierras i de las huortas, era a la tie Justina que, de die, le tocaba acupar-se del.

    Quando yá mais crecidicas, passórun a ser Guiomar, la filha mais bielha, i sue armana Glória, que, de tarde i apuis de la scola, les tocaba ir pa l ganado i andar atrás de las canhonas. Mas, a la nuite, era tiu Adriano q´l guardaba. Solo quando Zé, l mais nuobo de ls filhos i l único rapaç, quedou moço, fui a el que, de nuite i de die, le tocou l oufício de pastor i a andar siempre cul ganado.

    Pa lhá destes trés filhos i antre Glória i Zé, tiu Adriano i tie Justina tubírun inda outra filha, de nome Ana Marie, cumo sue madrina, Anica de la tie Bubiana Pera. Mas, nun arribando, acabarie por se morrer antes de tiempo, era inda pequerrica.

    Todos ls anhos, pul ampercípio de junho, un cachico antes d’antrar l berano, pa lhá de tratar de las tierras i de las huortas, habie tamien que çquilar las canhonas. Nun podendo ser el solo a fazer l serbício, tiu Adriano fazie trato culs tius Chafin, Faquito i Canoio pa l’ajudáren a çquilar l ganado.

    Casa de la scola.jpgEra pul lhado de riba i a la selombra de la casa de la scola que tiu Adriano questumaba çquilar l sou ganado.

    Outro de ls çquiladores era sou armano, tiu Joan Mantano, que, pa lhá de l ganado, tenie tanta proua cula cria, mas, subretodo, cul sou bui que, a las bezes, se ponie mesmo a cumparar las sues jóias de família culas del. I a quien le stubisse a scuitar daba-le mesmo a antender que nun serie el l menos abonado de ls dous. Claro que tiu Chafin, tiu Faquito i tiu Canoio, cada qual l mais lhebado de la breca i todos trés buonos trunfos, nun éran homes de çperdiçáren niũa oucasion pa le dezir i fazer de las sues.

    Nũa manhana de l ampercípio de junho, a la selombra de la parede de l lhado de riba de la casa de la scola, cerca de l sítio adonde questumaba parar la carrinha de la “Biblioteca Itinerante”, tiu Mantano, tiu Canoio, tiu Faquito i tiu Chafin trátan d’armar la banca pa la çquila de l ganado de l tiu Adriano. de tarde, al pegáren ne l trabalho, tiu Flisberto Canoio agarra ne l maron mais bielho de l ganado pa l çquilar. Nun bondando ser mui bien eiquipado antre piernas, l bicho tenie tamien dous grandes anfeites na cabeça. Apuis de l’atar las patas, yá de tejeiras na mano, pronto i a porpara-se pa le dar las purmeiras tejeiradas, scuitando uns passos, bei benir de baixo tiu Zé Luís Pero. Quando stá mesmo a chegar pertico deilhes, tiu Canoio bota l carneiro na stada de cuostas i cula barriga parriba. Aton, bira-se pa l bezino de riba de l tiu Adriano, i pregunta-le:

    – Ó Zé Luís, ora diz-me cá… Na tua maneira de ber, em que é que este carneiro marrão e o João Mantano mais se parecem um com o outro?

    Çcunfiando de qual serie la respuosta que tiu Canoio, tiu Chafin i tiu Faquito starien a la spera d’oubir, tiu Zé Luís Pero fai que se pon a oulhar bien pa l bicho. Aton, cumo, pa lhá de buona ferramienta, ten tamien la cabeça bien armada i anfeitada c’un grande par d’antenas, daqueilhas todas retrocidas, respunde-le el, cumo se nun le tubisse antendido:

    – Nun sei, Flisberto… Solo se fur, pori, na cabeça!…

    Claro stá que, pa lhá de grande risota, fui, anton eilhi, ũa galhofa pegada.

    A respeito dalgũas nobidades qu’íban chegando a Angueira, tiu Adriano tamien era capaç dalgũas marotices.

    Ne ls anhos sessenta de l seclo passado, ampéçan a aparcer por Angueira ls bendedores de redes d’arame i xaragones de scuma pa la cama. Claro que la maior parte de las ties bótan-se a cumprá-los. Mas, cumo la tie Justina nun pudo fazer l mesmo, an sue casa, cuntinórun inda mais algun tiempo a drumir an camas de fierros i xaragones de colmo de palha ou de fuolha de milho.

    Un ou dous anhos mais tarde, apuis de spormentar i del i la sue tie ampeçáren a drumir ne l nuobo xaragon, un die tiu Adriano diç pa l sou bezino de riba:

    – Caranho, Zé Luís! Oulha que, agora, ambéntan cada cousa! Yá nin un home puode drumir çcansado!…

    – Mas, anton, porquei, Adriano?

    – Sabes, la mie Glória cumprou-mos ũa rede d’arame i un xaragon destes todos modernos. Mas oulha que nun m’ajeito nada cu’isso! La mie tie bai-se a deitar purmeiro i, cumo ye pesada, afunda-se toda ne l xaragon. Assi, quando me bou tamien a deitar, la mie Justina bira-se na cama. Anton, you, que sou mais lhebezico, ampeço a saltar, a saltar… i, quando me dou de cunta, yá stou an riba deilha. Bei alhá tu que, a las bezes, anté mos fai pecar!…

    Pa lhá de trabalho, nun era grande la despesa q’un ganado questumaba dar. Bondaba l pastor andar cu’el pulas aradas, por qualquiera adil ou baldiu, pulas bordas de ls caminos i las marges de ls ribeiros pa pascer la yerba i pul monte pa rober silbas, fuolharascas, rebentos de bercego, urze, codesso, chougarço, tomielho ou outro monte. Feita la segada i acabada la fuolha, era lhebar las canhonas i deixá-las andar ne ls restrolhos a apanháren las spigas de trigo ou de centeno que ls segadores tenien deixado quedar ne l chano.

    De berano, debido al caloraço, a meio de la manhana i anté al final de tarde, las canhonas amórran. Assi, solo a la nuite ye q’l pastor podie pagar l restro de la despesa que daba l ganado: strumar las tierras por troca culs lhabradores. L trato antre eilhes questumaba ser assi: deixas que las mies canhonas arrebánhen la yerba de la tue cortina que you, an troca, monto l chequeiro i pongo l miu ganado alhá a drumir pa, de nuite, la strumar.

    Assi, l pastor i l lhabrador quedában ambos a dous a ganhar. Ye que, adonde l ganado pascie, quedaba todo lhimpo, sin yerba; i, adonde drumie, quedaba todo bien strumado i cheno de caganetas.

    Angueira: corriça de l tiu Massemino i de la tie Marie Caldeira al lhado i a la frente de la sue huorta de Bal de Conde. Retrato partilhado pula porsora Fátima Malheiro a quien agradeço por me tener outorizado a publicá-lo.

    Nesse tiempo, ne l termo d’Angueira i a la buolta de la poboaçon, habie cerca de binte corriças i que, ambora quaije todas sbarulhadas, inda hoije alhá se manténen. Algũas deilhas éran de lhabradores que nin sequiera tenien ganado. Qual serie la rezon d’haber assi tantas? Ye que, nas nuites mais fries de l eimbierno, quando chubie muito ou nebaba i era mais fácele ls lhobos fazéren algũa lhobada – atacáren las canhonas de qualquiera ganado –, l pastor ancerraba l sou ganado nũa corriça pul termo. Assi, pa lhá de las canhonas, ganhaba l duonho de la corriça pus quedaba cul strumo de l ganado que, de nuite, alhá quedasse ancerrado i ganhaba tamien l pastor pus, stando l ganado mais abrigado i siguro, podie ir a drumir an casa, mais caliente i çcansado.

    Mas nun se podie bibir solo de l ganado, de la benda de canhonos i bazias ou dũas arrobas de lhana…

    L burro de l tiu Adriano

    L tiu Chabiano tenie ũa pareilha de mulas – un macho i ũa mula – pa lhabrar las sues tierras de trigo i de centeno i las huortas de l Balhe, de la Mediana i de Souganho que dában mui buonas patatas, coubes, nabiças i inda ferranha, milho, bóbidas pa las béstias i pa cebar dous lharegos. Pa cuidar de l sou ganado i fazer todos estes trabalhos, tiu Adriano andaba siempre dun lhado pa l outro. Bá lá que tenie l sou burro a la çposiçon i que le daba bien jeito. Nas folgas de l trabalho, las sues béstias çfruitában de l lhameiro de Boca ls Balhes que la tie Justina tenie hardado de sous pais: la tie Fábia i l tiu Querido.

    L lhameiro de l tiu Adriano de Boca ls Balhes. Pul meio deste lhameiro, adonde stá la fileira de freznos, passa l ribeiro de l Balhe que, nacendo an Ourrieta l Castro eiqui se junta al de la Rebulheira. Passando apuis pula Francosa, pul Balhe, Pilo i Cachon, bai a zaugar na ribeira mesmo porriba de la puonte de la Çanca.

    Mas, por bias de ls sous bícios i manhas, ũa beç por outra, l sou burro pregaba las suas partidas al sou duonho.

    Nũa tarde inda bien caliente de berano, stando yá de cerron a l’ombro i cula mantica subre las cuostas, tiu Adriano porpara-se para ir pa l ganado antes qu’este zamorrasse i scapasse de l steio, que era bien loinje, antre ls Salgadeiros i Bal de Conde. De riba de l sentalho que tiu Zé Luís Pero tenie a la sue puorta, tiu Adriano puxa pula arreata pa l sou burro s’arrimar. Cula pierna squierda lhebantada ne l aire, pronto pa se botar parriba de l burro, al poner l calcanhal pa se lhançar subre el, l burro ampeça a andar pa la frente. Speta, assi, cul tiu Adriano ne l chano. Al salir de la preça de casa i ber l sou bezino cair zamparado, de cuostas i para trás, i dar cul lhombo ne l chano, tiu Zé Luís Pero diç pal sou Eimilio:

    – Carai!… Este yá se fodiu!…

    Bendo, apuis, un líquido burmeilho a scorrer ne l chano, que parcie star a salir de las cuostas de l tiu Adriano, tiu Zé Luís inda mais preacupado quedou. Mas, lhebantando-se de pronto i bendo-lo nessa afliçon, tiu Adriano pon-lo lhougo mais çcansado:

    – Nun te preacupes, Zé Luís! Oulha qu’isto ye solo dũa garrafica de bino que lhebaba eiqui nel fardel pa la mie cena!…

    Nesse tiempo, íban chegando a Angueira las nobidades, algũas de las últimas ambenciones, antre eilhas las de quemunicaçon a la çtáncia. Inda mal you tenie antrado pa la scola, yá habie alguns apareilhos de rádio an Angueira. Lhembra-me d’Antonho Zilro i ls Manulones ponéren ls sous rádios, a la jinela i a tocar bien alto, pa quien quegisse scuitar las nobidades de la guerra an Angola, uns fados d’Amália Rodrigues, Fernando Farinha i Tony de Matos i ũas musiquitas de ls cunjuntos Maria Albertina i António Mafra i l’acordeonista Eugénia Lima…

    Mas tamien, indas que funcionando por óndias çfrentes de las hertzianas, se podie quedar a saber las nuobas de las pessonas d’Angueira que, de boca an boca i mais debagarico, íban chegando a toda la gente. Cuontaba-se, anton, q’ũa tie, que – nun sei porquei, anté porque tenendo tiu Chabiano un burro tan baliente que nun era nada squesito i nunca se negaba a fazer l trabalho – fui a chegar la sue burra a un de ls burros de l tiu Agusto, l cigano le tenerá chamado a la atençon pa l bistaço q’ls sous animales fazírun al abistáren i les cheirar la sue burra:

    – Olhe só p’rá qualidade destes dois animais, o Bagueixe e o Serra!…

    Antón, eilha, bendo bien la culidade de trabalho de l bicho que sculhiu pa la funçon, tenerá comentado:

    – Si, si bai… bai bien guiado!…

    I, spantada cul strumento de trabalho de l burro, nun sei quien la tenerá oubido dezir, antre dientes i cumo quien nun quier la cousa:

    – Si, stá bien abiado! Un cumo este yá balie la pena!…

    I – quien sabe? – balerie mesmo!… Que, nestas, cumo antre outras cousas mais, melhor que qualquiera home, las ties ye que sáben…

    Cuontaba-se tamien que, a quien, na sue taberna, le amentasse nas marotices de l tiu Cereijas quando era nuobo, la tie Mari’Inácia só dezie subre l sou home:

    – Si, si… este yá se podie mandar pa l prado sin apeias!…

    Retrato tirado por Julissa Helmuth an Pexels.com

    Bien çfrente era l causo de l burro de l tiu Adriano, un bicho que, yá nun sendo nuobo nin mui grande, era bien arisco, danhado pa la brincadeira i mui animado pa la fiesta. I nun le faltában bícios i manhas. Tenie tantos que nin podie ber ũa burra cerca del pus quedaba todo alborotado. Anton, s’eilha andasse zounesta, ye que era l cabo de ls trabalhos. Sacaba lhougo de sou strumento i botaba-se a roznar i a correr atrás deilha cul pendericalho, colgado de la barriga i çpindurado antre las patas, todo a la mostra, a balanciar pa todos ls lhados i quaije a arrastrar-lo pul chano. I nun habie quien fusse capaç de sigurar l bicho i dar bida del. Parcie mesmo que staba cul diacho ne l cuorpo i que só querie brincote…

    Tamien nun será defícele d’eimaginar l que, por su beç, ũa burra zounesta serie capaç de fazer. Nestas situaçones, l burro i la burra zatában a correr, el atrás deilha, todos animados; i, apuis de la burra dar uns pinotes, alhá acabában por se poner de acuordo, fazer las pazes i tratar de l negócio. Nun sendo birges na cousa, nin el nin eilha stában eilhi cun cerimónias i, inda menos, cun bergonhas. Que, bien bistas las cousas, nun serie causo para tanto…

    Nestas cousas, ũa burra zounesta nun se quedaba atrás nin se çfrenciaba muito dũa baca touronda. Lhembra-me bien cumo, quando andaba touronda, la nuossa Ginja quedaba tamien toda sterloucada. Se stubisse nun lhameiro, nun habie nin buieiro nin parede que fússen capazes de la ampedir de poular para fuora i se botar a la porcura de bui. Mas, se la parede la ampedisse i apanhasse l buieiro çtraído, nun stantico, era capaç de meter un cuorno antre las piedras pa sbarrulhar l boqueiro ou un de ls lhados de la carreteira por donde salien ls carros de bacas, cargados de feno ou de lheinha, i scapar-se.

    Un die la nuossa Anica staba culas bacas ne l lhameiro de Bal Molhado. La Ginja, q’andaba touronda, toca de poular porriba de la parede para fuora de l lhameiro i botou-se a andar para donde le dou la belharaça. Assi, quando mie armana chegou a casa i le cuontou l que s’habie passado, nuosso pai çcunfiou que cumoquiera la baca starie por Malhadas, adonde, quando eilha era inda sobrana, l’habie cumprado i tamien, siempre q’andaba touronda, la questumaba lhebar pa la chegar al bui de l posto. Anton, calculando qu’eilha s’antecipou a el, miu pai botou-se, da peto, a camino de Malhadas. I nun ye q’alhá staba eilha a la buolta de l posto i a la spera!…

    Noutro die, quando la nuossa buiada, benida de Balhe de l Quadro, apuis de passar al lhado de la capielha de Sante Cristo, antre la casa de l tiu Ernesto i la de l senhor Zé Fuda i l curral de l senhor Aran, ũa baca de l tiu Zé Coiro, qu’era mui mala rés i benie de riba, angarrou-se cula nuossa Dourada. Stando de l lhado de baixo, la nuossa baca, mesmo sendo de genica, ampeçaba a ser arrastrada por eilha. Nun sfergante, la nuossa Ginja pon la cabeça por trás de las patas traseiras de la Dourada i ampeça a ampurrá-la cun toda la fuorça parriba. Assi, desta beç, la baca de l tiu Zé Coiro acabou por se salir mal de la lhuita an que s’habie metido.

    Quaije custa a crer l que, a las bezes, passa por la cabeça de ls animales i cumo ye q’ũa baca podie ser tan spierta! Pul que la nuossa Ginja amostraba, quaije parece que, pa lhá de, na Criaçon, Dius se tener anganhado, nun çtribuindo la sperteza por eigual antre todas las speces animales, acabarie, apuis, por fazer l mesmo cun cada un de ls animales de cada spece…

    Mas, tornando als bícios i manhas de l burro de l tiu Adriano…

    Cumo se puode ber, nun fui por perguícia nin por culpa de l burro de l tiu Adriano que, uns anhos mais tarde, bichos de la sue spece ampeçarien, tamien por eilhi, a scassear. Mas, pa se poder abaluar melhor cumo este burro, que fazie cun muita deboçon estas rezas, era de grande dedicaçon a la causa de nun deixar zaparcer la spece, grande sabedor i quaije doutor nesta arte, bondará cuontar mais dous eipisódios.

    Un die, al cimo de la Beiga de l Casal, antre la parte de trás de la casa de la scola, l casal de l tiu Joan Ratico i la tie Justina Rata – sítio adonde, mais tarde, Teófilo i Palmira Cereijas habien de custruir la sue casa – i l casal que tiu Zé Coiro i la tie Zulmira Sicha cumprórun a tiu Raposo – l sítio adonde fazírun l sou forno de cozer l pan –, staba Beríssimo de la tie Fuciana a sigurar l burro pula arreata pa que tiu Adriano le çcargasse a la buntade. Abistando al loinje ũa burra que benie de riba, l zalmado dá un sticon a la cuorda i cunsigue soltar-se i lhibrar-se de l’arreata. Atira cula albarda i la carga al chano, scapa i bota-se a correr na direçon de la burra. Mas, tiu Zé Luís Pero, que staba por eilhi, bendo l que se staba a passar, coincendo las manhas de l bicho i sabendo de l qu’el era capaç, nun sfergante, ancerra la burra ne l curral de la tie Bubiana Pera. Quedando sin la ber, mas tenendo a la frente del un búltio castanho i negro, l burro lhebanta las patas delantreiras i atira-se parriba dũa baca que staba ne l camino. Pa le refrear l ánimo, la baca speta-le dous balientes couces ne l çufino i, de seguida, pa l acalmar de beç, dá-le ũas scornadas ne l lhombo i na traseira. Dessa beç, l burro tubo de se cuntentar culs couces i las scornadas de la baca.

    Alguns anhos mais tarde, quando l burro tenie mais eidade i parcie star quaije a la puorta de la muorte, l tiu Adriano nun cunseguie fazer cun que s’alhebantasse na loija. Anton, chama sou armano i l tiu Zé Luís Pero pa le botáren ũa mano. Bendo-lo assi tan murchico, mas coincendo bien la tempra de l bicho, tiu Zé Luís bira-se pa tiu Mantano i diç-le:

    – Á Joan, la tue burra ruça nun anda zounesta?! I se fusses por eilha i la trazísses eiqui pa que l burro d’Adriano la puoda ber i cheirar? Quien sabe se, assi, nun ye capaç de çpertar, s’animar i de se poner a pie?!…

    Dito i feito, tiu Mantano assi fizo. I, lhougo qu’eilhi chega cula sue burra, bira-le de traseira pa l çufino del i nun ye que l diacho de l burro, al cheirar-le l rabo, ampeça a spernear i, de seguida, se pon a pie?! Assi, mesmo sin qualquiera reza, parcie mesmo un milagre: l bicho parcie tener rucecitado… Bendito remédio!… I, apuis disso, inda habie de tener pula frente mais alguns anhos de bida…

    Mas naide – seia pessona ou animal – dura para siempre ou ye eiterno.

    L Cabeço de la Quecolha. A la dreita, la barreira birada caras a Abelhanoso i que dá pa l Facho.

    Nun deimingo de l final de primabera, la tie Justina bai a lhebar la sue pareilha de mulas i l sou burro a la cortina qu’era de la tie Bubiana Pera i ne l Facho. Yá mui belhico, fraquito i cansado, mal alhá chega, deita-se na yerba. Pul final de l die, las mulas bótan-se a camino de casa. Nun querendo quedar pa trás, l burro fai fuorça nas patas delantreiras pa se lhebantar. Debalde, de nada le baliu l redadeiro sforço pa se lhebantar. Ye que, desta beç, las patas se negórun a oubedecé-le. Nin que le rondasse l lhobo mais feroç, nin mesmo que se le ponisse a la frente la burranca mais guapa i zounesta, el serie yá capaç de se poner a pie.

    Passado l lhusque-fusque, era yá nuite scura i el, ne l termo d’Angueira, mas birado caras a la poboaçon d’Abelhanoso, inda lhebanta la cabeça pa l cielo i oulha pa la Streilha Polar. Passado un cachico, solta un gemido – era yá mais q’un roznar –, cerra ls uolhos i ls sous bícios i manhas acabórun-se-le de beç.

    Inda nin a meio stariemos de ls anhos nobenta de l seclo passado, alguns anhos apuis de la tie Justina i lhougo a seguir al tiu Zé Luís Pero se tenéren çpedido deste mundo, mas inda bien anhos antes de l tiu Joan Mantano, que, ambora fusse mais bielho, le subrebiberie inda uns anhos, chegou tamien la beç de tiu l Adriano antregar la alma al Criador. Bendo yá mui mal, ũa nuite, al chubir las scaleiras de casa pa s’ir a deitar ne l sobrado, naide sabe se torpeçando ou perdendo l’eiquilíbrio, rebolou por eilhas abaixo. Debido al tombo que dou, acabarie por dezir adius a este mundo, deixando soudades a la família i a mais gente d’Angueira.

    Bocabulairo \\vocabulário

    Abaluar – avaliar \\ abiado – despachado, servido \\ adebinar – adivinhar \\ adius – adeus \\ adonde – aonde \\ adondequiera – onde quer que seja \\ al – ao \\ alantre – em frente, avante \\ albarcas – sandálias grosseiras feitas de tiras de pneu de borracha \\ alborotado – alvoroçado \\ alhá – lá \\ ambencion – invenção, inovação \\ ambierno – inverno \\ amentar – referir, falar \\ amorrado – adormecido; em estado de letargia do rebanho devido ao calor \\ ampeçar – começar \\ ampedir – impedir \\ an – em \\ anganhar – enganar \\ angarrar-se – pôr-se a lutar \\ antes de tiempo – prematuramente \\ anton – então \\ antre – entre \\ apartar – separar \\ apeias – peias \\ apuis – após, depois \\ armano – irmão \\ arramar – verter \\ auga – água \\ balhe – vale \\ baliente – valente \\ bazia – ovelha nova e que ainda não criou \\ beç – vez \\ belharaça – maluqueira \\ berano – verão \\ bielho – velho \\ bien – bem \\ bino – vinho, veio \\ birge – virgem \\ biudo – viúvo \\ bui – touro (Nota: na Terra de Miranda, não se castram os bois. Por isso, em mirandês, a distinção entre boi e touro não faz sentido) \\ bóbida – abóbora \\ boqueiro – espécie de porta de entrada/saída dos animais no lameiro \\ botar-se – pôr-se (a caminho) \\ buiada – manada de vacas \\ buieiro – boieiro \\ búltio – vulto \\ buntade – vontade \\ buolta – volta \\ burranca – burra nova \\ burmeilho – vermelho \\ cachico – pouquito \\ calcer – aquecer \\ calhar – acontecer \\ caliente – quente \\ canhona – ovelha \\ cantarie – cantaria, granito \\ carreiron – carreiro \\ carreteira – espécie de portão de entrada/saída dos carros de bois numa propriedade agrícola cercada por parede \\ çcanso – descanso \\ çcarga/r – descarga/descarregar \\ çcoincido – desconhecido \\ çcunfiar – desconfiar \\ cebar – engordar \\ cegucha – com remelas \\ cena – ceia \\ cerron – fardel, saco da merenda \\ çfazer – desfazer \\ çfrente – diferente \\ çfruitar – desfrutar \\ chano – chão \\ chequeiro – redil, cerca de caniças onde o pastor guarda o rebanho durante a noite \\ chubir – subir \\ cielo – céu \\ cochino – porco \\ coincer – conhecer \\ colgado – suspenso \\ corteilha – corte dos porcos, pocilga \\ cortina – terreno fértil cercado por muros de pedra \\ corriça – construção retangular em pedra solta, telhada ou não, onde o pastor encerra o rebanho nas noites de invernia \\ çpedir – despedir \\ çperdiçar – desperdiçar \\ çpindurado – dependurado \\ çposiçon – disposição \\ çquila/r – tosquia/r \\ criaçon – criação \\ çtáncia – distância \\ çtribuir – distribuir \\ çufino – focinho \\ cul/a – com o/a \\ culidade – qualidade \\ danhado – atrevido, danado \\ da peto – se propósito \\ debagarico – lentamente \\ defícel/e – difícil \\  deilha – dela \\ del – dele \\ dezir – dizer \\ diente – dente \\ Dius – Deus \\ donde – onde, de onde \\ dũa – duma \\ eidade – idade \\ eigual – igual \\ eilha – ela \\ eilhi – ali \\ eiqui – aqui \\ el – ele \\ fácel/e – fácil \\  feitiu – feitio \\ fondo – fundo \\ fuora – fora \\ ganado – rebanho \\ grabe – Português \\ hardar – herdar \\ huorta – horta \\ jinela – janela \\ l – o \\ la – a \\ le – lhe \\ lhá – lá \\ lhabrar – lavrar \\ lhadeira – encosta \\ lhado – lado \\ lhafrauzada – asneira, safadeza \\ lhameiro – lameiro \\ lhana – lã \\ lharego – porco, reco, larego \\ lhembrar – lembrar \\ lhimpa – limpa, trilha do cereal na eira \\ lhinha – linha \\ lhobada – ataque de uma alcateia \\ lhombo – lombo \\ loija – corte dos animais \\ loinje – longe \\ malo – doente \\ manhana – manhã \\ maron – carneiro de cobrição \\ nin – nem \\ nó – não \\ nobidade – notícia, novidade \\ nũa – numa \\ nun – não, num \\ nuobas – novidades, notícias \\ palantre – p’rá frente \\ pan – seara, pão \\ parcer – parecer \\ pendericalho – coisa pendurada que serve de enfeite \\ pequerrica – pequerrucha \\ perjunçon – orgulho \\ perro – cão \\ piçarra – xisto \\ pie – pé \\ poner – pôr \\ pongo (forma do verbo poner) – ponho \\ porcura – procura \\ porparado – preparado \\ porparos – preparos \\ porquei – porquê \\ poular – saltar \\ proua – vaidade \\ pul/a – pelo/a \\ purmanhana – ao alvorecer \\ pus – pois \\ quegir/des – (forma do verbo querer) quiser/des \\ quemunicaçon – comunicação \\ respuosta – resposta \\ roznar – zurrar \\ rucecitar – ressuscitar \\ sbarrulhar – derrubar \\ scaleiras – escadas \\ scarranchar-se – montar de pernas abertas \\ scassear – escassear \\ sculhiu – (forma do verbo sculhir) escolheu \\ scornada – marrada com os chifres \\ scuitar – ouvir \\ sfergante – instante \\ sobérbia – arrogância, soberba \\ solico – sozinho \\ spece – espécie \\ spetar – dar, aplicar, deitar abaixo \\ splandor – esplendor \\ sperteza – inteligência \\ spormentar – experimentar \\ squina – esquina, canto exterior de uma casa \\ stantico – instante \\ star – estar \\ steio – sítio com sombra onde as ovelhas passam as horas de maior calor dos dias de verão \\ sterloucada – tonta, doida, desvairada \\ sticon – esticão \\ streilha – estrela \\ strumar – estrumar \\ strumento – instrumento \\ stubisse (forma do verbo star) – estivesse \\ subrebibir – sobreviver \\ subreciente – suficiente \\ talbeç – talvez \\ tafoda – raios parta \\ teç – pele \\ tempra – têmpera \\ touça – moita de pequenos carvalhos \\ touronda – vaca com cio \\ trato – contrato \\ uolho – olho \\ xabon/ete – sabão/sabonete \\ xaragon – forma como em Angueira se dizia colchão \\ yá – já \\ ye – (forma do verbo ser) é \\ yerba – erva \\ zafio – desafio \\ zalmado – desalmado \\ zaparcer – desaparecer \\ zapuntado – desapontado \\ zasperado – desesperado \\ zaugar – desaguar \\ zde – desde \\ zounesta – designação que se dava em Angueira a uma burra com cio, desonesta

    Para saber o significado de outras palavras, sugiro a consulta do sítio

    http://www.mirandadodouro.com/dicionario/

    Se quiser visualizar algumas fotos aéreas de Angueira, sugiro a consulta do blogue:

    http://portugalfotografiaaerea.blogspot.pt/2017/01/angueira.html

    Caso queira saber a localização de alguns sítios do termo de Angueira – as informações orográficas e a toponímia em Mirandês foram, respetivamente, inscritas pelo David Domingues e por mim próprio –, carregue no “link”:

    www.openstreetmap.org/searchquery=Angueira%2C%20vimioso%2C%20portugal#map=12/

    Se quiser aderir ao grupo Angueira Atalaia ou a outro dos 23 grupos da Rede Atalaia, basta acrescentar ao nome de cada localidade do concelho de Vimioso a palavra Atalaia. Pesquise, depois, o nome do grupo no Facebook e peça a sua adesão ao mesmo.

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  • Cousas de la Bida de l Tiu Galharito i de l Tiu Almonico

    outubro 2nd, 2016

    Agradecimiento

    Oubrigado a todos ls que me fúrun dando algũas andicaçones subre ls tius Miguel Galharito i Zé Almonico, las pessonas mais ambolbidas nesta cuonta: Glória Miguel, filha de la tie Sprança i de l tiu Antonho Cadato; Goreti Martins, filha de Marie Rosa Bileira i de l tiu Norberto Cassaco i nieta de l tiu Eibangelista Bileiro; Oudete Stebes i sue mai, la ti’Ana Fuciana; Amílcar Gonçalbes, de la família de ls Manulones, filho de la tie Bubiana Guicha i de l tiu Manuel Zé; Jorge Fernandes, filho de Ramiro Patuleia i, cumo tal, nieto de l tiu Zé Patuleia i de la tie Glória Ronda; Zé Luís Rodrigues, filho de la tie Teresa i de l tiu Zé Quinteiro; a Fernando Jorge i a sous pais, miu primo Aran Stebes i la dona Antoninha. Se nun fússen todos eilhes, nun me tenerie sido possible screbir este testo.

    Lhembrar las pessonas que, antre ls anos setenta i nobenta de l seclo passado, mos fúrun deixando, ye ũa forma, indas que sencielha, de las houmenagear. Se la maior parte deilhas deixórun decendéncia, filhos i nietos, sous hardeiros que, dando cuntinidade a la família, las ban mantenendo na mimória, outras hai que, nun la tenendo deixado, acabaran, mais cedo ou mais tarde, por ser squecidas. Assi, quando mos deixáren todos ls que cu’eilhas cumbibírun, deficelmente seran lhembradas por quienquiera que seia.

     

    Tiu Galharico i l tiu Almonico

     

    Quando me pongo a çfilar l nobielho de las mimórias de las mies anfáncia i mocidade, hai ũa pessona que me ben lhougo a la lhembráncia, tornando-se tan persente cumo se stubisse inda a ber aqueilha figura cun aire de profeta a la mie frente: l tiu Antonho Miguel Galhardo ou, cumo quedou mais coincido, tiu Miguel Galharito, la alcunha que le dórun. Era un home pequeinho, de teç morena, ciego de un uolho – yá nun me lhembra se de l squierdo ou de l dreito, nin cumo nin porquei l tenerá perdido –, deixaba adabinar uns restros de dientes por trás de l sou bigote eigual al de Charlot. Assi i todo, stou an crer que talbeç bisse el mais solo cun uolho que muitos cun dous.

    Sendo bileiro i cuido que nacido ne l ampercípio de l seclo passado an Bumioso, apuis d’haber tornado de la Fráncia, casou cula tie Marie Rosa Galharita. Passou, anton, a bibir an Angueira, nũa casica terreira, antre dues caleijas de la Rue de Sante Cristo: ũa q’ampeça cerca de la casa de l tiu Lazarete i de la ti’Ana Cagada i la outra na casa de l tiu Joan Ratico i de la tie Justina Rata i antre estas dues casas i caleijas quedaba la casa de l tiu Eibangelista Bileiro i de la tie Claudina i, na parte de trás desta, la casica de ls Galharitos.

    Inda nuobos, ls Galharitos bírun scapar de casa quaije todas las sues filhas, pus tamien eilhas tubírun que botar-se a porcurar mundo i a fazer pula bida. La maior parte deilhas cedo scapórun pa Lisbous i pa la América. Que me lhembre, an Angueira, apuis de tener ido a la tropa i de tener stado algun tiempo ne l Canadá, solo quedarie l sou rapaç, Manuel Negro, l mais nuobo de todos i que, sendo mui zambuolto pa la bola i pa l trabalho, seguiu l oufício de sou pai. Tamien solo me lhembra dalgũas bezes ber por Angueira Isaltina i l sou filho, Manuel Joquin, que bibien an Lisboua. Tal cumo sou abó, tamien l filho d’Isaltina era ciego dun uolho que perdiu nũa de las brincadeiras de garotos.

    Ambora seca de carnes, la tie Galharita era ũa tie mui baliente. Sendo cuntrabandista, nuite si, nuite nó, mesmo que chubisse i fazisse friu, sola ou cun algũa de las outras cuntrabandistas – la tie Marie Júlia, la tie Canhona i, uns anhos mais tarde, tamien Sabel Cochinica –, alhá se botaba eilha a camino d’Alcanhiças pa fazer pula bida. Si que ls filhos éran bários i habie que bestir, calçar i dar de quemer a todos eilhes.

    Retrato de la Tie Marie Rosa GalharitaTie Marie Rosa Galharita. Retrato partelhado por Elisabete Rodrigues, filha de Manuel Negro, i cumo tal, nieta de la tie Galharita i de l tiu Miguel, an Angueira Atalaia.

    Stá bien de ber que las cuntrabandistas eibitában las horas i ls sítios de l camino adonde, cerca de la raia, ls guardas fiscales i ls carabineiros questumában i poderien star a la spera deilhas. Cumo a la nuite todos ls gatos son pardos, siempre ye mais fácel scunder-se quien nun quier s’amostrar i passar zapercebido pa nun ser bisto. Assi, era pul final de la tarde que, cada qual argada cun fardo de café, cumprado al tiu Morais ou a la tie Bexela, alhá íban eilhas a camino d’Alcanhiças: de la Francosa pa l Lhombo de las Eiras, passando pul fondo de l Rodelhon pa la Catalina, l Barreiro i las Abelheiras; seguindo pul fondo de la Marmolina i puls Salgadeiros, yá ne l termo de Samartino, íban a dar a la raia; apuis, pul carreiron de las Lheiteiras, alhá chegában al sou çtino. Fusse por este camino ou, outras bezes, pul carreiron de l meio – d’Alcanhiças, por antre la caseta de la Guarda Cibil i la de la Guarda Fiscal, íban a dar a la raia nas Trés Marras; seguindo pa Cruç Branca, la Malhadica, Cabeço Alto, l cimo de la Marmolina até Standeiro de Pardos; de l cimo de l Rodelhon, abaixában pul Cabecico de la Bilha pa Boca ls Balhes i pula Francosa chegában a casa –, a la nuitica, pul lhusque-fusque, alhá tornában eilhas, cada qual cun sou fardo de cuntrabando a las cuostas: cortes de pana, tortas, alparagatas, gorras, botas pa l bino, cántaros i caçuolos; algũas gadanhas i fouces, se fusse ne l tiempo de segar ls lhameiros ou na segada; lhatos de lheite cundensado p’algun garotico que sue mai habie deixado de l dar; rebuçados, biscoitos, galhetas i outros doces; i inda outras cumenéncias que las pessonas de l pobo mandában benir se Spanha.

    Se, na ida d’Angueira para Alcanhiças ou yá na benida para Angueira – ou seia cerca de dieç quilómetros i quaije dues horas para un lhado i outros tantos pa l outro –, ls carabineiros ou ls guardas fiscales le salíssen al caminho i las apanhássen, assujeitában-se a perder la carga toda. Mas, era assi que, scundendo-se deilhes ou anganhando-los, nun jogo cumo l de l gato i de l rato, las cuntrabandistas ganhában la bida. Claro q’algũas deilhas – las qu’éran sulteiras, cumo stá bien de ber –, amanhában outras maneiras de lhebar la auga al sou molino, antendendo-se cun eilhes ou cousa parcida. Mas nun era esse l causo de la tie Galharita a quien nun le faltaba home an casa.

    Cumo tenie muito jeito i buona mano na cozina, la tie Marie Rosa era muitas bezes cumbidada puls mardomos pa fazer la quemida de las fiestas an sues casas i até mesmo pula rapaziada pa fazer la cena ou la quemezaina de la Machorra.

    Yá tiu Miguel, que tenie l’oufício de trolha, pa lhá de la (re)custruçon de casas, tenie inda que, cumo todo-mundo, cula ajuda de ls filhos i dũa pareilha de burros, cuidar dũas terricas i tamien de la sue huorta al cimo de la çuda de l molino de Terroso, antre al fondo de la caleija de Peinha Ferreira i l ribeiro de la Puontelhina, cerca de l sítio adonde na marge dreita este ribeiro zauga na ribeira. Al cimo desta huorta, que tenie siempre mui bien cuidada i mimosa, i mesmo cerca dũas fragas, adonde, dantes, questumaba fazer ũa chorça de palos i fuolhas d’amineiro, fizo, apuis, ũa casica, de piedra i cal, cercada de bárias arbles de fruito. Era neilha que passaba la nuite siempre que, soutordie, tenie que cuidar de la huorta i adonde guardaba tamien las guinchas, la patarra, l çacho, la çada i outros strumentos de trabalho pa tratar deilha. Si, que, na maior parte de las bezes, era yá a la nuitica que, cul ciguonho i baldo a baldo, tiraba l’auga de l poço pa la çpejar na augueira i, assi, regar las cebolhas, ls pumientos i ls freijones. Ye que, de berano, l ribeiro secaba i la ribeira inda quedaba loinje. Zafertunadamente, hoije, essa casica stá toda eilha cercada de silbas i outro monte i ampeça yá a sbarulhar-se i, tanto de la caleija que baixa de Peinha Ferreira pa la ribeira cumo de l caminho que, pula marge dreita de la ribeira, de Terroso dá pa la Yedra, yá nin sequiera s’abista. I ye pena, pus era bien antressante!…

    Casica na huorta de l tiu Miguel Galharito an Terroso. Retrato tirado ne l final de l seclo passado.

    Tiu Miguel questumaba caminar culas manos atrás de las cuostas i andar siempre cul restro de sou charuto gordo, meio apagado, çpindurado al canto de la boca i, a las bezes, inda cun cigarrico na oureilha. Ye que, quando se l’acababa l charuto, fumaba mata-ratos, acendendo un cigarro ne l outro, qu’era tamien ũa forma de poupar cerilhas. Tenendo un aire grabe, mui sério i pensatibo, nun era home de risa fácel. Olhai que nun me lhembra d’algũa beç le tener bido ls dientes. Home de poucas falas, las sues palabras tenien quaije la fuorça dũa senténcia.

    Mui crítico subre todo l que se passaba an Angueira, ne l paiç i ne l mundo, era, assi i todo, ũa figura debertida, cun toda aqueilha graça que ye própria de las pessonas mais outénticas. Cumoquiera serie analfabeto, mas amostraba nun ser analfabruto. Nun sendo home de andar solo cula cabeça antre las oureilhas, amostraba tener cuncéncia política. Assi, nun se calhaba cun todo – i era tanto! – l que, a la sue buolta, bie de mal, subretodo quando, falando de política i contra l goberno, naqueilha sue maneira de falar própia dun bileiro de gema, comentaba la situaçon de l paiç i la gobernaçon de Salazar:

    – O pobo stá sempre a dromir, a república sempre a falar e o Salazar já é beilho e stá sempre a mamar!…

    Se ls tius Bidal, Caçuolo, Cadato, Chequito, Chetas, Cristo, Raiano, Soldado, Canedo ou Nabarro, l senhor Dioniç i nun sei s’inda mais homes d’Angueira, stubírun an Fráncia na Purmeira Grande Guerra, tamien l tiu Galharito stubo nesse paiç. Cuido que nun tenerá sido na Guerra mas apuis. Amostrando ser coincedor de l mundo, nun admira que, siempre que bie ne l pobo algun studante cun barbas, nun fusse capaç de quedar calhado sin le fazer l sou comentairo:

    – Olha o Fidel Castro que fugiu de Cuba!…

    Cumoquiera serie por bias de, nas troulas de las fiestas, oubir muitas bezes l altifalante a tocar l Tango de los Barbudos qu’el dirie isto.

    Cun muita pena mie, l tiu Miguel deixou-mos para siempre un més ou dous antes de l 25 de Abril de 1974. Este acuntecimento fui cumo que ũa forma de remissan de ls melitares pertueses pul que, dantes, ne l 28 de Maio de 1926, tenien feito. Por bias disso, yá nun puodo ber l que, de nuobo i defrente, l paiç bibirie a seguir. Mas, tengo acá para mi que, se fusse bibo, serie bien capaç de, todo campante, dar bibas a la rebolucion. Assi i todo, ye bien possible que la cumpanhie de la sue perra Bitória le tenga ajudado a tornar menos custosos ls redadeiros anhos de bida.

    Miu tiu Demingos Quintanilha, que se lhembraba bien de muitas stórias i façanhas de toda la gente d’Angueira, cuontou-me cumo fui que, nun die d’Antruido, l tiu Miguel Galharito se tenerá lhembrado de, a la nuitica, pregar l Surmão do Padre Negro Bindo da China. Ye que, debido a l’auga bien chobida, que, uns dies antes, quaije nun parou de cair, nun fui possible porparar l strado pa l triato desse die. Assi, ambora l regrador, tubisse bien ansaiados todos ls queloquiantes, nun era possible apersentar an público l quelóquio que l senhor Joan Capador andubira a ansaiar.

    Nun sendo, al cuntrairo deste, mui dado a las cousas de l’eigreija i inda menos home d’ir a la missa cul padre nin culas catequistas, l tiu Galharito tamien nun querie que l pobo d’Angueira quedasse sin se debertir. Assi, pul lhusque-fusque dessa nuite de Antruido, oubiu-se l sino a tocar a rebate. Anton, cun toda la giente d’Angueira almiada por fachucos i ajuntada al redor de la capielha de Sante Cristo, acumpanhado de ls sous filhos, todos eilhes fardados de las bárias classes de clérigos – padres, cónigos, bispos – ampeça a pregá-les aquel Surmão. Mas essa ye ũa stória pa bos cuontar doutra beç, que, desta feita, solo bos bou a cuontar un eipisódio passado antre l tiu Miguel i l tiu Zé Almonico.

    L tiu Almonico era casado cula tie Sabel de l Molino, armana de ls de l Molino: tiu Zé Burmeilho, tiu Alfredo, tiu Eiduardo i la tie Palombica, la mulhier de l tiu Júlio Bolo. Tiu Zé Almonico i la tie Sabel, cumo tamien l tiu Eiduardo, que quedou toda la bida sulteiro, nun tubírun niun filho.

    Tiu Almonico era un de ls trés alfaiates – ls outros éran l tiu Dabid, qu’inda dou fé del, cula sue família, scapar pa l Brasil, i l tiu Manuel Fertunato ou tiu Oureilhas, alcunha por qu’era tamien coincido – que, nesse tiempo, habie an Angueira. Inda me lhembra de mie mai mos lhebar, a mi i a miu armano Eimílio, a tirar las medidas pa las calças a casa de todos eilhes. I, quando mos mandou a la de l tiu Almonico, fui para el mos fazer ũas calças dun corte de pana que mie mai le tenie mandado trazer a la tie Galharita d’Alcanhiças.

    Tiu Almonico i la tie Sabel bibien nũa casa de dous pisos ne l Lhargo de Saiago. An baixo, antraba-se por ũa puorta lharga, de madeira i cun postigo; lhougo a seguir, a la squierda, ũas scaleiras dában pa l sobrado, que, pa la frente, tenie ũa jinela de bidraça que daba pa la rue. Era eilhi que l tiu Almonico tenie la sue oufecina d’alfaiate: ũa mesa grande de madeira adonde stendie, marcaba, cun cachico de xabon seco, i, cũas tejeiras bien grandes, cortaba l panho que, apuis, apuntaba i questuraba cula sue máquina Singer.

    Casa de l tiu Almonico i la tie Sabel de l Molino an Saiago. Retrato tirado an 2016.

    Lhembra-me que, tenendo el gusto i todo l cuidado an fazer ũas calças cumo debe ser, antre tirar las medidas i poné-las prontas a bestir, habie que las porbar i aguardar ũa a dues semanas.

    Claro que, cumo ls outros homes cun oufício – pastor, ferreiro, carpinteiro, molineiro, albardeiro, capador, gaiteiro –, tamien tiu Almonico, nun le bondando l oufício d’alfaiate, tenie inda que, cula sue pareilha de burros i l’ajuda de la sue Sabel, cuidar dũas terricas, de la binha i de la huorta de Ourrieta Caliente, qu’era mesmo porriba de l molino de la Senhora, al lhado de la çuda i na marge dreita de la ribeira.

    Pa lhá de buono alfaiate, tiu Almonico era tamien un home cun preacupaçones i buonas eideias. Cumo na sue tierra de la Malhadica, un cachico antes de chegar a Cruç Branca, cerca de la marra de l termo d’Angueira culs de Abelhanoso i de Samartino, neilha i, a bien dezir, an todas las outras al redor, nin sequiera habie ũa arble adonde el i la sue Sabel podíssen almuorçar a la selombra na segada. Bai, anton, arrincou un carbalhico nũa touça doutro sítio l puso-lo mesmo a meio dessa tierra. I, pa que nun secasse, todos ls beranos a segiur, nun se squecendo del, andaba siempre cul cuidado de l tratar. Muitas bezes, montado nun de ls sous burros, botaba-se de casa até lhá, da peto, c’un lhato d’auga, pa l regar. Assi, alhá cunseguiu que l carbalhico arribasse até se tornar ũa arble de grande porte. I nun hai muito tiempo qu’esse carbalho inda se podie ber nessa tierra. Mas nun sei quien, inda hai poucos anhos, tubo la mala eideia de l cortar.

    Outra cousa an que l tiu Almonico tenie todo l cuidado i amostraba grande saber i smero era an arranjar i porparar spantalhos bien oureginales pa ls poner na sue binha i, até, na huorta i, assi, spantar ls perros, páixaros, la raposa i outros bichos brabos.

    Mas era tamien un home que tenie ũa maneira mui própia de pensar. Un die, al cruzar-se cun tiu Antonho Carai ne l camino de Souganho, pregunta-le:

    – Aton, adonde bás tan apressado, Antonho?

    – Olha, Zé, vou à Bila a registar a minha garotica que nasceu há dias.

    – I, aton, cumo ye que le bás a chamar, Antonho?

    – Vou pôr-lhe o nome de Odete.

    – Oudete… Oudete… olhai que nome!… Agora poneis cada nome als garotos! Yá l Massemino ten un garoto a que le cháman Almicro! Olhai que raio de nome habie de poner al rapaç!… Pus, pa mulhieres, ls nomes dében ser Sabel, Marie ou Ana i, pa ls homes, Zé, Antonho, Manuel ou Joan…

    Rúbio de pelo i barba, tiu Zé Almonico tenie la cara chena de xardas. Cumoquiera, téngan sido essas las rezones de le ponéren essa alcunha: almon, por ser rúbio i xardento, i almonico, por ser tan pequerrico. Ye que, tal cumo l tiu Moquita, l tiu Rucico, l tiu Faquito i l tiu Zé Guerrilha, l tiu Almonico era de ls homes mais pequeinhos que, nesse tiempo, habie an Angueira. Cada qual l mais ruinico, dezie-se a respeito deilhes que, na eigreija, questumában arrimar-se uns als outros. Anton, çfraçadamente, cada qual ponie-se todo sticado i bien dreito, quaije ampinado na punta de ls pies i de queixo bien alhebantado i arrebitado, a cumparar-se culs outros, para ber se yá era maior qu’eilhes ou nun tubisse, pori, desde la semana passada, algun deilhes medrado un cachico. Cuontaba-se até que, nũa feira de Caçareilhos, quando un amigo doutro pobo dou de caras cul tiu Moquita i le precurou pul sou Formino, que, yá home feito, quedarie coincido cumo tiu Bicha, tiu Moquita le respundiu:

    – Ui, home, stá un bardugácio, un scolaron… yá biste las mies calças!…

    Tamien se cuontaba que, nũa feira, mas de l Naso, un garoto, al passar pul tiu Manuel Rucico, birando-se pa sou pai, diç:

    – Ah, pai!… olhai qu’home tan pequerrico eilhi bai!…

    Nun sendo xordo, tiu Rucico, oubindo-le i nun cunseguindo quedar calhado, respunde-le de pronto:

    – Pus bien grande sós tu, sou garbanço puchero!…

    Yá l tiu Joquin Quintanilha tenie tanto de pequeinho cumo de guicho, zanquieto i trabiesso. Talbeç tenga sido essa la rezon por que le ponírun l’alcunha de Faquito. Mas, por tener l pelo todo ancaracolado, tamien le chamában tiu Grifo. A quien caçoasse del por ser assi tan pequerrico, retrucaba-le lhougo:

    – Puis ye!… Cumo se questuma dezir, ls homes nun se mieden als palmos. I, cumo toda la giente sabe, ls pequeinhos stamos cundanados a dar pul culo ls grandes!…

    I, quando le daba pa sacar i dar a la lhéngua…

    – Deixa-me falar de ls outros que ls outros de mie nun se çcúidan!…

    I algũa rezon tenerie el. Ye que, cumo, ũa beç ou outra, oubie dezir a tiu Zé Luís Pero, yá nesse tiempo, tamien an Angueira, cumo an qualquiera outro pobo, nun faltarien pessonas – graças a Dius, poucas! – que teníen muitas culidades i ningũa buona…

    I, turbolento cumo tiu Joquin era, quien sabe se nun serie mesmo capaç de, çcuntada la defréncia de eidade, se birar pa l cuontador i spilrar: “Mas que raio de cousas stás par’ende a screbir?!…”

    Yá Zé Guerrilha era un home mui ampaciente i brabico, que chiçpaba facelmente, subretodo quando – i era amenudadas bezes – staba cũa pinguita a mais i la garotada se metie cu’el i se ponie a chagá-le l juízo. Anton, todo anrezinado, ponie-se a amanaçar i a boziar als garotos: “Nun há regime!…” I isto por nun le poder, pori, calecer l lhombo a ningun deilhes. Ne ls ralos dies an que nun staba cula pinga, alhá iba fazendo pula bida ne l sou oufício de carpinteiro: amanhar algun arado ou un jugo pa ls burros i tratar tamien dũa lheirica i dũas terricas cula ajuda dũa pareilha de burros i de sue armana, la tie Margarida Guerrilha. Si, que la outra armana – la menina Palmirica, que staba a serbir de criada an casa de las armanas Marreiras – nun bibie cu’eilhes.

    Caleija que, de l Lhargo de Saiago, dá pa la casa de l sr. cabo Xabier i la ti’Ana Caneda. A la dreita i antes deilha, de piedra i cal, la casa de l tiu Chico Regino i la tie Felizarda. Antes de la casa destes, l curral que dá tamien pa la casa deilhes i de ls Guerrilhas.

    Era un die d’eimbierno, yá de l final de março, inda bien friu pus cuntinaba a assoprar l bento sieiro i, de l termo d’Angueira, inda s’abistaba la Sierra de Senábria toda cargadica de niebe. Lhougo pula manhana, apuis de abaixar pulas Scaleiricas, tiu Miguel para un cachico na taberna de l tiu Cereijas i de la tie Mar’Inácia Fresca ne l Ronso, pa matar l bicho c’ũa copa de augardiente. Ponendo-se a camino pa la obra, chube pula rue al lhado de la casa de l padre Lino i de la tie Sabel Caneda. Apuis de la frauga i de la casa de l tiu Crespo, sigue pula rue de l Loureiro i, passando las casas de l tiu Bicos, de l tiu Soldado, de l tiu Caldeira i la de ls Raianos, chega a la puorta de l tiu Almonico, un cachico antes de l Lhargo de Saiago.

    Casa de ls Rainos an Saiago. Retrato tirado an agosto de 2016.

    Cerca desse sítio, antre las casas de l tiu Caldeira i de la tie Sabel Raiana i l curral de l tiu Massemino, inda se pon a olhar pa las trés caleijas qu’eilhi bénen a dar: ũa, a la dreita, por donde, passando antre la casa de l tiu Chafin i la de l tiu Índio i la tie Porrica, s’abaixa pa l chafariç i pa la fuonte de l Pilo; outra, a la squierda, por donde, passando pula casa de l tiu Chafin, s’abaixa pa la casa de l senhor Anible Toucino i la dona Anfáncia Cachona; i inda outra que, antre la casa de ls Raianos i l curral de l tiu Maxemino, dá pa las casas de bibir de ls Balazaros, de l tiu Albardeiro i de la tie Sabel Tarasca, adonde esta bibie culs sous nietos i l sou genro, l tiu Bileiro. Mas, an qualquiera ũa deilhas, nun abistou bibalma.

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    Casa de l tiu Chafin an Saiago. Retrato tirado an 2016.

    Un cachico mais adelantre, tiu Miguel Galarito dá de caras cul tiu Zé Almonico. Un a la frente de l outro, quaije se puode dezir qu’eilhi stan dous homes que son oupuosto un de l outro: todo moreno, sabido, coincedor de l mundo, tiu Miguel tenie ũa catrozada de filhos; rúbio i xardoso, campeon de la angenuidade, de l mundo, tiu Zé nada mais coincie que las poboaçones al redor d’Angueira i la Bila i sin niun filho. Ancostado al sentalho – ũa piedra que tenie mandado poner a la abrigada de la sue puorta pa la sue Sabel se poner al solheiro nas manhanas d’eimbierno, a la selombra nas tardes mais calientes i al sereno nas nuites de berano –, tiu Almonico eilhi stá a apanhar un cachico de sol, antes de pegar al trabalho. Mal acaba de chegar, tiu Galharito pousa la caixa de la ferramienta ne l chano i meté-le anton cumbersa:

    – Bôs dias, Zé.

    – Buonos dies mos dé Dius, tiu Miguel. Bien perciso ye que stá cá un friu!… Bonda ber l tiempo que fai i l cielo claro cumo stá!…

    Anton, l tiu Miguel, birando-se para el, i, culas manos atrás de las cuostas cumo siempre questumaba andar, diç-le:

    – Friu fazia em França quando eu lá stibe, Zé!… Sabes, num imberno já num me lembra de que ano, quando eu staba em Lyon, foi lá o Presidente da República. Olha que botaram um foguete que tinha uma bomba que era maior do que um carro de feno! Deu cá um strondo!…

    Spantado i parcendo nun acreditar ne l que staba a scuitar, tiu Almonico, mui cumpenetrado i culas manos anterradas ne ls bolsos de la frente de las calças de pardo, que questumaba usar todo l eimbierno, alhebanta-se i anclina-se todo pa la frente i, cul cuorpo todo subre la punta de ls pies – quier dezir, de ls cholos! –, pregunta-le cumo se fusse pa se certificar se tenie oubido bien:

    – Mas si será berdade, tiu Miguel?!…

    – Pois é como te conto, Zé!…

    – Anton, cumo serie la canha, tiu Miguel?!

    – Ó Zé, a cana nem te posso contar… Olha q’até custa a acreditar!… A cana era tão grande que chegaba do cimo do pobo, junto à escola, até à Cabada.

    I, anquanto tiu Miguel seguie mais alantre, pa la obra na casa de l tiu Chico Regino i la tie Felizarda, tiu Almonico eilhi se quedou, de boca abierta, todo spantado i a cismar. Indas que le custasse a crer ne l eisagero, assi i todo parcie mesmo acreditar ne l que tenie acabado d’oubir cuontar a tiu Galharito.

     

    Nota

     

    Çculpai-me por, defrentemente d’alguns eilustres amigos que scríben, admirablemente, an Mirandés, you anteimar i cuntinar a usar l til (~) subre la letra u (ũ). La rezon ye que, na mie maneira de ber, screbir ua nun ye la mesma cousa que screbir ũa. Ne l purmeiro causo, las bogales seguidas u i a léien-se i pernuncían-se ua, cumo na palabra charrua; yá, ne l sigundo causo, teneran de ler-se i pernunciar-se cumo debe ser: ũ (nasal), cumo an un…a, que ye própio de l Mirandés. Se l porblema ye debido a la falha de l ũ nas teclas de ls computadores, ye perciso resolbé-lo, de forma a que, an Pertual, i pa poder serbir a las dues lhénguas oficiales de l paiç, l teclado passe a ancluir, cumo ne l causo de l Castelhano (ñ), l ũ, an Mirandés.

     

    Bocabulairo \\ vocabulário

     

    Acupaçon – ocupação, profissão \\ acupar – ocupar \\ adabinar – adivinhar \\ adregar – calhar \\ aire – ar \\ ala – asa, vamos \\ alhá – lá \\ alhebantar/do – levantar/do \\ al(e)mon – alemão \\ alparagata – alpergata \\ alredores – arredores \\ al redor – à volta de \\ amanaçar – ameaçar \\ ambolbido – envolvido \\ amentar – lembrar \\ amenudadamente – frequentemente \\ amineiro – amieiro \\ ampeçar – começar \\ ancaminar – encaminhar \\ ancapaç – incapaz \\ ancanhada – canalizada \\ ancargar-se – encarregar-se \\ ancéndio – incêndio \\ anclinar – inclinar \\ ancruzelhada – cruzamento \\ anculhir/ido – encolher/ido \\ ancostado – encostado \\ andenheirado – pessoa com dinheiro \\ andicaçon – indicação \\ anfáncia – infância \\ anganhar – enganar \\ anrezinado – zangado \\ anton – então \\ antre – entre \\ antrejeitada – habilidosa \\ ansaiar – ensaiar \\ anteirico – inteirinho \\ apetreichos – tralha \\ apuis – depois, após \\ arble – árvore \\ arribar – aguentar, sobreviver \\ arrimado – encostado \\ arrincar – arrancar \\ assujeitar-se – sujeitar-se \\ augardiente – aguardente \\ bardugácio – bardino \\ beç – vez \\ \\ benida – vinda \\ benir – vir \\ berano – verão \\ Bila – vila de Vimioso \\ bileiro – natural ou habitante da Vila (Vimioso) \\ boç – voz \\ bondar – bastar \\ boziar – gritar \\ buer – beber \\ Bumioso – Vimioso \\ buolta – volta \\ buono – bom \\ burmeilho – vermelho \\ cachico – pedacito, pouquito \\ caçoar – troçar \\ caçuolo – recipiente de barro para conservar cozinhados \\ çacho – sacho \\ çada/on – enxada/ão \\ calecer l lhombo – dar uma coça \\ caleija – viela \\ calhar – calar, calhar \\ campante – contente \\ canha – cana \\ cargado/ico – carregado/inho \\ casal – para além de casal de homem e mulher, significava também uma pequena propriedade de terra, toda murada, onde as vacas dormiam ao ar livre nas noites de verão \\ caterba – (forma como em Angueira se dizia “catrefa”) magote \\ catrozada – magote \\ çcuidar – descuidar \\ çcunfiar – desconfiar \\ çcuntar – descontar \\ cena – ceia \\ cerilhas – fósforos \\ çfilar – desfiar \\ çfraçadamente – disfarçadamente \\ chano – chão \\ chiçpar – faíscar \\ cholos – socos \\ chorça – cabana \\ chubir – subir \\ cielo – céu \\ ciguonho – picota, instrumento arcaico de tirar água do poço \\ coincedor – conhecedor \\ coincedor – conhecedor \\ cozina – cozinha \\ çuda – açude \\ cu’el – com ele \\ cuidar – pensar \\ culas – com as \\ culidade – qualidade \\ cumenéncia – bagatela \\ cumbibir – conviver \\ cumoquiera – talvez \\ cumpenetrado – concentrado \\ cuncéncia – consciência \\ cundanado – condenado \\ cuntinar – continuar \\ cuntinidade – continuidade \\ cuntrairo – contrário \\ cuorpo – corpo \\ curaige – coragem \\ da peto – de propósito \\ debertido – divertido \\ decendéncia – descendência \\ defréncia – diferença \\ defrente – diferente \\ deimingo – domingo \\ Demingos – Domingos \\ dous – dois \\ duonho – dono \\ eideia – ideia \\ eilha – ela \\ eilhi – ali \\ eilustre – ilustre \\ eimbierno – inverno \\ eiqui – aqui \\ eisame d’admisson – exame de admissão ao liceu \\ fachuco – colmo de palha \\ freijon/es – feijão/ões \\ friu – frio \\ fuogo – incêndio \\ fuorça – força \\ garaige – garagem \\ garbanço puchero – grão inchado \\ guicho – vivaço, reguila \\ halbelidoso – habilidoso \\ inda/indas que – ainda/ainda que \\ jinela – janela \\ l/la – o/a \\ le – lhe \\ lhá – lá \\ lhana – lã \\ lhargo – largo \\ lhembráncia – lembrança \\ lheira/ica – leira/ita \\ lhéngua – língua \\ lhiçaces – alicerces \\ lhuç – luz \\ lhuna – Lua \\ lhusque-fusque – lusco-fusco, crepúsculo, o anoitecer \\ mano – mão \\ mantener – manter \\ marra – linha que separa os termos de duas localidades vizinhas \\ medrado – crescido \\ menudaige – miudagem \\ naciente – nascente \\ nible – nível \\ niebe –neve \\ ningun/niun – nenhum \\ nin sequiera – nem sequer \\ nobielho – novelo \\ nũa – uma \\ nuite – noite \\ nun – não, em um \\ oufício – ofício, profissão, trabalho \\ oumenos – pelo menos \\ oupusto – oposto \\ oureilha – orelha \\ outoridade – autoridade \\ páixaro – pássaro \\ pa – para \\ pa lhá – para além \\ pana – bombazine \\ panho – pano \\ pardo – burel pisoado; escuro \\ paiç – país \\ palo – pau \\ pelo – cabelo \\ percipal – principal \\ perro – cão \\ pie – pé \\ piedra – pedra \\ pongo (forma do verbo “poner”) ponho \\ poniente – poente \\ porbar – provar \\ porduzir – produzir \\ pori – por azar \\ porparar – preparar \\ precurar – perguntar, procurar \\ proua – vaidade, orgulho \\ puchero – pote de barro para fazer comida \\ puis/pus – pois \\ pul – pelo \\ purmeiro – primeiro \\ punta – ponta \\ puorta – porta \\ pus – pois \\ puxon – puxão \\ qualquiera – qualquer \\ quelóquio – representação teatral \\ quemezaina – banquete \\ quemida – comida, refeição \\ questumar – costumar \\ questura – costura \\ quienquiera – quem quer que seja \\ ralo – raro \\ rebulocion – revolução \\ (re)custruir – (re)construir \\ regrador – ensaiador \\ repusta – resposta \\ retrucar – retorquir \\ reuga – régua \\ rezon – razão \\ riba – cima \\ rúbio – ruivo \\ rucico – homem pequeno de cabelo loiro ou ruivo \\ rugido – barulho \\ rúina – ruína \\ ruinico – pequeno, fraco, mau \\ sbarrulhar – deitar abaixo uma parede \\ scaleira – degrau, escada \\ scola – escola \\ scolaron – crescidote \\ screbir – escrever \\ scuitar – escutar \\ seclo – século \\ segada – ceifa \\ selombra – sombra \\ Senábria – Sanábria \\ sencielho – singelo \\ sentalho – assento \\ sereno – ar fresco da noite \\ sieiro – vento de leste (frio de inverno e quente de verão) \\ sierra – serra \\ smerada – esmerada \\ soalheira – exposto ao sol \\ sobrado – soalho, chão em madeira do piso de cima da casa \\ solo – só \\ soudoso – saudoso \\ soutordie – no dia seguinte \\ spantalho – espantalho \\ spreitar – espreitar \\ sperar – esperar \\ spilrar – espirrar \\ squecer – esquecer \\ squierdo – esquerdo \\ stalhada – estalada, bofetada \\ star – estar \\ sticado – esticado \\ stuporado – estuporado \\ talbeç – talvez \\ téngan – (forma do verbo “tener”) tenham \\ trabiesso – travesso \\ túndia – coça \\ uolho – olho \\ xabon – sabão \\ xardas – sardas \\ xardoso – sardento \\ zafertunadamente – infelizmente \\ zambuolto – desenvolto \\ zanquieto – irrequieto \\ zinolho – joelho

     

    Para saber o significado de outras palavras, sugiro a consulta do sítio

    http://www.mirandadodouro.com/dicionario/

     

    A quem queira visualizar algumas fotos aéreas de Angueira, sugiro a consulta do blogue

    http://portugalfotografiaaerea.blogspot.pt/2017/01/angueira.html

     

    Caso queira saber a localização de alguns sítios do termo de Angueira, carregue no “link”:

    www.openstreetmap.org/searchquery=Angueira%2C%20vimioso%2C%20portugal#map=12/

    Se quiser ficar a saber um pouco mais sobre Angueira, pode ir até lá e/ou pedir a adesão a “Angueira Atalaia”:

    https://www.facebook.com/groups/1750219901696026/

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  • La Compra dun Albardin a tiu Agusto Albardeiro na Feira de l Naso

    julho 24th, 2016

    Nota Prévia: uma prevenção

    Se o/a leitor/a não está familiarizado/a com a Língua Mirandesa, sugiro que, para facilitar a compreensão do texto, o leia a meia-voz. Se, mesmo assim, sentir qualquer dificuldade em compreender o sentido ou descobrir o significado de alguma palavra menos usual ou cuja grafia se afasta mais da portuguesa, não hesite em consultar o Vocabulário que pode encontrar no final do mesmo.

    Breves notas sobre a grafia do Mirandês

    Em Mirandês, não se pronuncia o som v, que é substituído pelo da letra b; usualmente, o prefixo des é substituído, consoante os casos, por ç ou z no início da palavra; para não se confundir com a contração da preposição a com o artigo definido o, que, em Mirandés, se escreve e lê al, o artigo definido o escreve-se l, mas lê-se também al; salvo raras exceções, os ditongos nasais ão e õe escrevem-se an e on; o m final das palavras portuguesas é, no Mirandês, substituído pela letra n; geralmente, o l inicial das palavras é substituído pelo dígrafo lh; já o dígrafo ch, em Mirandês, lê-se sempre tch; talvez por, inicialmente, ser apenas uma língua falada, o Mirandês tende a contrair os pronomes, artigos, preposições e as conjunções com as palavras seguintes, quando estas são iniciadas por vogal.

    Tiu Agusto Albardeiro

    La stória que bou a cuontar fui miu pai que, a mi i a mius armanos, mos la cuontou. Passou-se ne ls anhos quarenta de l seclo passado i na feira de l Naso, antre tiu Agusto Albardeiro i ũa tie sendinesa inda nuoba.

    Antressando la stória, mas, arriba de todo, l que se passaba na feira, tengo q’agradecer a miu armano Eimílio, a l’amiga, i inda mie pariente, Adelaide Monteiro i als amigos Guilherme Galvão i Horácio Morais ls comentairos que fazírun subre esta i outras feiras i que m’ajudórun a acertar l cuntesto an que la stória se passou.

    L tiu Agusto era armano de l tiu Lázaro Albardeiro – a que le ponírun inda outra alcunha, la de Lazarete – i pai de l tiu Agrepino Albardeiro, que benerie a casar-se cula tie Marie Cachopa, i de la tie Justina Albardeira, que benerie a casar-se c’ul tiu Zé Canhotico. Quando moço, tiu Agrepino habie de tornar-se l gaiteiro d’Angueira. Ganhando fama, habie tamien de tocar la gaita an muitas outras poboaçones bezinas d’Angueira.

    La alcunha d’Albardeiro debe tener a ber cul oufício de l pai de l tiu Agusto i de l tiu Lázaro, que, cumo era questume, tenerá passado de l pai pa l filho mais bielho. Mas, esta alcunha ambos ls filhos de tiu Agusto la hardórun.

    Inda nuobo, pouco tiempo apuis de se casar, tiu Agusto, seguindo l eisemplo de sou pai, ampeçou a trabalhar, por sue cuonta i risco, ne l oufício d’albardeiro. Bota-se aton a fazer, an bezerro i lhino, albardas, arreios i todo mais que fazie falta p’aparelhar las béstias: burros, mulas i cabalhos. Mas, nun bondando fazé-los, era neçairo haber quien les cumprasse i saber tamien bendé-los.

    L oufício d’albardeiro nun le garante sopas, nin patatas, nin chicha, nin pan i bino subrecientes pa sustentar ls de casa. Aton, cula ajuda de dous burros, bai tamien cultibando i cuidando dũas tierras i lheiras. Claro stá que, trabalhar ne l sou oufício solo pa ls fragueses d’Angueira, tamien nun le dá fraguesie subreciente. Assi, p’amanhar maneira d’oumentar un cachico l sou ganho, bota-se tamien a la precura doutros fragueses. Bai, aton, a las feiras a bender las albardas, molidas, cabeçadas i ls atafaios que tenie yá ou ponisse prontos.

    A camino de la feira de l Naso

    Ambora houbisse tamien las feiras de Malhadas, a uito, de Caçareilhos, ne l die dezanuobe, i de Bila (Bumioso), a binte cinco de cada més, nesse tiempo, la de l Naso, ne l die binte i dous, era destas todas la mais fuorte i adonde iba mais gente. Isto nun falando de las feiras d’anho q’alhá se fazien: la Feira de ls Burros i la Feira de l Arraial, a seis i a siete de setembre, mesmo antes de l Die de l Naso, qu’era a uito de l mesmo més.

    Cumo ir a todas las feiras nun le cumpensaba nin podie ser, la feira de l Naso era, anton, la de la perferéncia de l tiu Agusto Albardeiro.

    Purmanhana cedo, die binte dous de maio, mal se puso a pie i se zinjuou, tiu Agusto ampeça a cargar l burro c’ũa albarda, molidas, cabeçadas, arreios i atafaios que tenie prontos para benda. Porpara-se, assi, pa cun outras pessonas de Angueira, se botar anté la feira de l Naso. De biespera, el, tiu Plilhas i tiu Chafin, sous bezinos i que, cumo el, morában tamien an Saiago, tenien cumbinado ir todos trés juntos a la feira.

    Nun chubendo – nin sequiera l cielo staba anubrado –, assoprando un airico, l tiempo staba mesmo delei. Inda pouco habie que l Sol tenie çpuntado, i stando yá todos trés prontos, bótan-se a camino de l Naso.

    Salindo de l Lhargo de Saiago, antre la casa de ls Sidórios i la de l tiu Patuleia i de la tie Ronda, i deixando San Sabastian pa trás, pássan antre l fondo de las Eiras Grandes i l cimo d’Ourrieta Caliente i antre ls sítios adonde záugan ls ribeiros de Fuontecinas i de ls Milanos; na puonte de la Yedra, atrabéssan pa la marge squierda de la ribeira; al lhado de l molino de tiu Agustenhico, bíran caras a la Retuorta; atrabéssan l ribeiro i, cuosta arriba, ban a dar al alto, cerca corriça, adonde ampeça l caminho de Miranda. Oulhando caras a naciente, abístan l Gago, l Castro i la Cierba, por donde passa la marra q’aparta ls termos d’Angueira, Samartino i de la Speciosa; apuis de l Cascalhal, cun las Queijeiras a la squierda i ls Palancares a la dreita, pássan puls cruzeiros d’Ourrieta ls Ninos i de Cruç de Canto i la marra cula Speciosa; ne l tanque de l Cereijal, al lhado de la poboaçon, chégan las béstias a l’auga.

    Apuis de un cachico mais dũa hora de camino, inda antes de las nuobe, alhá stan eilhes junto de l cruzeiro i prestes a chegar al campo de la feira de l Naso. Si que, nesse die, nun éran pormessas nin deboçones que, tanto a eilhes cumo a toda la gente que fui a la feira, les lhebában al Naso.

    Pul caminho, cada qual a cabalho an sue béstia ou a pie, dando a la léria, fúrun cuontando algũas peripécias de la gente d’Angueira i de ls pobos bezinos. Claro que, cumo l sou burro iba carregado de tralha, tiu Agusto tubo que fazer mais dũa lheuga a pie, pus, seia pul camino de Miranda ou pul de las Lhameiras, ye, mais ou menos essa, la çtáncia d’Angueira anté al Naso.

    Nesse die, nin solo eilhes d’Angueira se bótan anté la feira: tiu Zé Coiro, sue cunhada, la tie Regina Sicha, i tiu Chico Piçarra – un de ls outros cunhados deilha –, cada qual c’ũ baca i sou bitelo, tamien ban; tiu Canoio, sue armana, la tie Ronda, i l tiu Chabiano, cada qual cun sou tagalho de canhonos – bazias i borregos –, uns chibicos i sou perro, tamien ban anté lhá. Uns i outros pa ber s’amánhan quien les pague bien pulas crias.

    Pul caminho, pássan-le a la frente tiu Ernesto Rei, tiu Ruço, tiu Zé Cruzes i tiu Músico, d’Abelhanoso, que, mais apressados i a cabalho an sues jementas, ban tamien a la feira. De chapéu al lhado i todos janotas, algun deilhes, cumoquiera, pa tirar l retrato a la minuta. Tengo acá para mi que, tirando porbeito de la nomeada de la gente d’Abelhanoso, s’algun deilhes lhebasse sou perro, serie bien capaç d’alhá, a meio de l campo de la feira, se birar para el i, cun cara toda séria, le mandar: Ora marcha p’ró cavalo!…

    Adondequiera que fusse, tiu Morais, se nun fusse de carro legeiro, questumaba ir a cabalho. Çcunfio que, desta beç, indo a cabalho, cumoquiera fizo l caminho pa l Naso el solico. Custa-me a crer que stubisse cun pacéncia subreciente pa, na caminada, star siempre a puxar l freio al sou cabalho ou tener que quedar a la spera que ls burros de ls sous bezinos l’acumpanhássen anté al Naso. Para mais, sendo un home de negócios i de nun çperdiçar l sou tiempo, tenie que tratar de la sua bida, la rezon por qu’iba a la feira: cumprar ou apalabrar un bezerrico pa l matar i bender la chicha ne l sou açouge ne l die de fiesta de l Sagrado Coraçon de Jasus.

    L camino de Miranda ye aquel que, a pie ou a cabalho nũa béstia, puode seguir quien querga ir d’Angueira, passando pul termo de la Speciosa, pul Naso i por Malhadas, anté Miranda. Pa quienquiera que seia d’Angueira ou d’Abelhanoso i baia pa l Naso, ye tamien l melhor camino. Yá, pa quien, de San Joanico, Çarapicos ou de Bal de Frades, a pie ou a cabalho, pa lhá baia, l melhor será, apuis de ls Sierros, passar, uns pulas Temadas i ls outros pul Prado i Souganho, pa la Cruzica, l Ramalhal i las Lhameiras i seguir pula poboaçon de la Speciosa anté al Naso.

    Mas, quien baia, de furgoneta ou de carro legeiro, de ls lhados de Miranda, pula strada pa Bumioso, pa l Naso, cerca de dous quilómetros apuis de passar l Posto Zootécnico de Malhadas de la raça mirandesa, na salida de la poboaçon, al chegar al cimo de la reta de l Praino, un cachico antes de Zenísio, ten, a la dreita, la strada que dá pa la Speciosa i pa Samartino i que, hoije an die, dá tamien pa las Trés Marras. Birando caras a nordeste i seguindo por esta strada, trés ou quatro quilómetros mais alantre, apuis de passar las tierras de cultibo – senaras de trigo i centeno – q’hai d’ambos ls lhados, lhougo a seguir al zbio a la dreita pa la strada que dá pa la Pruoba, passa a la squierda dun çcampado adonde, dantes, habie dous coretos, mas, agora, yá só se bei un, pa las bandas de música; cuntinando palantre, passa puls cabanhales – pequeinhas custruçones dun andar, an cantarie i c’ũa abertura, birada a naciente, neste causo; apuis, passa ũa casa de dous andares, cun trés ou quatro puortas i jinelas i la forma de cubo. Un cachico antes de l sítio, adonde, seguindo pula squierda i, antes de birar caras a poniente – pa quien quegir ir pa la Speciosa –, bei, a la dreita, la cerca al redor de l santuairo de la Senhora de l Naso: ũa eigreija, cun campanairo baixo, tamien de cantarie; a naciente del i de la capielha-mor, bei cinco capielhas, todas quaije eiguales por fuora; drento de la cerca i antre las capielhas i la eigreija, dantes, habie ũa pequeinha charca d’auga a que le chamában lhagona; ne l lhado sul i mesmo na cerca, puode ber un poço redondo i fondo, donde se tiraba auga cula ruldana al cimo de l arco de fierro que ten subre las piedras que, formando un celindro, le cércan; pa lhá de la cerca de l santuairo i caras a norte, hai ũa beiga praina – l toural de la feira – cun alguns freznos que le fázen selombra i, apuis, ũas touças de carbalho i, dun lhado i outro de la strada pa Samartino, tierras de cultibo.

    L recinto de l Naso

    Hai, oumenos, trés partes çtintas ne l Naso: a meio, l campo santo – la eigreija i las capielhas, drento de la cerca de l santuairo –, çtinado a las cerimónias relegiosas; fuora de la cerca i de l lhado sul, l campo de la feira, ctinado a las tiendas de la feira i tamien al bailo de la Fiesta de l Arraial ne l Die de l Naso; tamien fuora de la cerca, mas ne l lhado norte, l toural, çtinado a la sposiçon i a la benda de bacas, buis i bezerros, béstias i ganados nas feiras.

    Santuairo de la Senhora de l Naso – l Campo Santo: eigreija i capielhas (2016).

    L Naso queda a cerca dun quilómetro a naciente de la Speciosa i cerca de meia dezena a poniente de la Pruoba – la poboaçon a que pertence – i, mais ou menos, a meia çtáncia de la strada que, de la de Miranda, bira pa Samartino. Çcuntando cabeços, sierros i sierras, ye un de ls sítios mais altos de l Praino Mirandés.

    De l fondo de la puorta d’antrada de la cerca de l santuairo, birado a poniente i oulhando al redor, de sul pa noroeste, abístan-se, al loinje, bários cabeços, sierros, antre eilhes ls d’Angueira, i las sierras de Mogadouro, Bornes, Nogueira – que ye la mais alta i central –, Muntesino i, mais a noroeste i yá an Spanha, la de Senábria.

    La Speciosa i outras paisaiges que s’abistan de l Naso caras a poniente (2016)

    Se bos eimaginardes a oulhar – mas agora de noroeste, ou seia, cumo quien bei de l Cabeco d’Outeiro – caras a naciente, ne l lhado de Spanha, podereis abistar, mais cerca, ũa cadena de montes – de Bal de Pena i Bal de Frades, passando por Abelhanoso, Samartino i Cicuiro, anté la Senhora de la Lhuç, an Costatin – por donde, pul cimo deilhes, passa la raia q’aparta Pertual i Spanha. I, tornando a oulhar, mas de l lhado de la capielha-mor de la eigreija de l Naso caras a naciente i a sueste, parcendo cuntinar a ser todo praino, mesmo nas tierras de Spanha, adebínan-se, pa lhá d’Infanç i de Paradela i caras a Miranda, las Arribas de l Douro.

    La compra i benda dũa albarda

    Mal tiu Plihas, tiu Chafin i tiu Albardeiro chégan al Naso, cada qual bai pa sou sítio i a tratar de la sue bida. Tiu Agusto abanca antre ls cabanhales i l poço, delantre, mas yá un cachico zbiado de la casa de la guarda. I toca lhougo a stender la tralha toda al sou redor. De seguida, inda nin tenie acabado d’abancar, acerca-se del ũa tie, inda nuoba, q’ampeça pul saludar:

    – Dius mos dé buonos dies, tiu home.

    – Buonos dies mos dé Dius, tie moça. Aton, donde sodes?

    – Sou de mi loinje pus sou Sendin! I bós?

    – You sou d’Angueira, dun cachico mais perto que bós.

    Apuis de la ber i ampalpar bien, la sendinesa apunta pa l’albarda i pregunta:

    – Aton, tiu home, quanto quereis pul albardin?

    – Oulhai, por ser para bós, son solo quinze malreis.

    – Ai nó, por esse précio, ye mi caro!… You quinze malreis nun bos dou por el!

    – Mas, yá reparestes bien na culidade de l trabalho i de l material deilha?

    – Pus you solo bos lo compro se me le bendirdes por binte!…

    – Ui!…, mas nin pensar! Nun bedes que nun puodo, tie moça?! Se bos la bender por esse précio, tengo un perjuizo tan grande que dou cabo de la mie bida!…

    – Pus you solo bos dou binte malreis, i nin mais un çton, por el! Ye pegar ou lhargar!…

    Apuis dalgũas rezones i muitas palabras trocadas antre eilha i el, tiu Albardeiro alhá tubo que fazer la buntade a la fraguesa. Aton, bira-se para eilha i diç-le:

    – Oulhai, tie moça, cumo ye la purmeira que bendo, antes que, pori, m’arrependa, lhebai-la alhá! Bou perder muito denheiro, mas, pa lhá de todo l restro, ganho, oumenos, ũa fraguesa nuoba i bien guapa cumo bós! Mas nun bades, pori, dezir a naide que bos la bendi por esse précio…

    I, assi, se fui i passou la manhana desse die i de tiu Agusto.

    A trates a la posta de bitela

    Passante meidie, tiu Albardeiro, tiu Plilhas i tiu Chafin achégan-se als cabanhales pa se botáren a quemer la posta na taberna de la tie Ginja de Malhadas. Antre eilhes i l cabanhal de ls ouribeiros, yá abancados nũa mesa de la taberna de la tie Gabriela de Sendin, alhá stan tamien outros homes d’Angueira: tiu Arnesto Raiano, tiu Luís Quintanilha, tiu Aran Steba i tiu Morais. Cada qual a trates a la sue posta i dun caneco de bino, niũn deilhes parcie anfastiado. I, a abaloar pula cara i l’animaçon dalguns, la pinga de Sendin nun serie mala de todo i, inda menos, algũa çurrapa!…

    Cumo stareis fartos de saber, hoije an die, an qualquiera lhado i serbício público, cada beç s’amenta mais nas buonas práticas i na necidade de las seguir. Pus, nun ye que, yá nesse tiempo, quaije todas las taberneiras las seguien?! Cumoquiera par’eibitar que ls sous fragueses quedássen, pori, animados demais, questumában batizar antes la pinga siempre q’algun deilhes les pedisse mais un jarro de bino pa la sue mesa. Muitos deilhes nin se dában de cunta… Se calha, porque, ambora quien pague seia siempre l fragués, parcie q’ambos a dous quedarien a ganhar: la taberneira que bendie l’auga al précio de l bino; i l fragués pus serie mais fácele salir de la taberna sin ser a las chimpas ou als trambulhones. Para mais, naquel tiempo, an qualquiera outro sítio, inda se questumaba dezir: Un copo d’auga nun se nega a naide! Mas, na taberna, la cousa era çfrente: l’auga bendie-se, i bien cara, al mesmo précio de l bino.

    L Naso – Campo de la feira i de la fiesta de l Naso. Al fondo i al meio, beien-se ls cabanhales de las tabernas i de ls ouribeiros i, a la dreita, la casa de la guarda (2016).

    La tie Ginja i la tie Gabriela éran dues de las taberneiras que, yá nesse tiempo i inda bien anhos mais tarde, nun falhában na feira de l Naso.

    Ls negócios de la feira

    Se ls lhabradores, ls pastores i las ties íban a la feira, a pie ou de burro, la maior parte de ls bendedores i de ls bezerreiros íban nas sues furgonetas adonde lhebában tamien las sues mercadories: roupa, trapos, botas i çapatos, arriba de todo ls de Campo de Bíboras; reloijos, brincos i outros adornos de prata i ouro, ls de Mogadouro; nabalhas, machadas i outros ferragachos, ls de Palaçuolo; doces i licores, las doceiras de Caçareilhos; bárias tipos de cacharros; bitelos i canhonos. Pa lhá de ls bezerreiros i de ls bendedores, ralos éran ls que, naquel tiempo, íban de carro a la feira, pus poucos éran ls que tenien carro legeiro.

    Cun tanta gente q’alhá iba, l Naso, adonde, ne ls outros dies, naide se bie i era la maior calma, ne ls dies de feira ou de fiesta, biraba un mar de gente de bárias poboaçones: era l barulho, l mobimiento, l andar d’acá par’alhá; éran las bariadas mercadories, las cousas qu’era ralo béren-se nas poboaçones de ls qu’íban a la feira; éran ls carros legeiros i las furgonetas; éran ls cientos d’animales, bitelos, bacas i buis ne l toural; éran ls ganados d’oubeilhas i canhonos i ls perros a guardá-los nas touças eilhi a la buolta; éran las béstias, burros, mulas i cabalhos; éran las nobidades; éran tamien las pessonas i, subretodo, ls amigos de ls pobos bezinos que, mui ralamente i quaije solo an oucasiones destas, se bien…

    Se, abançando ne l tiempo, mos eimaginarmos binte anhos mais tarde na feira de l Naso, poderiemos ber alhá algũas nobidades: antre outras, l altefalante de l baratilho a berrar tan alto que s’oubie de mi loinje, dalguns pobos al redor. Assi i todo, ne ls anhos sessenta, inda poderiemos ancuntrar algũas de las pessonas de quien eiqui amentamos, mas tamien outras que benerien a sustituir las q’habien de mos deixar i que, mais tarde, cuntinarien a dar bida a la feira.

    Ũa dessas figuras, l Cachachin, un home de Sendin que pouco mais serie que dous palmos de gente, i que ralas serien las bezes que faltaba na feira de l Naso. Ne l meio de l campo de la feira i cerca de l poço, alhá staba el, cul sou stendal de roupa anterior subre ũa manta ne l chano. Cercado por un tagalho de moças i ties al redor del – quaije parcie tener açúcre ou miel! –, bendi-les calcicas, einaugas, ciroulas, lhenços, rodielhos i outros farrapos pa todos ls de casa: rapazicas, moças i ties, garotos, moços i homes. Birado par’eilhas, apregonaba ls sous trapos:

    – Á moças i ties, se nun teneis meias nin calcicas, benie eiqui que, cumo podereis ber, you bos las arranjo!…

    I, a aqueilhas que le preguntában l précio de qualquiera pieça de roupa respundi-les, cunsante l causo, an bariaçones de cinco malreis antre ls précios mínimo i mássimo:

    – Ye de dieç a quinze – respundie a ũa;

    – …de quinze a binte – dezie a outra;

    – …de binte a binte i cinco malreis – respundie inda a ũa outra.

    Era pul précio mais baixo de l anterbalo qu’el dezie que la tie ou la moça poderie lhebar la pieça que l’anteressaba cumprar. Eibitaba, assi, qu’eilhas se poníssen eilhi a regatear demais.

    L Naso: toural de la feira bisto de sul (2016). Al fondo, béien-se las touças adonde quedában ls ganados i las béstias i algũas ties yá todas scherumadas çpachában ls moços i ls homes que las precurában pa tratar doutros negócios.

    Se la parte birada caras a sul de l campo de la feira s’anchie de tiendas, furgonetas i de pessonas, arriba de todo ties i moças, tamien la parte birada a norte – l toural – s’anchie d’homes i animales: lhabradores, bezerreiros i pastores; bacas, bitelos i alguns buis; béstias i ganados.

    Claro que, pa le quedar a oulhar pula cria, anquanto iba de l toural a la outra parte de la feira, l lhabrador lhebaba cu’el un sou garoto ou moço.

    La seinha de l’antresse de l bezerreiro por algun bitelo ou bitela de siete ou uito meses, ou mesmo por ũa sobrana, ũa baca ou un bui, que stubisse eilhi ne l toural, era baté-le cula sue bara ne l lhombo i preguntar bien alto:

    – Quem no vende?

    – Cá se lhe vende!… – respundie l duonho de la cria.

    – QEntão, quanto quer pelo vitelo?

    – São só nove notas!…

    – Qual quê?! Seria a minha desgraça se lhe desse essa fortuna!… Se quiser cinco, compro-lho já!…

    Era de notas de cien malreis q’un i outro amentában, l que, ne l tiempo de la bida barata, era muito denheiro. Seguie-se, anton, ũa demorada çcusson antre eilhes: l bezerreiro a çfazer i amostrar las falhas de l bezerro i l duonho a amostrá-le que, pa lhá de ser guapo, staba bien gordo; l cumprador a dezir que nun balie mais de seis notas i l lhabrador a respundé-le que, por menos d’uito, nun le lhebaba. Anté que, apuis de muitas buoltas i grande çcusson, un amigo de l bezerreiro traçaba al meio la çfréncia. Acabában, assi, por ambos a dous chegar a acordo: un a bendé-lo i outro a cumprá-lo por siete notas. Lhougo de seguida, l bezerreiro saca de l bolso un maço de notas i tira ũa de cien que, cumo sinal, passa pa la mano de l lhabrador.

    Lhembra-me dũa beç que, inda garoto, stábamos miu pai i you ne l toural de la feira de l Naso cula nuossa Formosa i un berrezo deilha. Aton, un bezerreiro achega-se al nuosso bitelo i seguiu-se la cantilena de l questume. Tenendo-le miu pai pedido un cuonto de reis, l bezerreiro mandou-le siete notas. Claro que miu pai nun aceitou. Bai anton aquel, fingindo star pouco anteressado nel, bota-se a fazer la fita: salindo deilhi, bai anté outro i pregunta por quando l duonho lo quier bender. Mas, un cachico apuis, torna atrás pa junto de nós i manda uito notas. Cumo miu pai cuntinaba sin aceitar, el anté parcie que choraba. Mas, nin assi, habie modo de cumbencir miu pai a chegar a acordo cu’el i a bender-lo por un précio mais baixo. Anton, bendo-lo assi, cun pena del, biro-me pa miu pai i pido-le baixico:

    – Á pai, bendei-le alhá l bitelo al home! Nun bedes que triste stá!

    – Mas aton tu nun bés que ye todo fita del pa ber se lo bendo por un précio mais baixo i, assi, ganha mais nel! Nun caias na fita, rapaç!…

    Cumo miu pai nun caiu na fita, l bezerreiro, se quijo lhebar l bitelo, alhá tubo de le mandar nuobe notas, que, sendo bastante dinheiro, miu pai aceitou. Ye que, nesse tiempo, darien pa cumprar al ouribeç un cordon d’ouro pa la filha mais bielha que fusse mardoma ou stubisse pa se casar.

    Pul final de la tarde, l lhabrador lhebaba la bitela pa l bezerreiro la rebistar i, nun tenendo falha que se le bisse, la carregar na furgoneta i le pagar l que quedara an falta apuis de le dar l sinal.

    Mas, nun éran ralas las bezes que, por falta d’acordo antre eilhes, calhaba l lhabrador tornar para casa culs cantares de la segada.

    Outros negócios i debertimientos al redor de la feira

    Habie inda alguns antretenimientos qu’era questume ls homes i ls moços quedáren anté al final de la feira pa ls ber: las chegas ou lhuitas de buis de raça mirandesa angarriados; i ls zafios antre ls jogadores de la barra, mais coincidos i de maior nomeada, de las poboaçones al redor de l Naso.

    L Naso – L toural de la feira bisto de naciente (an 2016).

    La lhuita de buis era cousa que als duonhos deilhes nun les gustaba muito. Oumenos a alguns, parcie nun les agradar nada ber l sou animal ambolbido nestas chegas de buis. Ye que, ganhasse qual ganhasse, qualquiera un de ls buis salie de la lhuita cun alguns arranhones ne l cuorpo. Na maior parte de l die, l duonho nun deixaba l sou bui arrimar-se a outros. Assi, tenie todo l cuidado para que, ne l toural, l sou quedasse loinje de qualquiera outro.

    Mas alguns homes nun arredában pie de ls duonhos de ls buis que stában na feira. Nun les lhargában nin çcansában anquanto nun les cumbencíssen a chegá-los. I, la maior parte de las bezes, pul final de la tarde, alguns duonhos acabában por nun s’ouponer a la chega.

    Ls buis de raça mirandesa – ou touros, pus, na Tierra de Miranda i alredores, nun habie buis capados – éran, i son, bichos mui pesados – ls maiores puoden bariar antre siete cientos i mais de mil quilos –, fuortes i brabos. Por isso, la chega tenie que ser apuis de ls outros animales stáren yá a camino de casa.

    A ampeçar la lhuita, un an frente de l’outro i a zafiá-lo, cada bui alhebanta i abana l çufino i, ourniando mui fuorte i mi alto, scarba la yerba i la tierra de l chano culas patas delantreiras. Apuis, abaixando i ancaixando la cabeça i ls cuornos, atíran-se, cun toda la gana i la fuorça que ténen, un contra al outro. Cabeça cun cabeça, cuornos cun cuornos, ancaixadas ls dun ne ls de l’outro, cun reculos i marradas, cada qual precura arrastrar l outro. La lhuita podie durar cerca de meia hora, subretodo se la fuorça de ls dous bichos fusse eiquilibrada, anté que l mais fuorte, dando-le scornadas de frente, de trás ou de sgueilha, arrastrasse i oubrigasse l’outro a scapar. L bui bencido fugie, botando-se aton l bincedor a correr atrás del i a scorná-lo por trás.

    La maior parte de las bezes fazien-se apostas ne ls buis de la lhuita, habendo mesmo arrelias antre ls apostadores, ls que stában a bé-los i ls duonhos.

    Claro stá que l duonho de l bui bincedor quedaba mui cuntento i cheno de proua. Tengo acá para mi que, mal chegasse a casa, serie bien capaç de botar al sou bui ũa buona raçon de centeno na majadoura.

    Pula sue amponéncia, fuorça i brabura, ne ls anhos sessenta, habien de quedar famosos alguns buis de la Pruoba, Samartino, Zenísio, Malhadas i d’outras poboaçones al redor de l Naso.

    La barra era un jogo de fuorça i de jeito, que tanto podie ser jogado cun fierro, peso ou piedra, todos eilhes bien pesados, ou c’ũa reilha, i que tamien se jogaba ne l final de la feira. Nun sei quien ne l tiempo próprio desta stória, serien ls maiores jogadores de las poboaçones al redor de l Naso. Mas lhembra-me d’oubir falar d’alguns que, ne ls anhos sessenta, serien de ls de mais nomeada: l Champanha, un guarda fiscal, l Cebolho i l Madeiro, todos trés de Samartino, l Eilias, filho de l cigano Zé Agusto i inda outros ciganos, l Çurra de la Pruoba i l Abelino, un rapaç inda nuobo de la Speciosa.

    Ganhasse quien ganhasse, ou seia mandasse la piedra, l fierro, la reilha ou l peso de dieç quilos mais loinje de la raia, mas sin la pisar nin la passar, lhibraba-se de pagar l cántaro de bino a qu’era questume jogar. Era a quien perdie que le tocaba a pagá-lo… Cumbinában un númaro de quatro ou cinco lhançamientos a fazer. I, cumo stá bien de ber, só cuntában ls que fússen bálidos.

    Sendo un jogo peligroso, porque l fierro, la reilha i l peso puodien scapar-se de la mano de l jogador i ir a bater an quien les stubisse a ber, nun deixában parar eilhi a la buolta qualquiera garoto.

    A la buolta de ls jogadores i de cada lhado de l spácio por donde lhançában la piedra, l fierro, la reilha ou l peso, habie ũa ala chena d’homes i moços que stában eilhi a ber i a apuiar cada jogador: uns éran por uns i outros por outros, cunsante la amisade i l pobo donde éran.

    Acabado l zafio, todos ls qu’eilhi stában bebien a la salude de ls jogadores, mesmo daqueilhes a que les tocaba tener de pagar l cántaro de bino.

    Dezie-se, i, puls porparos i pula fileira que ls moços i ls homes formában al redor de las touças pa lhá de l toural, tamien se podie ber que, anquanto duraba la feira, eilhi, se trataba dun negócio çfrente, que nun era bender bezerros, nin borregos, nin çapatos, nin cacharros, nin farrapos, nin mesmo de roupas, ambora houbisse que las tirar! Eimaginai bós que negócio habie de ser…

    La nota falsa

    Mas, çculpai alhá, que, cun estas i cun outras, yá m’iba squecendo de que son mais q’horas de tornar a las peripécias de l tiu Albardeiro…

    Bien feiras de l Naso houbo apuis desta. I todos ls dies binte dous de cada més, eiceto se calhasse nun sábado ou nun deimingo, alhá staba l tiu Albardeiro culs sous atafaios i albardas pa ls bender na feira de l Naso.

    Un die acerca-se del la sendinesa a quien, alguns meses antes, tenie bendido la que dixo ser la purmeira albarda qu’el fizo. Yá al redor del, diç-le eilha:

    – Inda bien que bos beio, tiu Albardeiro! Stou mui zgustosa! Nin sabeis cumo tengo andado relada! Oulhai q’l albardin que me bendistes saliu tan ruin, tan ruin, que nun prestou pa nada! Quedei mi mal serbida. Mal bos lo cumprei, pouca serbentia tubo i le dei. Oulhai q’un die, iba you pul termo an riba de l miu burro i assentada ne l albardin, quaije a chegar a ũa caleija, ampeça el a alhebantar l çufino, a cheirar, a roznar i a andar mais delgeiro. Nun stantico, you i el stábamos quaije a apanhar un miu bezino que, a la frente de nós, seguie scarranchado na sue burra. I nun ye que l diacho de la burra andaba salida?!…

    – Á si?! Pus, an Angueira, questumamos tamien dezir q’anda zounesta. I, c’ũa burra q’assi anda, todo l cuidado ye pouco. Nessa cundiçon, niun destes bichos ye de cunfiança!…

    – Pus l raio de l burro i de la burra, quando el staba yá a la beira deilha, ponírun-se tan tonticos qu’era el a cheirá-la i eilha a fugir-le; el, cul strumento çpindurado i de fuora, a querer saltá-le pa l lhombo i eilha als pinotes. Bien you le puxaba pula reata pa trás, mas, qual quei! Quien yue qu’era capaç de parar l stepor de l burro?! Nin l miu bezino cunseguiu tamien parar nin dar bida de la sue burra! Raisparta ls burros! I, nun sfregante, ls çacanas mos la armórun! Oulhai q’aqueihes trastes chimpórun-mos ambos a dous ne l chano. Bá lá que niun de nós se feriu. Aton, la burra a la frente i l burro atrás deilha, zátan ambos a dous nũa correrie caleija abaixo. L burro corrie tanto que, al roçar nas paredes, ne ls trampos i nas silbas de las bordas, nun bonda tener dado cabo de las alforjas qu’inda adrega de stragar tamien l albardin: rumpiu-le l lhino, quedando la palha toda a la mostra! You i l miu bezino bien corrimos atrás deilhes, mas qual quei! Quien cunseguie acaçá-los! La burra parcie inda mais tonta q’ũa baca touronda! L raio de l burro staba cun tanta deboçon que nun se cansaba nin paraba de correr atrás deilha! I nun çcansou anquanto nun arrebantou cula cilha i, atirando culs trastes al aire, se lhibrou de l albardin. Assi, quedando sin qualquiera strobilho, solo apuis de quaije ũa hora naquel spalhafato, de tenéren perdido la gana i de se rebolcáren ne l chano, ye que you i l miu bezino alhá cunseguimos botar-les la mano i apartar ls bichos!

    Anquanto la sendinesa le cuontaba la peripécia de l sou burro, tiu Agusto iba dando buoltas a la cabeça a ber cumo s’habie de çafar i ber-se lhibre de la fraguesa. Passando-le, anton, ũa eideia pula cabeça, pon un aire mi sério, bira-se pa la sendinesa i diç-le:

    – Çculpai, tie moça. Oulhai que yá staba quaije squecido! Mas, agora que falestes, yá stou a lhembrar-me de bós! Yá sei quien sodes! Si bos bendie ũa albarda. I inda bien que benistes eiqui a falar cumigo. Oulhai, nun fustes bós que me paguestes c’ũa nota falsa de binte malreis? Nun bos amportais de sperar eiqui un cachico anquanto you bou eilhi a chamar la guarda?

    I, quaije cumo quien diç “pon-te eiqui q’hás de ber l castielho d’Outeiro”, tiu Albardeiro alhebanta-se i fai que bai a chamar la patrulha de la Guarda Republicana que nun andaba loinje d’eilhi. Mal el le birou cuostas, a la socapa, la fraguesa scuciu-se d’eilhi, ponendo-se a andar por donde i l mais delgeira que pudo, pa l meio de la feira, adonde andaba mais gente. Çcunfio anté que, deilhi, lhougo se tenerá botado mas ye a camino de Sendin…

    Passados tantos anhos, nun anteressa, agora, starmos eiqui a abaloar l porte de quienquiera que seia. Mas, cierto ye que, anquanto fui bibo, niũa beç mais, nin na feira nin an qualquiera outro lhugar, tiu Albardeiro habie de poner la bista an riba desta fraguesa…

    Regresso a casa apuis de la feira…

    Ne l final de la feira, hai que tornar a casa. Assi, cada qual trata de se poner a camino de la sue poboaçon. Eimaginai, agora, que tamien bós, de la feira i de l Naso, tornais pa l buosso pobo i a buossa casa……

    Se, de berano, pulas seis horas dũa tarde de suberrolho, cul cielo anubrado i l Sol antre nubres, de l Naso oulhardes caras a la Senhora de la Sierra, i tamien, s’indo pula strada de Miranda pa Bumioso, apuis de passar Zenísio, ampeçardes a baixar pa Caçareilhos, tenereis ũa bista zlhumbrante. A la buossa frente aparece un spetaclo quaije ineimaginable de lhinhas, cuntornos i zeinhos dourados de raios de lhuç, que, cumo ũa caçcata an forma de leque, se bai abrindo de riba para baixo i alhumbrando todo l hourizonte, i se derráman por antre las nubres de quelores bariables antre branco i cinza. Debido a esta andefeniçón de quelores, l cielo i ls montes mais çtantes mésclan-se de tal maneira que quaije se cunfúnden i mal se çfrénçan.

    Ye todo tan splandoroso que quaije custa a crer que seia mesmo rial…

    Anuncia-se, assi, ũa nuite de tormenta, cun muitos relhistros antre pequeinhos i bariables anterbalos de tiempo, a rasgar l cielo i a alumear la tierra, seguidos dũa sarabanda, an crecendo, de fuortes truones, que, retumbando pulas ourrietas, faran stremecer la alma de qualquiera crestiano. I, sentindo-se amanaçado, qualquiera un ye bien capaç de se botar a rezar la Santa Bárbela Bendita… Anfin, ũa grande troniada, cun gordas pingas d’auga a caer a potes, que, nun calando na tierra, abre grandes i fondos galatones nas aradas i que, spalhando pul aire un oudor a tierra, há de amansiar i refrescar l tiempo.

    Las siete Armanas

    Inda me lhembra de, cumo nũa maneira de ber relegiosa parcida cula bison militar de la funçon de ls castielhos de Miranda, Mogadouro, Peinhas Roias, Algoso, Outeiro i Bergáncia, eisistentes ne ls cunceilhos bezinos, oubir mie mai amentar nas Siete Armanas ou Siete Senhoras, cuntando cula de l Naso i outras seis al sou redor. Cumo screbiu l padre i mais tarde dr. Antonho Mourinho, pa lhá de sabístaren ũas a las outras, todas las manhanas fálan ũas culas outras: la Senhora de la Lhuç, an Costantin, tamien ne l cunceilho de Miranda; la Senhora de las Niebes, ne l cunceilho d’Alfándega de la Fé; la Senhora de l’Assunçon, an Bilas Bouas de l cunceilho de Bila Flor; la Senhora de la Sierra (de Nogueira), ne l cunceilho de Bergáncia; la Senhora de la Salude, an Bal de Janeiro de l cunceilho de Binhais; i inda la Birge de l Castielho, an Prenha de la Probíncia de Salamanca, an Spanha. Habie tamien quien, cumo tiu Casemiro Olibeira, de Bal de la Madre de Mogadouro (http://www.jornalnordeste.com/tio-joao/sete-senhoras-e-sete-irmas) que dezisse que, an beç d’algũas destas, serien outras…

    Se son armanas, han de ser melgas i cumoquiera nun seran mais que zdobramientos de la mesma Senhora. Séian l que fúren, qualquiera pessona ye bien capaç de ser deboto de todas eilhas. Mas, se fur de l Praino, ye quaije cierto que tenerá un cachico mais de deboçon pulas Senhoras de l Naso i de la Lhuç.

    Die de l Naso: Romarie i Fiesta de l Arraial

    Pa lhá de la feira de l die 22 de cada més, habie inda ne l Naso dues feiras anuales: la Feira de ls Burros, qu’era a seis de setembre i dedicada a las béstias i, ne l die a seguir, ou seia, die siete de l mesmo més, la Feira de l Arraial, qu’era la mais fuorte de todas las q’alhá se fazien.

    Mas, l mais amportante era l Die de l Naso – la Romarie de l Naso i la Fiesta de l Arraial – que, naquel tiempo, cumoquiera serie la fiesta de mais nomeada de l Praino Mirandés ou Tierra de Miranda – ls cunceilhos de Miranda, Mogadouro i Bumioso – i, anté mesmo, que la de ls Touros d’Alcanhiças, an Spanha. Assi, nun admira que, uns dies antes de l Die de l Naso, ls garoticos i las mocicas chagan-se la cabeça a sous pais pa q’ls deixássen ir a la Fiesta.

    La çtinçon antre la Romarie de l Naso i la Fiesta de l Arraial fai todo l sentido. Ye que, pa lhá de la celebraçon relegiosa – la Romarie, cun missa campal i cantada seguida de procisson a la buolta de la eigreija de l santuairo, al ampercício de la tarde i çtinadas als romeiros –, tenie tamien la parte profana – l Arraial, diberson que, ampeçando, al final de la tarde, cul bailo, cuntina nuite fuora, cula animaçon musical, la cuntinaçon de l bailo, las çcargas de fogo d’artefício i la sesson de fogo preso.

    Cul campo santo al redor de l santuairo cheno de pessonas – ties i homes, moças i moços, garoticas i garoticos – benidas de todas las poboaçones de ls alredores de l Naso, passante meidie de l die uito de setembre, ampeçaba la parte relegiosa de la Fiesta: la missa campal, al aire lhibre, ne l recinto de l santuairo. Cantada por meia dúzia de padres, la missa tenie dous puntos altos: l sermon, a meio, i, a seguir a la missa, la porcisson culas eimaiges de la Senhora de l Picon i de la Senhora de l Naso ne ls sous andores, un i outro lhebados al ombro por quatro i por seis homes.

    La porcisson era antre las capielhas i la eigreija de l santuairo i al redor desta. Cumo na missa, éran tamien milhentas las pessonas qu’íban na porcisson. Era tanta la gente, q’ls de la frente quaije chegában als de la parte de trás de la porcisson. A la frente, rezando i cantando, íban ls padres i, a seguir als andores, ls anjicos. Que rapazica ou garotico nun gustarie ir d’anjo, cun aqueilhas bestes finas, quelor de rosa, branca ou azul claro, alas brancas nas cuostas i puolo d’arroç na cara?! A seguir, íban tamien las pessonas que, cun cerca de meio saco de grano subre ls ombros, pagában las sues pormessas a la Senhora de l Naso. Lhembra-me de, ne ls anhos sessenta de l seclo passado, ber tamien las fitas decendo de ls ombros, passando al lhado de ls cordones d’ouro que çcaien subre la frente cerca de l manto pa las manos de la Senhora de l Naso, anté a la frente de l sou andor, chenas de notas, adonde algũas pessonas íban pregando c’un alfinete inda mais denheiro.

    Anquanto passaba la porcisson, ls fogueteiros, al zafio, botában ũa grande çcarga de foguetes. Antre ls padres, a la frente, i la multidon de pessonas, atrás, tocando i acumpanhando músicas relegiosas, íban las bandas de música que dában inda mais quelorido i brilho a la porcisson. Las ties i las moças, todas pimponaças, ũas mais debotas i outras bien perfumadas i chenas de proua, íban acumpanhando ls padres ne ls cánticos a la Birge. Todos bien calientes i sudando na tiesta, ls moços i ls homes amostrában inda outras deboçones. Assi, íban oubindo i apreciando la música de la(s) banda(s), las çcargas de foguetes i, arriba de todo, bendo las catequistas i las outras moças i ties.

    Apuis de la porcisson, cada mai precuraba la selombra dun frezno, dun carbalho, de la eigreija i de las capielhas de l santuairo ou de la casa de la Guarda pa dar la merenda que truxo de casa als sous garoticos. I, nas tabernas de ls cabanhales, chenas d’homes alhá drento i inda mais de fuora, a la spera de sue beç, la tie Gabriela, la tie Ginja i ls fameliares d’ambas a dues nun tenien manos a medir nin parança pa çpachar tanta fraguesie.

    Acabada la merenda, las garoticas i ls garoticos, chegando-le de l lhado de l campo de fa feira l rugido de las cadeiricas i de l carrocel, nun se calhában anté que la mai nun les botasse ũas crouas na mano pa neilhes dáren oumenos ũa buolta i pa cumpráren un docico i uns rebuçadiços na banca de las doceiras. De seguida, por bien que les custasse, sendo yá horas de tornáren para casa, toca de, cun sues mais, ponéren ls pies a camino de las sues poboaçones.

    Yá las moças i ls moços, qu’íban da-peto pa l Arraial i cun outras deboçones, solo pul final de la tarde, al ampeçar l bailo de l arraial – qu’era l punto mais alto de la Fiesta –, ye que chegában al Naso. Purmeiro, al toque de ls altefalantes; apuis, al toque de las bandas de música al zafio, cada qual an sou coreto i na sue sue beç, íban tocando pa la mocidade se botar a beilar. An alguns anhos, alguns cunjuntos – Melros de Cantanhede, Maria Albertina, Pais e Filhos, António Mafra i inda outros – ampeçórun tamien a animar l arraial.

    Un cachico antes de l çponer de l sol, ls pares de beiladores son yá tantos que fázen lhebantar ũa puolarada ne l aire, que, dun lhado a l’outro – de norte a sul i de naciente a poniente – de l campo de la feira, adonde era l arraial, mais parece ũa nubre subre l bailo.

    Al redor de l bailo, alguns homes i ties, ls pais de las moças, stan a ber i a begilar las filhas i ls moços, cun quien béilan. Cumo todo l cuidado ye pouco – cuidarien eilhes – i pa que nun les pregássen, pori, algũa, nun tíran ls uolhos deilhes. Mas, passado un cachico, alguns homes, deixando las ties a begilar las filhas, aporbéitan anton pa se botáren anté las tabernas pa quemer un muordo i buer un caneco de bino cun algun amigo q’ancuntrou por eilhi, al redor de l bailo.

    Apuis d’ampeçar a scurecer ye q’l arraial ampeça a sério. A la lhuç de las lhámpadas de l gerador de l duonho de l altefalante – inda nun habie alhá chegado la lhuç eilétrica –, son cientos i cientos de pares de moças i moços a beilar. Al ampeçar a tocar ũa nuoba moda – un corridinho, un vira, un passedoble ou un tango –, ls pares de moças botában-se a beilar. De seguida, chégan dous moços pa las apartar i cumbidar a beilar. Claro stá que, se ls moços nun fúren de l sou agrado, dan-le ũa tampa ou, quando muito, béilan, mas solo ũa beç, cu’eilhes.

    S’alguns moços ban apartar pares de moças de la sue, a outros gusta-les mais apartar las doutras poboaçones. Mal ampeçan a beilar cul moço, algũas moças, ponendo l braço stendido a apartar de l sou l cuorpo del, bótan-le la mano dreita ne l ombro de l moço pa nun le deixar arrimar; outras, menos squesitas, déixan-los achegar-se un cachico; i, inda outras, déixan-los mesmo ancostar-se bien a eilhas. A nun ser q’a ambos a dous les agrade l sou par i cada qual beile bien, acabando de beilar la moda, las moças i ls moços tórnan pa junto de las amigas ou de ls amigos. Yá ls q’ándan de namoro, quédan un cerca de l outro i, apuis de, quaije coladicos, beiláren mais algũas modas, l moço aporbeita pa cumbidar i acumpanhar la moça anté la banca dũa de las doceiras de Caçareilhos i le pagar un docico i ũa copa de licor. Alguns deilhes aporbéitan tamien pa cumbidar las moças a dar ũas buoltas nas cadeiricas ou de carrocel ou inda a ber ls acrobatas a las buoltas ne l poço de la muorte.

    Apuis dũa çcarga de fogo d’artefício – foguetes de lhágrimas de bários eifeitos i quelores –, nuite adrento, la cousa ampeça a calecer. Al oubíren tocar aqueilhas modas de beilar mais debagarico, ls pares, cada beç mais agarradicos, i, oumenos alguns, quaije mesmo coladicos, ye que, quedando la cousa inda mais caliente, toca a aporbeitar. Assi, hai q’anganhar ls uolhos ou scapar mesmo a la begiláncia de ls pais de la moça. Cachico a cachico, anquanto béilan, l moço bai lhebando la moça pa l meio de l bailo, mas de modo que ls pais deilha puodan inda abistar-le, oumenos, la cabeça. Aton, ambos a dous, pierna cun pierna, cula cintura i l peito del a sgodar-se na cintura i a sfregar-se ne ls senos deilha; cara cun cara, se calha mesmo, a dáren-se uns beisicos i a fazéren-se uns mímicos. Aton, la moça i l moço ampéçan a sentir un caloraço, que, de l cimo de las piernas, bai chubindo pul cuorpo arriba anté ambos a dous aquedáren an punto de rebuçado, senó mesmo, chochicos de todo. La puolarada q’anda ne l aire, pul eifeito de la lhuç de las lhámpadas de quelores burmeilha i amarielha, mais parece agora l fumo dun ancéndio. I nun admira, pus, la ferramienta de l moço, coladica i a roçar na de la moça, cumoquiera stá que nin fierro an brasa, malhado na bigorna de la a frauga puls malhadores i l ferreiro.

    Quien sabe se ls moço i las moças dalguns pares, nun se cuntentando cun roçáren-se, serien bien capazes de, sin dáren nas bistas, salir de l bailo para, a las scundidas, s’anroscáren, pori, ne l meio d’algũa touça ou an qualquiera canto i, assi, fazéren la buntade al cuorpo i a l’alma d’ambos a dous, tornando, apuis, yá mais apaziguados, pa l bailo.

    Apuis de l altefalante tocar, purmeiro l Tango dos Barbudos i, de seguida, la Valsa da Meia Noite, chega la hora de ber mais ũa çcarga de fogo d’artefício. Yá de madrugada, sigue-se la sesson de fogo preso. Inda me lhembra de ber l ciclista que, pul eifeito de ls rastrilhos, parcie nun se cansar de dar als pedales; apuis, aparecie un painel cula eimaige de la Senhora de l Naso, parcida cula de l sou standarte, mas arrodiada i alumeada por lhuzes de ls rastrilhos; i, ne l final, l spetaclo de fogo preso acaba a stalhar i ũa ruoda a abrir-se pa dezir a todos ls persentes: Boa Noite.

    Antre la ũa i las dues de la manhana, por bias de l cansaço i de l arrefecimiento de las beiladeiras i de ls beiladores, l puolo de l bailo parece yá mais ũa nubrina. Cachico a cachico, béien-se mais moças i moços a salir de l bailo, que queda cada beç cun menos pares. Las moças, que fúrun al arraial acumpanhadas puls sous pais, son las purmeiras a salir; apuis, las moças i ls moços de cada poboaçon, ajúntan-se todos i bótan-se, a la par, a camino de casa. Pul camino, mas sin dáren nas bistas, alguns moços i moças ban quedando pa trás, cumoquiera pa se fazéren mais alguns mimos i festicas. Yá altas horas, la maior parte deilhes, stafadicos de todo, alhá chágan a casa. Tenendo que fazer alguns quilómetros, bien çfrente de la ida pa l arraial, an que todos íban bien animados, na buolta pa la poboaçon i a casa, la deboçon ye agora quaije niũa. Ye tal i qual cumo que se questuma dezir:

    – “Aton, adonde bás?” – pregunta algũa pessona a quien bai a la fiesta.

    – “Pus bou a la fiesta!” – respunde-le el ou eilha, todo/a animado/a.

    – “Donde bienes?” – pregunta outro/a a quien torna de la fiesta.

    – “Beeengo de la fiiiesta…” – respunde-le el ou eilha arrastrando la boç.

    Al chegáren a casa, las filhas i ls filhos ténen todo l cuidado, nun ban, pori, spertar sous pais, i bótan-se lhougo a drumir, se calha, anté la janta – ye cumo quien diç, anté a la hora d’almorçar, pus ye aquel l nome que, na Tierra de Miranda, se dá al que, noutros lhados, le cháman almuorço. Isto, claro stá, se sous pais, lhembrando-se de quando éran mais nuobos, al cuntrairo de l que le fazírun ls pais dalguns deilhes, nun les spertáren i oubrigáren a poner-se a pie mais cedo.

    Als que les gusta apurar mais un cachico ne l arraial a fazer que fázen i só chégan a casa yá al alborecer, se ténen l azar d’ancontrar ls pais inda an casa, assujéitan-se a que, oumenos aqueilhes que, cuidando bingar-se de l que, quando éran nuobos, les fazírun sous pais, ponendo-se a eimitá-los i a fazer cumo eilhes, les dígan:

    – Bá, bamos alhá, rapaç! Toca a lhabar la fronha i esses uolhos pus tenes que benir cumigo a zmuntar ũas tierras pa la sementeira!

    I, indas que cheno de suonho i stafado de todo, arrastrando ls pies i torpeçando pul camino, alhá bai el a zmuntar toda la manhana. I nin arrepincha!… Pus que remédio ten, senó, oubedecer-le!… I muita suorte tenerá el se, de tarde, sou pai le deixar, oumenos, drumir la séstia.

    Bocabulairo – vocabulário

    Abaloar – avaliar \\ achegar-se – aproximar-se \\ adebinar – adivinhar \\ adondequiera – aonde quer \\ adregar – conseguir, calhar \\ aire – ar \\ alhá – lá \\ alhebantar – levantar \\ alhumbrar – iluminar \\ alredores – arredores \\ al redor – à volta \\ alumeado – iluminado \\ amanaçado – ameaçado \\ amansiar – amansar \\ amportar – importar \\ an – em \\ andefeniçon – indefinição \\ anfastiado – enfastiado, sem apetite \\ antresse – interesse \\ anubrado – nublado \\ apartar – separar \\ aponer-se – resolver \\ apuis – depois \\ atafaios – atafais, arreios de cavalgadura \\ atirar culs trastes al aire – atirar com tudo ao chão \\ arada – terra lavrada \\ arrodiado – rodeado \\ a trates – a tratar \\ baratilho – designação que se dava em Angueira ao vendedor de roupa de cama e de mesa e de outras utilidades domésticas a baixo preço \\ beç – vez \\ bezino – vizinho \\ biespera – vêspera \\ bino – vinho \\ bison – visão \\ bista – vista \\ bonda – basta \\ buolta – volta \\ buono – bom \\ burmelhina – jogo da vermelhinha \\ cabanhal – alpendre coberto \\ çacana – sacana \\ çafar – livrar \\ caleija – caminho estreito entre muros \\ caliente – quente; campanairo – campanário \\ canhono – cordeiro \\ capaç – capaz \\ Çarapicos – Serapicos // çcansar – descansar \\ çcampado – descampado, terreno sem construção, floresta ou cultivo \\ çculpar – desculpar \\ çcuntar – descontar \\ cfrençar – distinguir \\ cfréncia – diferença \\ cielo – céu \\ chano – chão \\ chibico – cabrito \\ chimpa/r – tombo/tombar ou atirar ao chão \\ ciego – cego \\ çorrateiramente – sorrateiramente \\ çpuntar – despontar \\ crestiano – cristão \\ çtância – distância \\ çtinguir – distinguir \\ çtinto – distinto \\  çtino – destino \\ cũa – com uma \\ çufino – focinho \\ cula – com a \\ cul – com o \\ culidade – qualidade \\ cumbenéncia – conveniência \\ cumbenir – convir \\ cuontar/cuntar – contar \\ cuntesto – texto \\ çurrapa – zurrapa, vinho de muito má qualidade \\ currida – corrida \\ custruçon – construção \\ deboçon – devoção \\ deilhes – deles \\ deilhi – dali \\ delantre – diante \\ delgeiro – ligeiro, rápido \\ de-lei – bom, agradável, às direitas \\ die – dia \\ dieç – dez \\ Dius – Deus \\ duonho – dono \\ eideia – ideia \\ eilhi – ali \\ eiqui – aqui \\ eisemplo – exemplo \\ eiluminar – iluminar \\ fragués – freguês, cliente \\ frenar – travar \\ frezno – freixo \\ fizo (verbo fazer) – fez \\ galaton – grande rego \\ gana – vontade \\ guapo – bonito \\ l – o \\ la – a \\ lhatoneiro – latoeiro \\ lhá – lá \\ lhembrar – lembrar \\ lheuga – légua \\ lhibrar – livrar \\ lhigar – ligar \\  lhinha – linha \\ lhino – linho \\ lhombo – lombo \\ lhuç – luz \\ lhugar – lugar \\ lhuita – luta \\ loinje – longe \\ mai – mãe \\ malreis – mil réis, moeda de valor equivalente a um escudo \\ meidie – meio dia \\ mielgo – irmão gémeo \\ mobimiento – movimento \\ mos – nos \\ Muntesino – Montesinho \\ necidade – necessidade \\ negociico – negógio \\ ningũa/niũa – nenhuma, nem uma \\ nisquiera – nem sequer \\ nobidade – notícia, novidade \\ nubre – nuvem \\ oucasion – ocasião \\ oulhar – olhar \\ oumenos – pelo menos \\ ouribeç/ouribeiro – ourives \\ ourniar – bramir do bovino \\ ourrieta – vale de terra arável e fértil \\ pa l – para o \\ pa la – para a \\ pa lhá – para além \\ pertenecer – pertencer \\ Pertual – Portugal \\ pon-te eiqui q’hás de ber l castielho d’Outeiro – fazer o manguito (sentido literal: conseguir algo que, praticamente, é impossível de obter. Explicação: o castelo de Outeiro está em tal estado de ruína que, apesar de estar no cimo de uma colina bastante elevada e visível a grande distância, só ao perto se consegue adivinhar ter sido um castelo) \\ pori – talvez, porventura \\ pormessa – promessa \\ porparar – preparar \\ porparos – preparativos \\ posta – naco de carne de vitela mirandesa assada ao lume \\ pula – pela \\ puls bistos – pelos vistos \\ purmanhana – ao alvorecer \\ purmeira – primeira \\ pus/puis – pois \\ qualquiera – qualquer \\ quei – quê \\ quejir (verbo querer) – quiser \\ quelor – cor \\ quemer – comer \\ quienquiera – quem quer \\ quier – quer \\ raia – fronteira \\ raisparta – raios partam \\ rebistar – ver se o animal tem qualquer defeito \\ regatar – regatear \\ relada – aborrecida \\ relhistro – relâmpago \\ rezon – razão \\ riba – cima \\ rosznar – rosnar, zurrar \\ ruin – ruim \\ salida – fêmea com cio \\ salude – saúde \\ scapar – ir embora \\ scherumada – (mulher) sem viço \\ sclarecer – esclarecer \\ scornar – agredir com  os chifres \\ scucir – escapar discretamente, escorregar \\ seinha – sinal \\ selombra – sombra \\ sendinesa – mulher de Sendim \\  sequiera – sequer \\ sesson – sessão \\   sfregante – instante \\ sfregar-se – roçar-se \\ sgodar – roçar \\ siete – sete \\ silha – correia para apertar a albarda \\ sodes (verbo ser) – sois \\ sou – seu \\ Spanha – Espanha \\ stória – estória \\ sperar – esperar \\ spetaculo – espetáculo \\ spalhafato – espalhafato \\ splandoroso – esplendoroso \\ sposiçon – exposição \\ squecido – esquecido \\ stantico – instante \\ stepor – estupor \\ stória – estória \\ stragar – estragar \\ strobilho – empecilho \\ strumento – instrumento \\ suberrolho – calor muito intenso \\ subreciente – suficiente \\ sue – sua \\ tagalho – pequeno rebanho \\ tener – ter \\ teston – tostão, dez centavos (do escudo) \\ tie – mulher \\ tienda – tenda \\ tiu – homem \\ tornar para casa culs cantares de la segada – regressar a casa sem ter atingido o objetivo \\ touça – moita de pequenos carvalhos \\ touronda – vaca com cio \\ traigédia – tragédia \\ troniada – trovoada \\ truones – trovões \\ ũa – uma \\ uito – oito \\ you – eu \\ zafio – desafio \\ zatar-se – pôr-se a, deitar-se a, desatar \\ zbio – desvio \\ zeinho – desenho \\ zgraciar – desgraçar \\ zgustosa – desgostosa \\ zinjuar – tomar o pequeno almoço \\ zlhado – ao lado \\ zmuntar – arrancar monte \\ zounesta – (maneira como, em Angueira, era designada uma) burra com cio

    Para saber o significado de outras palavras, sugiro a consulta do sítio

    http://www.mirandadodouro.com/dicionario/

    A quem queira visualizar algumas fotos aéreas de Angueira, sugiro a consulta do blogue

    http://portugalfotografiaaerea.blogspot.pt/2017/01/angueira.html

    Caso queira saber a localização de alguns sítios do termo de Angueira, carregue no “link”:

    www.openstreetmap.org/searchquery=Angueira%2C%20vimioso%2C%20portugal#map=12/

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  • L Margulho de las Moças na Ribeira

    junho 20th, 2016

    Nota Prévia: uma prevenção



    Se o/a leitor/a não está familiarizado/a com a Língua Mirandesa, sugiro que, para facilitar a compreensão do texto, o leia a meia-voz. Se, mesmo assim, sentir qualquer dificuldade em compreender o sentido ou descobrir o significado de alguma palavra menos usual ou cuja grafia se afasta mais da portuguesa, não hesite em consultar o Vocabulário que pode encontrar no final do mesmo.



    Breves notas sobre a grafia do Mirandês


    Em Mirandês, não se pronuncia o som v, que é substituído pelo da letra b; usualmente, o prefixo des é substituído, consoante os casos, por ç ou z no início da palavra; para não se confundir com a contração da preposição a com o artigo definido o, que, em Mirandês, se escreve e lê al, o artigo definido o escreve-se l, mas lê-se também al; salvo raras exceções, os ditongos nasais ão e õe escrevem-se an e on; o m final das palavras portuguesas é, no Mirandês, substituído pela letra n; geralmente, o l inicial das palavras é substituído pelo dígrafo lh; já o dígrafo ch, em Mirandês, lê-se sempre tch; talvez por, inicialmente, ser apenas uma língua falada, o Mirandês tende a contrair os pronomes, artigos, preposições e as conjunções com as palavras seguintes, quando estas são iniciadas por vogal.

    Antroduçon

    L eipisódio que bou a cuontar passou-se ne ls anhos sessenta de l seclo passado antre un moço i ũas moças d’Angueira. Nun bi nin me dezírun quien fúrun las moças i l moço que stubírun ambolbidos nesta stória. Mas, mesmo se soubisse, mal serie que bos dezisse quien fúrun eilhas i el, pus, cumo bien sabeis, las ties questúman lhebar las cousas muito a peito…

    Pa que nun dígades, pori, que solo me dá pa cuontar eipisódios marotos de la bida de las pessonas d’Angueira, aporbeito tamien pa lhembrar cumo era, anton, ũa parte amportante de la bida de muita canseira de qualquiera família de lhabradores. Nesse tiempo, chubisse ou fazisse sol, stubisse friu ou calor, toda la família staba ambolbida ne ls trabalhos de l campo. Assi, cada qual tenie que, cunsante las sues fuorças, dar ũa ajuda, por mais pequeinha que fusse, pa l sustento de todos.

    Esta ye tamien ũa maneira d’houmenagear las pessonas – ties i tius, moças i moços, mocicas i mocicos, garoticas i garoticos – que, na mie bida, subretodo, quando era inda garoto, fusse qual fusse la staçon de l’anho, bi, an Angueira, cun sforço stourdinairo, a trabalhar na lhaboura.

     

    De la sementeira anté la trilha

     

    Cula colheita de l trigo i centeno, findaba un anho i meio de muito trabalho i canseira nas tierras de sequeiro puul termo. Ne l ampercípio de la primabera, nuobe meses apuis la última colheita, ampeçaba, nas tierras, un nuobo ciclo de la porduçon de cereal: la relba, la purmeira lhabra, feita mal findaba l eimbierno; an maio, a meio de la primabera, era la bima, la sigunda lhabra; i, antre l final de setiembre i l ampercípio de outubre, mal ampeçaba l outonho, era la sementeira. Ne l anho a seguir, antre l final de junho i l meio de julho, era la segada; anté al final de julho, l acarreio; i, pul final de julho i anté meio de agosto, la trilha de trigo i de centeno.

    Pa lhá disso, antes de la sementeira, habie que zmuntar, ou seia, arrincar lheitariegas, baleias, chougarços, scobas, xaras i outro monte; ne l eimbierno, aricar i mondar, p’arrincar magarças, garabata, serralhas, baleias, lhabrestos, corriuola, pimpilros, patalhobos i inda outros yerbascos nas tierras cultibadas de trigo; i, a seguir la trilha, inda habie la recuolha de la palha, subretodo la de trigo, ne l palheiro.

    Cumo qualquiera nino na barriga de la mai, tamien la semiente, apuis de sembrada nas tierras de sequeiro – qu’éran las própias pa la porduçon de cereal –, antre la sementeira i la segada, lhebaba nuobe meses pa nacer, crecer i quedar pronto l sou fruito: l grano i la palha de trigo ou de centeno. Alternando antre fuolha i arada, mas an tierras çfrentes, anho a anho, todo se repetie nestas tierras.

    Quando se passou l eipisódio que bou a cuontar, inda habie pouco tiempo q’Angueira tenie auga ancanhada. I, quando passou a tener-la, solo las famílias de mais posses ye que la metírun an casa. Assi, todas las outras tenien qu’ir, bárias bezes al die, a anchir ls cántaros a la bica de la rue que quedaba mais cerca de casa. Mas, cumo l’auga de la fuonte era mais fresca i saberosa, todo mundo gustaba mais deilha pa buer. Assi, pul final de l die, las mais mandában ũa de las filhas a colhir un ou dous cántaros d’auga a la fuonte de l Pilo, abaixo de l Ronso i a meio de l pobo. Mas nun cuideis, pori, que las moças s’apoquentában cu’isso. Bien pul cuntrairo! Assi, siempre podien aporbeitar pa, pul camino ou na fuonte, ber ls moços i namorar un cachico. Ye qu’era questume ls moços speráren las moças na fuonte pa les dar ũa mano, ajudando-las a lhebantar i a poner l cántaro als quadriles. Mas, nun fusse, pori, l diabo armar de las sues, algũas ties, pa tenéren las filhas debaixo d’uolho, mandában un armanico c’ũa barrila ou c’ũa pchorra pa las acumpanhar a la fuonte. Oumenos assi, qualquiera filha i l sou moço siempre tenerien mais cuidado pa la cousa nun calcer demais i nun se botáren, pori, a brincar…

    Algũas bezes l’auga nun daba pa todos i falhaba nas bicas de ls sítios mais altos de la poboaçon. Habie, anton, que, cumo dantes se fazie, ir c’un ou dous cántaros de barro – daqueilhes de Mobeiros, cumprados na feira de la Senhora de la Lhuç, ne l termo de Costantin i na raia cun Spanha – ou cun outro cacharro a las cuostas ou ne l burro, a colhi-la toda a la fuonte. Habie, anté, famílias que tenien las cangalhas que cargában ne l burro. Assi, solo dũa beç, trazien quatro cántaros d’auga para casa.

    Claro que tamien la cria i las canhonas percisában de buer. Se, de berano, nun houbisse auga subreciente ne ls chafarizes, habie, anton, que chegar las buiadas i las pareilhas de burros i de mulas a l’auga  ne l chafariç de l Pilo ou na ribeira. Mas tamien pul termo, ne ls lhameiros ou ne ls baldius, habie fuontes, chafarizes i inda alguns poços ne ls ribeiros, cun auga pa la cria buer.

    Era tamien als chafarizes de Souganho, de l Pilico de Fuontecinas i del Chapeiron ou als poços de ls ribeiros de Bal Xardon, de Fuontecinas, de la Puontelhina, de Belharino, de ls Milanos, de la Cabanhona i de l Prado ou a la ribeira que, pul final de la tarde, apuis de zamorrar i salir de l steio, cada pastor chegaba l sou ganado a l’auga.

    Angueira: l poço de ls Puntones (retrato tirado an junho de 2022)

    Debibo al caloraço que fazie i a la grande scassidade d’auga, de berano, ls rapazes i ls garoticos apreciában tamien ir, a menudo, de tarde ou a la nuitica, a dar un margulho i chagurgar na ribeira, specialmente, na Cabada ou ne l poço de ls Puntomes. Aporbeitában, assi, pa se lhabar, sin star a gastar l’auga de casa i nun tenéren, apuis, qu’ir a colhir mais a la fuonte.

    P’eibitar cunfusones, sclareço que, an Angueira, questumaba dar-se tamien l nome de poço als sítios mais fondos dũa çuda ou represa de la ribeira, adonde, mesmo ne ls beranos mais secos, indas que pouca, habie siempre algũa auga.

    Angueira: Zona Balnear i Parque de Merendas de la Cabada.

    Las moças d’anton, qu’éran mais ambergonhadas que las d’agora, questumában tamien, mas a la nuitica, dar un poulico a la ribeira pa se refrescáren. Pa nun dáren nas bistas, sculhien un sítio mais resguardado i recatado: l poço de l Canhiço, na çuda de las Almas. Solo las mais afoutas ou atrebidas tenerien coraige subreciente pa, de die, s’abinturáren a ir a dar un margulho, chafurgáren i se refrescáren na ribeira. Nun fusse, pori, star por eilhi, scundido antre ls amineiros –  i hai tantos nas marges de la ribeira –, algun moço mais zabergonhado, bien capaç de se poner a spreitá-las.

    Pa dar ũa eideia de l qu’eilhes éran capazes de fazer, bonda cuontar un eipisódio an que, a seguir a ũa trilha, stubírun ambolbidos un rapaç, ũas quantas moças i ũa mocica.

     

    La trilha

     

    Era l tiempo de las trilhas que solo se podien fazer cun tiempo seco i, se possible, sin bento.

    Parece-me mais apropiado chamá-le trilhas, an beç de malhas ou lhimpas. Mas – preguntareis bós –, que çfréncia hai antre malha i trilha? Cumo se çtrinça ũa de la outra?

    Pus trilha ye quando la palha triga ou centena ye çfeita pula máquina an cachicos mi pequerruchicos; malha ye quando la palha de centeno, ambora toda maçada, queda grande, quaije solo sin la spiga.

    Mas, dantes, quando inda nun habie máquinas trilhadeiras, las trilhas éran feitas a la mano i cun trilho, puxado por ũa pareilha de béstias – burros ou mulas – ou por ũa junta de bacas. Apuis de ls lhimpadores tenéren spalhado ls manolhos de l bornal ne l chano d’yerba de las eiras, l trilho, i la pessona qu’iba an riba del pa fazer mais peso i cunduzir la junta de bacas ou la pareilha de béstias, dában buoltas i buoltas porriba de l cereal. A cada passaige de l trilho, las pedricas de xeixo, que tenie pul lhado de baixo, íban cortando la palha i smagando las spigas.

    Apuis, ls homes ajuntában la parba. De seguida, pa la lhimpar, pegában n’ũa spalhadeira cun q’atirában aqueilha mistura al aire para, assi, l bento apartar l grano de la palha. Assi, daba jeito que, na lhimpa, assoprasse un airico. Sendo l grano mais pesado, nun era fácel l bento arrastrá-lo pa loinje cumo a la palha.

    Mas, se fur feita por ũa máquina, parece-me melhor chamar-le trilha. Claro que la máquina trilhadeira dá pa fazer las dues cousas: trilhar i malhar la palha. Pa malhar, bonda que l centeno passe solo pul celindro de la frente; pa trilhar, l cereal ten que passar puls dous celindros: l de la frente i l de l meio de la máquina.

    Cumo la palha centena, pa lhá de dar pa la botar de cama a las bacas,  béstias i canhonas, daba tamien pa chamuscar ls cochinos na matáncia i, anté, p’anchir ls xaragones. Assi, daba jeito que parte deilha fusse malhada. Cumo la de trigo era p’acomodar la cria – la botar por baixo de la yerba, de l feno, de las nabiças, de las bóbidas i mesmo de l grano na manjadoura –, tenie que ser trilhada pa la podéren quemer.

    Nesse anho, yá todo mundo tenie acabado d’acarrear ls manolhos de trigo i centeno de las medas nas tierras pa ls bornales nas eiras: las de las Eiricas, de la Mediana, de la Canhada, de la Cabada, de San Sabastian ou pa las Eiras Grandes. Solo pa las Eiricas i pa las Eiras Grandes ye que qualquiera un podie lhebar l sou cereal. Ye que las outras tenien duonho i solo s’este les outorizasse ye q’outros lhabradores poderien neilhas fazer ls sous bornales i la trilha.

    Las trilhadeiras – la máquina de l senhor Correia i la de l tiu Morais i de l tiu Aran, ambas a dues de marca Tramagal – cada qual puxada por dues juntas de bacas, tenien acabado de chegar de las Eiricas i de las eiras de la Cabada ou de la Mediana – nesse tiempo, yá naide fazie la trilha ne l Areal – stában prontas a ampeçar las trilhas nas Eiras Grandes. Pa nun se storbáren ũa a la outra, las máquinas seguien a eito: ũa a trilhar de baixo parriba i la outra de l cimo pa l fondo de las Eiras Grandes.

    Tenie sido un anho de buona colheita, tanto de trigo, cumo de centeno. Assi, las Eiras Grandes, eiceto ne ls ralos spácios que, cumo era questume, ls lhabradores deixórun lhibres pa las máquinas i ls carros podéren passar, stában, dũa punta a la outra, quaije todas acupadas puls bornales. Maiores ou mais pequeinhos, bien ou mal amanhados, todos ls bornales tenien la forma dun pion al cuntrairo, ou seia, cul ferron birado parriba.

    Las Eiras Grandes, que son de toda la gente de l pobo, quédan ne l monte mais alto i apegado a la poboaçon, a naciente de l ribeiro de l Balhe ou de la Francosa. Inda hoije, stan cobiertas d’yerba por todo l lhado, que, cumo stá bien de ber, seca ne l berano. Solo na barranca birada a norte ye que habie, i inda hoije hai, ũa toucica de carbalhicos, adonde, antes de l acarreio, amorrában alguns ganados. La parte mais alta i praina, que, de sul para norte, ten bários cientos de metros de comprida i, de naciente pa poniente, mais de cien de lharga, darie pa fazer bários campos de jogar a la bola. Por tener tan buonas cundiçones pa l antento, era ende que la maior parte de ls lhabradores d’Angueira fazien ls sous bornales i la trilha.

    Angueira: las Eiras Grandes bistas de l cimo de l pobo (junho de 2022)

    La çposiçon i la grandura de ls bornales de cada família nas Eiras Grandes eimitaba la de las casas ne ls lhargos, rues i caleijas de la poboaçon. Al lhado dun spácio lhibre mais lhargo, antre las dues fileiras percipales – ũa abenida – de bornales, qu’íban pul meio i de baixo a riba de todo l campo de las eiras. Mas habie tamien alguns spácios sin eilhes – rues i caleijas que cruzában las fileiras percipales – por donde passarie la palha pa ls medeiros i que serbien inda de passaige pa las outras fileiras, al lhado de ls bornales mais pequeinhos.

    Cunsante abança la trilha, cada bornal bai cedendo l lhugar a un medeiro de palha proporcional a el. Acabadas las trilhas i anté la palha nun ser arrecadada ne l palheiro, la maior parte de l campo de las eiras queda acupado por muitos, uns grandes i outros mais pequeinhos, medeiros de palha.

    Se quegíssemos rodar la fita de cinema dũa trilha, beriemos qu’eilha acuparie alguns atores i bários figurantes, cerca de quinze pessonas al todo: ũas de la família de l lhabrador i outras, an torna-jeira, de la família de ls sous amigos. Mas, nun sendo neçairo armar cenários nin star eiqui a fazer ancenaçones – pus solo se trata de ber cumo, na rialidade, se passában las cousas –, falta inda, assi i todo, dá-le mobimiento i un cachico de quelorido a la cousa, pa se ber bien l’azáfama i la canseira que, sendo própias de la trilha, ban por eilhi.

    Ne l alto de las eiras, sentie-se un airico inda bien fresquito, benido de ls lhados de Samartino. L bento sieiro ye l prenúncio dun die de caloraço, que s’adabina yá. Inda l Sol mal se bei i yá todos ls trillhadores – homes, rapazes, moças i un ou outro garotico – aguárdan eilhi a la abrigada de ls bornales.

    L maquinista yá tenie assentado i niblado la máquina, que, de biespera, tenie mudado pa cerca destes bornales, afinado las correias i anchido de combustible l depósito de l motor, pus, nesse tiempo, inda naide d’Angueira tenie trator. Home aporcatado, ten, al lhado, dous bidones chenos de combustible. Anfin, todo stá porparado i pronto p’ampeçar la trilha.

    Cada qual stá yá ne l lhugar que l’ye debido. Dous moços acabórun de chubir parriba de l bornal. L home de ls sacos, que yá tenie calibrado la balança, trata de poner dous sacos na frente de la máquina, por donde sal l grano. Atrás de la trilhadeira, dues moças, culs sous rastros, aguárdan que la palha ampece a salir pa la tirar i lhebar deilhi pa l medeiro, adonde outras dues i mais dous garoticos tamien aguárdan pa la bendear, stender i ancalcar.

    Oulhando a la buolta i bendo que todo stá de-lei, l maquinista pon l motor a trabalhar. Oube-se, anton, un run-pun-pun fuorte, mas inda heisitante. De seguida, l motor pega i arranca, lhargando ũa nubre de fumo negro. Pul efeito de las correias, la máquina ampeça, anton, a matracar a cumpasso.

    Manolho a manolho – q’un de ls moços tira de l bornal i chega al outro, que, por sue beç, cũa spalhadeira l atira pa l taipal, ye zatado, por outro, i q’l maquinista mete ne l cilindro de la frente –, bai salindo l grano pula frente i la palha pula parte de trás de la trilhadeira. La parte mobile de la máquina, nun bai i ben costante, de frente pa trás i de trás pa la frente, fai apartar i lhebar, grano i palha, pa l sítio própio i que les ye debido. Al redor de la máquina, lhebanta-se, anton, ũa nubrica de munha – un puolo fino, quaije dourado, mas mui eirritante pa la boca, la garganta i, subretodo, pa ls uolhos de todos – que paira subre la parte central, cerca de l sigundo celindro, i quaije tapa la máquina. Cunsante la altura de l bornal bai baixando, bai crecendo l medeiro de palha i l númaro de sacos chenos de grano i ampilhados.

    Las spalhadeiras son de fierro ou de madeira i ls rastros, que son de madeira – ũas i outros dan tamien pa l feno –, ténen la forma dun pende, an grande – de mais de un metro –, cun grandes dientes – de cerca de un palmo – i un cabo pa l puxar – de cerca de metro i meio –, cũa bifurcaçon que bai de l meio de l cabo anté al ancaixe ne l pende. Ls sacos, de lhana ou de lhino, feitos pulas tecedeiras i que pássan, por hardáncia, de pais para filhos, lhieban un cachico mais de cinquenta quilos de grano.

    Todo funciona cumo un einorme maquinismo, a ritmo cumpassado i marcado pula trilhadeira. Mas, se qualquiera un falhar, todo se atasca i, aton, hai que parar. L home de ls sacos, que ten de ser fuorte i zampolhinado, nun se pude çcuidar nin star a drumir, pus ten que mudar, pesar, atar i ampilhar ls sacos de grano i inda q’ajudar outros homes a cargá-los ne l carro de bacas ou de béstias. Por su beç, estes ténen qu’ir a casa de l lhabrador çcargá-los i çpejar l grano nas tulhas. Tamien ls maquinistas – dous homes cuntratados pul duonho de la trilhadeira i que se rebézan un al outro –, pa lhá de, manolho a manolho, meter l pan na máquina, ténen inda que cuidar deilha i de l motor – ber l funcionamento de ls celindros i correias, mudar i lhimpar ls cribos i botar combustible al motor – i, ne l final, ténen inda que cobrar la maquila que, pula trilha, l lhabrador ten que pagar al duonho de la máquina. Claro que ténen tamien que star siempre d’uolho listo i cun todo l cuidado, nun deixe l motor scapar, pori, algũa fagulha que pegue fogo i bote todo a perder.

    Eiceto quando se para pa quemer – almuorçar, jantar ou merendar a la selombra de l bornal, paraige aporbeitada tamien pa çcansar un cachico – ye assi todo l santo die desta gente anté final de l die ou la trilha de l lhabrador s’acabar.

    An qualquiera trilha, anda tamien siempre un garoto, ancargado de l cántaro de barro i de l jarro de porcelana, pa nun faltar auga fresca i matar la sede als lhimpadores.

    Mas, ponendo de parte l filme, bamos, aton, al eipisódio que se seguiu a ũa trilha.

     

    L margulho de las moças na ribeira

     

    Pula rotacion natural de las anclemenéncias própias de l tiempo, als nuobe meses d’eimbierno sucedien-se ls trés d’einfierno. Assi, por cerca de las seis horas de la tarde, staba inda un caloraço que, a nun ser que fusse pa se poner a ũa selombra bien fresca ou star na auga i a chafurgar na ribeira, nin sequiera apetecie salir de casa. Assi i todo, pa toda esta gente, nun habie outro remédio senó trabalhar.

    Benidas de las Eiras Grandes, adonde todo l santo die tenien stado nũa trilha – a sacar i a arrastrar la palha de la trilhadeira pa la bendear i amanhar ne l medeiro –, ũas quantas moças – ũa yá mulhier feita i las outras spigadotas – i ũa rapazica mais nuobica báixan pula caleija que, de San Sebastian, dá pa la ribeira. Chenas de calor, sudadas i carregadicas de munha, pa la tiráren de l cuorpo i se refrescáren, ban morticas por se botáren de chafurgo na çuda de las Almas, un cachico abaixo de la puonte de la Senhora.

    Ribeira d'Angueira antre l molino de ls Deminguitos i la puonte de la Senhora.

    Un moço, benido de l Lhargo de Saiago i que, cula priessa, tenie atalhado pulas cortinas de l Tanque, tornaba pa las Lhameiras, pa cerca de la marra de l termo d’Angueira cul de la Speciosa, adonde, de manhana, tenie quedado l sou ganado amorrado, a stiar nũa touça i a la guarda de ls perros. Tenie inda que fazer parte de l camino que la gente de San Joanico questumaba seguir quando, a pie, de burro, de mula ou a cabalho, iba a la feira ou a la fiesta de l Naso. Sendo yá tarde i cumo staba un cachico atrasado, tenie que dar bien a la pierna pa lhá chegar. Ye qu’inda tenie q’andar dous quilómetros de ls grandes – la çtáncia anté la tierra adonde era l steio i l ganado starie prestes a zamorrar – i, para mais, siempre a chubir ou al parriba anté al cimo de Cabeço Molhon.

    Ambora tubisse bários armanos, fui a el que, antre toda la filharada, le tocou a ser l pastor de l ganado de la família. I ningũa beç sous pais habien tenido qualquiera rezon de queixa del.

    Mesmo al chegar a la lhameira de la Çuda de las Almas na marge dreita de la ribeira, purmeiro, oube i, de seguida, bei, an riba de la puonte de la Senhora, un tagalho de moças a passar pa l outro lhado. Çcunfia que cumoquiera iran a nadar al poço de l Canhiço, al fondo de Cabeço l Cuorbo, por donde, na marge squierda de la ribeira, passa l carreiron que, de la Senhora, dá pa la Cabada. Ye un sítio resguardado puls amineiros de las marges de la ribeira, adonde – pensarien eilhas – nun darien nas bistas nin chamarien a la atençon de naide. Nun sfregante, l pastor, scundendo-se antre ls amineiros, por eilhi se queda, queto, mudo i calhado que nin l caramono atrás de la eigreija, a la spera i a la spreita, solo para ber l que, eilhi, s’irie a passar. Las canhonas que sperássen, que – pensaba el – nun farien, nin, a aqueilha hora, l lhobo les farie mal niun!…

    Parcie bruxo! Deilhi a cachico, chégan las moças al Poço de l Canhiço na Çuda de las Almas, que staba quaije cheno d’auga mesmo apetitosa pa dar un margulho i nadar. Ye que, cumo l tiu Zé Burmeilho, l molineiro, toda la manhana tenie stado a moler, habie passado muita auga de la çuda de l molino de la Senhora pa la de las Almas.

    Ne l sítio mais scundido de la marge squierda, nun stantico, todas eilhas s’alebían de la roupa. Aton, an fileira ne l carreironico, que, antre ls amineiros, dá pa la ribeira, ũa a la frente, seguida doutra lhougo atrás, chímpan-se todas eilhas de cabeça na ribeira.

    Deilhi, donde el stá, d’uolhos arregalados i oubido a la scuita, l rapaç, assiste al spetaclo i bai oubindo: chafun!… chafun!… chafun!… I, chafun atrás de chafun, seguidos d’outros chafuns, moça a moça, todas eilhas se spétan de chafurgo na ribeira.

    Spabilado i listo cumo ye, l rapaç, nun se demorando muito i sin fazer rugido, atrabessa pul fondo de la çuda pa l’outra marge de la ribeira. Aton, culas moças antretenidas i sin se dáren de cunta, pega na roupa deilhas i toca a scundé-la nũa uolmeira, un cachico mais abaixo donde eilhas stan. De seguida, bolbendo pa l mesmo sítio, ampolheira-se nun amineiro. Scundido antre la ramaige i stribado al tuoro, pon-se a la scuita, a spreitá-las i mirá-las melhor. Bei q’alhá stan eilhas, todas regaladas, a refrescar-se. I, anquanto ũas cuntínan a nadar de barriga, outras bótan-se a nadar de cuostas. Aton, ye q’l moço pudo ber i apreciar inda melhor aquel spetaclo.

    Passado un cachico, bótan-se anté la parte menos fonda de la ribeira pa çcansar. Tolhas eilhas de pie, pónen-se als poulicos i als griticos i ampeçan a chapinar-se ũas a las outras cu’la auga que, naquel sítio, nin pul ambelhigo les dá. La animaçon ye tanta que, cul sou bagar, parcie mesmo que naide serie capaç de las tirar deilhi.

    Apuis de l’auga les tirar aqueilha pelaige dourada i finica de munha, cada ũa deilhas queda bien molhada, cu’la piel toda relhamposa i cun toda aqueilha roupa cun que la mai la botou al mundo. Ye qu’essa serie mui deficel de tirar.

    Solo la mais nuobica, toda einocente i acanhadica, ye que stá an calcicas. Aton, la mais bielha, yá par’ende cun binte anhos feitos, un cachico stoubada i la mais atrebida de todas eilhas, bira-se pa la mocica i, mirando-la toda, d’alto a baixo i de baixo a riba, cun oulhar de çprézio i aire de caçoada, diç-le:

    – Ai cuitadica, q’ambergonhadica ye!… Oulhai que nin coraige ten pa tirar las calcicas! Se calha, inda nun ten nada!…

    Cumo nun habie modo de se calhar nin se cansaba de le zucrinar la pacéncia, la mocica, solo pa la calhar, abaixa las calcicas quaije anté ls zinolhos i, ponendo-se an bicos de pies, bira-se para eilhas i respunde-le:

    – Ai nó, que nun tengo!… Pus oulhai-lo!…

    Mas l que habie d’acuntecer!… Nun stantico, l rapaç salta de l scundideiro i, spantado, mas todo cuntentico cul que se stá a passar i el a ber – si, que ningũa deilhas era nada desaires! –, nun cunseguindo quedar calhado, diç bien alto:

    – I por acauso ye pimpon, carai!…

    Anton, al oubi-lo, la mocica, toda aflitica, nun sfergante, puxa las calcicas arriba pa se tapar.

    Bien se tenerá debertido l pastor al ber aqueilhas pimponas, todas anculhidicas, mui ambaraçadas i mesmo afliticas, i, de seguida, a fugir todas apoquentadas i cada qual a la procura d’ancuntrar la sue roupa i relada an tapar-se, l melhor que podie, culas únicas pieças que, cumo cuntinaçon de las manos, les sobrában deilhas. Ye que, cumo stá bien de ber, só stában cula roupa cun que la parteira las biu, pula purmeira beç, quando ajudou la mai de cada ũa deilhas a botá-la i a eilha a benir al mundo.

    Nun bi nin sei l que, nessa tarde, tenerá acuntecido al ganado de l pastor. Ye que, aqueilha hora, yá starie zamorrado i, cumoquiera, a fazer algũa lhobada. Que, solas, cu’la sede cun que starien i sin pastor que las chegasse a l’auga, l que nun farien las canhonas?!…

    Quien sabe tamien se, nuite adrento, anquanto guardaba l ganado a drumir nũa arada i el, deitado nun suco, çcansaba todo anroscado na sue manta, l pastor, oulhando pa las streilhas i lhembrando-se i sonhando cul que tenie bido de tarde, sin mais naide, a nun ser las canhonas i ũa perra, eilhi a la buolta del, nun le dou, pori, p’arregaçar las mangas. Sabe-se alhá se, a la cunta dalgũa de las moças i na falta de melhor, nun deixou que la armana de la squierda se botasse a fazer algũa gaiola pa meter l páixaro i, assi, le matar la fame. Indas que nun m’atreba a poner la mano ne l lhume por naide nin por niũa deilhas, çcunfio qu’el nun serie moço pa deixar que nin la dreita nin la squierda s’atirássen a fazer la cousa essa. Mas, tengo acá para mi que, s’assi fui, ye bien capaç qu’inda antes de l’alborada, el tenga spertado, pori, culas ciroulas todas molhadas.

     

    Bocabulairo // vocabulário

     

    Abinturar – aventurar \\ acarreio – transporte dos molhos de cereal para a eira \\ acupar – ocupar \\ adabinar – adivinhar \\ adrento – dentro \\ aire – ar \\ alhá – lá \\ al redor – à/em volta \\ ambelhigo – umbigo \\ ambergonhado – envergonhado \\ ambolbido – envolvido \\ amineiro – amieiro \\ amorrado – rebanho em estado de letargia, durante o dia no verão, devido ao calor \\ ampeçar – começar \\ ampercípio – princípio, início \\ ampolheirar-se – empoleirar-se \\ an pelote – nu/a \\ ancalcar – calcar \\ anclemenéncia – inclemência \\ andenheirado – endinheirado \\ anho – ano \\ apartar – separar \\ apoquentado – preocupado \\ apuis – depois \\ arble – árvore \\ aricar – arrancar com o arado a erva dos sulcos da terra cultivada de cereal \\ armano – irmão \\ arrefucir – arregaçar \\ arrincar – arrancar \\ assi i todo – mesmo assim \\ assuceder – suceder \\ atrebir-se/ido – atrever-se/ido \\ barrila – bilha de barro para água \\ beç – vez \\ begilar – vigiar \\ bendear – lançar palha ou feno para o carro, palheiro ou medeiro \\ benir – vir \\ béstia – besta \\ bezino – vizinho \\ bino – vinho/veio \\  biespera – véspera \\ bidon – recipiente de combustível \\ bó – avó \\ bóbida – abóbora \\ bornal – meda circular de molhos de cereal na eira com forma de pião invertido \\ botar – deitar \\ buer – beber \\ buolta – volta \\ cacharro – recipiente \\ cachico – pouquinho \\ caçoada – troça \\ calcer – aquecer \\ caleija – viela\\ cangalhas – cestos em madeira ligados entre si próprios para transportar vários cântaros de água em cima do burro \\ canhona – ovelha \\ canhuota – canhota, mão esquerda \\ carai – caramba \\ caramono – boneco \\ causo – acaso \\ çcansar – descansar \\ çcargar – descarregar \\ çcunfiar – desconfiar \\ çenteno – centeio \\ çfeita – (forma do verbo çfazer) desfeita \\ çfréncia – diferença \\ çfrente – diferente \\ chafurgar/o – mergulhar/o \\ chimpar – atirar \\ chubir – subir \\ colhir – colher \\ coraige – coragem \\ costante – constante \\ çpejar – despejar \\ çpido – despido, nu \\ çposiçon – disposição, distribuição \\ çtáncia – distância \\ çuda – açude \\ corriuola – corriola, erva daninha \\ cortina – campo fértil cercado por muros \\ çtinado – destinado \\ çtrinçar – destrinçar \\ cu’l/a – com o/a \\ cum’assi cum’assado – duma maneira ou doutra, seja como for \\ cumoquiera – talvez \\ cumpasse – compasso \\ cun/c’un – com/com um \\ cundiçon – condição \\ cuntinar – continuar \\ cunsante – consoante \\ de-lei – como deve ser \\ debertir – divertir \\ desaires – feio \\ dous – dois \\ dreita – direita \\ dues – duas \\ duonho – dono \\ eilhi – ali \\ eimbierno – inverno \\ einfierno – inferno \\ ende – aí, nesse lugar \\ faga/fazírun/fazisse – (formas do verbo fazer) faça, fizeram, fizesse \\ ferron – ferrão \\ fiç/fizo – (formas do verbo fazer) fiz, fez \\ ganado – rebanho, gado \\ garabata – erva daninha \\ grandura – grandeza, tamanho \\ grano – grão \\ guapa – bonita \\ hardáncia – herança \\ inda/indas que – ainda/ainda que \\ l – o \\ la – a \\ le – lhe \\ lhabrador – agricultor \\ lheitariega – leituga, erva daninha \\ lhimbo – limbo \\ lhimpa – ato ou processo de separação de palha e grão de trigo e centeio \\ lhargo – largo \\ lhobada – (sentido figurado) assalto à comida \\ lhume – lume, fogo \\ mai – mãe \\ mano – mão \\ manolho – feixe de trigo ou centeio com todas as espigas viradas para o mesmo lado \\ maquila – porção de grão cobrada pelo dono da trilhadeira ou pelo moleiro \\ matracar – fazer barulho cumo uma matraca \\ medeiro – monte de palha \\ mirar – olhar \\ molino – moinho \\ molineiro – moleiro \\ munha – pó da palha, moinha \\ moço – namorado, rapaz \\ naide – ninguém \\ nalgas – nádegas \\ neçairo – necessário \\ niblar – nivelar \\ ningun – nenhum \\ nin sequiera – nem sequer \\ niun – nenhum \\ nubre – nuvem \\ nuite – noite \\ nuobe – nove \\ nun stantico – num instantinho \\ nuobo/ico – novo/ito \\ oulhar – olhar \\ oumenos – pelo menos \\ outoridade – autoridade \\ parba – cereal estendido na eira durante a trilha \\ pa lhá – para além \\ parcer – parecer \\ passaige – passagem \\ patalhobo – leguminosa selvagem da família das tremoceiras: tremocilha \\ pchorra – pequena bilha de barro com bico para beber \\ pelaige – pelagem \\ peligro – perigo \\ pende – pente \\ penuige – penugem \\ percipal – principal \\ percura – procura \\ perro – cão \\ pertenecer – pertencer \\ pimpilro – espécie de erva danhina \\ pion – pião \\ pie – pé \\ poboaçon – povoação \\ pori – por azar/acaso, talvez \\ poulo/ico – pulo/inho \\ poniente – poente \\ praino – plano, planalto \\ pula – pela \\ puolo – pó \\ quaije – quase \\ quegíssemos – (forma do verbo querer) quiséssemos \\ par’ende – para aí \\ purmeiro – primeiro \\ quelorido – colorido \\ quemer – comer \\ questumar – costumar \\ ramaige – ramagem \\ redadeiro – último \\ rebezar – substituir no trabalho para o outro descansar \\ relhamposo – brilhante \\ rue – rua \\ rugido – ruído \\ scassidade – escassez \\ sculhir – escolher \\ scunder – esconder \\ selombra – sombra \\ sequiera – sequer \\ sforço – esforço \\ sfregante – instante \\ sieiro – vento de leste \\ smagar – esmagar, triturar \\ spabilado – (d)esperto, vivaço \\ spalhadeira – instrumento com “dentes” de ferro ou de madeira para lançar e espalhar palha ou feno \\ spalhar – espalhar \\ spantado – espantado \\ spertar – acordar, despertar \\ spreitar – espreitar \\ spigadota – crescidota \\ squecer – esquecer \\ squierda – esquerda \\ stantico – instantinho \\ star – estar \\ steio – sítio da sesta do rebanho \\ stiar – dormir a sesta \\ storbar – atrapalhar \\ stourdinairo – extraordinário \\ stoubado – estouvado \\ streilha – estrela \\ stribar – encostar \\ stubírun – (forma do verbo star) estiveram \\ subreciente – suficiente \\ sudado – suado \\ termo – terrenos/propriedades à volta da povoação e pertença dos seus moradores \\ trazírun – (forma do verbo trazer) trouxeram \\ tocar – calhar a sorte \\ todo mundo – toda a gente \\ torna-jeira – devolução da jornada de trabalho \\ touça – moita de arbustos \\ trilha/deira – debulha/máquina debulhadora \\ trilho – estrado curvo formado pela união de três tábuas grossa de madeira de mais de um metro de largura por cerca de metro e meio de cumprimento, cuja base é constituída por várias linhas paralelas cravejadas de pequenas lascas de seixo para cortar a palha e esmagar a espiga \\ tubo – (forma do verbo tener) teve \\ tulha – parte da casa onde se guardam cereais \\ ũa – uma \\ uolho – olho \\ yerba/sco – erva \\ zabergonhado – sem vergonha \\ zatado – desatado \\ zamorrar – acordar do sono letárgico provocado pelo calor do dia \\ zampolhinado – desenrascado \\ zinolho – joelho \\ zmuntar – arrancar ervas daninhas das terras de sequeiro antes da sementeira \\ zucrinar – dar cabo da paciência– dar cabo da paciência.

    Para saber o significado de outras palavras, sugiro a consulta do sítio

    http://www.mirandadodouro.com/dicionario/

    A quem queira visualizar algumas fotos aéreas de Angueira, sugiro a consulta do blogue

    http://portugalfotografiaaerea.blogspot.pt/2017/01/angueira.html

    Caso queira saber a localização de alguns sítios do termo de Angueira, carregue no “link”:

    www.openstreetmap.org/searchquery=Angueira%2C%20vimioso%2C%20portugal#map=12/

    Se quiser ver como, antigamente, era uma trilha nas Terras de Miranda, carregue no “link” da Associação Cultural E Recreativa Constantinense:

    https://www.facebook.com/groups/2002106890028748/?multi_permalinks=2237082856531149&notif_id=1549983433416143&notif_t=group_activity

    Se quiser saber mais e acompanhar o que se vai passando em Angueira, carregue no link e peça a adesão a Angueira Atalaia, um grupo do Facebook que, compreendo mais 22 grupos, um geral e mais um por cada localidade do concelho de Vimioso, integra a Comunidade em Rede Atalaia:

    https://www.facebook.com/groups/1750219901696026/

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  • La Patrulha de la Guarda i la Licéncia para Usar Chiçqueiro

    maio 22nd, 2016

     

    Nota Prévia: uma prevenção

     

    Em Mirandês, não se pronuncia o som v, que é substituído pelo da letra b; usualmente, o prefixo des é substituído, consoante os casos, por ç ou z no início da palavra; para não se confundir com a contração da preposição a com o artigo definido o, que, em Mirandês, se escreve e lê al, o artigo definido o escreve-se l, mas lê-se também al; salvo raras exceções, os ditongos nasais ão e õe escrevem-se an e on; o m final das palavras portuguesas é, no Mirandês, substituído pela letra n; geralmente, o l inicial das palavras é substituído pelo dígrafo lh; já o dígrafo ch, em Mirandês, lê-se sempre tch; talvez por, inicialmente, ser apenas uma língua falada, o Mirandês tende a contrair os pronomes, artigos, preposições e as conjunções com as palavras seguintes, quando estas são iniciadas por vogal.

    Dedicatória

    A mius pais, la tie Marie Rosa Quintanilha i l tiu Zé Luiz Pero, i a mius armanos, Anica Pera i Jorge Pero, que, cun muita soudade, guardo na mimória i eiqui les lhembro; a la outra Ana Marie, a Eimílio i a Aquilino, mius armanos tamien, i a sous filhos i mius sobrinos.

    Esta ye ũa maneira de lhembrar ls lhugares i ls modos de bida de la giente d’Angueira d’antigamente i inda d’abibar i houmenagear la mimória de las pessonas qu’éntran nesta cuonta.

     

    Eipisódios de la bida de tiu Zé Godenso

    Inda nun bai muito tiempo que miu armano Eimílio – a quien tengo que l’agradecer – me lhembrou d’alguns eipisódios que, ne ls anhos quarenta i cinquenta de l seclo passado, se passórun an Angueira, ambolbendo las pessonas que, de seguida, bou a nomear:

    L tiu Chic’Albino, ou seia Francisco Manuel Dias, qu’era filho de l tiu Albino, barbeiro, i, sigundo me cuntou miu primo Chico – a quien tengo tamien que l’agradecer –, de la senhora Floréncia, armana de la dona Ernestina. Sendo ambos a dous de fuora – sue mai de Riu Friu i sou pai de Dues Eigreijas –, alhá fúrun a dar a Angueira.

    Sigundo me cuntou la dona Antoninha – a quien agradeço tamien –, quando sue bó, la dona Ernestina Bara, qu’era porsora diplomada, fui a dar scola an Angueira, sue armana, Floréncia Bara, fui cu’eilha pa le fazer cumpanha. Las dues armanas éran, pul lhado de la mai, sobrinas de Ferreira Deusdado, ambaixador de Pertual na Rússia i un pertués eilustre desse tiempo. Acabando por cada qual coincer l sou home an Angueira – la dona Ernestina l senhor Antonho Arina, Sora d’alcunha, i la senhora Floréncia l tiu Albino Dias –, alhá se casórun i quedórun a bibir.

    Tiu Chic’Albino, pa lhá de ser un de ls trés barbeiros que, nesse tiempo, habie an Angueira, era tamien l dentista, l anfermeiro i l regidor. Era casado cu’la tie Beatriç, qu’era armana de l tiu Plilhas i dezien q’ambos a dous, tal cumo tiu Charruco, éran filhos de l miu abó Quintanilha i, por isso, armanos, por parte de pai, de mie mai i, cumo tal, mius tius.

    Nesse tiempo, questumaba ser l barbeiro, que, pa lhá d’arrincar ls dientes, fazie tamien d’anfermeiro. Cumo ls oufícios passában de pai para filho i estes dous questumában andar apegados un a l’outro, l tiu Chic’Albino hardou-los tamien de sou pai. Por ser Fracisco i filho de l tiu Albino, l pobo passou a chama-le Chic’Albino, alcunha que ls sous quatro filhos – Marie Albina, Lázaro, Toninho i Sanzinha – hardórun del. Ambora fússen ls mais nuobos, Toninho i Sanzinha yá nun stán cun nós. Dezie-se que, pa lhá destes quatro, tiu Chic’Albino tenie inda outra filha mais nuoba, mas qu’era fuora de casamento.

    L tiu Chic’Albino daba aires de ser grande sabedor de l’oufício d’anfermeiro, tanto que muitas pessonas d’Angueira ponien mais fé i botában maior cunfiança ne l qu’el dezie i fazie do que ne ls doutores Jota, Libaral i Sidónio, ls trés médicos de la Bila nesse tiempo.

    Quando qualquiera maleita nun las deixaba an paç, algũas pessonas d’Angueira íban tamien al curandeiro. I, quando nin este era capaç d’acabar cun l’anfermidade, inda íban a la bruxa de la Granja. Assi i todo, inda le restrában las rezas ou las pormessas al santo de la maior deboçon de l’anfermo. Claro que, pa que nun falhasse, pori, la interbençon de qualquiera un, algũas pessonas pedien la ajuda de todos eilhes.

    L tiu Agusto Albardeiro, que you yá solo le coincie cumo biúdo, era pai de la tie Justina i de l tiu Agrepino i fazie albardas, molidas, cabeçadas, arreios i atafaios pa las bestas (cabalhos, mulas i burros) pa las bender a las pessonas d’Angueira i, nas feiras de l Naso i de Caçareilhos, a la giente doutros pobos.

    L tiu Zé Godenso, molineiro que, sendo solteiro, bibie, cun sue armana i l sou cunhado – la tie Adorinda i l tiu Manuel Talaito –, na casa de l molino de las Trés Ruodas ou de ls Lucas, nome por que ye coincido inda hoije. Este molino queda al cimo de Terroso, un cachico abaixo de la çuda de ls Regatos – que l’abastece d’auga pula caliendra –, al fondo de l Gago. Ne l cimo deste sítio, l termo d’Angueira pega cul de Samartino. L Gago tamien nun queda lonje de la marra de ls termos d’Angueira i de Samartino cul de la Speciosa.

    De ls siete molinos que habie an Angueira – seis ne l termo i un ne l pobo –, l de las Trés Ruodas era l maior i tamien l mais çtante de la poboaçon. Por bias disso, poucas éran las pessonas d’Angueira q’alhá íban a moler. Assi, l molineiro nun tenie outro remédio senó ir anté adonde calhaba, c’ũa junta i un carro de bacas, p’arreculhir sacos de trigo i centeno pa l molino. Apuis de moler l grano, tornaba de buolta als pobos al redor cu’la mesma carrada de sacos, mas yá de farina.

    Angueira - Molino de ls Lucas - Foto de Luís Torrão (agosto de 2016)L molino de las Trés Ruodas ou de ls Lucas an Terroso (retrato tirado por Luís Torrão an agosto de 2016)

    Un die nun sei quien era que tenie ũa baca preinha i que staba mesmo pa parir. Mas, cumo percisaba d’acartar ũa carrada de lheinha de frezno dun lhameiro para casa, pediu a tiu Zé Godenso que l’amprestasse ũa de las sues dues bacas pa puxar l carro. Claro qu’el lhougo le prebeniu:

    – Nun sei se sabes, mas oulha que la mie Fermosa ye manzeira!

    – Anton, Zé, de que lhado ye qu’eilha s’acerta melhor a puxar i ten que ser ounhida?

    – Oulha, ne l molino ye de l lhado de l tranqueiro! Mas, pa te dezir la berdade, eiqui, nun sei de que lhado será!

    Claro que tamien la giente de ls pobos bezinos d’Angueira i eilhi a la buolta de Terroso – Cicuiro, Speciosa, Pruoba i, se calhar, mesmo anté Zenísio i Malhadas – iba al molino de ls Lucas c’un ou dous sacos de grano, trigo ou centeno, cargados nũa besta, pa les moler.

    Assi i todo, nin todos ls dies tiu Zé Godenso amanhaba i tenie sacos de pan – i, de berano, tamien nin siempre la çuda apresaba auga – subrecientes pa poner l molino a moler. A modos que, ũa beç ou outra, alhá le tocaba tener q’andar tamien a la jeira para quien i a fazer l que calhaba.

    Un die, toca-le d’ir, a la jeira, de gadanhadeiro, pa la ti’Ana Pera. Lhebando cada qual l sou baranho, tiu Zé Luís Pero, l filho deilha, anton, na flor de la eidade, pus andarie puls dezassiete ou dezuito anhos, iba apertando cun tiu Zé Godenso, que serie mais q’ũa dúzia d’anhos mais bielho qu’el. Bendo-se apertado, mas pa nun dar parte de fraco, diç-le l jeireiro:

    – You nunca gostei de fazer mal segar a naide!

    Ye cumo quien diç: oulha que you bou un cachico mais debagar pa que tu me puodas acumpanhar sin atrapalhares ou fazeres mal l serbício.

    Yá pul meio de la manhana, quando l lhameiro staba yá a meio segar, agaba-se el:

    – Sabes, Zé Luís, ũa beç fui alhá al molino ũa moça mui pimponaça c’un saco de trigo cargado na yeuga. Yá drento de l curral pegado al molino, al çcargá-lo, peguei ne l saco pa l lhebar pa drento i l’ampeçar a moler. La moça staba tan spantada cu’la maneira cumo you abracei l saco que bira-se para mi i diç-me:

    – Que fuorça teneis, tiu Zé! Que bien agarrais l saco!

    I you lhougo le respundi:

    – Quien abraça l saco melhor abraçarie la menina Fabiana!

    Nun sfregante, bai eilha ancosta-se a la parede, lhebanta la saia i, tapando la cara cu’eilha, bira-se para mi i diç-me:

    – Pus oulhai, fazei de mie l que quegirdes!

    Todo curioso, pregunta-le, anton, tiu Zé Luís Pero:

    – Ah si!… I, apuis, que fazistes bós, tiu Zé?

    – Oulha, rapaç, you, culs mius bagares, ampecei a porparar-me. Mas cumo las mies calças éran de pardo, demorei un cachico a zapertá-las. Anton, apuis de las abaixar, oulhei a la buolta i yá nun la bi. Eilha yá eilhi nun staba… tenie-se scapado!

    Cumo por isto se bei, l tiu Zé Godenso, porparando-se cun todos ls sous bagares, era un home todo çpachado!

     

    La licéncia para usar chiçqueiro

    L eipisódio que, de seguida, bos bou a cuontar passou-se al cimo de la çuda, a cerca de trés cientos de metros porriba de l molino de Terroso i de cien metros abaixo de l molino de ls Lucas.

    Estes éran dous de ls siete molinos que, pa há de l pison de la Cabada, dantes habie ne l termo i ne l pobo de Angueira. Todos tenien la sue açuda, mas l molino de Terroso nun tenie, nin precisaba de la tener, caliendra. Ls outros seis – l de l Lucas, l de la Yedra, l de la Senhora, l de l Balhe, l de Telhado i l de la Nalsa – i l pison tenien cada qual la sue caliendra.

    Trés destes molinos pertencien a dues famílias. Essa era la rezon por que le ponírun a ambas l’alcunha de ls de l Molino: ũa qu’era la de ls Lucas i a la outra chamában-le solo ls de l Molino. La de ls Lucas, pa lhá de l tiu Zé Godenso i de la tie Adorinda, tenie inda outros armanos: l tiu Zico, la tie Marie, qu’era casada cul senhor Dioniç, la tie Sabel qu’era casada cul tiu Albinico, i la tie Amélia, la mais nuoba de todos eilhes, qu’era casada cul tiu Alfredo de la outra família de ls de l Molino. Esta família, a que pertencien la tie Sabelica i l tiu Antonhico, ambos solteiros i que morában na casa porriba de la tiu Alfredo, sou sobrino, ne l molino de Terroso, tenie inda l tiu Zé Burmeilho qu’era casado cu’la tie Sabel Cadata, l tiu Eiduardo, qu’era solteiro, la tie Palombica, qu’era casada cul tiu Júlio Bolo, i la tie Sabel, qu’era casada cul tiu Almonico. Cuido que l pai de todos estes, que serie armano de l tiu Antonhico i de la tie Sabelica, tenerá sido l molineiro de l molino de l Gago, yá ne l termo de Samartino.

    Nesse tiempo, ambora l’auga scassasse, ralos éran ls beranos an que la ribeira d’Angueira secaba. Assi, ne l berano, ũa açuda demoraba uns dies pa s’anchir i retener l’auga subreciente pa l molineiro poner l sou angeinho a moler. Anton, l molineiro de l molino lhougo a seguir aporbeitaba l’auga que benie de l de riba pa la represar na çuda de l sou. Cu’esta maneira anteligente d’aporbeitar la auga, era mui pequeinho l desperdício de la pouca que, de berano, corrie na ribeira.

    Quando se passórun ls eipisódios que bou a cuontar, inda nin habie sido feita la bala de la eirrigaçon, ũa canal de cantarie i de mais de trés quilómetros de comprida, que, de la çuda de l molino de Terroso, pula Yedra, Ourrieta Caliente, la Senhora, l Tanque, la Cabada, la Eigreija, l Cachon, la Çanca, la Salina i la Mediana, lhieba l’auga anté a la Faceira i a las Uolmedas. Este melhoramiento, feito pul Goberno ne ls anhos sessenta, possiblitou regar todas las huortas de la marge dreita de la ribeira q’hai nestes sítios de l termo de Angueira.

    Bala de la d'eirrigaçon d'Angueira. Retratos tirados pul amigo Vítor Moreira a quien le agradeço la partilha.

    Cumoquiera, agora, quaije naide saberá que, naquel tiempo, ls fumadores, se quegíssen usar chiçqueiro, tenien que sacar ũa licença. Cumoquiera las pessonas desse tiempo qu’inda son bibas nun se squecírun disso. L que se passaba ye que, cu’la çculpa de pormober i porteger l’andústria nacional de cerilhas – “Fosforeira Nacional” –, Salazar oubrigaba ls fumadores a tirar ũa licéncia i a pagá-la bien paga.

    Licença Anual para Uso de Acendedores e IsqueirosNe l tiempo de la bida barata (1945), 30$50, qu'era l q'habie que pagar pula licéncia para usar chiçqueiro, era muito denheiro! Quanto nun custarie la multa?! Fui miu armano Eimílio que m'arranjou este retrato.

    Nun deimingo de berano, mesmo al scurcer, l tiu Chic’Albino i l tiu Agusto Albardeiro, cumo tenien por hábito fazer, fúrun a la pesca a la çuda de l molino de Terroso, un sítio lonje de l pobo, adonde, a aqueilha hora, deficelmente poderien ser bistos por quienquiera que fusse ou apanhados pula guarda. La eideia serie apanháren uns barbos, çcalhos i xardas, que, yá nesse tiempo, éran mui apreciados por toda la giente.

    Inda dou fé que, nesse tiempo, se calhar por haber muitos carangueijos na ribeira – lhagostins de pata branca, bien defrentes de ls “talibans”, que, hai pouco tiempo, nun sei quien ye que tubo la mala eideia de les botar na ribeira –, poucos éran ls que le dában grande aprécio. Mesmo apuis de ls barragistas ampeçáren a ir anté Angueira a passar ls sábados i deimingos cu’las sues famílias nas marges frescas i se botáren a apanhá-los, ls carangueijos éran bichos que, anton, habie a la farta na ribeira d’Angueira. Bonda ber que, quando ls poços de la Cabada, de la Çanca i de ls Puntones i las çudas de ls Regatos, de Terroso, de la Yedra, de la Senhora, de las Almas, de las Uolmedas, de la Nalsa i de la Ribeira de Baixo quedában cun cachico d’auga a menos, era solo meter las manos nas raízes de ls amineiros i lhougo s’apanhaba ũa manada deilhes.

    Claro que ls carangueijos da la ribeira éran un cachico defrentes doutro que, uns anhos apuis, ne l ampercípio dũa tarde caliente de berano, dous rapazicos íban cu’las bacas pa l lhameiro de l Rodelhon, l mais nuobo habie dancuntrar. Quando, atrás de las bacas, chubíen la barreira al lhado de ls pinhos de l tiu Stroila, antre l lhameiro de l senhor Artúrio i la ancruzelhada al cimo de Boca ls Balhes, antropeça nũa piedra de l camino i dá c’un bicho. Bá lá que nun le botou la mano. Mas, todo cuntentico, bira-se pa l mais bielho i diç-le:

    – Ah tu, oulha un carangueijo de l monte!… Bamos assá-lo i quemé-lo?!

    Anton, l mais bielho, nun querendo assujeitar-se a lhebar ũa ferronada, alhá tubo de cumbencir l armanico de que serie melhor deixar la lacraia an paç.

    Un cachico apuis de tenéren chegado al cimo de la çuda de Terroso, ne l sítio adonde, na marge dreita, desauga l ribeiro de la Puontelhina, i çpíren la roupa, l tiu Chic’Albino i l tiu Albardeiro méten-se na ribeira. Zbiando las oucas, sténden la rede dũa a la outra marge, a toda la lhargura de la ribeira. Isso todo a las scuras, pus, sendo lhuna nuoba, nin lhunar habie. Lhuç era solo la de las streilhas.

    Bien sabíen eilhes qu’esse era l sítio de la ribeira adonde habie ls maiores peixes. I, pa les dar tiempo de caíren ne l apetreicho, purmanhana, alhá bolberíen eilhes p’arreculhir la rede i, quaije de certeza, anchir, oumenos, dues buonas cestadas de peixes.

    Yá quaije a bater ls dientes, toca de se bestíren. Ye que, pa lhá de l’auga star bien fresca, parcie mesmo que, assi, cu’la piel toda molhada, l reciu de la ribeira, mesmo de berano, mas a la nuite, inda era mais friu.

    Tenien mesmo acabado de se porparar i, yá prontos i de partida pa l pobo, scúitan, al lonje, un rugido que daba aires de benir de quien çcai de l alto de Peinha Ferreira pa la ribeira, l sítio adonde stában. Parcie ser de qualguiera un que, als antropeçones, abaixaba pula caleija al lhado de la huorta de l tiu Galharito i que dá pa Terroso.

    Cumo l tenien bido na taberna, sabíen que tiu Miguel Galharito nun podie ser. I, mesmo que stubisse por eilhi, a aqueilha hora starie yá a drumir na casica al cimo de la sue huorta. Purmeiro, çcunfiórun, que fusse algun lhobo; mas, apuis, parciu-les ser ũa patrulha de la guarda.

    Nesse tiempo, la Guarda Republicana era un papon de respeito, capaç de meter miedo a qualquiera un, mesmo al mais afouto. Ye que nun precisaba de s’ansaiar muito pa passar ũa multa ou, se bien calha i le disse na gana, lhebar anté un home preso i, sin mais aqueilhas, meté-lo na cadena de la Bila. La mala cara, la farda de cotin, l capacete, l cinturon, las polainas i, subretodo, la spingarda mauser al ombro de cada guarda éran capazes de cumbencir de la fuorça de l’outoridade, anté mesmo l mais pintado.

    Aquestumado a lidar cun l’outoridade i a dar-se cu’las pessonas amportantes de Bumioso, tiu Chic’Albino, sendo el todo afouto, nun era home pa dar parte de fraco. Mas, cautela i augas de galhina nunca fazírun mal a naide ou, cumo se questuma tamien dezir, mais bal perbenir que remediar, ou inda, nun bá l diabo tecé-las, pori, pa nun séren bistos nin apanhados, toca, anton, de se scundéren antre las fuolhas de ls amineiros de la borda de la ribeira. Bá lá que, stando mesmo a calhar, la scuridon de la nuite les dou bien jeito.

    Amouchados antre las fuolhas i tapados puls amineiros, mas bien listos i d’oubido a la scuita, deilhi a cachico, quédan cun la certeza que solo podie ser ũa pessona. Q’un bicho nun farie tan alto rugido i la guarda tamien nun arrastrarie tanto ls pies nin farie rebolar tantas piedras. I, cunsante un búltio s’iba acercando deilhes, mas, subretodo, apuis de, al fondo de la huorta de l tiu Galharito, birar parriba, quédan bien mais çcansados. Afinal, era l tiu Zé Godenso, que, çopo i cun cachico de bino a mais – que cumoquiera tenerá buído na taberna de l tiu Cereijas i de la tie Mar’Inácia Fresca, ne l Ronso, ou na de l tiu Morais i de la tie Bexela, an Sante Cristo –, caminando a búltio i antorpeçando nas piedras de la caleija, tornaba de l pobo, cuosta abaixo, pul atalho que, passando pul cimo de las Eiras Grandes, la caleija de Fuontecinas i pula parte de baixo de Peinha Ferreira, dá pa l molino de ls Lucas i la casa de l molineiro, na outra marge de la ribeira.

    Tiu Chic’Albino, que nun era home de quedar queto i inda menos d’aceitar que mesmo l mais pintado le pregasse ũa partida, trata lhougo de se çforrar de l susto que, mesmo sin querer, tiu Zé Godenso les habie pregado. Raposo bielho cumo era, bira-se, anton, pa l tiu Albardeiro i diç-le baixico al oubido:

    – Deixa estar, que já nos vingamos do susto que o Zé Godenso nos fez passar!…

    I, nistantico, cumbina cul tiu Albardeiro pregar un baliente susto a tiu Zé Godenso i inda cumo irien a fazer:

    – Olha, fingimos que somos uma patrulha da guarda e, quando ele aqui chegar, saltamos-lhe à frente no caminho. Mas deixa a coisa comigo, que eu trato disso. Tu só tens de acenar que sim.

    Passado l lhusque-fusque, yá tenie scurecido bien. Quando tiu Zé Godenso, que’era un cachico çopenco, staba yá an tierra praina i mesmo a chegar al sítio adonde tiu Chic’Albino i tiu Albardeiro stában scundidos, sáltan-le al camino. Fazendo-se, anton, de fuorte, corajoso i baliente i çfraçando, cun boç fuorte i falando grabe, cumo era própio de qualquiera outoridade i el questumaba fazer, l tiu Chic’Albino diç-le todo mal-ancarado:

    – Deixa estar que já nos vingamos do susto que o Zé Godenso nos fez passar!…

    I, nistantico, cumbina cul tiu Albardeiro pregar un baliente susto al tiu Zé Godenso i inda cumo ye qu’írien a fazer:

    – Olha, fingimos que somos uma patrulha da guarda e, quando ele aqui chegar, saltamos-lhe à frente no caminho. Mas deixa a coisa comigo, que eu trato disso. Tu só tens de acenar que sim.

    Cumo era lhuç que fusque i l tiu Zé Godenso, que’era un cachico çopenco, quando staba yá an tierra praina i mesmo a chegar al scundideiro adonde stában, l tiu Chic’Albino i l tiu Albardeira sáltan-le al camino. Fazendo-se, anton, de fuorte, corajoso i baliente i çfraçando, cun boç fuorte i falando grabe, cumo era própio de qualquiera outoridade i el questumaba fazer, l tiu Chic’Albino diç-le todo mal-ancarado:

    – Alto lá!… O senhor quem é?

    – You, you, you sou Zé Godenso…

    – I donde é que o senhor vem? E o que é que anda por aqui a fazer a esta hora?

    – Pus bengo de l pobo i bou para casa!…

    – O senhor está a querer endrominar-nos!…

    – Nun, senhor!… – defendiu-se, anculhidico, todo acagatado i a tremer de miedo, l tiu Godenso. – Bengo de l pobo!… Stube alhá a oubir l gramofone de la dona Laura!…

    Chegando-se un cachico mais cerca del i fingindo que le staba a cheirar i l’iba a rebistar, pregunta-le:

    – O senhor que tabaco fuma?

    – You nun fumo ningun!…

    – Fuma, fuma!… que cheira bem a tabaco!

    – Mas you nisquiera fumo…

    – Ó 76, pega em mim que, senão, ainda o mato! Que este homem está a aldrabar-nos com quantos dentes tem na boca!…

    – Stou a dezir la berdade, senhor guarda!…

    – Ora mostre-me lá o isqueiro que quero ver se tem a licença!…

    – Mas you nun tengo chiçqueiro!…

    Fazendo que rebistaba tiu Zé Godenso, mas cumo nun ancuntrou nin cigarros nin chiçqueiro, diç l tiu Chic´Albino pa l tiu Albardeiro:

    – Ó 76, desta vez, vamos deixar passar!… Que, hoje, para sorte dele, o homem já não tem cigarros nem traz isqueiro. Mas vamos estar atentos!… Que, da próxima vez, não nos há de escapar!…

    Cul cagaço q’apanhou, l tiu Zé Godenso cumoquiera borrou las calças. Mas, s’isso nun acunteciu, çcunfio que las ciroulas, s’acauso las trazie, nun tenerán quedado an mui buono stado. Mas solo la tie Adorinda, sue armana, a quien le tocarie tener de las lhabar, ye que mos poderie sclarecer subre isso.

    Finalmente, bendo-se lhibre de la patrulha, l tiu Zé Godenso alhá se scapou, atrabessando, l más delgeiro que puodo, pa l outro lhado de la ribeira. Quier-me mesmo parecer que nunca dantes, cumo nessa nuite, tenerá demorado tan pouco tiempo pa chegar deilhi anté casa…

    Deilhi an delantre, siempre que l tiu Zé Godenso s’ancuntraba cun quienquiera que fusse cuontaba-le la sue abintura: q’ũa nuite, ũa pratulha de la guarda – l 76 i l Brabo – le salírun al caminho, le fazírun alto pa l mandar parar, le rebistórun i le quegírun prender.

    Aspeto atual de la casa de l molineiro de l molino de las Trés Ruodas ou de ls Lucas an Terroso (agosto de 2016)

    Cumo se questuma dezir, naide puode afiançar que desta auga nun beberei!... Ye que la cousa fui-le tan bien armada que, tengo acá para mi, s’inda hoije fusse bibo, l tiu Zé Godenso cuntinarie cumbencido de que fui mesmo ũa patrulha de la Guarda Republicana que, nessa nuite, le saliu al caminho, le mandou parar, le rebistou i, inda porriba, l’amanaçou que l’iba a prender.

    Eimaginai bós quanto nun se teneran debertido i rido l tiu Chic’Albino i l tiu Agusto Albardeiro al scuitar tiu Zé Godenso a cuontar-les este eipisódio de la bida del!…

     

    Bocabulairo/vocabulário

    Abintura – aventura \\ a búltio – ao acaso \\ acartar – acarretar \\ açuda – açude \\ adonde – aonde \\ afouto – afoito, valente \\ al – ao \\ amanaçar – ameaçar \\ amineiro – amieiro, árvore que se dá bem em lugares húmidos e junto aos rios e riachos \\ amouchadico – tapado encoberto \\ anchir – encher \\ ancubierto – encoberto \\ angeinho – engenho \\ anho – ano \\ ansaiar – ensaiar \\ anté – até \\ antropeçar/on(es) – tropeçar/ão(ções) \\ apuis – depois, após \\ aquestumado – acostumado \\ armano – irmão \\ atafaios – atafais \\ bagar – vagar, demora de tempo \\ barragista – trabalhador das barragens de Miranda do Douro, Picote ou Bemposta \\ bino – vinho \\ boç – voz \\ bolber – voltar \\ bonda – basta \\ buído – bebido \\ búltio – vulto \\ buolta – volta \\ buono – bom \\ cachico – bocadinho \\ cadena – cadeia \\ caleija – rua estreita, caminho apertado \\ caliendra – canal cavado na terra que conduz a água entre o açude e o moinho \\ caliente – quente \\ cantarie – cantaria, pedra de granito \\ cargar – carregar \\ çcair – descair \\ çcansado – descansado \\ çcargar – descarregar \\ çculpa – desculpa \\ çcunfiar – desconfiar \\ cerilhas – fósforos \\ çforrar-se – desforrar-se \\ çfraçar – disfarçar \\ chiçqueiro – isqueiro \\ ciroulas – cuecas \\ coincer/ido – conhecer/ido \\ çopo – coxo \\ çpachado – despachado \\ çpir – despir \\ çuda – açude \\ cul – com o \\ cu’la – com a \\ cumbencir/ido – convencer/ido \\ cumoquiera – provavelmente, talvez \\ cun – com \\ cunsante – consoante \\ cuntinar – continuar \\ cuonta – conto, estória \\ cuosta – costa, encosta \\ curgidoso – curioso \\ dantes – antes \\ dar aire/s – parecer \\ dar fé – lembrar , ir embora \\ debertir – divertir \\ defrente – diferente \\ deilhi – dali \\ deimingo – domingo \\ delantre – diante \\ delgeiro – ligeiro, rápido \\ desaugar – desaguar \\ despuis – depois \\ dezir – dizer \\ donde – onde \\ dũa – de uma \\ falar grabe – falar Português \\ farina – farinha \\ feiçon – feição \\ frezno – freixo \\ fuorça – força \\ fússen – (forma do verbo ser) fossem \\ galhina – galinha \\ grano – grão \\ huorta – horta \\ lacraia – lacrau, escorpião \\ lhado – lado \\ l mais pintado – o que se tivesse por mais importante \\ l(s) – o(s) \\ lhembráncia – lembrança \\ lhobo – lobo \\ lhougo – logo \\ lhuç – luz \\ lhuç que fusque – lusco-fusco \\ lhuna(r) – lua(r) \\ licéncia – licença \\ mala – má \\ maleita – doença \\ manzeira – vaca que só sabe puxar bem de um dos lados em que é jungida \\ marge – margem \\ mie/u – minha/meu \\ molino/eiro – moinho/moleiro \\ naide – ninguém \\ neçairo – necessário \\ nisquiera – nem sequer \\ ningun/niun – nenhum \\ nũa – numa \\ nuite/ica – noite/inha \\ nuoba – nova \\ oubido – ouvido, oreillha \\ ouca – alga \\ oumenos – pelo menos \\ ourrieta – pequeno vale \\ outoridade – autoridade \\ pa – para \\ paç – paz \\ papon – papão \\ pardo – burel pisoado e tingido de preto \\ parriba – para cima \\ pessona – pessoa \\ pison – pisão \\ pobo – aldeia, povoação \\ pobo – aldeia \\ polaina – peça de cabedal usada acima da bota e à volta da perna para a resguardar \\ poner – pôr \\ pori – talvez \\ porparar/ado – preparar/ado \\ porriba – por cima \\ pul – pelo \\ purmanhana – ao alvorecer \\ purmeiro – primeiro \\ pus – pois \\ quaije – quase \\ qualquiera – qualquer \\ quegirdes/quegírun/quegíssen – (formas do verbo querer) quiserdes/quiseram/quisessem \\ questume/ar – costume/ar \\ quienquiera – quem quer \\ reciu – ar fresco e húmido da noite junto à ribeira \\ regidor – autoridade a que incumbia resolver litígios e manter a ordem pública na freguesia \\ retrato – fotografia \\ rugido – barulho, ruído \\ scapar-se – ir embora, fugir \\ scassar – escassear, faltar \\ scuita(r) – escuta(r) \\ scunder – esconder \\ scundideiro – esconderijo \\ scurcer – escurecer \\ scuridon – escuridão \\ seclo – século \\ star – estar \\ stender – estender \\ streilha – estrela \\ subreciente – suficiente \\ taliban – (sentido figurado) variedade de lagostim recentemente lançada ao rio Angueira e que, atualmente, nele prolifera \\ tiempo de la bida barata – anos 30 a 50 do século XX \\ ũa – uma \\ ounhida – jungida \\ yá – já \\ ye – (forma do verbo ser) é \\ yeuga – égua \\ you – eu \\ zapertar – desapertar \\ zbiar – desviar \\ zanrascado – desenrascado.

     

    Para saber o significado de outras palavras, sugiro a consulta do sítio

    http://www.mirandadodouro.com/dicionario/

    A quem queira visualizar algumas fotos aéreas de Angueira, sugiro a consulta do blogue

    http://portugalfotografiaaerea.blogspot.pt/2017/01/angueira.html

    Caso queira saber a localização de alguns sítios do termo de Angueira, carregue no “link”:

    www.openstreetmap.org/searchquery=Angueira%2C%20vimioso%2C%20portugal#map=12/

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  • De Trapos se Fai ũa Manta de Farrapos. Ls Porpósitos Deste Blogue

    abril 19th, 2016

    Nota Prévia: uma prevenção

    Se o/a leitor/a não está familiarizado/a com a Língua Mirandesa, sugiro que, para facilitar a compreensão do texto, o leia a meia-voz. Se, mesmo assim, sentir qualquer dificuldade em compreender o sentido ou descobrir o significado de alguma palavra menos usual ou cuja grafia se afasta mais da portuguesa, não hesite em consultar o Vocabulário que pode encontrar no final do mesmo.

    Breves notas sobre a grafia do Mirandês

    Em Mirandês, não se pronuncia o som v, que é substituído pelo da letra b; usualmente, o prefixo des é substituído, consoante os casos, por ç ou z no início da palavra; para não se confundir com a contração da preposição a com o artigo definido o, que, em Mirandês, se escreve e lê al, o artigo definido o escreve-se l, mas lê-se também al; salvo raras exceções, os ditongos nasais ão e õe escrevem-se an e on; o m final das palavras portuguesas é, no Mirandês, substituído pela letra n; geralmente, o l inicial das palavras é substituído pelo dígrafo lh; já o dígrafo ch, em Mirandês, lê-se sempre tch; talvez por, inicialmente, ser apenas uma língua falada, o Mirandês tende a contrair os pronomes, artigos, preposições e as conjunções com as palavras seguintes, quando estas são iniciadas por vogal.

    Dedicatória

    A toda la gente que naciu ou ye decendiente d’Angueira ou que gusta i s’antressa por eilha i als mius fameliares, specialmente a la mie tie, a que questumo chamar Dulcineia, als mius filhos, Luís i Aquilino i a Astrid, la tie deste i mai de ls mius neticos, Ciel Madrugada, Hélio Gabriel i Aura Dulcineia, dedico l que eiqui scribo.

    Agradecimiento

    Fui l miu amigo Carlos Pires quien m’acunselhou a screbir, que ye ũa forma de guardar algũas lhembráncias de la stória de la bida de las pessonas d’Angueira para que, pori, nun se pérdan. Pedi, aton, al miu filho mais nuobo, Luís Carlos, pa me criar este blogue. I, assi, meti-me nesta ampreita. Tengo, anton, que les agradecer a ambos a dous.

    La rezon de ser deste blogue

    Apuis de quaije quarenta anhos – purmeiro, cumo porsor i, de seguida, cumo anspetor – al serbício de l’Eiducaçon, mesmo nun sendo mie buntade, pus cuidaba cuntinar inda por mais uns anhos al serbício, botei-me de cuntas i nun stube cun mais aqueilhas: decedi aposentar-me.

    Hai que ber que, a las bezes, algũas pessonas, cumo nun mos puoden ampuntar, amánhan maneira de mos dar un ampurronico que demuda la maneira cumo cuidábamos fazer las cousas: purmeiro, yá me faltaba pacéncia pa star a aturar aqueilhas caturrices que ls rapazes nuobos i zlhumbrados – que, nun sei quien i nin se bei por quei, ponírun a la frente de l serbício – questúman fazer só pa s’amostrar que son amportantes i qu’eilhes ye que mándan. Quédan, assi, todos amperiales i cumbencidos de qu’eilhes ye que sáben i, inda porriba, que sáben todo; sigundo, se caísse, pori, na asneira de nun fazer cumo fiç, bede l que m’irie acuntecer. Se cuntinasse a trabalhar i a çcuntar mais uns anhos pa la reforma, que bantaige poderie tirar? Si que, nun sendo ganancioso, tamien nun sou sufridor! Pus, mirai bien! Cumoquiera, me tocarie a benir c’ũa penson inda mais pequeinha q’aqueilha cun que bin.

    Stan tontos ou quei?! Si, que buonos de la cabeça nun puoden star! Ou cuidaran, pori, que todos son cumo eilhes?! Dá-le cada ũa na cabeça a algũa giente de la Admenistraçon Pública! I inda dízen qu’esta ye racional! Eimaginai cumo serie se nun fusse!… Dei mesmo cun algũa giente a que bien se le poderie aplicar ũa parte de l que, sin oufénsia als bichos, se dezie de ls de la raça de Miranda dũa famosa spece: “… hai muitos! Mas estes son ls únicos que stan an bias de stinçon!” Si, que, bien bistas las cousas, arremedos de Trampas, eimitaçones de Zédus i cópias de Bolsonairos nun fáltan por ende, por donde calha!

    De modos que – ala que se fai tarde! – nun tube outro remédio: botei-me de fuora, que ye cumo quien diç, çpedi l patron.

    Cumo se questuma dezir, hai males que bénen por bien. Cumo podereis ber, fui l que me acunteciu: mesmo sin querer i cuidando que me farien mal, acabórun por me fazer bien.

    Aton, pa nun passar a fazer parte de l reino de la einutelidade, tube q’amanhar maneira d’acupar l tiempo lhibre a fazer algũa cousa. I que melhor poderie arranjar que lhembrar cousas passadas, bai yá para bien anhos, na mie anfáncia, an Angueira? Para mais, son cousas que stan an bias de zaparecer ou que la giente nuoba, s’inda las sabe, stará quaije a squecer.

    Spero bien qu’esta buntade i la fuorça qu’inda sinto nun béngan a, cul tiempo, amurchecer i passar, pori, a ser i a sentir-me einutele.

    Botei-me, anton, a arranjar maneira de fazer algo, inda mais que nun seia fazer que fago.

    Hai bárias i çfrentes maneiras de cuntrariar ls eifeitos i, anté mesmo, d’adiar un cachico la belheç. Mas, loinje de mi pensar que ser mais bielho querga dezir que se seia einutele.

    Screbir ye ũa dessas maneiras, antre outras mais. Assi, se ls mius amigos tubíren subreciente pacéncia pa me aturáren, eiqui poderan dar-se cunta de la eideia que tengo subre algũas cousas de la bida. Ye que, mesmo quando screbimos subre l passado, stamos tamien a amostrar cumo ancaramos l persente, l que hoije se passa. Pa lhá dũa proba de que cuntinámos bibos, screbir ye tamien un eisercício, quaije d’oufecina, cun que mos acupamos i bamos arrumando l que mos passa pula cabeça i mos bai na alma.

    Nun ye que nun sinta tener cumprido l que cuido séren las mies oubrigaçones i pagado, oumenos, parte de la mie díbeda a la sociadade. Ye que, nestas, cumo an outras cousas mais, parece-me ser cumo Fernando Manuel Bernardes screbiu i Manuel Freire canta:

    Se poeta sou

    Sei a quem o devo…

    Ao povo a quem dou

    Os versos que escrevo.

    Cunserbar la mimória dũa poboaçon i de la sua gente ye, ne l mil modo de ber, ũa oubrigaçon de todos ls que neilha nacírun, ténen algũa costielha ou inda alhá móran. Mas, só se puode fazer, se fur abibada pulas lhembráncias i cuntribuciones de todos aqueilhes que, çponendo de cundiçones pa l fazer, puodan i quérgan çponiblizá-las, acrecentando algũas “pieças” q’ajúden a (re)fazer l “puzzle” de la bida de la sue gente.

    Ye que, de farrapos, se fai ũa manta de trapos!

    Angueira (ponente) bista de la Canhada.jpg
    Parte birada a poniente de la poboaçon d’Angueira bista de l cimo de la Canhada (2016)

    Lhembrar eipisódios de la bida de pessonas d’Angueira ye ũa maneira, inda que sencielha, de las houmenagear. Ye que todos somos debedores daqueilhas cun que, quando éramos nuobos, cumbibimos i que, dũa maneira ou doutra, mos ajudórun a ser quien somos. Ye tamien ũa maneira de nun deixar squecer toda la gente que, na mie bida, mas, subretodo, quando era inda garotico, fusse qual fusse la staçon de l’anho, bi a trabalhar la tierra: homes i ties, rapazes i moças, rapazicos i mocicas. Cumo máquinas nun habie, nesse tiempo, todos ls fameliares de casa stában ambolbidos ne l trabalho de l campo i cada qual tenie que, a sou modo i cunsante la eidade i la fuorça, dar la sue cuntribucion, por más pequeinha que fusse, pa l sustento de todos. Esta era ũa parte amportante de la bida de ls lhabradores d’antigamente, que, nũa stafa dura i repetida bezes sin cunta, anquanto íban fazendo pula bida, todo s’iba renobando.

    L miu antento i l que tengo an bista ye antressar todos aqueilhes que, stando mais lonje ou mais cerca, mas nun la squecendo i tenendo-la ne l coraçon, s’antréssan por Angueira. Assi, fago tençon de scuitar quien me querga cuontar eipisódios i situaçones de l passado de la bida, de l trabalho i de ls debertimiento de la giente d’Angueira pa que nun se squéçan i eibitar assi que se pérdan.

    Ye cun grande delor d’alma, mas nun me cunformo, que, cumo se passa tamien na maior parte de ls pobos bezinos, cada beç haba menos pessonas a bibir na Angueira, la tierra de la mie criaçon.

    Inda que bien me custe, tengo que lhastimar la perda, por çcuido miu, dalgũas modas que, parcendo ser d’anfluéncia moura, inda pequerrico, scuitei a mius pais cantar na segada i que nisquiera dancuntrei ne l CD, de 1998, “Portuguese Folk Music – volume 2 – Trás-Os-Montes” – SP 4199, Strauss PortugalSom, cula recuolha feita por Michel Giacometti i Fernando Lopes-Graça, seguinte a la que, cunsante ende se lei, an 1932, tenie sido feita por Kurt Schindler, un musicólogo amaricano.

    Tengo tamien muita pena de nun tener grabado ou screbido las stórias que tantas bezes scuitei a miu tiu Deimingos Quintanilha – la alcunha de família pula parte de mie mai – cuontar i que, assi, an grande parte squeci.

    Pa que nun benga, pori, a passar-se l mesmo, tenemos, aton, que mos aporcatar, reculhindo i registrando l qu’inda stá na mimória dalgũas pessonas, arriba de todo, de las mais eidosas.

    Buona jeira que se baia, pori, a perder tamien la parte qu’inda mos restra!…

    Sabemos que la mimória ye traiçoneira. Mas, na falha de registros – decumentos scritos, filmes ou outras grabaçones –, ye deilha – la mie i la de ls mius amigos – que tengo de sucurrer-me pa poder lhebar palantre l que tengo an mente i que neilha inda me bai remolendo: quedar cula representaçon, quanto possible fiel, de momientos i situaçones de la bida d’antigamente, l que mos trai algũas deficuldades i mos fai correr alguns riscos que, na medida de l possible, amporta eibitar.

    Cumo stais a ber, scribo an Mirandés. I la rezon nun ye fácel d’adabinar. Quando naci i creci, la maior de la giente d’Angueira falaba Mirandés. Assi, esta ye la mie purmeira lhéngua materna. Solo apuis, na eigreija i na scola, ye que, cumo quaije l restro de la gente, tube tamien daprender a falar i a screbir an Pertués.

    Screbir an Mirandés, que, a las mies custas i cula ajuda dun ou doutro amigo, só ampecei a daprender bai pa quatro anhos, trai mais outra deficuldade: la de, pa minguar l risco de dar erros, tener que, a cada passo, andar a cunsultar l dicionairo i la gramática, l que torna inda más demoroso l trabalho de screbir, de modo a que ls testos quéden c’ũa scrita scurreita i podéren, assi, ser dados a coincer a todo mundo.

    Pus eiqui bos dou cunta i podereis ler ũa parte de la mie acupaçon de bai yá para alguns anhos. Cumo podereis ber, screbi subre sítios, questumes, acupaçones, pessonas, stórias, situaçones i eipisódios passados an Angueira ou noutros pobos al redor, mas an que stubírun ambolbidas pessonas d’Angueira.

    Apuis de mais de cinquenta anhos que deixei d’alhá bibir, este ye l tribuito que presto a la tierra adonde naci, passei la mie anfáncia i stan las mies raízes. Ye cumo que un studo de causo, que queda inda por fazer, mas que, a partir de l que eiqui screbir, outra pessona que querga poderá fazer.

    La referéncia als sítios i a las marras de l termo d’Angueira ye para que, quedando screbidos, nun se squéçan nin se pérdan, pori, ls nomes, adonde son i inda por donde pássan las marras culs termos de las poboaçones bezinas: la Speciosa i Samartino de l cunceilho de Miranda, a naciente i a sudeste; Caçareilhos, San Joanico, Çarapicos i Abelhanoso de l cunceilho de Bumioso, a sul, a poniente i a norte.

    Bocabulairo \\ vocabulário

    Abibar – avivar \\ aculhir – acolher \\ acupar – ocupar \\ al – ao \\ ala que se fai tarde – já é mais que tempo \\ alhá – lá \\ ambolbida – envolvida \\ ampeçar – começar \\ amperial – vaidoso, que gosta de se dar ar de importante \\ amportar – interessar \\ ampuntar – despedrir, mandar embora \\ ampreita – empreendimento \\ ampurronico – empurrãozinho \\ amurchecer – esmorecer \\ anho – ano \\ anté – até \\ antención – intenção \\ antento – desejo, objetivo \\ antressar – interessar \\ aporcatar – precatar, precaver \\ arada – terras que num ano estão lavradas para, no ano seguinte, serem cultivadas com cereal \\ arremedo – imitação \\ assuceder – acontecer \\ bantaige – vantagem \\ belheç – velhice \\ baia – (forma do verbo ir) vá \\ benir – vir \\ bien – bem, muito \\ bonda – basta \\ buona jeira – ai de nós, Deus nos livre \\ çcuçon – discussão \\ çcuido – descuido \\ çcuntar – descontar \\ çfrente – diferente \\  coincer – conhecer \\ costielha – costela \\ çpedir – despedir \\ çponer – dispor \\ çponiblizar – disponibilizar \\ cul – com o \\ cunsante – consoante \\ cunserbaçon – preservação \\ cunsumiçon – preocupação \\ cuntinar – continuar \\ cuntribucion – contributo \\ cuonta – conta \\ dá-le i la burra a fugir – sem emenda \\ daprender – aprender \\ debertimiento – divertimento \\ demoroso – moroso \\ demudar – mudar \\ dezir – dizer \\ díbeda – dívida \\ eibitar – evitar \\ eiducaçon – educação \\ eigual – igual \\ eimitaçon – imitação \\ einutele/einutelidade – inútil/inutilidade \\ eiqui – aqui \\ ende – aí \\ fuolha – folha, terras cultivadas nun ano e que, no ano seguinte, ficam de arada \\ fuorça – força \\ l/a – o/a \\ lhá – além, lá \\ lhastimar – lastimar \\ lhembráncia – lembrança \\ lhembrar – lembrar \\ lhéngua – língua \\ loinje – longe \\ manhana – manhã, amanhã \\ mi/e – mim/nha \\ minguar – diminuir \\ mirar – olhar \\ mie/u – minha/meu \\ naide – ninguém \\ neilha – nela \\ nin – nem \\ nino – criança, menino \\ ningun – nenhum \\ nisquiera – nem sequer \\ niũa – nenhuma \\ nun – não \\ nuobo – novo \\ oumenos – pelo menos \\ ourigenar – gerar \\ pa – para \\ palantre – para diante, avante \\ parcer – parecer \\ pequerrico – pequerrucho \\ pori – porventura \\ porpósito – propósito \\ porsor – professor \\ pula – (por a) pela \\ purmeiro – primeiro \\ quaije – quase \\ quérgan – (forma do verbo querer) queiram \\ questumar – costumar \\ recendida – originária, descendente \\ remoler – remoer \\ seluçon – solução \\ screbir – escrever \\ scuitar – escutar \\ scorreita – correta, sem erros \\ seia – (forma do verbo ser) seja \\ sin – sem \\ solo – só \\  squecer – esquecer \\ staçon – estação \\ stafa – canseira \\ subreciente – suficiente \\ tençon – intenção \\ tenga – (forma do verbo “tener”) tenha \\ testo – texto \\ tubisse – (forma do verbo “tener”) tivesse \\ ũa – uma \\  yá – já \\ ye – (forma do verbo ser) é \\ zaparcer – desaparecer

    Para saber o significado de outras palavras, sugiro a consulta do sítio

    http://www.mirandadodouro.com/dicionario/

    A quem queira visualizar algumas fotos aéreas de Angueira, sugiro a consulta do blogue

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  • Lhembráncias de Quando Era Garotico

    abril 13th, 2016

    Nota Prévia: uma prevenção

    Se o/a leitor/a não está familiarizado/a com a Língua Mirandesa, sugiro que, para facilitar a compreensão do texto, o leia a meia-voz. Se, mesmo assim, sentir qualquer dificuldade em compreender o sentido ou descobrir o significado de alguma palavra menos usual ou cuja grafia se afasta mais da portuguesa, não hesite em consultar o Vocabulário que pode encontrar no final do mesmo.

    Breves notas sobre a grafia do Mirandês

    Em Mirandês, não se pronuncia o som v, que é substituído pelo da letra b; usualmente, o prefixo des é substituído, consoante os casos, por ç ou z no início da palavra; para não se confundir com a contração da preposição a com o artigo definido o, que, em Mirandês, se escreve e lê al, o artigo definido o escreve-se l, mas lê-se também al; salvo raras exceções, os ditongos nasais ão e õe escrevem-se an e on; o m final das palavras portuguesas é, no Mirandês, substituído pela letra n; geralmente, o l inicial das palavras é substituído pelo dígrafo lh; já o dígrafo ch, em Mirandês, lê-se sempre tch; talvez por, inicialmente, ser apenas uma língua falada, o Mirandês tende a contrair os pronomes, artigos, preposições e as conjunções com as palavras seguintes, quando estas são iniciadas por vogal.

    Dedicatória

    Este testo ye dedicado a la mie família mais direta: a la mie tie, a quien questumo chamar Dulcineia i que, bai yá para 40 anhos, me ten aturado; als mius filhos, Luís, que ye l mais nuobo, i Aquilino, l mais bielho, i a Astrid, la tie deste; i, claro stá, als filhos deilhes i mius nietos, Ciel Madrugada, Hélio Gabriel i Aura Dulcineia.

    Pa screbir estas lhembráncias, botei mano als seguintes lhibros que me dórun buona ajuda: Pequeno Vocabulário Mirandês-Portu­guês i Elementos de Gramática Mirandesa, ambos a dous de Moisés Pires, S. D. B., i eidiçon de la Câmara Municipal de Miranda do Douro, de 2004 i 2009, i inda de la Conven­ção Ortográfica da Língua Mirandesa, eidiçon de la Câmara Munici­pal de Mi­randa do Douro i de la Universidade de Lisboa, 1999.

    Sendo l purmeiro testo que scribo an Mirandés, tengo que, antes de mais, pedir çculpa, puls erros que dir, als antendidos, nesta, que, sendo la falada na casa de mius pais, fui la mie purmeira i berdadeira lhéngua materna. Si, que fui solo na eigreija i junto dalgũas pessonas fidalgas, que falában grabe, q’apuis, daprendi a falar i, na scola, a screbir tamien, an Pertués.

    Bamos a dar ũa caminada?

    Agora, an abril, que l tiempo ampeça a star un cachico mais caliente i de-lei, apetece mesmo dar ũa caminada pul termo d’Angueira. Nun stranheis, assi, que bos cumbide a benir cumigo por ende. Bamos, anton, a eilha?

    Eimaginai que stais ne l lhargo de Sante Cristo, na parte de baixo i frente a la puorta de la capielha, quaije a meio de la poboaçon. Tal cumo la eigreija i las capielhas de San Sabastian i de San Miguel, tamien l altar de la capielha de Sante Cristo stá birado caras a naciente i, cumo tal, la puorta d’antrada pa poniente.

    Salindo de l lhargo de Sante Cristo caras a norte, passamos, purmeiro, pul lhado de riba i antre la casa de l tiu Morais i de la tie Bexela i ũa parede mi alta, que ye de l huorto de l tiu Aran; de seguida, abançamos por antre la casa qu’era de l tiu Demingones i la de ls Cachopos; apuis de la de l tiu Joan Piçarra i de la tie Regina Sicha, passamos por baixo de l huortico de la parte de baixo de la casa de l tiu Jó i antre dues ou trés lhameiras, a la squierda, i outras tantas cortinas mais altas i anclinadas, a la dreita. Chegados a la Mediana, passamos, aton, al fondo de la Beiga de l Casal i a seguir mais outras cortinas, cun paredes mui altas i a la dreita de l camino, i pul lhado de riba de las lhatas de la Mediana, que quédan a la squierda; un ciento de metros mais adelantre, birando a la squierda, stamos yá ne l camino de ls Puntones. Un cachico mais abaixo, adonde ampeça l camino que dá pa la Faceira, an beç de birarmos par’ende, cuntinamos a dreito pa la ribeira i até als Puntones.

    Angueira - la poboaçon i la Mediana bistas de la Canhada (retrato tirado an junho de 2016)

    Cumo stamos yá na primabera, ye agora mais fácel passar pul camino de ls Puntones. Ye que, sendo d’eimbierno, hai qu’ir bien calçado. Ye que, antre nobiembre i márcio, scurre tanta auga pul camino abaixo que só se cunsigue passar pula bordica del.

    Chegando a la ribeira, s’eilha nun lhebar muita auga i podirmos passar puls puntones, birando a la dreita, adonde stá l cruzeiro, tenémos l Areal.

    Claro que, cumo todo mundo sabe i yá ls Romanos dezien, todos ls caminos ban dar a Roma. Ye bien berdade que hai siempre bárias maneiras de ir a dar a qualquiera sítio. Assi, tamien an Angueira, quien quegir salir doutros lhados, seguindo por outros caminos, puode dar na mesma al Areal.

    Angueira - poço de ls Puntones (retrato tirado an junho de 2016)

    Salindo de la Eigreija, passando pul fondo i antre l Cachon i la puonte de la Çanca i indo pula marge dreita de la ribeira, lhougo a seguir a las casas de l tiu Chetas, de l tiu Moisés Bitorino i un cachico abaixo de la de ls Quintanilhas, bamos a dar al fondo de la Salina; dous cientos de metros mais adelantre, chegamos al poço de ls Puntones, un de ls poços de la ribeira adonde, ne l berano, la mocidade i la garotada íban a nadar. Mas, al fondo de al Cachon, tamien podemos, birando a la squierda, atrabessar na puonte de la Çanca pa la outra marge de la ribeira i seguir, apuis, pul camino antre l fondo de l monte de las Eiricas i las lhameiras pegadas a la ribeira, cerca de trés cientos de metros mais abaixo i, apuis de passarmos l poço de ls Puntones, l forno de la Teilha i l cruzeiro al cimo de las huortas de la Faceira de l Prado i al lhado de ls Puntones, bamos tamien a dar al Areal.

    L’Areal

    Inda me lhembra de, ne final de ls anhos cinquenta de l seclo passado, era you inda un garotico que nin andarie a la scola, ber ls moços d’Angueira a jogar a la bola culs doutros pobos bezinos i toda la gente eilhi, alredor, qu’iba da peto a ber a jogar la nuossa rapaziada.

    Neste sítio, ne l eimbierno, quando habie anchenas, l’auga era tanta que la curriente de la ribeira se debedie em dues: ũa que seguie pul sou curso normal i la outra que, nun cabendo por ende, iba pula marge squierda, porriba de l’Areal, un terreno que ye de todo l pobo, alhagando tamien quaije todas las lhatas qu’habie eilhi al lhado. Anton, antre las dues currientes, só se bie l cachico de las huortas que quedaba porriba de l’auga. Las dues currientes só tornában a ajuntar-se mais abaixo, ne ls Puntonicos, apuis de la çuda de l molino de Telhado, mesmo por baixo de las Uolmedas i al cimo de las Antraugas.

    Ne l Areal, l’auga de las anchenas chegaba até l cruzeiro de ls Puntones i a las paredes de l fondo de las lhatas de la Faceira de l Prado. Mais abaixo, antre las Uolmedas i l molino de Telhado i la Fuonte Santa, ou seia, nas Antraugas, alhagaba todas las huortas i lhameiras que quédan antre l camino al fondo de ls Fuolharanços – que, pula marge squierda, dá pa l Prado i pa la Ribeira de Baixo – i l que sigue pula marge dreita de la caliendra, mesmo pul fondo de la Faceira de Telhado.

    Mais arriba, al fondo de l Cachon, na Çanca i até al camino que, de la Salina, dá pa ls Puntones, l’auga, pa lhá d’alhagar las lhameiras i las huortas, chegaba mesmo a antrar nas casas de l tiu Chetas i de l tiu Moisés Bitorino. Ne l outro lhado de la ribeira i de la puonte de la Çança, chegaba quaije até la puorta de la casa de l tiu Antonho Joanilha i de la tie Marta. Assi, s’eilhes quegíssen passar pa la poboaçon, cumo nun puodien passar por esta puonte nin puls Puntones, tenien que ir mais arriba, apuis de l Múrio, pa atrabessáren na puonte de la Cabada.

    Nas anchenas, l’auga era tanta i la curriente tan fuorte que parecie q’arrastraba i lhebaba todo a la frente.

    Todos sabemos que adonde la hai, la yerba ye cumo ũa piel pa la tierra. Se nun chuber muito, portege la tierra de l’auga. Mas, quando chube demais, las anchenas son capazes de la romper i até de l’arrincar. Pus fui isso l que se passou ne l Areal. Antes de las anchenas ampeçáren a lhebar l’arena que eilhi habie, era pa lhá que, apuis de la segada i ne l ampercípio de l berano, alguns lhabradores acarreában, culs carros de bacas ou de bestas (mulas i burros), las carradas de manolhos de trigo i de centeno de la colheita de cada anho pa ls sous bornals i, apuis, fazéren la trilha, la lhimpa ou la malha de l pan.

    Eimaginai la chiadeira que nun faríen algũas dezenas de carros cargados de pan! Parece mesmo qu’inda stou a oubir toda aqueilha música que ls carros fazien a chiar.

    Mas habie uns poucos que fazien la trilha noutros sítios a la buolta de l pobo: tiu Eimílio Quintanilha questumaba fazé-la nas Eiricas, ne l monte cerca de l Areal; tiu Aran i l tiu Jó ne ls sous eirados de la Mediana; tiu Zé Pinim, tiu Joan Mantano, tiu Rabon, tiu Joan Brisdo i tie Sabel Ciega, ls Turiels i tiu Zé Luís Pero, ne ls sous eirados de la Canhada, al cimo de l pobo; outros fazien-la nas lhameiras que tenien na Cabada, mesmo al lhado de la strada; i inda outros na lhameira antre la casa de l tiu Júlio Bolo i la capielha de San Sebastian. Mas la maior parte de ls lhabradores fazien-la nas Eiras Grandes.

    Cumo yá habie máquinas trilhadeiras, yá poucos éran ls que, nesse tiempo, cuntinában a fazer las parbas i las lhimpas culs trilhos puxados por bacas ou jementos.

    Pouco tiempo apuis, quando algũas de las famílias fidalgas d’Angueira i doutros pobos bezinos, an beç de barro, passórun a mandar fazer las paredes de las casas cun cal, ls oubreiros ampeçórun a scabar i a tirar l’arena de l Areal pa la misturar cun cal. Assi, nas maiores anchenas, l’auga de la ribeira, al passar por eilhi, ampeçou a lhebar la arena q’alhá habie.

    Assi, quando la ribeira rumpiu l Areal, ls lhabradores, nun podendo cuntinar a fazer las trilhas eilhi, passórun a fazé-las, cumo la maior parte de la gente, nas Eiras Grandes. Claro que ls moços deixórun tamien de poder cuntinar a jogar la bola ne l Areal, passando, anton, a jogá-la nas Eiras Grandes.

    L termo d’Angueira

    L terreno de l termo de Angueira ten ũa constituiçon mui bariada: piçarra, an cerca de cinco décimos; cantarie, an cerca  dun décimo; pequeinhos afloramientos de barro ne ls Fuolharanços i na Lhagona i de xeixo an Cabeç Alto; i tierra de alubion ne ls balhes i ourrietas por donde cúrren la ribeira i ls ribeiros i son las huortas i la maior parte de ls lhameiros.

    Ambora haba algũas fragas de piedra piçarra (la Fraga de la Puontelhina, la Fraga d’Águila, la Fraga de la Garça i la Fraga de San Biteiro), l númaro de las fragas de cantarie, q’hai an Peinha la Bela, an Bal de Freixo, na Stebica, na Muola, ne ls Quadros, ne l Cunho, ne l Queimado, ne l Chapeiron, an Balhe de l Quadro, nas Palombeiras, na Sculqueira i an Bal Molhado i Trabacinos – ls sítios de l termo a que l pobo chama l’Arena – ye bien maior.

    Debido als montes q’hai an Angueira, nun fáltan tamien balhes i ourrietas por donde cúrren la ribeira i ls ribeiros. Por bias disso, las tierras de las marges son de alubion. Talbeç seia por esta rezon q’hai tantos i tan buonos lhameiros i huortas ne l termo d’Angueira.

    Huortas i lhameiros

    Ne ls balhes i ourrietas por donde cúrren la ribeira d’Angueira i ls ribeiros de Belharino, de la Puontelhina, de ls Milanos, de Fuontecinas, de la Cabanhona, de l Balhe, de Souganho, de ls Chapaçals i de Bal Xardon, que neilha ban a zaugar, las tierras de las marges, que son de alubion, ou ténen huortas ou lhameiros ou ambos a dous.

    Ampeçando a naciente de l termo i seguindo ribeira abaixo, tenemos l Gago, adonde pega cul de Samartino, a seguir l Juncal, Terroso, la Yedra, Ourrieta Caliente, la Senhora, l Tanque, la Cabada, l Múrio, la Çanca, la Salina, la Mediana, la Faceira de l Prado, l Areal, la Faceira, las Uolmedas, las Antraugas, la Faceira de Telhado, la Nalsa i la Ribeira de Baixo – l sítio adonde queda la marra de ls termos d’Angueira, de Çarapicos i de Abelhanoso –, hai huortas i algũas lhameiras nas dues marges de la ribeira. Mas ye an Terroso, ne l Prado, na Mediana  i, subretodo, na Faceira que quédan la maior parte i las melhores deilhas.

    Angueira-abr 2017-Faceira-bista detrás de la fraga de San Biteiro3Angueira - la Faceira, bista de Cabeço la Binha por detrás de la fraga de San Biteiro (retrato tirado an abril de 2017)

    Pa regar las lhatas que quédan antre la Yedra i la Faceira, ne ls anhos sessenta de l seclo passado, l goberno mandou fazer la bala que lhieba l’auga de l’açuda de l molino de Terroso até al fondo de la Faceira i a las Uolmedas. Assi, na primabera i, s’inda houbisse auga, ne l berano, ls duonhos destas huortas aporbeitában l’auga de la bala pa las regar. Mas, quando esta se sumie, nun chegando ou nun sendo yá subreciente pa las regar, ls lhabradores tenien ls poços i la ribeira donde la tirában cul ciguonho ou c’un motor de rega.

    Mas habie tamien buonas huortas an bários outros sítios de l termo: ne l Prado (de ls Chapaçales, passando por San Miguel, até la Ribeira de Baixo), Souganho, Bal de Conde, na Retuorta i na Cabanhona, ne l Balhe, ne l Pilo, ne l Cachon i na Cabada, sítios por donde, até final de primabera, cúrren ls ribeiros antes de zaugáren, uns na marge squierda i outros na dreita de la ribeira.

    Cumo, subretodo ne l Prado, algũas de las nacientes, que manában bien i dában muita auga pa l ribeiro, habie alguns poços de pouca prefundidade pa la retener i que, assi, dában pa regar las huortas pul pie.

    D’eimbierno estas huortas dában subretodo berças, nabiças i nabos; na primabera, lhino i, subretodo, patatas – na Faceira, na Mediana, nas Uolmedas i an Terroso habie cada papatal! –, mas tamien cebolhas, alhos, cenórias, freijones, pumientos, tomatos, melones, balancias, garbanços i chícharos pa las pessonas queméren; rabas i bóbidas pa cebar ls cochinos; ferranha, cebada, milho i trebo pa les botar a las bacas i a las bestas.

    Ne ls balhes i ourrietas de l termo cun beigas mais mimosas, hai tamien muitos lhameiros pa pástio i dar feno pa las bacas i bestas: Ourrieta l Castro, Nalsa i las Barreiras; Fondals, Bal Xardon i Bouça; Milho, Rebulheira, Boca ls Balhes i la Francosa; Rodelhon i Funtecinas; Salgadeiros, Bal de Conde i Puontelhina; Belharino i las Funtaninas; Lhameiras, Ourrieta Morena i ls Pertueses; Bal Molhado i Trabacinos; Sculqueira, Balhe de l Quadro, Palombeiras i la Muola; Sapeira, Spino i Ramalhal; la Cuosta i la Cabada; Chapeiron i la Stebica; Lhatas de l Meio, Cunho i Bal de Freixo; Ourrieta la Fuonte i l Prado.

    A partir de l final de márcio, guardaba-se la maior parte de ls lhameiros de l ganado para la yerba poder medrar. Ne l final de la primabera, segában-la a la gadanha; apuis, birában-la pa la deixar secar i la lhebar ne ls carros de bacas ou de bestas pa ls palheiros i pa, d’eimbierno, la dar a la cria.

    De berano, la yerba de la maior parte de ls lhameiros de l’Arena secaba i solo apuis de las purmeiras chubadas de l’outonho ye que arrebentaba i tornaba outra beç a crecer. Mas, naqueilhes que tenien nacientes i éran regados pulas augueiras de las fuontes ou de ls ribeiros, pa lhá de ls animals la podéren buer, esses mantenien la yerba fresca i mimosa pa las bacas la pastiáren ne l berano.

    An quaije todos ls lhameiros habie freznos que, ne l final de l berano, ls buieiros zgalhában pa las bacas robéren la fuolha. Quaije parece qu’inda stou a oubir las machadadas secas a cortar ls galhos i l barulho de ls trampos a struncar-se de l’arbe i a cair ne l chano… Apuis desta lheinha tener secado bien, lhebában-la pa la ramalhada de casa, pa fazer l lhume ne l eimbierno.

    Todos ls lhameiros i algũas cortinas éran cercados por paredes de piedra suolta, antre ls fincones, pa las bacas, las bestas i ls ganados nun podíren antrar nin salir. Assi, era mais fácel guardá-los i mais seguro ls buieiros eilhi deixáren las bacas solas anquanto se scapátan i stában cula jóldia.

    Angueira - Lhameiros an Bocas ls Balhes (agosto de 2016)

    Las beigas q’habie nas marges de la ribeira i de ls ribeiros stában cubiertas por alguns brimeiros i marmeleiros, muitos amineiros i choupos i uolmos mui altos. Na primabera, ls uolmos, antes de tenéren secado – l q’acunteciu ne l anho de l zastre de Chernobyl – dában la fuolha, que las moças i las ties s’ancargában de ripar nas fróncias de las trapolas pa, cu’eilha, fazer las caldeiradas pa cebar ls cochinos. Apuis daquel zastre i até hoije, algũas uolmeiras fúrun arrebentando, mas todos ls uolmicos acában por secar antes de se tornáren arbles adultas.

    Tierras de secadal

    La maior parte de l termo era de tierras de secadal i de monte, adonde habie algũas binhas i se cultibában cereales, specialmente trigo i centeno: Cabeço la Binha, Boubon, Quecolha, Araúja, Cabeço de Porros, Facho i Quebra Cambas; Chana, Barreiras, Bal Xardon, Bouça i Milho; Catalina, Cortinona, Peinha Ferreira, Cuntorno i Tanque; Boca ls Balhes, Ourrieta Cabada Rigueiro, Rodelhon, Standeiro de Pardos, Cabeço Alto, Marmolina i Cruç Branca; Courisco, Abelheiras, Malhadica, Pereiro i Salgadeiros; Pico, Marra Nuoba, Lhameira de Paiç i Belharino; Cabecina, Carrasqueiras i Ourreticas; Castro, Cierba, Queijeiras i Ourrieta ls Ninos; Carbalhinas, Galharda, Carrascal i Palancares; Cabanhona, Cabeço Molhon, Milanos i Peladas; Lhadron, Ourrieta Morena, Carrasquito i Cabeça Gorda; Chapeiron, Sculqueira, Lhatas de l Meio i Peinha la Bela; Mina, Lhagona, Stebica i Cunho; Temadas, Queimado i Fóias; Fraga, Queiruola, Pandon, Piquete, Chubiteiros i Cundelheira; Gadageda, Adilón i Ourrieta Lhonga; Antre Caminos, Codessal, Colmenals, Silha, Ourrieta Fonda i Sierro de ls Malhadals; San Bartolomeu, Carbalheira, Gralheira, Soalheira, Absedos i Fraguita.

    Anho si, anho nó, las tierras de cereal stában d’arada ou de fuolha. Pa las de arada i las que quedában de adil ou stában de monte, ls pastores podien lhebar ls ganados a pastiar. Mas, se stában de fuolha, solo apuis de l acarreio, ye que les podien pa lhá lhebar.

    Cumo, nesse tiempo, habie muitos lhobos ne l termo, ls pastores, pa, ne l berano, podéren deixar ls sous ganados amurrados ne l steio i stáren mais çcansados anquanto fazien ls sous trabalhos na lhaboura, tenien perros que les ajudában a guardar las canhonas.

    Nas tierras de secadal, nacien i crecien naturalmente carbalhos i carrascos, arbles de que, cumo de ls freznos, s’aporbeitaba la lheinha pa l lhume i fazer de quemer. Na corona de ls cabeços, habie muito monte: chougarços, tomielhos, codescos, scobas, xaras, carqueijas i urzes, buonos pa las cabras i las canhonas robéren, i de que ls carboneiros aporbeitában ls tuoros i raízes pa fazer brasas pa las braseiras i l carbon para bender als ferreiros pa la fogueira de las forjas. La rama de las scobas ide ls codescos daba tamien pa fazer ls bardeiros de barrer las casas i las eiras i, cumo las xaras, las carqueijas i ls chougarços, dában inda p’acender l lhume i calecer l forno de cozer l pan. I que buono que era esse pan!…

    Era ne l monte que se scundien lhobos, raposas i ls bichos de caça: cuneilhos, lhiebres, rolas, palombas brabas, perdizes, paçpalhaços…

    Fazer la quemida, tratar de la casa i lhabar la roupa, cuidar de las pitas i de ls cochinos stában a cargo de las moças i de las ties. Era na ribeira, ne ls Puntones ou na Salina, na Çança, na Cabada i na Senhora que tenien ls lhabadeiros, adonde la maior parte deilhas íban da peto alhá a lhabar la roupa. Mas algũas deilhas perferien ir a lhabá-la mais pertico de casa, an quatro sítios de l ribeiro de l Balhe: cerca de l carreiron l cimo de la cortina de ls prietos, al fondo de Caleija de l Balhe, antre la fuonte i l tanque de l Pilo i ne l Cachon, yá bien pertico de la ribeira.

    Ls debertimientos

    Ne l berano, ls moços i tamien ls garoticos gustában bien de, a la tarde ou a la nuite, ir dar un margulho ne l poço de ls Puntones i ne l de la Cabada. Yá las moças, qu’éran mais ambergonhadas, solo a la nuitica ye que s’astrebien i questumában ir a nadar. Para nun dáren nas bistas, íban a un sítio bien más recatado: l poço de l Canhiço na Çuda de las Almas. Solo las más astrebidas ye que tenerien curaige subreciente pa, de die, íren a chafurgar na ribeira. Ye que siempre podie star por eilhi algun lhapantin, un moço mais zabergonhado, scundido antre ls amineiros, pronto a spreitá-las!

    Ne ls cachicos de tiempo lhibres, ls moços gustában tamien de jogar a la bola. Mas, subretodo antre l’outonho i la primabera, pa lhá de la Machorra, de la Pandorcada i de l’Antruido, la mocidade tenie inda outros antretenimentos i maneiras de se debertir: jogar a la barra, atirando l fierro, ũa reilha ou ũa piedra, a la cunca, a la reiola, al cántaro i al anel i inda a las cartas (subretodo al chincalhón i a la sueca); ancarochar-se, fazer de bui brabo i casar ls solteiros i ls biúdos, pul Antruido; ir a las feiras de l Naso, Caçareilhos, Bumioso, Malhadas i até a la de ls Grazes an Mogadouro. Ne l berano, nun perdien tamien la troula de qualquiera fiesta q’houbisse ne ls outros pobos bezinos pa beilar, nin mesmo la Tourada, an Alcanhiças. Pa lhá destas brincadeiras, de ls namoricos i de todos ls deimingos fazer un beilarico, a las bezes, subretodo ne l berano, gustában bien de armar algũas perrices uns als outros.

    Bocabulairo – vocabulário

    Adil – pousio \\ afloramiento – afloramento \\ alhagar – alagar \\ alhá – lá \\ al redor – em/à volta \\ amurrar – o gado ovino ficar em estado letárgico devido ao calor de verão \\ ampeçar – começar \\ ampercípio – princípio \\ ancargar – encarregar \\ ancarochar-se – mascarar-se \\ anchena – cheia \\ andenheirado – endinheirado \\ anton – então \\ antretenimento – distração \\ antruido – carnaval \\ anzonice – enzonice \\ aporbeitar – aproveitar \\ apuis – após, depois \\ arble – árvore \\ arrebentar – rebentar \\ arriba – acima \\ aton – então \\ bardeiro – vassoura de giesta ou de codesso própria para varrer a casa ou a eira \\ beilar – dançar \\ berano – verão \\ berças – couves \\ bezino – vizinho \\ biúdo – viúvo \\ buer – beber \\ bordica – beirinha, margem \\ brimeiro – vimeiro \\ cachico – bocadito, pouco tempo \\ calecer – aquecer \\ caliendra – canal da água entre o açúde e o moinho \\ canhono – cordeiro \\ cantarie – pedra de granito \\ capielha – capela \\ carboneiro – carvoeiro \\ çcansar – descansar \\ cebar – engordar \\ ciguonho – picota \\ chafurgar – mergulhar \\ chano – chão \\ chougarço – planta rasteira \\ cochino – porco \\ codesco – arbusto  lenhoso de que se fazem vassouras para varrer a eira \\ cu’el/eilhas – com ele/elas \\ cunca – jogo do fito \\ curaige – coragem // da peto – de propósito \\ debertimento/ir – divertimento/divertir \\ debedir – dividir \\ eimbierno inverno \\ deimingo – domingo \\ duonho – dono \\ dreita – direita \\ eilhi – ali \\ eimaginar – imaginar \\ ende – aí \\ frezno – freixo \\ fróncia – ramo novo e fino de uma árvore \\  fuonte – fonte \\ huorta – horta \\ inda – ainda \\ joldia – companhia, joldra \\ lhabar – lavar \\ lhameiro – lameiro, prado \\ lhapantim – moço matreiro \\ lhata – terreno bom para horta \\ lhebar – levar \\ lheinha – lenha \\ lhembráncia – lembrança \\ lhembrar – lembrar \\ lhimpa – separação do grão e da palha na eira \\ lhino – linho \\ lhobo – lobo \\ lhume – lume \\ machorra – festa noturna ou ritual de passagem dos rapazes a adultos \\ márcio – março \\ marge – margem \\ medrar – crescer \\ nuobamente – novamente \\ ourrieta – vale pouco profundo e de terra fértil \\ outonho – outono \\ paçpalhaç – codorniz \\ pa lhá – para além \\ palomba – pomba \\ pandorcada – ronda dos moços nas noites do início do inverno pelas ruas da aldeia a tocar caixa, bombo, chocalhos, caldeiros e até gadanhas \\ parba – estendal do cereal trilhado na eira \\ perdiç – perdiz \\ perrice – marotice \\ perro – cão \\ piçarra – xisto \\ pita – galinha \\ pumiento – pimento \\ puntones – poldras \\ puonte – ponte \\ quedar – ficar \\ quemida – comida \\ raba – beterraba \\ reiola – jogo de pontuação entre dois lançadores de uma moeda ou pedra para uma raia e a do que ficar mais perto desta pontua \\ rober – roer \\ scabar – cavar \\ scapar – escapar, fugir \\ scoba – giesta \\ scundir – esconder \\ secadal – sequeiro \\ segar – ceifar \\ squierda – esquerda \\ struncar – ceifar \\ subreciente – suficiente \\ suolo – solo \\ trapola – galho do ulmo cortado a cerca de meio metro do caule a fim de poder dar novos rebentos de onde rapar a folha para o porco \\ trilha – corte da palha do cereal e esmagamento da espiga do cereal na eira \\ troula – arraial \\ uolmo – olmo \\ xara – esteva \\ yerba – erva \\ you – eu \\ zaugar – desaguar \\ zgalhar – cortar galhos da árvore.

    Para saber o significado de outras palavras, sugiro a consulta do sítio http://www.mirandadodouro.com/dicionario/

    A quem queira visualizar algumas fotos aéreas de Angueira, sugiro a consulta do blogue http://portugalfotografiaaerea.blogspot.pt/2017/01/angueira.html

    Caso queira saber a localização de alguns sítios do termo de Angueira, carregue no “link”: www.openstreetmap.org/searchquery=Angueira%2C%20vimioso%2C%20portugal#map=12/

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